{"id":3335,"date":"2021-10-06T12:17:01","date_gmt":"2021-10-06T15:17:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3335"},"modified":"2021-10-06T12:17:01","modified_gmt":"2021-10-06T15:17:01","slug":"rebotalhos-dez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/rebotalhos-dez\/","title":{"rendered":"REBOTALHOS DEZ"},"content":{"rendered":"<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>O sujeito trans entre a cl\u00ednica e a pol\u00edtica<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><strong><em>Gustavo Ramos da Silva<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/em><\/strong><\/h6>\n<p>No \u00faltimo dia 8 de setembro tivemos mais uma preparat\u00f3ria a II Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8220;Falar sobre o que n\u00e3o existe. Do gozo do sentido \u00e0s bricolagens poss\u00edveis&#8221;. Dessa vez a atividade se centrou no eixo 3, intitulado &#8220;Subjetividades contempor\u00e2neas: o real do gozo e a trama dos discursos&#8221;, escrito por Nohem\u00ed Brown. Desse modo, tendo como base o eixo cl\u00ednico e pol\u00edtico, Oscar Reymundo, coordenador da mesa, convidou Blanca Musachi e Eliane Costa Dias &#8211; todos integrantes do Observat\u00f3rio de G\u00eanero, Biopol\u00edtica e Transexualidade da FAPOL &#8211; para falarem um pouco desse entrela\u00e7amento.<\/p>\n<p>A atividade foi nomeada &#8220;O sujeito trans e a psican\u00e1lise: uma parceria poss\u00edvel&#8221;, e logo na abertura Oscar pontua que o trabalho do analista consiste em construir uma parceria de trabalho com um sujeito que apresenta um mal-estar ou um impasse na vida, gerando ang\u00fastia e sofrimento; ele quer falar sobre isso e, principalmente, ser escutado sobre esse ponto. Esse funcionamento est\u00e1 colocado de in\u00edcio para todos aqueles que procuram a psican\u00e1lise, mas o que cada um vai fazer com isso \u00e9 a quest\u00e3o. Os arranjos que cada ser falante vai articular para dar conta do que chamamos o real do sexo s\u00e3o sempre singulares. De um lado, um dos arranjos poss\u00edveis e singulares \u00e9 a inscri\u00e7\u00e3o desse real sob a batuta do significante f\u00e1lico, ou n\u00e3o, ressoando o dizer de Lacan sobre a insond\u00e1vel decis\u00e3o do ser. O pr\u00f3prio Lacan vai assinalar como esse significante f\u00e1lico pode operar ao organizar e cernir uma borda nesse furo no real ao produzir um limite no gozo ilimitado, fora do sentido. Mas e o ser falante que n\u00e3o se inscreve a partir do significante f\u00e1lico, como \u00e9 que se faz? Esse modo nos coloca diante do ultim\u00edssimo ensino de Lacan, pois agora estamos nas amarra\u00e7\u00f5es singulares dos registros que cada um pode fazer para se orientar.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o pontap\u00e9 para a fala de Blanca Musachi, intitulada &#8220;Crian\u00e7as e adolescentes no mercado das identidades de g\u00eanero&#8221;, ao abrir um pouco mais essas amarra\u00e7\u00f5es poss\u00edveis fora do significante f\u00e1lico e, com isso, afirmar que onde come\u00e7a o campo do gozo acaba o binarismo, pois \u00e9 um campo de uma l\u00f3gica que est\u00e1 para al\u00e9m da l\u00f3gica f\u00e1lica. Essa l\u00f3gica da singularidade faz obje\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia de norma &#8211; pode ou n\u00e3o pode? &#8211; a qual \u00e9 fundada no binarismo. Lacan pensou nesse ponto ao criar o objeto <em>a<\/em>, umobjeto fora da norma e, continua Blanca, um objeto <em>queer<\/em> e <em>transidentit\u00e1rio<\/em>, habitando no falasser como uma alteridade irredut\u00edvel, como diferen\u00e7a absoluta, sem nenhuma simetria nem reciprocidade. Sabemos o quanto um certo discurso da ci\u00eancia pode entrar de maneira avassaladora nesse \u00ednterim ao excluir o sujeito sob a \u00f3tica de um reducionismo epistemol\u00f3gico e mesmo ontol\u00f3gico: onde fica a singularidade do falasser? \u00c9 com isso que Blanca prop\u00f5e uma esp\u00e9cie de tempo para dar lugar \u00e0s d\u00favidas quando estamos abordando essas quest\u00f5es na cl\u00ednica com crian\u00e7as e adolescentes. Parece n\u00e3o haver um tempo de compreender na contemporaneidade, passando-se imediatamente de um instante de ver a um momento de concluir, e isso tem consequ\u00eancias muitas vezes irrevers\u00edveis para o ser falante.<\/p>\n<p>J\u00e1 na fala de Eliane Costa Dias vemos uma retomadada importante precis\u00e3o feita por Oscar: precisamos diferenciar o fen\u00f4meno trans, produto e efeito dos discursos de uma \u00e9poca, e o sujeito trans, o ser falante que sofre por n\u00e3o se acomodar ao corpo e \u00e0 identidade que lhe foram designados desde o nascimento. Ela nos afirma que os transexuais, ao atestar o n\u00e3o funcionamento do significante f\u00e1lico, produzem, em contrapartida, a n\u00e3o operatividade da diferen\u00e7a sexual pensada a partir do elemento f\u00e1lico. E \u00e9 a\u00ed onde as bricolagens singulares de cada um com essas pe\u00e7as soltas, esses peda\u00e7os de real, podem reverberar nos corpos; corpos esses que, para a psican\u00e1lise, apresentam uma disjun\u00e7\u00e3o entre sujeito e corpo, significante e puls\u00e3o. Lacan no <em>Pref\u00e1cio a O Despertar da Primavera<\/em> afirma que a sexualidade faz furo no real e Eliane complementa ao afirmar que grande parte dos seres falantes se acomoda mais ou menos com esse furo, faz algo com esse furo, por\u00e9m os sujeitos trans s\u00e3o aqueles que n\u00e3o se acomodam, buscam com radicalidade nascer novamente, por sua pr\u00f3pria inven\u00e7\u00e3o corrigida, fazem-se um corpo, dando uma origem, montando-se um corpo, uma imagem, um g\u00eanero e um sexo. Retomando uma cita\u00e7\u00e3o de Samuel Beckett, na qual lemos: &#8220;tentemos de novo, fracassemos de novo, fracassemos melhor, a cada vez&#8221;, e que pode bem ser uma leitura poss\u00edvel a partir desse lugar &#8220;entre&#8221; do sujeito trans.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Integrante da Comiss\u00e3o de Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas da II Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul da EBP.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sujeito trans entre a cl\u00ednica e a pol\u00edtica Gustavo Ramos da Silva[1] No \u00faltimo dia 8 de setembro tivemos mais uma preparat\u00f3ria a II Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8220;Falar sobre o que n\u00e3o existe. Do gozo do sentido \u00e0s bricolagens poss\u00edveis&#8221;. 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