{"id":3424,"date":"2021-11-01T19:26:37","date_gmt":"2021-11-01T22:26:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3424"},"modified":"2021-11-01T19:26:37","modified_gmt":"2021-11-01T22:26:37","slug":"mais-um-como-provocador-provocado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/mais-um-como-provocador-provocado\/","title":{"rendered":"Mais-um, como Provocador provocado"},"content":{"rendered":"<h6>Nohem\u00ed Brown<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-3422\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/NOITE-DE-CARTEIS-setembro-21-cartaz.png\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" \/>Agrade\u00e7o a Oscar Reymundo e \u00e0 equipe da Diretoria de Cart\u00e9is e Interc\u00e2mbio o convite. E o prazer de estar com Ros\u00e1rio do R\u00eago Barros, com quem, al\u00e9m de v\u00e1rios trabalhos, estamos em um cartel. Vou trazer algumas notas outras destacadas de um texto no qual me debrucei sobre a quest\u00e3o do Mais-um, a partir do convite que me foi feito.<\/p>\n<p>O sintagma <em>provocador provocado<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u00e9 uma proposta de Jacques-Alain Miller. O interessante \u00e9 que esse sintagma est\u00e1 em resson\u00e2ncia com outro termo: o de <em>provocar a elabora\u00e7\u00e3o<\/em> em refer\u00eancia justamente com a fun\u00e7\u00e3o do Mais-um. Ent\u00e3o, a elabora\u00e7\u00e3o provocada est\u00e1 em articula\u00e7\u00e3o com provocador provocado. Podemos dizer que um faz ecoar o outro.<\/p>\n<p>Com a ideia de elabora\u00e7\u00e3o provocada e de provocador provocado podemos situar o valor pr\u00f3prio do trabalho em cartel. Por isso, gostei do convite de Oscar para estar aqui, para pensar o Mais-um a partir desses elementos.<\/p>\n<p>De certa forma, no centro de cada um est\u00e1 o ato da provoca\u00e7\u00e3o. Algo precisa ser provocado. Isso nos remete a algo que n\u00e3o se d\u00e1 de forma natural, mas, ao contr\u00e1rio: para que um dizer ou uma certa rela\u00e7\u00e3o com o saber possa ser vi\u00e1vel, \u00e9 preciso que algu\u00e9m saiba provocar. H\u00e1 a tend\u00eancia \u00e0 pregui\u00e7a, ao n\u00e3o querer saber disso. Por esse motivo, o trabalho sempre precisa ser suscitado. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio o apelo de provocadores \u201cpara chamar o que \u00e9 latente e que, no chamado, o revela e cria\u201d. Da\u00ed que a elabora\u00e7\u00e3o precise ser \u201cprovocada\u201d e o Mais-um tenha que saber fazer com isso, provocar, inventar, desde sua singularidade at\u00e9 um certo \u201cdespertar\u201d. Quando se identifica ao lugar do saber, quando se tampona esse vazio candente, amortece-se o desejo e todos dormem.<\/p>\n<p>Em certo momento, situei que esse termo provocar uma elabora\u00e7\u00e3o permite esclarecer o que se espera de um cartel, isto \u00e9, justamente uma <em>elabora\u00e7\u00e3o provocada<\/em>. N\u00e3o \u00e9 uma grande disserta\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Elabora\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 uma palavra que tem a mesma raiz que <em>labora\u00e7\u00e3o<\/em>, de prepara\u00e7\u00e3o esmerada, imensa, segundo o <em>Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio<\/em>. Mas tamb\u00e9m de \u201ctrabalho do esp\u00edrito que conduz a uma ideia, a um conceito\u201d. A \u00eanfase n\u00e3o precisa estar no imenso, mas talvez na segunda conota\u00e7\u00e3o. N\u00e3o quer dizer que o trabalho em um cartel n\u00e3o possa ser imenso, mas seu valor n\u00e3o radica nisso. N\u00e3o \u00e9 a l\u00f3gica de que quanto mais se trabalhe, quanto mais se labore, mais se sabe. Por isso, o outro ponto parece bem mais interessante: um trabalho do esp\u00edrito que conduz a uma ideia, um conceito. Pode ser intenso, imenso, pontual. Por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 na quantidade, mas naquilo que se extrai, que se pode dizer, que cada um pode saber. Um trabalho que n\u00e3o deixa de ter sua pitada de desejo.<\/p>\n<p>Se pensamos elabora\u00e7\u00e3o como algo que n\u00e3o est\u00e1 na cita\u00e7\u00e3o, na refer\u00eancia, mas que se desprende em uma enuncia\u00e7\u00e3o singular, isto n\u00e3o se faz naturalmente. Implica certo esfor\u00e7o para situar o que se quer dizer em determinada frase ou proposta quando nos aproximamos dos textos de Freud, Lacan e outros. Mas para isso \u00e9 necess\u00e1rio que se possa fazer disso que n\u00e3o se entende, que n\u00e3o parece t\u00e3o claro, um tra\u00e7o que nos interrogue.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a elabora\u00e7\u00e3o implica certo for\u00e7amento a um dizer melhor e, neste ponto, pode produzir efeitos para aquele que a formula. H\u00e1 algo de uma lucidez do la\u00e7o, como Rodrigo Lyra situou o cartel, mas tamb\u00e9m podemos estender a uma luz quando, a partir disso que est\u00e1 opaco, incerto, confuso, se coloca a trabalho. Podemos dizer que um trabalho de cartel est\u00e1 feito por esses momentos que, de certa maneira, s\u00e3o provocados, inclusive apesar da intencionalidade do outro. Isto \u00e9 interessante, pois a transfer\u00eancia de trabalho quando est\u00e1 em jogo se faz presente, por exemplo, quando se leva uma leitura ou uma elabora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o produz rea\u00e7\u00e3o nos participantes do cartel, ao contr\u00e1rio, um sil\u00eancio. Isso pode levar ao esfor\u00e7o por reformular. Afinal de contas, se levamos a s\u00e9rio Lacan, trata-se de poder sustentar uma elabora\u00e7\u00e3o ali no pequeno grupo e depois pode ter um outro destino, como seria a Jornada de Cart\u00e9is, por exemplo.<\/p>\n<p>Mas provocar o qu\u00ea? Poder\u00edamos responder de in\u00edcio: localizar certo limite no saber. No texto \u201cCinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada\u201d, Miller localiza os quatro discursos como modos de provoca\u00e7\u00e3o. Mas, h\u00e1 que ver o que provocam! Podemos dizer, n\u00e3o se trata s\u00f3 de provocar, pois pode-se provocar v\u00e1rias coisas: inibi\u00e7\u00e3o, impot\u00eancia, se fazer de bobos etc.<\/p>\n<p>Neste ponto, vale a pena situarmos: qual a diferen\u00e7a entre um <em>provocador<\/em> e um <em>provocador provocado<\/em>? Se seguimos a pr\u00f3pria formula\u00e7\u00e3o de Miller, ele situa a posi\u00e7\u00e3o no discurso universit\u00e1rio, em que a elabora\u00e7\u00e3o fica revogada ou adiada. O efeito disto seria o de produzir provocadores. Tamb\u00e9m fica o lugar da hist\u00e9rica como o sujeito provocador por excel\u00eancia. Provoca o outro a produzir um saber. O que me parece esclarecedor \u00e9 que a fun\u00e7\u00e3o do discurso anal\u00edtico desloca o lugar de sujeito provocador a um provocador provocado. Posso dizer a um lugar de sujeito provocador que consente com sua divis\u00e3o e se faz respons\u00e1vel do que est\u00e1 em jogo na provoca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Miller extrai que a posi\u00e7\u00e3o que mais conv\u00e9m \u00e9 a da histeria, que implica um certo lugar de provoca\u00e7\u00e3o, de provocar o outro a dizer, responder. Mas a tors\u00e3o que Miller d\u00e1 \u00e9 que n\u00e3o fique nesse lugar de provocador, mas no lugar de provocador provocado, isto \u00e9, que n\u00e3o vise um outro que lhe responda, mas que tome para si a divis\u00e3o. Que ele provoque de onde a quest\u00e3o lhe inquieta, n\u00e3o a compreende, o questiona.<\/p>\n<p>Cabe destacar que Miller parece, em certo n\u00edvel, propor o <em>provocador provocado<\/em> referido aos cartelizantes. O provocador-provocado seria a posi\u00e7\u00e3o do cartelizante por excel\u00eancia. E do lado do Mais-um coloca a fun\u00e7\u00e3o de provocar a elabora\u00e7\u00e3o. Contudo, sabemos que o la\u00e7o do Mais-um no cartel \u00e9 mais interessante que essa dicotomia, pois o Mais-um tem essa fun\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 cartelizante. Inclusive, destaco uma coloca\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Miller: \u201c\u00e9 desej\u00e1vel que o Mais um n\u00e3o se esgote como Mais-um\u201d, posso acrescentar que ele tome seu lugar de cartelizante. Ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de incitar, provocar de fora. Ele mesmo est\u00e1 dentro do cartel, ele n\u00e3o \u00e9 um professor que ensina ou estimula, s\u00f3 consegue provocar algo da ordem do trabalho de elabora\u00e7\u00e3o, porque ele est\u00e1 em um la\u00e7o com o cartel e, ao mesmo tempo, como um a mais que descompleta o grupo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um \u201cpergunt\u00e3o\u201d, um senhor que faz os outros trabalharem. \u00c9 a arte de poder extrair um ponto de onde o que est\u00e1 sendo trabalhado, dito, lido, possa lhe interrogar e abra para um certo ponto de inc\u00f4modo, mas que convoca ao trabalho de extrair uma elabora\u00e7\u00e3o. Algo que o coloca a trabalho e que pode talvez ressoar em algu\u00e9m e abrir uma via do querer saber sobre isso.<\/p>\n<p>Tem um termo de Miller de que gosto muito: fazer \u201cburacos nas cabe\u00e7as\u201d, mas posso acrescentar: porque algo faz furo para ele tamb\u00e9m. Miller conclui: \u201cIsto sup\u00f5e que o Mais-Um se recuse a ser um senhor que fa\u00e7a o outro trabalhar, ser aquele que sabe ser analista no cartel; tudo isso para ser um agente provocador a partir de onde h\u00e1 ensino\u201d. Nem senhor nem analista, mas um saber extrair uma provoca\u00e7\u00e3o dali onde h\u00e1 ensino.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Mais-um fica como um <em>provocador provocado<\/em>. Entendo isso como algu\u00e9m que n\u00e3o s\u00f3 convoca a elabora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m est\u00e1 fisgado pelo tema, pela quest\u00e3o, se sente convocado.<\/p>\n<p>Embora seja certo que Lacan indica que n\u00e3o deve ser qualquer um, isto \u00e9, que tem certo efeito agalm\u00e1tico. N\u00e3o \u00e9 o lugar que o Mais-um deveria sustentar no cartel. Ele est\u00e1 tamb\u00e9m a trabalho, como Mais-um, mas principalmente como qualquer outro membro do cartel com rela\u00e7\u00e3o a suas pr\u00f3prias perguntas, incitando o saber no cartel, mas em posi\u00e7\u00e3o analisante, e falando a partir de Freud e Lacan. Dar ent\u00e3o lugar ao objeto no cartel exige que o Mais-um n\u00e3o se aproprie do efeito de atra\u00e7\u00e3o, mas que o refira a outro lugar \u2013 entre n\u00f3s, a Freud, Lacan&#8230;<\/p>\n<p>O Mais-um extrai o ponto de fuga, o ponto opaco que toma para si, e desde ali pode produzir um enxame e a possiblidade de um \u201cmais-de-saber\u201d. Um enxame onde <em>se <\/em>\u00e9 abelha e n\u00e3o rainha, seguindo a met\u00e1fora de Miller.<\/p>\n<p>Neste ponto retomo dois aspectos trazidos por Bernardino Horne no s\u00e1bado, em uma mesa na Jornada de Cart\u00e9is na EBP-BA. Foram comentados os textos de Bernardino Horne, Iordan Gurgel e Marcelo Veras, inclu\u00eddos no livro <em>O cartel, novas leituras<\/em>: um comentou o texto do outro e fez ressoar o que a cada um lhe tocou das elabora\u00e7\u00f5es do outro. Uma proposta interessante! Mas houve duas pontua\u00e7\u00f5es de Bernardino que me pareceram especialmente elucidativas ou pelo menos as escutei de outra maneira com rela\u00e7\u00e3o a este tema: uma, sobre a pol\u00edtica do cartel; outra, sobre o desejo do analista. Ele disse de forma muito simples, mas que me parece muito importante, que a pol\u00edtica fundamental do cartel \u00e9: \u201cTu podes saber\u201d. \u00c9 interessante, pois n\u00e3o s\u00f3 indica o que orienta um cartel, mas tamb\u00e9m como \u00e9 dif\u00edcil a quest\u00e3o de se autorizar com rela\u00e7\u00e3o ao saber enquanto uma enuncia\u00e7\u00e3o que se pode extrair, provocar.<\/p>\n<p>\u201cTu podes saber\u201d implica autorizar-se a um saber que vai al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o. Que vai atrelado a uma elabora\u00e7\u00e3o. E ali nos d\u00e1 a ideia de elabora\u00e7\u00e3o associada a um trabalho n\u00e3o como algo que se procura, mas que se apresenta como achado ao longo da labora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m gostei do acr\u00e9scimo que Iordan fez: \u201ctu podes saber, n\u00e3o sem os outros\u201d. Essa dimens\u00e3o do que os outros no cartel, tamb\u00e9m provocados pelas suas quest\u00f5es, fazem ressoar implica que esse lugar de provocador provocado n\u00e3o est\u00e1 na intencionalidade, mas tamb\u00e9m nos diferentes cartelizantes de diferentes maneiras e de diferentes estilos. Mas, por que situar o Mais-um como provocador provocado? Porque ele est\u00e1 advertido dessa posi\u00e7\u00e3o de certa maneira. Ele \u00e9 parte do cartel e visa que ele funcione nessa l\u00f3gica. Uma certa posi\u00e7\u00e3o, identifica\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica, horizontal, que produz saber. Esta \u00e9 a outra pontua\u00e7\u00e3o de Bernardino \u2013 a identifica\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica, do analisante enquanto quem produz saber \u2013, mas tamb\u00e9m algo da ordem do discurso anal\u00edtico, do desejo do analista em jogo, como Lacan ensina em \u201cA dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder\u201d \u2013 o desejo do analista abdica do controle, abdica radicalmente do poder. O desejo do analista \u00e9, na an\u00e1lise, o extremo oposto \u00e0 vontade de poder. E o cartel pretende esse lugar oposto ao poder na estrutura\u00e7\u00e3o do cartel. Faz buracos nas cabe\u00e7as e abdica de se fazer de tapa-buraco.<\/p>\n<p>Essa leitura do cartel \u00e9 interessante porque introduz uma forma de pensar <em>saber<\/em> e <em>poder<\/em> no cartel. Nesse sentido, o cartel \u00e9 dessegregativo: o poder que est\u00e1 em jogo \u00e9 o de \u201cpodes saber\u201d. Isso \u00e9 f\u00e1cil? De jeito nenhum, \u00e9 um desafio constante, uma aposta colocada sobre a mesa o tempo todo. Por isso, aposta-se no cartel e n\u00e3o porque saibamos como funciona, quer dizer, que vai funcionar assim, h\u00e1 o real em jogo. N\u00e3o h\u00e1 um saber acumulado com rela\u00e7\u00e3o ao cartel.<\/p>\n<p>Recentemente, participei de um cartel proposto com o fim de produzir um texto; apenas o Mais-um n\u00e3o produziria texto. Eu conhecia duas colegas; outro colega s\u00f3 de nome, pelos seus textos; o quarto, eu n\u00e3o tinha nem ideia de quem fosse. Portanto, n\u00e3o fomos n\u00f3s que nos escolhemos. Nem escolhemos o tema, nem o Mais-um. Opa! Alerta! N\u00e3o \u00e9 a forma como classicamente se constitui um cartel. Mas, por outro lado, consentimos com a proposta que nos foi feita: a de trabalhar em cartel determinado tema. Houve, sim, a aposta de cada um de produzir um texto que pudesse ser sustentado no interior desse pequeno grupo, uma elabora\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia foi muito interessante, pois apesar de o Mais-um n\u00e3o produzir um texto, a particularidade com que lhe tocava o que era dito, elaborado, foi muito importante para abrir um debate, perturbar suficientemente algumas \u201ccertezas\u201d e produzir um texto que, mesmo que em nome pr\u00f3prio, leva a marca do n\u00e3o sem os outros. Como cartelizantes n\u00e3o sem certa inquieta\u00e7\u00e3o, algo se descompletava, se faziam pondera\u00e7\u00f5es, perguntas, precis\u00f5es, questionamentos. Foram poucas reuni\u00f5es, espa\u00e7adas no tempo, entre a alegria do que se conseguiu transmitir e a perturba\u00e7\u00e3o do que foi mal dito, mal escutado.<\/p>\n<p>Enfim, achei interessante trazer esta experi\u00eancia de cartel, porque \u00e9 dif\u00edcil conseguir, por mais que o Mais-um tivesse querido, facilmente poderia deslizar para um grupo de trabalho de outra ordem. No final das contas t\u00ednhamos uma tarefa a cumprir. E como diz Bernardino, \u00e9 todo um desafio n\u00e3o recuar diante das amea\u00e7as e sedu\u00e7\u00f5es do superego<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Mas foi poss\u00edvel extrair um ponto que nos instigasse o suficiente sobre o tema, que nos tocasse, para poder saber algo dele. Poderia dizer, provocados o suficiente pelo tema. E diz\u00ea-lo em um n\u00famero bem limitado de caracteres, isto \u00e9, poder extrair da cita\u00e7\u00e3o a marca de uma enuncia\u00e7\u00e3o. Cada um segundo seu estilo, de acordo com seu percurso, momento e sua inquieta\u00e7\u00e3o, conseguiu produzir um texto. E por um querer saber. Posso dizer que neste caso houve efeito de cartel, com certeza n\u00e3o em todos, mas a pr\u00f3pria proposta teve um valor de provoca\u00e7\u00e3o. Falo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois, tamb\u00e9m com outros colegas muito trabalhadores, faz tempo que estamos tentando nos encontrar para iniciar um cartel e n\u00e3o encontramos datas. Os impasses tomam as formas mais variadas.<\/p>\n<p>Para terminar, s\u00f3 quero destacar que o Mais-um n\u00e3o \u00e9 a causa do cartel e me parece que isto est\u00e1 no cerne do provocador-provocado. Lacan, atrav\u00e9s do cartel, convida a cada membro a trazer sua pergunta, sua pr\u00f3pria quest\u00e3o, e coloc\u00e1-la a trabalho, para subjetivar os enunciados, para extrair deles uma enuncia\u00e7\u00e3o que \u00e9 sempre singular. Nesse sentido, o trabalho deve ser realizado por cada membro do cartel e \u00e9 fundamental que cada um coloque algo de si, pois se trata de produzir um saber que n\u00e3o exclua o que opera em cada um. Mas isso n\u00e3o \u00e9 natural; \u00e9 necess\u00e1rio o Mais-um como provocador -provocado.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Miller, J.-A. Cinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada. In: ROCHA, A. (Org.). <em>Manual de cart\u00e9is<\/em>. Belo Horizonte: EBP-MG, Scriptum, 2010. p. 55-61.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Horne, B. Sobre a crise no cartel: h\u00e1 cartel sem crise?. In: Brown, N. (Org.) Cartel, novas leituras. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2021, p. 105.<\/h6>\n<hr \/>\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>II Noite de Cart\u00e9is da Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>Algumas considera\u00e7\u00f5es sobre o texto de Nohem\u00ed Brown. \u00a0<\/strong><\/p>\n<h6>\u00a0Val\u00e9ria Beatriz Araujo<\/h6>\n<p>Tendo como referencia dois sintagmas da II Noite de Cart\u00e9is (<strong>provocador e provocado<\/strong>) e seguindo uma proposta que Nohem\u00ed traz, de leituras de textos do livro <strong><em>Cartel, novas leituras<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/em><\/strong><em>,<\/em> onde um comenta pontos do texto de outro e faz ressoar o que lhe tocou, gostaria de destacar alguns fragmentos do seu texto <strong><em>Os tempos do cartel<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/em><\/strong> e extrair algumas quest\u00f5es que me tocam em rela\u00e7\u00e3o ao Mais-um. E seguir a partir de alguns pontos de fuga sobre esta m\u00e1quina de guerra que \u00e9 o cartel.<\/p>\n<p>No texto Nohem\u00ed traz \u201ca dimens\u00e3o do <strong>tempo <\/strong>como um instrumento pr\u00f3prio da experi\u00eancia\u201d, \u201cmas tamb\u00e9m do qual o Mais-um pode extrair sua fun\u00e7\u00e3o. Uma dimens\u00e3o que diz de \u201cuma singular rela\u00e7\u00e3o com o tempo\u201d \u201cpensado a partir do \u201ccontempor\u00e2neo\u201d de Agamben, que se refere a uma <strong>posi\u00e7\u00e3o<\/strong>, algu\u00e9m que n\u00e3o s\u00f3 percebe o escuro e o faz presente, mas tamb\u00e9m aquele que, dividindo e interpelando o tempo, est\u00e1 \u00e0 altura de transform\u00e1-lo e de coloc\u00e1-lo em rela\u00e7\u00e3o com outros tempos\u201d. \u201cNum tempo que implica o da consequ\u00eancia. Penso o lugar do Mais-um nesta implica\u00e7\u00e3o com o tempo.<\/p>\n<p>Trago outro ponto de texto: \u201cO produto de um cartel \u00e9 a extra\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia de <strong>intera\u00e7\u00e3o,<\/strong> em uma <strong>articula\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>de interc\u00e2mbios<\/strong>, onde se destaca a enuncia\u00e7\u00e3o\u201d. Nohem\u00ed tamb\u00e9m pontua que \u201ca elabora\u00e7\u00e3o provocada est\u00e1 em articula\u00e7\u00e3o com o provocador provocado\u201d. Podemos dizer ent\u00e3o que esta intera\u00e7\u00e3o se remete aos elementos do cartel <strong><em>mais<\/em> <\/strong>a sua articula\u00e7\u00e3o, pensando a <strong>articula\u00e7\u00e3o<\/strong> ligada a um <strong>conjunto, mais um (um elemento n\u00e3o semelhante)<\/strong>. <strong>\u201cIsso j\u00e1 \u00e9 um lugar da estrutura, n\u00e3o de pessoa\u201d<\/strong> (Tal como pontua Tarrab<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>, em seu texto <em>O cartel e a pol\u00edtica lacaniana<\/em>, citando Miller). N\u00e3o tanto uma pessoa como um lugar de estrutura, onde o<strong> conceito de estrutura acrescenta ao conjunto uma articula\u00e7\u00e3o;<\/strong> Neste lugar de estrutura \u00e9 onde Miller coloca o Mais-um de Lacan, diz Tarrab. Seria ent\u00e3o um lugar em que poder\u00edamos pensar o Mais-um para al\u00e9m de provocador, tamb\u00e9m um provocado? Servindo-se deste lugar estrutural, mas tamb\u00e9m prescindindo dele?<\/p>\n<p>Neste sentido, temos o Mais-um tomado ao modo de um l\u00edder funcional, por\u00e9m \u201cmodesto, pobre, reduzido ao m\u00ednimo, de exercer uma fun\u00e7\u00e3o e, mais ainda, permutativa\u201d <a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Mas com a pot\u00eancia de fazer valer o furo no saber autorit\u00e1rio, como enfatizam Nohem\u00ed e Ros\u00e1rio. Um trabalhador que se decide, ao modo <em>bricoleur<\/em>, <strong>pelo exemplo e<\/strong> <strong>n\u00e3o pelo modelo<\/strong>, tal como vemos na id\u00e9ia de uma gambiarra.<\/p>\n<p>Um \u00faltimo ponto e concluo. Considerando que n\u00e3o h\u00e1 cartel sem crise, como diz Bernardino Horne no texto <em>Sobre a crise no cartel<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><strong>[v]<\/strong><\/a><\/em>, a partir de uma provoca\u00e7\u00e3o, podemos pensar sobre as v\u00e1rias crises pass\u00edveis de despontar no dispositivo. Entretanto, uma <strong>crise a se destacar num cartel<\/strong> n\u00e3o estaria no Mais-um, quando ele n\u00e3o consente, de alguma maneira, com este lugar no dispositivo e com esta \u201c\u00e9tica das consequ\u00eancias\u201d? Quando se faz de tapa-buracos e n\u00e3o de fazedor de buracos, como diz Bernardino?<\/p>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Cartel, novas leituras. Nohem\u00ed Iba\u00f1ez Brown (org). S\u00e3o Paulo: EBP, 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Brown, Nohem\u00ed I. Os tempos do cartel, op. cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Tarrab, Mauricio. O cartel e a pol\u00edtica, op. cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Miller, Jacques-Alain. Novas reflex\u00f5es sobre o cartel. Disponivel em ebp.org.br\/cart\u00e9is-e-intercambios\/apresenta\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Horne, Bernardino. Sobre a crise no cartel: h\u00e1 cartel sem crise?, op. cit.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nohem\u00ed Brown Agrade\u00e7o a Oscar Reymundo e \u00e0 equipe da Diretoria de Cart\u00e9is e Interc\u00e2mbio o convite. E o prazer de estar com Ros\u00e1rio do R\u00eago Barros, com quem, al\u00e9m de v\u00e1rios trabalhos, estamos em um cartel. Vou trazer algumas notas outras destacadas de um texto no qual me debrucei sobre a quest\u00e3o do Mais-um,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3098,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3424","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noite-de-carteis","entry","has-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3424","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3424"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3424\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3424"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3424"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3424"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3424"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}