{"id":3427,"date":"2021-12-22T16:38:47","date_gmt":"2021-12-22T19:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3427"},"modified":"2021-12-22T16:38:47","modified_gmt":"2021-12-22T19:38:47","slug":"circulacoes-do-amor-nas-escolhas-sexuais-binarias-e-nao-binarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/circulacoes-do-amor-nas-escolhas-sexuais-binarias-e-nao-binarias\/","title":{"rendered":"Circula\u00e7\u00f5es do amor nas escolhas sexuais bin\u00e1rias e n\u00e3o bin\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<h6>Por Gustavo Ramos da Silva<\/h6>\n<figure id=\"attachment_3428\" aria-describedby=\"caption-attachment-3428\" style=\"width: 252px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3428 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/mdu002_004-252x300.png\" alt=\"Gagosian \u2013 Henry Moore\" width=\"252\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3428\" class=\"wp-caption-text\">Gagosian \u2013 Henry Moore<\/figcaption><\/figure>\n<p>Antes de tudo eu quero agradecer o convite de Teresa Pavone, e meus colegas aqui hoje, Diego e Licene, e Ondina. Vou falar um pouquinho do GT que participei para o X Enapol. O tema foi: &#8220;circula\u00e7\u00f5es do amor nas escolhas sexuais bin\u00e1rias e n\u00e3o bin\u00e1rias&#8221;. N\u00e3o vou fazer um resumo do nosso relat\u00f3rio final, pois isso voc\u00eas poder\u00e3o ver no dia espec\u00edfico das conversa\u00e7\u00f5es, e aqui j\u00e1 fica o convite para todos voc\u00eas participarem conosco. Em conversa com Teresa combinamos que minha fala seria sobre o que das discuss\u00f5es ficou para mim. Ent\u00e3o vamos a esse percurso. Tomados pelo que Miller nomeou de &#8220;Ano trans&#8221;, nossas discuss\u00f5es iniciais ficaram em cima dessa toada, at\u00e9 que nos demos conta de uma coisa: falar de bin\u00e1rio e n\u00e3o bin\u00e1rio \u00e9 falar especificamente da quest\u00e3o trans? Para mim esse foi um giro muito especial e importante para o desenrolar do GT, pois me fez retomar as primeiras li\u00e7\u00f5es do Semin\u00e1rio 20 e a leitura feita por Daniel Roy.<\/p>\n<p>Lacan vai nos dizer que a linguagem n\u00e3o \u00e9 o ser falante. A linguagem enquanto c\u00f3digo, no seu valor de uso e de utens\u00edlio. E o ser falante enquanto gozo. Ao promover uma certa aproxima\u00e7\u00e3o entre linguagem e ser falante, se promovermos um encontro entre linguagem e ser falante haver\u00e1 uma intersec\u00e7\u00e3o vazia (mostrar o esquema). Assim, n\u00e3o haveria um &#8220;igual&#8221; entre os dois.<\/p>\n<p>Podemos retomar ainda o utilitarismo de algu\u00e9m como Jeremy Bentham o qual prop\u00f5e a fic\u00e7\u00e3o como uma utilidade, um utens\u00edlio, entrando tamb\u00e9m no c\u00edrculo da linguagem. Assim, a linguagem vem organizar o que denominamos de gozo f\u00e1lico, mas ela n\u00e3o consegue recobrir todo o gozo, h\u00e1 uma parte que ela n\u00e3o consegue, est\u00e1 para al\u00e9m de seus limites digamos assim. Esse al\u00e9m n\u00f3s podemos chamar de gozo do Um, o gozo n\u00e3o organizado pela linguagem, mas que deixa uma marca. Lacan vai se utilizar do direito para ler essa quest\u00e3o no Semin\u00e1rio 20 ao falar do usufruto: a linguagem vai tentar cernir o gozo de uma maneira que o usufruto seja poss\u00edvel sem enxovalh\u00e1-lo. A fic\u00e7\u00e3o est\u00e1 do lado da linguagem e do utens\u00edlio; o gozo, por sua vez, n\u00e3o &#8220;serve&#8221; para nada, ent\u00e3o como abordar esse gozo, sem serventia, e sem mais o acesso a uma fic\u00e7\u00e3o, especialmente a essa parte do gozo n\u00e3o contabilizada pela linguagem? A\u00ed se localiza a intersec\u00e7\u00e3o vazia, por\u00e9m esse vazio como bem lemos no \u00faltimo livro de Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse \u00e9 cheio de energia, est\u00e1 pulsando de energia criativa.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Sobre essa quest\u00e3o, Ant\u00f4nio Teixeira em um longo artigo vai pontuar sobre o gesto classificat\u00f3rio se basear em juntar v\u00e1rios elementos numa classe sobre a base de uma propriedade definida &#8220;x \u00e9 P&#8221; desde que se construa, exteriormente a ela, a classe sem tal propriedade como limite: &#8220;y n\u00e3o \u00e9 P&#8221;, ou seja: quando n\u00e3o h\u00e1 pelo menos duas classes excludentes, a no\u00e7\u00e3o mesma de classe perde sua consist\u00eancia<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a quando os elementos das classes s\u00e3o sujeitos, pois isso significa que n\u00e3o haver\u00e1 nenhuma propriedade represent\u00e1vel, e \u00e9 nesse \u00ednterim que, para Teixeira, a psican\u00e1lise surge &#8220;enquanto resposta ao mal-estar gerado pela dificuldade que experimenta o sujeito em se adequar \u00e0 unidade da classe em que ele se nomeia. H\u00e1 sempre algum resto de exig\u00eancia pulsional que resiste a ser integrado na unidade da representa\u00e7\u00e3o, manifestando a cis\u00e3o inerente \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o subjetiva nas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, como se v\u00ea na irrup\u00e7\u00e3o dos sintomas, dos chistes e dos atos falhos.&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Como juntar dois elementos &#8211; ling. e ser falante &#8211; que n\u00e3o tem nada em comum? Onde o &#8220;comum&#8221; \u00e9 o vazio? N\u00e3o seria esse vazio representacional o que tocaria na quest\u00e3o candente hoje no social da prolifera\u00e7\u00e3o de siglas LGBTQIA+? Com isso, haveria uma classe dos analistas? Segundo Teixeira &#8220;o processo anal\u00edtico consiste no decl\u00ednio das identifica\u00e7\u00f5es, ou seja, na destitui\u00e7\u00e3o de todo predicado pelo qual se designa o pertencimento do indiv\u00edduo a uma classe, o sujeito que dessa experi\u00eancia resulta se define pela impossibilidade mesma de ser inclu\u00eddo em qualquer representa\u00e7\u00e3o.&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> N\u00e3o estaria a\u00ed o impasse de Paul Preciado com a psican\u00e1lise? N\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o nem possibilidade de ser inclu\u00eddo em qualquer representa\u00e7\u00e3o, pois quando os elementos do conjunto s\u00e3o sujeitos, como vimos, isso n\u00e3o ocorre, na medida em que a intersec\u00e7\u00e3o entre a linguagem que poderia nomear tudo e o gozo que n\u00e3o serve para nada \u00e9 vazia e sem representa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. No recente livro de \u00c9ric Marty, <em>O sexo dos modernos<\/em>, podemos ler uma an\u00e1lise minuciosa dessa passagem quando diz que as tentativas contempor\u00e2neas de nomear esse gozo, de tentar dar um significante, produz-se, pelo contr\u00e1rio, um significante-mestre &#8211; o que as siglas tentam \u00e9 nomear um outro gozo, aquele que n\u00e3o passaria pela norma f\u00e1lica, mas, com isso, instauram ao mesmo tempo um significante-mestre que vem com muita for\u00e7a no social, mas que tamb\u00e9m aparece na cl\u00ednica. Isso foi bem explorado em nosso relat\u00f3rio por uma vinheta cl\u00ednica sobre como esse significante-mestre foi manejado pelo analista. O neutro, em contrapartida, seria um fora da s\u00e9rie, fora do simb\u00f3lico, seguindo os estudos de Roland Barthes, culminando, talvez, no real lacaniano?<\/p>\n<p>Como abordar esse real fazendo uso da linguagem? Esse \u00e9 o desafio, pois talvez a fic\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica n\u00e3o seja uma boa sa\u00edda, mas aquilo que Lacan escreveu como uma outra fix\u00e3o do real. Sob esse prisma, \u00e9 preciso um <em>d\u00e9tour<\/em>, um desvio, uma rasura, como vemos na li\u00e7\u00e3o de <em>Lituraterra<\/em> quando Lacan vai na etimologia de &#8220;lino, linis, leui&#8221; e l\u00e1 pelas tantas encontramos uma origem significante de &#8220;versar, espalhar um produto gorduroso, viscoso e, assim, permanecer fixado, inativo&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Logo depois, no mesmo verbete do dicion\u00e1rio de Ernout et Meillet, chegamos em Hes\u00edodo, onde ele prop\u00f5e um &#8220;je me d\u00e9tourne et je reste inactif&#8221;<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Desse desvio inativo, ou vazio, pode surgir algo, uma inven\u00e7\u00e3o, como no poema &#8220;A uma raz\u00e3o&#8221;, de Rimbaud, na tradu\u00e7\u00e3o de Ivo Barroso:<\/p>\n<blockquote><p>Um toque de teu dedo no tambor liberta todos os sons e come\u00e7a a nova harmonia<br \/>\nUm passo teu \u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o dos novos homens e sua ordem de marchar<br \/>\nSe viras o rosto: o novo amor! Se desviras o rosto,\u00a0 &#8211; o novo amor!<br \/>\n&#8220;Quebra os nossos elos, acaba com os flagelos, a come\u00e7ar com o tempo&#8221;, cantam nas dan\u00e7as as crian\u00e7as.<br \/>\n&#8220;Ergue, n\u00e3o importa onde, a subst\u00e2ncia de nossos destinos e desejos&#8221;, te suplicam.<br \/>\nDo sempre chegada, ir\u00e1s por toda estrada.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Gostaria, para terminar, de me centrar no verso &#8220;se viras o rosto: o novo amor&#8221;, pois no franc\u00eas n\u00f3s lemos &#8220;ta t\u00eate se <em>d\u00e9tourne [&#8230;] ta t\u00eate se retourne<\/em>&#8220;<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, h\u00e1 um des-virar inicial, n\u00e3o entrando mais numa leitura de um amor novo, <em>up to date<\/em>, nem numa repeti\u00e7\u00e3o do mesmo, \u00e0 maneira edipiana, f\u00e1lica, mas sim numa leitura a partir da e com a intersec\u00e7\u00e3o vazia: o novo <em>no<\/em> amor. N\u00e3o estaria a\u00ed, nessa intersec\u00e7\u00e3o, o amor?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> BROUSSE, Marie-H\u00e9l\u00e8ne. <em>Modo de gozar en feminino<\/em>. Trad. de Cinthya Estrada-Plan\u00e7on. Olivos: Grama Ediciones; Paris: Navarin Editores, 2021. p. 20.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> TEIXEIRA, Ant\u00f4nio M. R. Do bom uso da besteira na experi\u00eancia psicanal\u00edtica. In: <em>\u00c1gora<\/em>, n\u00fam. 2, jul\/dez 2002. p. 274.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Ibid, p. 276.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibid, p. 277.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> ERNOUT, A.; MEILLET, A. <em>Dictionnaire \u00e9tymologique de la langue latine<\/em>: histoire des mots. Nouvelle \u00e9dition revue, corrig\u00e9e et augment\u00e9e d&#8217;un index. Paris: Librairie C. Klincksieck, 1939. p. 553-554.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Ibid, p. 554.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> RIMBAUD, Arthur. A uma raz\u00e3o. In: <em>Prosa po\u00e9tica<\/em>. 2. ed. revista. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007. p. 229.<br \/>\n<a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Ibid, p. 228.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gustavo Ramos da Silva Antes de tudo eu quero agradecer o convite de Teresa Pavone, e meus colegas aqui hoje, Diego e Licene, e Ondina. Vou falar um pouquinho do GT que participei para o X Enapol. O tema foi: &#8220;circula\u00e7\u00f5es do amor nas escolhas sexuais bin\u00e1rias e n\u00e3o bin\u00e1rias&#8221;. 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