{"id":3360,"date":"2021-10-18T10:17:56","date_gmt":"2021-10-18T13:17:56","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3360"},"modified":"2021-10-18T10:17:56","modified_gmt":"2021-10-18T13:17:56","slug":"com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao%c2%a8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/com-quantos-elementos-se-faz-uma-invencao%c2%a8\/","title":{"rendered":"Com quantos elementos se faz uma inven\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<h6>Marcus Andr\u00e9 Vieira<\/h6>\n<blockquote><p>\u00c9 preciso saber que mesmo que nenhum sujeito saiba, ainda \u00e9 Real. \u00c9 um dep\u00f3sito. \u00c9 um sedimento que se produz em cada um quando come\u00e7a a se aproximar daquela rela\u00e7\u00e3o sexual que ali\u00e1s nunca chegar\u00e1\u201d (J. Lacan).1<\/p>\n[O mundo] superp\u00f5e lixo que se acumula sem se preocupar minimamente com as contradi\u00e7\u00f5es (&#8230;), um empilhamento, um dep\u00f3sito de destrui\u00e7\u00e3o de mundos que vai acontecer, e apesar de ser incompat\u00edvel, n\u00e3o entendo muito bem, dentro de todos n\u00f3s (J. Lacan).2<\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 momentos em que, abandonados de toda teoria, de toda poesia, esfaceladas humanidades, direitos, causas, acossa-nos a necessidade de inventar.<\/p>\n<p>Inventar, hoje, parece vital. S\u00f3 usarei, por\u00e9m, o termo no sentido mais restrito que lhe d\u00e1 J. A. Miller para se referir \u00e0s inven\u00e7\u00f5es \u00e0quela condi\u00e7\u00e3o que se costuma chamar de <em>esquizofrenia<\/em>. Partindo desse contexto bem concreto, acredito que possamos fazer da inven\u00e7\u00e3o uma ferramenta mais que um vago anseio.<\/p>\n<p>Miller retoma o termo a partir de sua leitura de uma passagem de Lacan, em &#8220;O aturdito&#8221;, quando caracteriza a esquizofrenia como um modo radical de ex\u00edlio da linguagem comum.3\u00a0A experi\u00eancia corporal de base \u00e9 de pura fragmenta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o h\u00e1 como contar com nada do que a comunidade lingu\u00edstica (qualquer discurso estabelecido) oferece como meio comum para se constituir algum corpo ou subjetividade. \u00c9 preciso fazer sua pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o para estabilizar um \u201csi-mesmo\u201d corporal e um lugar em um discurso. A isso chamaremos de <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Estamos em plena cl\u00ednica da psicose, mas vamos concluir no mesmo sentido da orienta\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo c\u00e9lebre de E. Laurent: \u201cO que as psicoses ensinam \u00e0 cl\u00ednica da neurose\u201d. Talvez possamos nos perguntar hoje: \u201cO que as inven\u00e7\u00f5es esquizofr\u00eanicas ensinam sobre o tema da inven\u00e7\u00e3o em geral?\u201d E mais, \u201cPodem as inven\u00e7\u00f5es da psicose contribuir para decifrar a pol\u00edtica de hoje &#8211; quando o Outro \u00e9 inconsistente como o do esquizofr\u00eanico?\u201d<\/p>\n<p><strong>Transcend\u00eancia<\/strong> <strong>e<\/strong> <strong>ex-nihilo<\/strong><\/p>\n<p>Sabemos que Lacan empregou v\u00e1rias vezes o termo inven\u00e7\u00e3o, dizendo que definindo-o, por exemplo, como \u201cum tro\u00e7o [<em>truc<\/em>] para preencher o furo do Real\u201d.4<\/p>\n<p>Nesse sentido, bem vasto, de um \u201ctodos inventamos\u201d, h\u00e1 uma tend\u00eancia a perder a for\u00e7a do conceito. O pr\u00f3prio Lacan, apesar da no\u00e7\u00e3o que se depreende dessa defini\u00e7\u00e3o, que poder\u00edamos chamar de inven\u00e7\u00e3o generalizada \u00e9 muito mais preciso. Sua inven\u00e7\u00e3o, por exemplo, para ele, \u00e9 o objeto <strong><em>a<\/em><\/strong> e nada mais.<\/p>\n<p>O perigo \u00e9 que tudo seja inven\u00e7\u00e3o e nada o seja. Talvez por isso o termo tende a ser tomado, mesmo em nosso campo, no \u00e2mbito de um tema rom\u00e2ntico, no qual uma inven\u00e7\u00e3o tem a <em>transcend\u00eancia<\/em> como caracter\u00edstica fundamental. Ela traria consigo uma novidade sempre maior que aquela do conjunto de seus elementos, como se uma for\u00e7a dos c\u00e9us tivesse vindo n\u00e3o apenas reuni-los, mas tornar-lhes outra coisa, radicalmente distinta do que s\u00e3o.<\/p>\n<p>Escolhi este t\u00edtulo como um alerta para n\u00e3o abordemos o tema da inven\u00e7\u00e3o nesse sentido. Sejamos mais materialistas e reservemos essas coordenadas de transcend\u00eancia para o que chamaremos de <em>cria\u00e7\u00e3o<\/em>, que \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o por onde Miller inicia seu texto.<\/p>\n<p>Pensei em distinguir tr\u00eas registros para deixar mais claro o lugar da inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 religiosa. \u00c9 a ideia de que toda cria\u00e7\u00e3o, tudo o que \u00e9 criado se refere e se inclui em uma causa, e causa primeira seria Deus.<\/p>\n<p>O segundo \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o <em>ex-nihilo<\/em>, sem causa, \u201cdo nada\u201d, um \u201cassim \u00e9\u201d sem que se precise perguntar sobre como veio a ser. \u00c9 como Lacan a define no <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>7<\/em>, sem Deus ou, pelo menos, sem que se precise absolutamente interessar por ele. \u00c9 a melhor postura para o analista, pois, quando em uma an\u00e1lise surge algo novo, perguntar pela causa, pela origem, pelo criador dessa criatura, sua raz\u00e3o profunda, seu significado \u00faltimo, s\u00f3 nos leva a esvaziar o que acaba de acontecer e infinitizar o tratamento.<\/p>\n<p>Um par\u00eantese: Cria\u00e7\u00e3o ex-<em>nihilo<\/em> diz, em outros termos, que n\u00e3o se pode abandonar a linguagem para falar dela, que n\u00e3o h\u00e1 metalinguagem, que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. <em>Ex<\/em> <em>nihilo<\/em> \u00e9 ainda outro nome para nosso estruturalismo segundo o qual n\u00e3o supomos nenhum exterior \u00e0 caverna plat\u00f4nica, ao discurso. O real lacaniano est\u00e1 na caverna, no discurso. Nossa cl\u00ednica \u00e9 decididamente \u201ccavern\u00edcola\u201d, como assinala J. C. Milner.5<\/p>\n<p><strong>O<\/strong> <strong>vaso<\/strong> <strong>e<\/strong> <strong>a<\/strong> <strong>bricolagem<\/strong><\/p>\n<p>O terceiro registro \u00e9 o da inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo em nosso campo sem Deus, sem um real transcendente, devemos opor cria\u00e7\u00e3o <em>ex-nihilo<\/em> e inven\u00e7\u00e3o. Creio que podemos demonstr\u00e1-lo com rela\u00e7\u00e3o aos elementos em jogo em cada um dos casos.<\/p>\n<p>O que chamaremos de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 feito de tal forma que o objeto produzido nos captura de tal forma que obscurece tudo. Ele ofusca os elementos de sua cria\u00e7\u00e3o, a criatura apaga seu criador. O maior exemplo \u00e9 o vaso de Heidegger retomado por Lacan no <em>Semin\u00e1rio<\/em> <em>7<\/em>. Pensa-se apenas no vaso e no nada dentro dele e a seu redor. Ningu\u00e9m pensa no barro, na palha, ou nas m\u00e3os do oleiro. O objeto da cria\u00e7\u00e3o nos atrai do exterior, mas nos toca no \u00edntimo, sempre p\u00f5e em jogo alguma <em>extimidade<\/em>. A refer\u00eancia conceitual de Lacan para esse tipo de objeto \u201ca\u2019, estranho objeto da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ainda assim \u00e9 um objeto, mesmo que seja um desobjeto, um objeto que n\u00e3o se coloca exatamente diante de n\u00f3s, <em>gegenstand<\/em>, mas ao lado, ou debaixo do tapete. Uma inven\u00e7\u00e3o, por outro lado, nunca nos deixa esquecer seus elementos. Ela se op\u00f5e a uma cria\u00e7\u00e3o porque envolve o que Miller chama de &#8220;materiais pr\u00e9-existentes&#8221;. Na montagem desses elementos que constitui a inven\u00e7\u00e3o eles nunca deixam de ser reconhecidos como tais.<\/p>\n<p>Perdoem-me se trago a voc\u00eas defini\u00e7\u00f5es ou exemplos aparentemente distantes da constitui\u00e7\u00e3o de um corpo ou de uma subjetividade est\u00e1vel, mas acho melhor que sejamos decididamente cavern\u00edcolas, ou seja, materialistas nesse assunto. Proponho, assim, a voc\u00eas esta imagem de uma inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3361 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/001.png\" alt=\"Fig 1 - Cao Guimar\u00e3es, s\u00e9rie Gambiarras (2000-2014). Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/www.caoguimaraes.com\/foto\/gambiarras\/&gt;. Acesso em: 01 de dezembro de 2020.\" width=\"510\" height=\"360\" \/><\/p>\n<h6>Fig 1 &#8211; Cao Guimar\u00e3es, s\u00e9rie Gambiarras (2000-2014). Dispon\u00edvel em: &amp;lt;http:\/\/www.caoguimaraes.com\/foto\/gambiarras\/&amp;gt;. Acesso em: 01 de dezembro de 2020.<\/h6>\n<p>Nosso ponto de partida, dessa forma, para abordar a inven\u00e7\u00e3o \u00e9 sua aproxima\u00e7\u00e3o, feita por Miller, pelo menos no que concerne a experi\u00eancia psic\u00f3tica com rela\u00e7\u00e3o ao que L\u00e9vi-Strauss define como <em>bricolagem<\/em>.<\/p>\n<p>O termo n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o precisa em portugu\u00eas, engenhoca, gambiarra,<\/p>\n<p>geringon\u00e7a, arranjo, todos servem, cada um com suas vantagens e desvantagens. Essa inven\u00e7\u00e3o da foto seria apropriadamente chamada de <em>gambiarra<\/em>, que enfatiza um aspecto essencial a toda inven\u00e7\u00e3o, o de que ela \u00e9 feita para servir a um fim com os meios dispon\u00edveis, ela \u00e9 sempre uma tecnologia da necessidade.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, aqui destaca-se n\u00e3o tanto o objeto que esses materiais constituem, muito mais a trama desses m\u00faltiplos objetos. No entanto, eles s\u00e3o desviados de sua fun\u00e7\u00e3o original, segundo a defini\u00e7\u00e3o de Levi-Strauss e por isso fazem parte da inven\u00e7\u00e3o, em que se v\u00ea claramente o que s\u00e3o e o que se tornaram nesse novo agenciamento.<\/p>\n<p>Para fazer a passagem de uma inven\u00e7\u00e3o como essa, digamos, uma inven\u00e7\u00e3o na cidade, para inven\u00e7\u00f5es em que o subjetivo \u00e9 mais evidente, proponho alguns pontos. Esses pontos s\u00e3o dogm\u00e1ticos apenas na apar\u00eancia, s\u00e3o muito mais minha maneira de reunir toda uma massa de refer\u00eancias do nosso campo sobre o assunto tendo ao centro minha ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>S\u00e3o a minha bricolagem a partir de minhas leituras, mas, sobretudo, do trabalho de um semin\u00e1rio de pesquisa durante o ano de 2018 em um hospital do Rio de Janeiro, o Instituto Phillipe Pinel, em que discutimos casos de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es cariocas.<\/p>\n<p><strong><em>I<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>n\u00e3o<\/em> <em>tem<\/em> <em>inventor<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Fica claro pelo que desenvolvi at\u00e9 aqui. Inven\u00e7\u00e3o, neste sentido, \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o de um \u201ceu\u201d quando se est\u00e1 em um radical \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d. \u00c9 assim que um corpo \u00e9 definido onde antes havia apenas \u00f3rg\u00e3os sem corpo. Nesse sentido, como diz Miller, ele \u00e9 o oposto de Deleuze ou, como S. Zizek formula, tenta lidar com o fato de uma vida de \u00f3rg\u00e3os sem corpo e n\u00e3o de um corpo sem \u00f3rg\u00e3os. Acontece da inven\u00e7\u00e3o delimitar um inventor e at\u00e9 dar-lhe um nome, representando-o pelo Outro, mas s\u00f3 <em>a<\/em> <em>posteriori<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo par\u00eantese: Damos muito impacto ao fato de Joyce ter se destacado por dar trabalho a estudantes universit\u00e1rios, mas sua inven\u00e7\u00e3o \u00e9 anterior, se situa bem mais pelo modo como ela punha em a\u00e7\u00e3o seu gozo em \u201cdestruir\u201d a l\u00edngua inglesa \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p><strong><em>II<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>\u00e9<\/em> <em>feita<\/em> <em>com<\/em> <em>materiais<\/em> <em>pr\u00e9-existentes<\/em><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3362\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/002-388x1024.png\" alt=\"Fig 2 - BISPO_000274; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Abajour]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0374 \u2013 Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 193 x 68 x 14 cm; T\u00e9cnica: Montagem, costura, bordado, escrita, carpintaria, revestimento; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.\" width=\"151\" height=\"400\" \/><\/p>\n<h6>Fig 2 &#8211; BISPO_000274; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Abajour]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0374 \u2013 Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 193 x 68 x 14 cm; T\u00e9cnica: Montagem, costura, bordado, escrita, carpintaria, revestimento; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.<\/h6>\n<p>J\u00e1 vimos. Vale apenas destacar o status desses materiais. A ideia de Levi Strauss \u00e9 v\u00e1lida: os objetos que entram na composi\u00e7\u00e3o de uma inven\u00e7\u00e3o s\u00e3o desviados de sua fun\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-los funcionar fora de seu significado original e, assim, produzir um novo efeito. Nesse sentido, os objetos que entram no arranjo nunca s\u00e3o objetos do senso comum. Eles s\u00e3o elementos de um arranjo. S\u00e3o pe\u00e7as soltas, mas n\u00e3o independentes.<\/p>\n<p>Esta imagem parece-me diz\u00ea-lo claramente. Perdemos um pouco de vista o aspecto gambiarra, de \u201cfazer com\u201d do \u201cy\u201d, da sua utiliza\u00e7\u00e3o, digamos, no mundo. Mas se aceitarmos que isso teve seu pr\u00f3prio uso, podemos pensar que tamb\u00e9m \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o. Parece \u00f3timo porque os materiais n\u00e3o s\u00e3o objetos em si.<\/p>\n<p>\u00c9 uma obra de Arthur Bispo do Ros\u00e1rio, grande artista brasileiro e tamb\u00e9m internado em um hospital psiqui\u00e1trico durante trinta anos quando produziu quase toda a sua obra, feita de muitas coisas, mas claramente marcada pelo que chamamos de \u201cy\u201d e claramente ligada \u00e0 sua estabiliza\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p><strong><em>III<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Os<\/em> <em>materiais<\/em> <em>entram<\/em> <em>na<\/em> <em>composi\u00e7\u00e3o<\/em> <em>como<\/em> <em>significantes<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Como s\u00e3o coisas que n\u00e3o perdem sentido, em seu novo uso, que s\u00f3 ganham sentido no pr\u00f3prio arranjo, ganham o status de significantes. Um significante para Lacan \u00e9 o que n\u00e3o faz sentido em si mesmo, mas apenas em um jogo de diferen\u00e7as. O principal, entretanto, n\u00e3o \u00e9 compor um sentido, como nas inven\u00e7\u00f5es delirantes paranoicas, mas fazer funcionar uma pequena m\u00e1quina<\/p>\n<p>de subjetividade. Vejam que estou usando o significante muito mais pr\u00f3ximo do que chamamos de <em>letra<\/em>, como quando \u00e0s vezes fazemos oposi\u00e7\u00f5es entre a letra e o significante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3363 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/003.png\" alt=\"Fig 3 - R_MG_4776; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Carrinho-arquivo I]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0420.0; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 95 x 90 x 55 cm; T\u00e9cnica: Montagem, carpintaria, costura, escrita, pintura, perfura\u00e7\u00e3o; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.\" width=\"212\" height=\"237\" \/><\/p>\n<h6>Fig 3 &#8211; R_MG_4776; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Carrinho-arquivo I]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0420.0; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 95 x 90 x 55 cm; T\u00e9cnica: Montagem, carpintaria, costura, escrita, pintura, perfura\u00e7\u00e3o; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.<\/h6>\n<p>Esse trabalho, sempre do Bispo, o materializa. O aspecto da gambiarra n\u00e3o volta a ser visto, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o mais pessoal, uma gambiarra subjetiva. Mas mostra muito como os materiais de uma inven\u00e7\u00e3o s\u00e3o sempre letras.<\/p>\n<p><strong><em>IV<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>\u00e9<\/em> <em>um<\/em> <em>savoir-y-faire<\/em> <em>e<\/em> <em>n\u00e3o<\/em> <em>un<\/em> <em>savoir-faire<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um \u201csaber se virar\u201d e n\u00e3o um <em>know-how<\/em>. N\u00e3o \u00e9 uma ideia, um conceito que se aplica \u00e0 realidade, mas um novo instrumento para fazer concretamente algo de que a realidade necessita. \u00c9 o sentido do \u201ch\u201d na defini\u00e7\u00e3o de Lacan de <em>sinthoma<\/em> como a fra\u00e7\u00e3o mais singular do gozo de um falante e que, por essa raz\u00e3o, n\u00e3o pode ser inscrito em sua fala ou em sua vida. Voc\u00ea s\u00f3 pode &#8220;fazer com\u201d ele, e isso, <em>sur<\/em> <em>le<\/em> <em>champ<\/em>, fazer uso dele.<\/p>\n<p>Geralmente \u00e9 uma realidade social, mas para outros pode ser mais particular, subjetiva e pode ser uma realidade estilha\u00e7ada e fragmentada. \u00c9 nestes que a inven\u00e7\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. Ela \u00e9 mais um &#8220;serve a&#8221; do que um &#8220;\u00e9 isso&#8221;. Ela coloca mais um &#8220;fazer&#8221; em jogo do que um novo objeto.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3364 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/004-300x160.png\" alt=\"Fig 4 - BISPO_000136; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Regador]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0052; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 15 x 19 x 8 cm; T\u00e9cnica: Revestimento, costura, bordado, escrita; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.\" width=\"300\" height=\"160\" \/><\/p>\n<h6>Fig 4 &#8211; BISPO_000136; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Regador]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0052; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 15 x 19 x 8 cm; T\u00e9cnica: Revestimento, costura, bordado, escrita; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.<\/h6>\n<p>Um exemplo \u00e9 esta montagem-objeto de Bispo em que se entrela\u00e7am: 1) o fio de seu uniforme de manic\u00f4mio, 2) um<\/p>\n<p>objeto destinado ao lixo, um regador 3) uma palavra e 4) a ideia delirante de que deveria apresentar os objetos do mundo a Deus no julgamento final. Com tudo isso, ele inventou um meio de revesti-los para recri\u00e1-los com sua nomea\u00e7\u00e3o bordada. O efeito final \u00e9 t\u00e3o forte no Outro, n\u00f3s por exemplo, que Bispo, com essa inven\u00e7\u00e3o entre outras, obt\u00e9m, lugar no mundo em que vivia, renome e, suponho, estabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>V<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>\u00e9<\/em> <em>um<\/em> <em>n\u00f3<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A inven\u00e7\u00e3o resiste \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o em mercadoria, n\u00e3o h\u00e1 tecnologia da inven\u00e7\u00e3o que ganhe corpo em uma f\u00e1brica porque \u00e9 o que \u00e9 poss\u00edvel em uma situa\u00e7\u00e3o, apenas nela e com os materiais que est\u00e3o a bordo.N\u00e3o existe tecnologia ou manual da inven\u00e7\u00e3o, mas se, como hip\u00f3tese, pudermos aproximar a inven\u00e7\u00e3o de um n\u00f3, um n\u00f3 borromeano, talvez tenhamos algumas indica\u00e7\u00f5es fundamentais de Lacan em que nos apoiar.Caso seja um n\u00f3 Borromeu, diremos que em sua multiplicidade ela amarra elementos totalmente distintos da realidade (como os tr\u00eas registros do n\u00f3), de uma maneira muito especial, \u00e0 maneira da tran\u00e7a em que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es dois-a-dois (n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual), mas uma composi\u00e7\u00e3o, uma montagem \u201ccoletiva\u201d sem associa\u00e7\u00f5es bin\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong><em>VI<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>\/<\/em> sinthoma <em>tem<\/em> <em>um<\/em> <em>ponto<\/em> <em>de<\/em> <em>extimidade<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma hip\u00f3tese, mas se a seguimos, veremos que uma inven\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas monta seus elementos de modo firme e funcional, mas produz igualmente um efeito de estranheza, de extimidade que \u00e9 essencial. \u00c9 um \u201ca mais\u201d, mais de gozar, pelo fato de sua exist\u00eancia. Basta comparar o prazer com um produto comprado para determinada fun\u00e7\u00e3o e o prazer de p\u00f4r em funcionamento uma gambiarra que fa\u00e7a o mesmo. A segunda tem um efeito singular sobre n\u00f3s, parece-nos muito mais viva.6<\/p>\n<figure id=\"attachment_3365\" aria-describedby=\"caption-attachment-3365\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3365\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/005.png\" alt=\"Esta figura, dif\u00edcil, que Lacan prop\u00f4s no semin\u00e1rio RSI, o diz (Fig. 5)\" width=\"200\" height=\"155\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3365\" class=\"wp-caption-text\">Esta figura, dif\u00edcil, que Lacan prop\u00f4s no semin\u00e1rio RSI, o diz (Fig. 5)<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um n\u00f3 de inven\u00e7\u00e3o, borromeano, <em>produz<\/em> o lugar do objeto a. N\u00e3o <em>extrai<\/em>, como no trabalho anal\u00edtico com a fantasia, trazendo o que estava debaixo do tapete, mas cria a sala e o tapete e, assim, estabelece a possibilidade de um lugar para o resto onde, at\u00e9 ent\u00e3o, n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>\u00c9 bom ter o objeto <em>a<\/em> de volta, porque ele \u00e9 experiencial, \u00e9 do campo da experi\u00eancia subjetiva. \u00c9 o limite do que pode ser sentido, mas \u00e9 experimentado em sua estranheza, ang\u00fastia euforia. O n\u00f3, por outro lado, n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia, pois \u00e9 um modo criado por Lacan para pensarmos qualquer experi\u00eancia. Se algo experiencial se vive do trabalho com o n\u00f3 seria no m\u00e1ximo a certeza de que <em>\u00e7a<\/em> <em>tient<\/em>, \u201cest\u00e1 amarrado\u201d.7<\/p>\n<p>Portanto, uma inven\u00e7\u00e3o permite que o inventor experimente a estranheza, a incerteza quanto a o que \u00e9 o Outro a quem se dirige a inven\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que nos tira da paranoia, que define o Outro para n\u00e3o ter d\u00favida sobre ele, mas acaba, muitas vezes tendo que destru\u00ed-lo ou temer ser por ele destru\u00eddo.<\/p>\n<p><strong><em>VII<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>\/<\/em> <em>sinthoma<\/em> <em>pode<\/em> <em>ter<\/em> <em>infinitos<\/em> <em>elementos<\/em> <em>e<\/em> <em>pelo<\/em> <em>menos<\/em> <em>alguma<\/em> <em>parte<\/em><\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3366\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/006.png\" alt=\"Fig. 6 - BISPO_000; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Dentaduras]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0376; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 120 x 64 x 11 cm; T\u00e9cnica: Montagem, carpintaria, costura; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.\" width=\"117\" height=\"309\" \/><\/p>\n<h6>Fig. 6 &#8211; BISPO_000; T\u00edtulo atribu\u00eddo: [Dentaduras]; No. de invent\u00e1rio: MBRAC.ABR.0376; Autor: Arthur Bispo do Rosario; Data: S\/d.; Dimens\u00f5es: 120 x 64 x 11 cm; T\u00e9cnica: Montagem, carpintaria, costura; Cole\u00e7\u00e3o: Museu Bispo do Rosario Arte Contempor\u00e2nea.<\/h6>\n<p>Um elemento \u00e9 contabiliz\u00e1vel, uma parte n\u00e3o. Os convidados de uma festa podem ser contados, mas n\u00e3o seus sentimentos ou o que levam em seus bolsos. Fazem parte da festa e podem torn\u00e1-la uma alegria ou um horror, mas n\u00e3o podem ser contados. N\u00e3o \u00e9 o melhor exemplo porque nos faz pensar que as partes s\u00e3o imateriais, mas n\u00e3o s\u00e3o, s\u00f3 n\u00e3o t\u00eam nome, como na figura abaixo.<\/p>\n<p><strong><em>VIII<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Uma<\/em> <em>inven\u00e7\u00e3o<\/em> <em>em<\/em> <em>seu<\/em> <em>fazer<\/em> <em>serve<\/em> <em>para<\/em> <em>produzir<\/em> <em>um<\/em> <em>lugar<\/em> <em>no<\/em> <em>Outro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 quem \u00e9 esse Outro. Deve-se dizer que \u00e9 o mais geral poss\u00edvel que ela produz um corpo. Isso \u00e9 mais interessante do que dizer que ela produz um lugar de sujeito.<\/p>\n<p>Se dizemos que uma inven\u00e7\u00e3o produz um sujeito, um lugar do sujeito, estamos dizendo que esse Outro \u00e9 uma estrutura ordenada como numa estrutura neur\u00f3tica ou edipiana. \u00c9 o corpo que se estabiliza em torno de um ponto cego, o sujeito, e tamb\u00e9m dos pontos cegos na superf\u00edcie corporal, as zonas er\u00f3genas como Freud as descreveu.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode ter muitos tipos de corpo, n\u00e3o apenas o corpo neur\u00f3tico. Assim, de muitas maneiras, n\u00e3o apenas nas zonas er\u00f3genas, uma inven\u00e7\u00e3o produziria um corpo em rela\u00e7\u00e3o a alguma<\/p>\n<p>alteridade, a algum Outro.<\/p>\n<p><strong>O<\/strong> <strong>Outro<\/strong> <strong>no<\/strong> <strong><em>i<\/em><\/strong><strong><em>nventorium<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Essa era minha lista.<\/p>\n<p>Tr\u00eas quest\u00f5es para concluir sobre o Outro da inven\u00e7\u00e3o, que nos abrem para a quest\u00e3o maior do nosso tempo no meu entendimento: O que significa produzir um Outro no contexto da alteridade de um Outro que n\u00e3o existe?<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Podemos dizer que uma inven\u00e7\u00e3o pode ser feita sem materiais da realidade? Uma inven\u00e7\u00e3o pode ser feita apenas de mem\u00f3rias, por exemplo, ou apenas significantes, apenas elementos da &#8220;realidade ps\u00edquica&#8221;?<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso da neurose. Acho que \u00e9 isso que mostra o passe. O que chamamos de &#8220;nomes de gozo&#8221; s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es, ou melhor, s\u00e3o a ponta do iceberg de uma inven\u00e7\u00e3o subjetiva para ter um corpo diferente daquele da fantasia.<\/p>\n<p>Os materiais pr\u00e9-existentes, neste caso, s\u00e3o os restos da fantasia conforme foi percorrido na an\u00e1lise. S\u00e3o as marcas, as letras do trauma da l\u00edngua. Acho que se pode dizer que o psic\u00f3tico tamb\u00e9m faz suas inven\u00e7\u00f5es com as letras de gozo que p\u00f4de extrair de tudo o que p\u00f4de ouvir de si mesmo (por n\u00e3o ter corpo, pelo menos no caso do esquizofr\u00eanico, n\u00e3o teria tido a superf\u00edcie sobre a qual suas letras seriam inscritas). Aqui, esses materiais n\u00e3o s\u00e3o vistos na hist\u00f3ria, como no caso do neur\u00f3tico que mant\u00e9m uma narrativa de si por meio da fantasia.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>De que Outro estamos falando quando falamos em produzir um lugar no Outro? Em ambos os casos, o do esquizofr\u00eanico e o do passante, estamos diante de um Outro inconsistente (porque, para o passante, a fantasma ter\u00e1 se tornado uma estrutura inconsistente). Portanto, produzir um lugar no Outro \u00e9 tamb\u00e9m produzir um Outro, ou dar-lhe um pouco de estabilidade.<\/p>\n<p>Aqui vemos o que poderia ser um valor pol\u00edtico de inven\u00e7\u00e3o, uma pol\u00edtica do <em>sinthoma<\/em> como uma pol\u00edtica da inven\u00e7\u00e3o. Isso ocorre porque vivemos em um mundo de um Outro inconsistente, um Outro que n\u00e3o existe, o Outro <em>n\u00e3otodo<\/em>, o do mercado, por exemplo.<\/p>\n<p>Sabemos que, em um mundo onde esse Outro \u00e9 dominante, a polariza\u00e7\u00e3o muitas vezes parece ser a \u00fanica forma de estabilizar as coisas. Gra\u00e7as \u00e0 sua rigidez imagin\u00e1ria, \u00e0s suas polaridades mort\u00edferas e odiosas, por exemplo, o paranoico faz seu corpo expelindo o gozo do Outro, definido, no imagin\u00e1rio, como o dem\u00f4nio, por exemplo. No n\u00edvel \u201cmacro\u201d, vemos o que pode fazer de estrago um ambiente e um discurso paranoico, no qual estamos hoje claramente mergulhados no Brasil: os velhos, os pobres, os negros s\u00e3o os que devem ser eliminados para a estabilidade do corpo social.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Seriam as gambiarras e sua singular estranheza uma sa\u00edda do discurso capitalista sem ser pela alternativa paranoica?<\/p>\n<p>Por isso me interessa dizer que a verdadeira inven\u00e7\u00e3o deve produzir uma <em>extimidade<\/em>, n\u00e3o apenas porque Lacan prop\u00f4s que o n\u00f3 &#8220;produz&#8221; o objeto a, o objeto da estranheza, mas porque o v\u00ednculo que a extimidade sustenta \u00e9 muito interessante. Talvez seja o v\u00ednculo mais adequado para descrever o que move uma an\u00e1lise. O amor de transfer\u00eancia \u00e9 um amor estranho, muito mais interessante que o da fraternidade, sempre racista no dizer de Lacan.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o la\u00e7o pr\u00f3prio da psican\u00e1lise no meu entender, o da <em>extimidade<\/em>, do objeto a, do resto como aquele que sustenta o la\u00e7o e que Lacan chamou de &#8220;garantia da alteridade do Outro&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o poderia este ser o <em>comum<\/em> que nos apoie? Um <em>n\u00f3s<\/em> que nos re\u00fana? O do humano tomado como podendo ser outra coisa do que \u00e9? N\u00e3o se trata de buscar Outra cena como realidade alternativa, mais ou menos ut\u00f3pica, mas sim a possibilidade das coisas, na distopia em que vivemos, sempre poderem ser Outra coisa. Na luta contra a necropol\u00edtica assim como na contram\u00e3o do identitarismo r\u00edgido ao modo americano, \u00e9 preciso sustentar a todo instante,\u00a0como em nossa cl\u00ednica, que um pobre possa ser outra coisa que n\u00e3o pobre, ou um negro, ou uma mulher.<\/p>\n<h6><em>Sites<\/em> <em>recomendados<\/em> <a href=\"http:\/\/www.ernestooroza.com\/tag\/objects-of-necessity\/\">http:\/\/www.ernestooroza.com\/tag\/objects-of-necessity\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/artemidiastec.wordpress.com\/2018\/06\/04\/gambiarra-tecnologia-da-favela\/\">https:\/\/artemidiastec.wordpress.com\/2018\/06\/04\/gambiarra-tecnologia-da-favela\/<\/a> <a href=\"https:\/\/museubispodorosario.com\/portfolio\/acervo\/\">https:\/\/museubispodorosario.com\/portfolio\/acervo\/<\/a><\/h6>\n<h6>\u00a8\u00a0Este texto retoma o essencial de minha apresenta\u00e7\u00e3o no departamento de psiquiatria e psican\u00e1lise do ICDEBA, Buenos Aires, outubro de 2020. Agrade\u00e7o o convite dos amigos da diretoria deste departamento (publicado como Vieira, M. A. Com quantos elementos se faz uma inven\u00e7\u00e3o, <em>Latusa,<\/em> <em>n.<\/em> <em>25<\/em> <em>&#8211;<\/em> <em>Imposs\u00edvel<\/em> <em>tirar<\/em> <em>o<\/em> <em>corpo<\/em> <em>fora:<\/em> <em>Ex\u00edlios<\/em> <em>e<\/em> <em>confinamentos<\/em>, EBP-Rio \/ Contracapa, Rio de Janeiro, 2021).<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>1 Lacan, J. (1973-1974) <em>O<\/em> <em>Semin\u00e1rio,<\/em> <em>livro<\/em> <em>21,<\/em> <em>op.<\/em> <em>c<\/em><em>it.<\/em> Li\u00e7\u00e3o de 12\/2\/74, In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>2 Lacan, J. (1964), <em>O<\/em> <em>Semin\u00e1rio,<\/em> <em>livro<\/em> <em>10:<\/em> <em>a<\/em> <em>ang\u00fastia<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar, 2005, p. 43 (28\/11\/1962). 3 J. Lacan, \u201cO aturdito\u201d, <em>Outros<\/em> <em>Escritos<\/em>, Rio de Janeiro, JZE, 2003, p. 475 e Miller, J.-A. \u201cA inven\u00e7\u00e3o psic\u00f3tica\u201d, <em>Op\u00e7\u00e3o<\/em> <em>Lacaniana,<\/em> <em>n.\u00ba<\/em> <em>36<\/em>, S\u00e3o Paulo, Eolia, 2003, pp. 7 &#8211; 16.<\/h6>\n<h6>4 \u201cNous sommes, tous, oblig\u00e9s d\u2019inventer un truc pour combler le trou du re\u00e9l\u201d, Lacan, J. (1973-74), <em>Le<\/em> <em>S\u00e9minaire<\/em> <em>XXI,<\/em> <em>les<\/em> <em>non-dupes<\/em> <em>errent<\/em>, li\u00e7\u00e3o de 19\/2\/74, In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6>5 Milner, J. C. <em>Le<\/em> <em>p<\/em><em>\u00e9riple<\/em> <em>structural<\/em> <em>:<\/em> <em>figures<\/em> <em>et<\/em> <em>p<\/em><em>aradigme<\/em>, Paris, Seuil, 2002 ; Lagrasse: Verdier\/poche, 2008.<\/h6>\n<h6>6 \u00c9 o que Ant\u00f4nio Teixeira aproxima da aura de W. Benjamin, <em>ibid<\/em>. Para um desenvolvimento preciso sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a gambiarra e o mercado, ver Teixeira, A. \u201cA aura da gambiarra\u201d, <em>Mosaico:<\/em> <em>Estudos<\/em> <em>em<\/em> <em>Psicologia,<\/em> <em>v.<\/em> <em>7<\/em>, n.\u00ba 1. p. 45-60, 2020 (dispon\u00edvel em: https:\/\/periodicos.ufmg.br\/index.php\/mosaico\/ article\/view\/24821, acesso em setembro de 2020).<\/h6>\n<h6>7 Vieira, M. A. \u201cEst\u00e1 Amarrado \u2013 as psicoses hoje\u201d, <em>Op\u00e7\u00e3o<\/em> <em>lacaniana,<\/em> <em>n.\u00ba<\/em> <em>80\/81<\/em>, p. 91-96, 2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira \u00c9 preciso saber que mesmo que nenhum sujeito saiba, ainda \u00e9 Real. \u00c9 um dep\u00f3sito. \u00c9 um sedimento que se produz em cada um quando come\u00e7a a se aproximar daquela rela\u00e7\u00e3o sexual que ali\u00e1s nunca chegar\u00e1\u201d (J. Lacan).1 [O mundo] superp\u00f5e lixo que se acumula sem se preocupar minimamente com as contradi\u00e7\u00f5es&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3360","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ii-jornada","category-textos-de-orientacao","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3360","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3360"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3360\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3360"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3360"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3360"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3360"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}