{"id":3317,"date":"2021-10-04T06:49:44","date_gmt":"2021-10-04T09:49:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3317"},"modified":"2021-10-04T06:49:44","modified_gmt":"2021-10-04T09:49:44","slug":"sobre-grupos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/sobre-grupos\/","title":{"rendered":"Sobre grupos*"},"content":{"rendered":"<h6>Romildo do R\u00eago Barros (AME, EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>De onde podemos partir para falar de grupo? Qualquer ideia de grupo em psican\u00e1lise \u00e9 devedora, caudat\u00e1ria, da ideia de que o sujeito encerra em si uma alteridade. Cada sujeito, em certo sentido, \u00e9 Outro dele mesmo, tendo uma abertura para o exterior que faz com que n\u00e3o exista sozinho. Homem algum \u00e9 uma ilha, como dizia o t\u00edtulo do livro de Thomas Merton.[1]\n<p>A alteridade em psican\u00e1lise se d\u00e1 como uma esp\u00e9cie de leque: da alteridade em rela\u00e7\u00e3o ao Outro \u00e0 alteridade em rela\u00e7\u00e3o ao objeto. S\u00e3o duas alteridades internas ao sujeito. Chamamos de alteridade aquilo que est\u00e1 \u2018dentro\u2019 do sujeito, mas nega sua ess\u00eancia. Podemos dizer que cada sujeito cont\u00e9m \u2018dentro\u2019 de si algo que nega sua interioridade. Esta \u00e9 uma maneira for\u00e7ada de dizer, pois, a rigor, n\u00e3o h\u00e1 dentro de si.<\/p>\n<p>Podemos tamb\u00e9m dizer que com a teoria freudiana da fantasia \u2013 cujo esbo\u00e7o podemos situar em 1897, em uma carta a Fliess (n. 69), Freud inaugura algo que \u00e9 essencial para entender a rela\u00e7\u00e3o que cada sujeito mant\u00e9m com a alteridade. \u00c9 a teoria da fantasia que nos permite entender que um sujeito possa conter dentro de si um objeto que, ao mesmo tempo, \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 ele mesmo. S\u00f3 atrav\u00e9s dela podemos situar a rela\u00e7\u00e3o que cada sujeito mant\u00e9m com um objeto, e que Lacan vai expressar com a f\u00f3rmula $ \u25ca a. Sem essa media\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o seria imposs\u00edvel, j\u00e1 que sujeito e objeto s\u00e3o heterog\u00eaneos, como diz Lacan em Kant com Sade.<\/p>\n<p>O sujeito \u00e9 uma alteridade em rela\u00e7\u00e3o a si pr\u00f3prio, no sentido de que cont\u00e9m dentro de si duas alteridades que negam a sua ess\u00eancia. \u00c9 por isso que o sujeito n\u00e3o pode ser definido essencialmente, j\u00e1 que nele h\u00e1 uma nega\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. O sujeito \u00e9 mais uma opera\u00e7\u00e3o do que uma ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Um sujeito somente pode ser definido em psican\u00e1lise se for levada em conta a sua complexidade, e, principalmente a complexidade que se encerra na ideia de dentro e fora: um dentro que est\u00e1 fora e um fora que est\u00e1 dentro. Ele \u00e9, ao mesmo tempo, uma esp\u00e9cie de afirma\u00e7\u00e3o e de nega\u00e7\u00e3o. A nega\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 aquilo que funciona como alteridade.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse sentido que Freud vai dizer que n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre psicologia individual e psicologia social. Para ele a psicologia do indiv\u00edduo \u00e9 a mesma do social, o sujeito tanto \u00e9 individual quanto social. Ele chega a essa afirma\u00e7\u00e3o partindo da ideia de que o sujeito n\u00e3o se confunde com o indiv\u00edduo, no sentido de que o sujeito n\u00e3o \u00e9 um corpo, que tem uma membrana que define o interior e o exterior como coisas separadas. O sujeito s\u00f3 \u00e9 sujeito na medida em que o exterior se combina com o interior e vice e versa. O sujeito \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que p\u00f5e em confronto o fora e o dentro, de tal maneira que o fora \u00e9 dentro e o dentro \u00e9 fora \u2013 diferente da gafieira do famoso samba de Billy Blanco, onde quem est\u00e1 fora n\u00e3o entra e quem est\u00e1 dentro n\u00e3o sai. A l\u00f3gica do sujeito \u00e9 outra.<\/p>\n<p><strong>Os grupos artificiais freudianos<\/strong><\/p>\n<p>Em 1921, Freud escreveu um texto important\u00edssimo, ao menos para a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, que chamou de Psicologia de grupo e an\u00e1lise do eu. Em um dos cap\u00edtulos usa o Ex\u00e9rcito e a Igreja como exemplos para discutir a quest\u00e3o dos grupos artificiais. O que \u00e9 um grupo artificial para Freud? Por que escolheu o Ex\u00e9rcito e Igreja? Freud fala dos grupos artificiais como uma esp\u00e9cie de resultante em um sistema de for\u00e7as que tem um vetor vertical, que se dirige ao chefe, e um horizontal, que se dirige ao irm\u00e3o, ao camarada, ao colega, aos pares, etc.<\/p>\n<p>Grupo freudiano n\u00e3o quer dizer que \u00e9 um grupo como Freud faria, mas ganha esse nome por ser uma teoriza\u00e7\u00e3o dele. Essa qualifica\u00e7\u00e3o do grupo como artificial \u00e9 importante, pois onde se pode encontrar o seu artif\u00edcio? \u00c9 de certa forma n\u00e3o poder saber que o grupo se mant\u00e9m por essa tens\u00e3o entre o amor vertical ao chefe e o amor horizontal aos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>O grupo artificial \u00e9 uma esp\u00e9cie de organiza\u00e7\u00e3o, de combina\u00e7\u00e3o que podemos desenhar em termos cartesianos numa linha vertical que se dirige ao Um, ao chefe, e uma linha horizontal que se dirige ao coletivo dos semelhantes, dos pares, dos irm\u00e3os, ou colegas. Todo grupo artificial se mant\u00e9m nessa tens\u00e3o entre dois vetores. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o, mas h\u00e1 qualquer coisa que faz com que essa tens\u00e3o n\u00e3o seja sentida. Imaginem o que seria do ex\u00e9rcito se, al\u00e9m da tens\u00e3o da guerra, os soldados sentissem a tens\u00e3o de estar em grupo? O que seria de um eclesi\u00e1stico se a quest\u00e3o da autoridade do Papa o deixasse sem dormir? Impedir que se sinta essa tens\u00e3o \u00e9 uma das tarefas do grupo artificial.<\/p>\n<p>O grupo artificial opera como tal porque ningu\u00e9m que est\u00e1 dentro dele sabe que se trata de um grupo artificial, j\u00e1 que a Igreja foi fundada por Deus, est\u00e1 prevista, portanto, desde a eternidade, e o Ex\u00e9rcito \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o perene que mant\u00e9m a integridade do solo p\u00e1trio. Essa tens\u00e3o \u00e9 eliminada atrav\u00e9s do que se chama em ci\u00eancia pol\u00edtica de ideologia. A ideologia \u00e9 uma esp\u00e9cie de pensamento que faz com que o fato do grupo se manter em constante tens\u00e3o n\u00e3o seja percebido. Se a tens\u00e3o for percebida, as coisas v\u00e3o mal. O extremo desse &#8220;as coisas v\u00e3o mal&#8221; aparece, no texto freudiano, na refer\u00eancia \u00e0 famosa passagem do livro de Judith no Antigo Testamento, quando ela corta a cabe\u00e7a de Holofernes e seu ex\u00e9rcito se dispersa. Essa \u00e9 a demonstra\u00e7\u00e3o freudiana: sem o chefe, o estado de tens\u00e3o aparece como ang\u00fastia; assim o grupo, como grupo artificial, n\u00e3o se mant\u00e9m.<\/p>\n<p>A melhor figura do chefe, tirando Deus, \u00e9 o pai. N\u00e3o qualquer pai, mas aquele suposto amar igualmente todos os filhos. Trata-se de um pai que recobre a contradi\u00e7\u00e3o que existe necessariamente entre o coletivo e o indiv\u00edduo. N\u00e3o \u00e9 verdade que o pai ame os filhos igualmente, mas \u00e9 preciso, para esse coletivo sobreviver, que haja a hip\u00f3tese de que o pai ama a todos igualmente. Se o pai ama diferentemente &#8211; e esta \u00e9 a trag\u00e9dia de Totem e Tabu &#8211; o coletivo se dissolve, ou, pelo menos, entra em crise. Uma ideologia faria acreditar que os irm\u00e3os s\u00e3o amados igualmente e que \u00e9 necess\u00e1rio que eles sejam assim amados, sob pena de que essa tens\u00e3o, essa montagem tensa entre o chefe e os irm\u00e3os, seja posta em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa montagem freudiana dos grupos exige uma consist\u00eancia extraordin\u00e1ria da fun\u00e7\u00e3o do Um. Que n\u00e3o seja necessariamente uma pessoa \u2013 que seja, por exemplo, um princ\u00edpio \u2013, mas, de qualquer forma, \u00e9 necess\u00e1rio, para esse grupo existir, que haja algo inquestion\u00e1vel. Nesse contexto, \u00e9 o Um que garante a consist\u00eancia do m\u00faltiplo e n\u00e3o o contr\u00e1rio, e \u00e9 nisto que esse grupo \u00e9 t\u00e3o particular. Hitler, por exemplo, n\u00e3o devia nada ao povo alem\u00e3o. Ali\u00e1s, quando j\u00e1 n\u00e3o havia mais esperan\u00e7a de vit\u00f3ria, parece que ele queria que o povo alem\u00e3o fosse destru\u00eddo, para que algo de puro finalmente aparecesse. Se os alem\u00e3es s\u00e3o incapazes de matar todos os judeus, que eles mesmos pere\u00e7am, pensava Hitler nessa \u00e9poca. Se os alem\u00e3es n\u00e3o eram capazes de fazer uma membrana que dividisse o exterior do interior, que perecessem. Voc\u00eas est\u00e3o vendo a l\u00f3gica extrema do grupo que Freud teoriza criticamente? Freud n\u00e3o era nem militar e nem religioso, era algu\u00e9m que usou a Igreja e o Ex\u00e9rcito quase como casos cl\u00ednicos.<\/p>\n<p><strong>A inconsist\u00eancia do Um e os pequenos grupos<\/strong><\/p>\n<p>Em 1939 come\u00e7a a Segunda Grande Guerra, que vai at\u00e9 1945. A carnificina de 1914 a 1918 j\u00e1 havia ocorrido na Europa. Na Segunda Guerra, a nega\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o topol\u00f3gica entre externo e interno \u00e9 levada \u00e0s consequ\u00eancias \u00faltimas, que s\u00e3o sempre consequ\u00eancias de sangue, de destrui\u00e7\u00e3o de corpos.<\/p>\n<p>Em 1945, um jovem psiquiatra franc\u00eas, Jacques Lacan, vai \u00e0 Inglaterra e conhece uma experi\u00eancia de grupo que se realizava no ex\u00e9rcito brit\u00e2nico, de sele\u00e7\u00e3o dos soldados que podiam voltar ao combate. Foi a partir do seu contato com essa experi\u00eancia que Lacan publicou, em 1947, um artigo importante para n\u00f3s que se chama A psiquiatria inglesa e a guerra.<\/p>\n<p>O texto de Lacan, apesar de n\u00e3o ter sido esta a sua inten\u00e7\u00e3o, pelo menos expressa, em um certo sentido \u00e9 uma resposta ao texto de Freud, depois da Europa ter experimentado esse retorno topol\u00f3gico, essa tentativa desesperada de separar o dentro do fora resultando em sangue. A destrui\u00e7\u00e3o da Europa seria a l\u00f3gica \u00faltima do texto freudiano. \u00c9 como se Lacan dissesse a Freud: &#8220;olhe o que pode acontecer se sobrevivemos ao que voc\u00ea est\u00e1 apontando \u2013 isso \u00e9, a hegemonia do Um sob a forma do nazi-fascismo \u2013, olha de que poderemos dispor&#8221;.<\/p>\n<p>Enquanto critica duramente a Fran\u00e7a, Lacan diz que a Inglaterra manteve sua dignidade. No caso, manter a dignidade era fazer com que um coletivo pudesse subsistir sem a garantia f\u00edsica do Um. A Inglaterra estava liquidada, estra\u00e7alhada, bombardeada, sem condi\u00e7\u00f5es de obter que o Um indicasse alguma dire\u00e7\u00e3o. Os pequenos grupos da psiquiatria inglesa s\u00e3o de certa forma uma antecipa\u00e7\u00e3o, como toda sobreviv\u00eancia \u00e9 uma forma de antecipa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea organiza hoje algo que s\u00f3 vai ganhar a sua raz\u00e3o de ser depois de mudadas as condi\u00e7\u00f5es que fizeram com que a experi\u00eancia fosse feita. Da cr\u00edtica freudiana \u00e0 experi\u00eancia lacaniana h\u00e1 um percurso extraordinariamente importante na hist\u00f3ria da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A ideia lacaniana n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanua do ponto de vista da democracia, e muito menos \u00e9 um protesto hist\u00e9rico contra a hegemonia do Um. \u00c9 uma maneira de tirar consequ\u00eancias desse quadro que foi descrito por Freud em 1921. S\u00f3 um g\u00eanio como Freud poderia montar as consequ\u00eancias \u00faltimas do que estava acontecendo na Europa, e do que ocorreria alguns anos depois.<\/p>\n<p><strong>A verdade e o real<\/strong><\/p>\n<p>Lendo com cuidado o texto de Lacan, percebemos uma an\u00e1lise rigorosa da situa\u00e7\u00e3o francesa. Eric Laurent observa que nessa \u00e9poca, em 1946, logo depois da guerra, ainda n\u00e3o havia o mito da Fran\u00e7a resistente, que foi uma inven\u00e7\u00e3o do general De Gaulle. Foi uma minoria que resistiu, como em qualquer lugar. Ent\u00e3o o que Lacan chama de ideologia inglesa se caracteriza como &#8220;uma rela\u00e7\u00e3o ver\u00eddica com o real&#8221;. Uma rela\u00e7\u00e3o na qual verdade e real se articulam, ao inv\u00e9s de se oporem. Isso tem tudo a ver com que eu estava dizendo at\u00e9 agora. A proposta de Bion visa articular verdade e real para que o real n\u00e3o seja representado pelo imperativo de gozo do supereu. \u00c9 nesse sentido que \u00e9 realista e \u00e9 combatente.<\/p>\n<p>Retomando &#8220;Psicologia coletiva e An\u00e1lise do Eu&#8221;. H\u00e1 na linha vertical uma rela\u00e7\u00e3o com o chefe e, na horizontal a rela\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os, pares, colegas, companheiros, como se queira. \u00c9 esta articula\u00e7\u00e3o entre o vertical e o horizontal que faz com que o grupo tenha uma rela\u00e7\u00e3o tensa, mas que possa permanecer, possa durar. Se o general perde a cabe\u00e7a, a tropa se dispersa. Esta \u00e9 a l\u00f3gica da psicologia coletiva. Se o S1 n\u00e3o responde, ocorre a dispers\u00e3o, justamente porque n\u00e3o se apresenta nenhuma dimens\u00e3o para sintomatizar a aus\u00eancia do Outro. Isso pode ser estruturado como o discurso de Lacan: se o S1 n\u00e3o se mostra capaz de galvanizar os coletivos, n\u00e3o se apresenta um sujeito do sintoma, ent\u00e3o h\u00e1 a dispers\u00e3o do coletivo. Isso \u00e9 elementar em pol\u00edtica. \u00c9 nessa rela\u00e7\u00e3o tensa entre a dimens\u00e3o do amor vertical ao chefe e a horizontal, do amor, do cimento entre os iguais, que a estrutura da psicologia coletiva freudiana de 1921 pode se manter tensamente, mas pode durar nesta articula\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas podem estruturar isso como o discurso do mestre.<\/p>\n<p>Se o S1 entra em fal\u00eancia, se o general perde a cabe\u00e7a, a \u00fanica sa\u00edda poss\u00edvel \u00e9 a dispers\u00e3o dos coletivos? Esta \u00e9 a pergunta de Bion. Ser\u00e1 que h\u00e1 uma sa\u00edda, dada a dificuldade dos grandes significantes mestres, que n\u00e3o seja a dispers\u00e3o p\u00e2nica dos coletivos ou a ordem de ferro supereg\u00f3ica? A margem de manobra n\u00e3o \u00e9 muito ampla, \u00e9 estreita. Laurent observa que Bion vai apostar nessa dimens\u00e3o horizontal e, com isso, cria um primeiro exemplo, para n\u00f3s pelo menos, do que vai poder inspirar Lacan na ideia dos cart\u00e9is e secundariamente na da Escola \u2013 isso que eu chamo, meio brincando, de sociologia lacaniana.<\/p>\n<p>Se pensarmos na fal\u00eancia do S1, n\u00e3o como uma crise de guerra, mas como um fen\u00f4meno da civiliza\u00e7\u00e3o, veremos que isso vai exigir muito mais da estrutura dos pequenos grupos. Vai exigir maior consist\u00eancia e durabilidade mais longa que o tempo de uma guerra. Se \u00e9 verdade que nossa civiliza\u00e7\u00e3o se caracteriza por uma n\u00e3o-resposta do Outro, pela inexist\u00eancia do Outro, \u00e9 preciso que haja grupos que saibam manejar a liga\u00e7\u00e3o horizontal entre os iguais. \u00c9 preciso uma nova estrutura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que n\u00e3o parta da ades\u00e3o de cada um ao chefe, mas da liga\u00e7\u00e3o horizontal entre os iguais sem que seja pela via de um \u2018todos iguais\u2019, que tende a restabelecer o Um sob a forma do pior \u2013 seja pela democracia de massas, do consumismo, seja pela dimens\u00e3o do imp\u00e9rio do supereu, de ordens insensatas.<\/p>\n<p>Tento mostrar uma diferen\u00e7a entre o que seria o uso dessa dimens\u00e3o horizontal sem a ilus\u00e3o do cl\u00e3 fraterno de Totem e Tabu, ou seja, o cl\u00e3 que s\u00f3 dura at\u00e9 o momento em que um dos irm\u00e3os diz: &#8220;O gozo do pai vai ser meu&#8221;, momento em que se dissolve. Esta \u00e9 a instabilidade da dimens\u00e3o horizontal. Ela n\u00e3o resiste \u00e0 reivindica\u00e7\u00e3o de gozo feita por um dos iguais. \u00c9 por isso que o \u2018todos iguais\u2019, em um pequeno grupo como o cartel ou um grande, tende a uma certa recupera\u00e7\u00e3o do universal.<\/p>\n<p>Sabe-se que Bion e alguns outros propuseram pequenos grupos que funcionavam mais ou menos autonomamente, em uma forma\u00e7\u00e3o m\u00ednima para uma situa\u00e7\u00e3o de desespero do Um, se posso dizer assim. Desta forma, algu\u00e9m na Inglaterra disse &#8220;n\u00e3o!&#8221; \u00e0 fatalidade de que quando o general desaparece as tropas gritam &#8220;salve-se quem puder&#8221;. \u00c9 poss\u00edvel no decl\u00ednio, na falta do general, em uma certa desmoraliza\u00e7\u00e3o do Um, formarem-se grupos relativamente aut\u00f4nomos que mant\u00eam a dignidade do social. Esse \u00e9 o elogio que Lacan faz aos ingleses. Eles foram capazes de manter a dignidade do social numa situa\u00e7\u00e3o totalmente adversa.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que, nesse texto de Lacan, h\u00e1 um elogio \u00e0 iniciativa de formar grupos quando existe uma falha no S1 (um de seus termos para formalizar a fun\u00e7\u00e3o do l\u00edder). Digamos que o S1 como chefia estava fraco, uma vez que a Inglaterra estava numa situa\u00e7\u00e3o de derrota militar at\u00e9 aquele momento. O S1 n\u00e3o podia ser representado fisicamente. Talvez um pouco mais tarde, com Churchill e outros, teremos os grandes homens que v\u00e3o inicialmente levantar os pa\u00edses derrotados e em seguida reconstruir a Europa no p\u00f3s-guerra. H\u00e1 uma l\u00f3gica nesse movimento que foi a maneira encontrada pelos ingleses de manterem uma consist\u00eancia horizontal, sem necessariamente fazerem o apelo ao Um muito consistente, fisicamente, na figura do chefe. Os pequenos grupos de Bion s\u00e3o uma inven\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica: isto quer dizer, precisamente, no contexto da guerra na Europa, que era preciso se pensar a lei sem que tenha necessariamente o corpo de um chefe.<\/p>\n<p><strong>Pequenos grupos<\/strong><\/p>\n<p>Grupo tem mais de uma dire\u00e7\u00e3o, mais de um caminho. Podemos pensar os grupos a partir das terapias grupais que, sem d\u00favida, tiveram sua origem ligada aos fen\u00f4menos da sociedade de massa. A cria\u00e7\u00e3o das terapias grupais tem a ver com o extraordin\u00e1rio avan\u00e7o democr\u00e1tico das massas, ou seja, a chegada das massas a um grau in\u00e9dito na hist\u00f3ria, tanto na pol\u00edtica, ou seja, democracia pura e simples, quanto na economia \u2013 para citar um exemplo, o consumo de massas. Ent\u00e3o, essa esp\u00e9cie de massifica\u00e7\u00e3o, que caracteriza a nossa democracia contempor\u00e2nea de uma forma sem precedentes, parece ter alguma liga\u00e7\u00e3o com a ideia de que, primeiramente, \u00e9 poss\u00edvel terapeutizar os grupos e, em segundo lugar, \u00e9 interessante terapeutiz\u00e1-los dentro de uma ideologia muito pr\u00f3xima do &#8220;time is money&#8221;.Haveria certos tipos de vantagens em abranger um grande n\u00famero de pessoas em um menor espa\u00e7o de tempo. Digamos que \u00e9 a vers\u00e3o capitalista da ideia de que os grupos s\u00e3o terapeutiz\u00e1veis, ou seja, s\u00e3o sujeitos ao tratamento terap\u00eautico como grupos.<\/p>\n<p>Temos de um lado as terapias de grupos, e, de outro, as formas de organiza\u00e7\u00e3o coletivas caracter\u00edsticas da \u00e9poca do Outro que n\u00e3o existe. Atualmente temos, como tend\u00eancia, \u2013 que n\u00e3o \u00e9 isolada do fen\u00f4meno democr\u00e1tico de massas que caracteriza o Ocidente hoje, e n\u00e3o s\u00f3 ele \u2013, formas de organiza\u00e7\u00e3o, de agrupamento, que n\u00e3o existiam anteriormente. Neste sentido, o comunitarismo \u00e9 uma tend\u00eancia contempor\u00e2nea de forma\u00e7\u00e3o de identidades a partir do pertencimento a uma comunidade cujos membros se reconhecem entre eles e est\u00e3o tamb\u00e9m do lado dos outros grupos numa certa estrutura\u00e7\u00e3o. Essa tend\u00eancia atual talvez exigisse de Freud uma reformula\u00e7\u00e3o da ideia que ele tinha do narcisismo das pequenas diferen\u00e7as. Talvez a fronteira que Freud tra\u00e7ou n\u00e3o fosse exatamente a mesma de hoje, dado que o que constitui de certa forma a l\u00f3gica do texto em 1921, &#8220;Psicologia coletiva (ou dos grupos) e an\u00e1lise do eu&#8221; \u00e9 essa esp\u00e9cie de agrupamento circundado por uma membrana que faz fronteira com o mundo absolutamente exterior. Podemos ver no comunitarismo que h\u00e1 uma esp\u00e9cie de interpenetra\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias comunidades, de forma que, quando se trabalha, pertence-se a uma, quando se est\u00e1 em casa, pertence-se a outra, quando se estuda, pertence-se a uma terceira. Existe uma esp\u00e9cie de interpenetra\u00e7\u00e3o que \u00e9 diferente do que Freud dizia, por exemplo, do portugu\u00eas que se op\u00f5e ao espanhol de tal maneira que \u00e9 sendo oposto ao espanhol que ele se define como portugu\u00eas. Esse \u00e9 um dos exemplos que Freud usa quando trabalha o narcisismo das pequenas diferen\u00e7as. Ali\u00e1s, no escrito &#8220;A psican\u00e1lise e seu ensino&#8221;, Lacan diz que o que Freud chama de narcisismo das pequenas diferen\u00e7as, deveria se chamar de &#8220;terrorismo conformista&#8221;.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos grupos h\u00e1, portanto, essas duas dire\u00e7\u00f5es que s\u00e3o t\u00edpicas de nossa \u00e9poca: a tend\u00eancia \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o de terapias grupais a partir da ideia de que um grupo como tal pode se submeter a uma terapia; e, do outro lado, o avan\u00e7o das novas formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva que s\u00e3o bem pr\u00f3prias da nossa \u00e9poca. Os exemplos dessas novas formas s\u00e3o o comunitarismo, as novas formas de seitas, que s\u00e3o bem diferentes das seitas trabalhadas por Ernst Troeltsch e Max Weber no final do s\u00e9culo XIX. Max Weber se aproxima um pouco do que Freud pensava no narcisismo das pequenas diferen\u00e7as, no sentido em que ele tratou do que hoje nem se chamaria de seita, a Igreja Batista. Weber a tratou como uma meton\u00edmia da Igreja, como alguma coisa que se destaca da Igreja. Hoje em dia n\u00e3o seria a \u00fanica forma de se criar uma seita, h\u00e1 seitas que se organizam ao redor de um chefe ou de um h\u00e1bito de vida (alimentar, sexual, laboral&#8230;) sem rela\u00e7\u00e3o meton\u00edmica com aquilo que seria uma igreja com pretens\u00e3o universal, como a cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Temos, ent\u00e3o, o comunitarismo, as seitas e os grupos sintom\u00e1ticos dos quais o Orkut e a internet est\u00e3o cheios, neste n\u00e3o se precisa de sintomas s\u00e9rios. &#8220;Eu odeio Galv\u00e3o Bueno&#8221; poderia ser um grupo sintom\u00e1tico. As pessoas se re\u00fanem em torno do \u00f3dio a Galv\u00e3o Bueno, ou &#8220;Eu amo Galv\u00e3o Bueno&#8221;. \u00c9 uma certa organiza\u00e7\u00e3o a partir de um tra\u00e7o, \u00e9 isso que \u00e9 caracter\u00edstico da dispers\u00e3o democr\u00e1tica da nossa \u00e9poca. \u00c9 poss\u00edvel fazer agrupamentos a partir de tra\u00e7os bastante discretos e isso, n\u00e3o obstante, constituiu um grupo perfeitamente bem formado, que tem uma certa dura\u00e7\u00e3o e um certo funcionamento.<\/p>\n<p>As terapias grupais seriam o correspondente psi, a resposta psi para os fen\u00f4menos de massifica\u00e7\u00e3o. Seriam o correspondente dos fen\u00f4menos de massifica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica que se encontram, nos dias de hoje, na pol\u00edtica, na democracia propriamente dita \u2013 capitalista e basicamente ocidental &#8211; e na economia. O maior exemplo talvez seja a estrutura do consumo. Na produ\u00e7\u00e3o poder\u00edamos achar outra coisa, mas no consumo me parece mais evidente. N\u00e3o \u00e9 somente por ironia que digo que as terapias grupais correspondem a um certo uso do &#8220;time is money&#8221;: elas s\u00e3o uma esp\u00e9cie de otimiza\u00e7\u00e3o que somente \u00e9 poss\u00edvel de ser pensada se tratarmos o tempo como mercadoria. Se quisermos nos aprofundar nisso, podemos estudar as grandes teorias do final do s\u00e9culo XIX que lidam com a administra\u00e7\u00e3o. O taylorismo e o fordismo no s\u00e9culo XX, por exemplo, demonstram como \u00e9 que se otimiza a produ\u00e7\u00e3o dando um novo tratamento ao tempo. O tempo passa a ser um elemento concreto na produ\u00e7\u00e3o da mercadoria, a tal ponto que se torna ele pr\u00f3prio uma mercadoria: este \u00e9 o sentido mais apropriado da express\u00e3o &#8220;time is money&#8221;. N\u00e3o quer dizer apenas que n\u00e3o podemos perder tempo, mas tamb\u00e9m que o tempo, como tal, pode ser tratado como mercadoria. Ele pode ser mensurado, quantificado como qualquer mercadoria. E o tempo tem uma moeda padr\u00e3o a ser definida.<\/p>\n<p><strong>Do &#8220;time is money&#8221; ao Realismo de Combate<\/strong><\/p>\n<p>O texto de Laurent &#8220;O real e o grupo&#8221;, discute algo interessante para n\u00f3s. A partir de um coment\u00e1rio do texto de 1946, de Lacan, &#8220;A psiquiatria inglesa e a guerra&#8221;, Laurent se det\u00e9m um pouco no realismo em que Lacan se situa, pois ele se situa numa posi\u00e7\u00e3o realista. Essa posi\u00e7\u00e3o exigia, na \u00e9poca, uma certa coragem j\u00e1 que o realismo &#8211; Laurent explica &#8211; era o argumento dos colaboradores do nazi-fascismo. De modo que Lacan, se filiando ao realismo, exige ser bem entendido, numa \u00e9poca em que as feridas ainda estavam abertas, pois havia um ano que a guerra havia terminado.<br \/>\n&#8220;Realismo de combate&#8221; \u00e9 a express\u00e3o que \u00c9ric Laurent usa. Ser\u00e1 que poder\u00edamos aproveitar essa express\u00e3o? Por exemplo: realismo de combate poderia inspirar algu\u00e9m do Diga\u00ed-Mar\u00e9 a defender a ideia de trabalho em grupo. Como se faz uma terapia ou um tratamento cl\u00ednico em grupo sem que seja simplesmente sob a estrita forma do &#8220;time is money&#8221;? Esta seria uma maneira de trabalhar dentro de uma perspectiva lacaniana, dentro do realismo de combate proposto por Lacan em 1946. E combate requer um inimigo \u2013 o que, ali\u00e1s, caracteriza o texto de Bion, que ser\u00e1 comentado posteriormente.<\/p>\n<p>O realismo de combate sup\u00f5e uma fal\u00eancia das grandes utopias. Diante de uma grande utopia, voc\u00ea n\u00e3o precisa ser realista. Ali\u00e1s, quanto mais se \u00e9 realista, pior. O realismo de combate se torna necess\u00e1rio se voc\u00ea est\u00e1 fora das grandes utopias universalizantes. O realismo de combate \u00e9 alguma coisa que, como se diz do diabo, est\u00e1 nos detalhes. O realismo implica um certo pragmatismo, um certo julgamento detalhe por detalhe, diferente da justificativa universal de uma grande utopia. Por exemplo: tudo que eu fa\u00e7o serve ao socialismo, ou tudo que eu fa\u00e7o serve \u00e0 ra\u00e7a branca. Trata-se de uma grande justificativa ideol\u00f3gica, universal, que pode ser aplicada a qualquer comportamento. A grande utopia n\u00e3o precisa desse tratamento de detalhe, que vigora justamente quando faltam grandes princ\u00edpios e orienta\u00e7\u00e3o universais. A Inglaterra estava arrebentada, estava se reorganizando para poder fazer o \u00faltimo esfor\u00e7o de guerra que a levaria \u00e0 vit\u00f3ria. Assim, aos psiquiatras e psicanalistas ingleses &#8211; Bion e Richmann, por exemplo &#8211; s\u00f3 foi poss\u00edvel propor uma rea\u00e7\u00e3o a partir justamente da descentraliza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o necessariamente por um gosto democr\u00e1tico, o que os aproximaria das utopias, mas pelo simples fato de que o Outro n\u00e3o respondia. H\u00e1 um significante mestre que n\u00e3o responde, como os nossos atuais telefones: o n\u00famero chamado n\u00e3o responde, pode deixar a sua mensagem na caixa postal.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, observa Laurent, que Lacan associa realismo ao hero\u00edsmo. O realismo \u00e9 algo \u00e0s vezes pejorativo \u2013 se, por exemplo, digo que fulano \u00e9 realista, isso pode significar que ele \u00e9 oportunista, que ele topa qualquer neg\u00f3cio, bastando que tenha algum ganho. Contrariamente a essa ideia, Lacan associa o realismo ao hero\u00edsmo. Ser realista, nessa \u00e9poca, era uma forma de hero\u00edsmo no sentido de que era uma proposi\u00e7\u00e3o que visava provocar efeitos numa situa\u00e7\u00e3o em que as iniciativas tinham que ser dispersas. Pode-se ver o nascedouro mais remoto da ideia do cartel. A ideia de que \u00e9 poss\u00edvel uma produ\u00e7\u00e3o interessante para um grande coletivo \u2013 para a Inglaterra ou para a Escola \u2013 a partir de um trabalho disperso e plural, pois um cartel n\u00e3o tem nada a ver com outro; eles podem, no mesmo momento, discutir assuntos bastante diferentes. \u00c9 poss\u00edvel que essa fal\u00eancia dos grandes ideais seja provis\u00f3ria, mas, enfim, \u00e9 uma crise dos nossos tempos, que j\u00e1 existia na \u00e9poca da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Estou tentando margear o texto &#8220;O real e o grupo&#8221; de \u00c9ric Laurent. Diante de alguma dificuldade nos significantes mestres, de uma certa crise no Outro, no Outro universal \u2013 crise religiosa, pol\u00edtica, democr\u00e1tica, econ\u00f4mica&#8230; enfim, uma crise nas grandes unidades \u2013, h\u00e1 muitas maneiras de se criarem respostas m\u00faltiplas e diversas. A resposta de Bion e Richmann, e do cartel de Lacan, s\u00e3o exemplos, mas podemos pensar igualmente nas terapias grupais e no princ\u00edpio do &#8220;time is money&#8221;, podemos pensar na ideologia democr\u00e1tica do &#8220;s\u00e3o todos iguais&#8221;. &#8220;S\u00e3o todos iguais&#8221; \u00e9 uma maneira de se retomar o universal. A discuss\u00e3o de Lacan \u00e9 precisamente essa: qual \u00e9 a alternativa democr\u00e1tica ao &#8220;s\u00e3o todos iguais&#8221; que \u00e9 o nosso correspondente do &#8220;time is money&#8221; e das terapias grupais fundadas na otimiza\u00e7\u00e3o do tempo e da produ\u00e7\u00e3o? Essa me parece que est\u00e1 nos fundamentos do trabalho de Lacan de 1946 e tamb\u00e9m, claro, no trabalho do pr\u00f3prio Bion.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel pensar em pequenos grupos que teriam a tarefa de preservar singularidades? Esta indaga\u00e7\u00e3o interessou a Bion, e sem d\u00favida ter\u00e1 ocorrido tamb\u00e9m a Lacan. Ser\u00e1 que \u00e9 poss\u00edvel uma alternativa em que a singularidade, mesmo sintom\u00e1tica, possa ser preservada? Essa \u00e9 uma pergunta que o &#8220;time is money&#8221; como princ\u00edpio n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de responder. Ent\u00e3o se v\u00ea que Lacan insiste na import\u00e2ncia dessa proposta e dessa pr\u00e1tica de Bion que n\u00e3o interessaria somente \u00e0 sa\u00fade mental ou \u00e0 psican\u00e1lise, mas a toda a sociedade, como diz Lacan no texto de 1946. Isso \u00e9 discrepante com a ideologia das terapias em grupo que visam o universal.<\/p>\n<p>Podemos dividir a\u00ed estrat\u00e9gias cl\u00ednicas de grupo. Podemos pensar nessa estrat\u00e9gia bem pr\u00f3pria do &#8220;time is money&#8221;, da otimiza\u00e7\u00e3o e do aumento do n\u00famero de pessoas atendidas num menor per\u00edodo de tempo poss\u00edvel, sendo uma esp\u00e9cie de correspondente psi do taylorismo, do fordismo e das grandes teorias da gest\u00e3o industrial no Ocidente.<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 ideia de que o grupo em si \u00e9 multiforme. Existe mais de uma maneira de pensarmos para que serve, como estruturar, em qu\u00ea medida \u00e9 justo e \u00e9 \u00fatil o funcionamento em grupos. Isso interessa ao Diga\u00ed-Mar\u00e9 intimamente, inclusive para seu pr\u00f3prio funcionamento. A partir disso, poder\u00edamos distinguir as terapias grupais do &#8220;time is money&#8221;, isso \u00e9, uma otimiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica do uso do tempo, de um manejo de grupos no qual n\u00e3o se tenha que abrir m\u00e3o do que caracteriza o sujeito propriamente: a sua singularidade, que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que individualidade &#8211; sobre o que Lacan insiste desde sempre.<\/p>\n<p>D\u00e1 para entender essa dupla porta de sa\u00edda? Terapias grupais &#8220;time is money&#8221;, de um lado, e, do outro, experi\u00eancias cl\u00ednicas em grupo a partir da insist\u00eancia na singularidade. A ideia de produtividade \u00e9 completamente diferente. Nas teorias grupais do &#8220;time is money&#8221; trata-se de uma esp\u00e9cie de taylorismo, de fordismo, das grandes teorias da gest\u00e3o capitalista. Foi feito para isso, n\u00e3o \u00e9 culpa de ningu\u00e9m. Ent\u00e3o, a pergunta de Lacan que \u00e9 tamb\u00e9m a nossa, e do Diga\u00ed-Mar\u00e9, \u00e9 se \u00e9 poss\u00edvel o acesso cl\u00ednico dos grupos sem que seja atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de otimiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse panorama geral faz com que a discuss\u00e3o se d\u00ea no seguinte plano: h\u00e1 uma cl\u00ednica de grupos que n\u00e3o se pauta pelo universal. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas isso seria uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. Com Lacan isso talvez n\u00e3o seja uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. \u00c9 por esse motivo que, quando se fala em grupos, \u00e9 necess\u00e1rio dizer sobre o qu\u00ea se est\u00e1 falando.<\/p>\n<p><strong>A &#8220;impot\u00eancia neur\u00f3tica&#8221; de Bion<\/strong><\/p>\n<p>O texto de Bion sobre as tens\u00f5es internas tem um ponto que me interessou muito. Trata-se de uma frase que se encontra na apresenta\u00e7\u00e3o, na segunda divis\u00e3o do texto. Ele est\u00e1 falando dos grupos que vai formar: &#8220;Sem d\u00favida era preciso prever que algumas das atividades organizadas nesse espa\u00e7o fossem militares, outras civis&#8221;. Parece existir uma esp\u00e9cie de dramatiza\u00e7\u00e3o desses grupos, uma esp\u00e9cie de reprodu\u00e7\u00e3o em miniatura do funcionamento do mundo. Mas o que mais me interessou vem agora: &#8220;Atividades militares, atividades civis e outras ainda que fossem a express\u00e3o da impot\u00eancia neur\u00f3tica dos doentes&#8221;. O que caracterizava os grupos de Bion, portanto, era a proposta de atividades precisas que se subdividiam em:<\/p>\n<p>1. atividades militares<br \/>\n2. atividades civis<br \/>\n3. atividades neur\u00f3ticas (Risos)<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 interessante? Voc\u00eas riem porque as atividades neur\u00f3ticas, em geral, n\u00e3o est\u00e3o no mesmo plano das civis ou militares. O mundo n\u00e3o se divide entre militares, civis e neur\u00f3ticos, justamente porque h\u00e1 neur\u00f3ticos que s\u00e3o militares e outros que s\u00e3o civis. Ent\u00e3o, n\u00e3o se pode dividir essas atividades em tr\u00eas categorias, sendo que uma das quais \u00e9 completamente diferente das duas outras. Se aqueles que s\u00e3o militares deixam de ser civis, n\u00e3o \u00e9 por isso que deixar\u00e3o de ser neur\u00f3ticos. V\u00ea-se que h\u00e1 uma ruptura, h\u00e1 algo discrepante. O que me pareceu mais genial foi a ideia de propor tr\u00eas tipos de atividades onde uma n\u00e3o tem nada a ver com as outras duas. A impot\u00eancia neur\u00f3tica dos doentes n\u00e3o diz nada sobre as for\u00e7as armadas e nem sobre a sociedade civil. E, no entanto, Bion escreve como tr\u00eas tipos de atividades propostas para os pequenos grupos. Parece que a pedra de toque, o tra\u00e7o genial desses pequenos grupos foi, por um lado, fazer um grupo como o mundo inteiro, entre militares e civis, no plano das atividades, mas incluindo, por outro, no cora\u00e7\u00e3o dos grupos, a dimens\u00e3o sintom\u00e1tica. Se voc\u00ea inclui dentro dos grupos a dimens\u00e3o sintom\u00e1tica, ao que tudo indica, voc\u00ea rompe com o &#8220;time is money&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se pode dizer que o mundo \u00e9 composto universalmente de militares e civis, porque h\u00e1 uma dimens\u00e3o que descompleta esse universal e que se chama &#8220;os neur\u00f3ticos&#8221;. N\u00e3o \u00e9 uma beleza? Bion pensou nisso de tal maneira que o universal n\u00e3o precisava dos neur\u00f3ticos, o mundo de fato se divide em militares e civis. H\u00e1 a\u00ed uma esp\u00e9cie de paradoxo que ele inventou e que \u00e9 muito bonito. A gente diz que todo mundo que n\u00e3o \u00e9 militar \u00e9 civil. Neste ponto ele diz que n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade: existem as atividades civis, as atividades militares, e existe al\u00e9m delas uma fonte de ruptura dessa complementariedade, que se chama o sintoma. \u00c9 a partir disso que Bion pode propor atividades que n\u00e3o negam os rateios, as dificuldades, os trope\u00e7os da neurose, porque h\u00e1 atividades propriamente neur\u00f3ticas, para os militares e para os civis.<\/p>\n<p>Parece-me que no texto de Bion j\u00e1 existe uma ideia de como um grupo que tende ao universal pode ser descompletado. E o que \u00e9 o universal? O universal da humanidade \u00e9 o somat\u00f3rio dos militares e civis: os que n\u00e3o s\u00e3o militares s\u00e3o civis. Somando-os, temos a humanidade. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que n\u00e3o seja nem militar nem civil, por\u00e9m s\u00e3o descompletados pela dimens\u00e3o sintom\u00e1tica. Este \u00e9 o tra\u00e7o que permite que um pequeno grupo n\u00e3o seja universal. Deve-se lembrar que o fato de o grupo ser pequeno n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja universal. O fato de ter uma dimens\u00e3o que descompleta o somat\u00f3rio \u00e9 o que assegura que n\u00e3o seja universal. A dimens\u00e3o sintom\u00e1tica racha com a inteireza do somat\u00f3rio de militares e civis.<\/p>\n<p>Podemos ver que essas atividades baseadas na impot\u00eancia neur\u00f3tica dos doentes se espalham. Podemos ter uma atividade neur\u00f3tica na ordem unida dos quart\u00e9is, ou na tarefa de cozinhar ou fazer um memorando, ou qualquer coisa assim. Essa divis\u00e3o, ainda que talvez n\u00e3o seja nisso que Bion estivesse pensando diretamente, est\u00e1 inteiramente de acordo com o que podemos chamar de &#8220;sociologia lacaniana&#8221;. A &#8220;sociologia lacaniana&#8221; possui um elemento que descompleta o universal, da\u00ed a Escola, o cartel, o passe e etc.<\/p>\n<p><strong>Regulamentos<\/strong><\/p>\n<p>Havia um regulamento preciso, afinal esses grupos eram feitos para militares, por\u00e9m h\u00e1 um fundo ir\u00f4nico porque cada ordem, cada exig\u00eancia do regulamento, \u00e9 furada. O regulamento seguinte foi comunicado aos cem homens que compunham o servi\u00e7o:<\/p>\n<p>1. Todos os homens s\u00e3o obrigados a fazer uma hora de exerc\u00edcio f\u00edsico por dia, salvo se apresentarem um certificado m\u00e9dico (os it\u00e1licos s\u00e3o meus);<br \/>\n2. Todos os homens devem aderir a uma ou a v\u00e1rias das seguintes atividades: trabalhos manuais; cursos de correspond\u00eancia organizados pelo Ex\u00e9rcito; marcenaria; cartografia; constru\u00e7\u00e3o de maquetes etc&#8230;<br \/>\n3. \u00c9 permitido a cada homem formar um novo grupo, seja porque n\u00e3o existe ainda o tipo de atividade que ele deseja, seja porque, por uma raz\u00e3o qualquer, \u00e9 imposs\u00edvel para ele aderir a um dos grupos j\u00e1 existentes.<br \/>\n4. Todo homem que n\u00e3o se sinta em condi\u00e7\u00f5es de assistir as reuni\u00f5es do seu grupo deve se dirigir \u00e0 sala de repouso.<br \/>\n\u00c9 um texto ir\u00f4nico, e Lacan foi sens\u00edvel a esta dimens\u00e3o. Podemos observar que a reda\u00e7\u00e3o de Bion \u00e9 muito esclarecida. Ele usa essa articula\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas tipos de atividades fazendo com que a dimens\u00e3o neur\u00f3tica dos soldados seja levada em considera\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o das tarefas. O regulamento j\u00e1 inclui a impot\u00eancia neur\u00f3tica: voc\u00ea \u00e9 obrigado a isso, salvo se n\u00e3o quiser ou n\u00e3o puder (Risos).<\/p>\n<p>Se o Outro universal n\u00e3o responde, qual \u00e9 o risco que correm os sujeitos? \u00c9 de que os imperativos sejam supereg\u00f3icos, sejam puros imperativos de gozo. Esse \u00e9 o sintoma da fal\u00eancia do Outro, ou dos significantes mestres, dos princ\u00edpios universais. A corre\u00e7\u00e3o: se Deus n\u00e3o existe, nada \u00e9 permitido, e n\u00e3o tudo \u00e9 permitido. Lacan discute essa afirma\u00e7\u00e3o. Se nada \u00e9 permitido, significa que tudo ser\u00e1 feito a partir do imperativo do supereu. A ironia bioniana, o realismo de combate em termos lacanianos, \u00e9 uma maneira de ir contra o imp\u00e9rio do supereu, que \u00e9 a alternativa aos significantes mestres quando estes est\u00e3o em fal\u00eancia. Podemos observar isso nas guerras, em pequenos e grandes grupos.<\/p>\n<p>Reintroduzir a dimens\u00e3o sintom\u00e1tica nessa grande divis\u00e3o da humanidade entre civis e militares significa combater o supereu como imperativo de gozo, como um &#8220;goza!&#8221; sem sentido. Este \u00e9 o imperativo supereg\u00f3ico no momento em que o Outro n\u00e3o responde, ou seja, quando uma utopia universal n\u00e3o responde. O primeiro efeito disso \u00e9 o imp\u00e9rio do supereu como objeto. Se voc\u00eas lerem &#8220;A banalidade do mal&#8221; de Hannah Arendt, quando ela descreve Adolf Eichmann, ter\u00e3o exatamente a id\u00e9ia do que significa o supereu como legisla\u00e7\u00e3o, e v\u00e3o lembrar que Lacan definiu certa vez o supereu como &#8220;lei insensata&#8221;.<\/p>\n<p>Continuando com Bion:<\/p>\n<p>5. A sala de repouso ficar\u00e1 a cargo de um enfermeiro militar e dever\u00e1 ser mantida tranquila para a leitura, a escrita ou jogos silenciosos como o jogo de damas.<br \/>\n6. O enfermeiro poder\u00e1 autorizar conversas em voz baixa sob a condi\u00e7\u00e3o de que os outros doentes n\u00e3o sejam incomodados.<br \/>\n7. Os doentes excessivamente cansados para se dedicarem a alguma atividade encontrar\u00e3o espregui\u00e7adeiras onde poder\u00e3o se deitar.<\/p>\n<p>Todas as frases carregam uma esp\u00e9cie de remodela\u00e7\u00e3o na linha seguinte. Bion come\u00e7a com a pura obrigatoriedade militar do \u2018para todos\u2019 e de repente cada universal tem uma modula\u00e7\u00e3o que \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o neur\u00f3tica no regulamento militar. Fiquei realmente encantado com esse texto, justamente com a ideia de que um pequeno grupo deve introduzir, em sua pr\u00f3pria legalidade, a dimens\u00e3o sintom\u00e1tica. \u00c9 isso que evita que a alternativa dada \u00e0 fal\u00eancia do Outro seja o imp\u00e9rio supereg\u00f3ico, o dom\u00ednio do imperativo do gozo, o supereu na sua dimens\u00e3o de objeto.<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel entender essa dimens\u00e3o ou essa forma de organiza\u00e7\u00e3o que estou chamando de ir\u00f4nica como um combate pela civiliza\u00e7\u00e3o. Nos grupos de Bion, e certamente na estrutura que Lacan vai pensar vinte anos depois para a Escola, existe a ideia de que h\u00e1 uma estrutura de combate, para usar o termo de Laurent. H\u00e1 algo de militar, introduzindo o que h\u00e1 de impot\u00eancia neur\u00f3tica dos doentes.<\/p>\n<p>Vejam uma frase forte de Laurent que tem tudo a ver com isso: &#8220;Se a psican\u00e1lise \u00e9 apresentada na sua dimens\u00e3o de efic\u00e1cia social, &#8211; como algo eficaz socialmente -, \u00e9 na medida em que ela \u00e9 instrumento de luta contra a morte, a morte que est\u00e1 em processo na civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;. Podemos fazer uma linha que vai do grupo de Bion at\u00e9 o Diga\u00ed-Mar\u00e9, no sentido de que se prop\u00f5e uma alternativa contra a morte na e da civiliza\u00e7\u00e3o. Parece algo meio grandioso, mas \u00e9 como o diabo, \u00e9 no detalhe que est\u00e1 a chave.<\/p>\n<p><strong>Da Escola de Lacan<\/strong><\/p>\n<p>Laurent prop\u00f5e uma aproxima\u00e7\u00e3o essencial entre os grupos de Bion e o &#8220;cartel&#8221;. O cartel \u00e9 um pequeno grupo de trabalho, sem l\u00edder, voltado sobretudo para o estudo e elabora\u00e7\u00e3o de textos, mas igualmente para realiza\u00e7\u00e3o de pequenas tarefas que Lacan, coloca na base da institui\u00e7\u00e3o criada por ele, a Escola. Se \u00e9 verdade que os pequenos grupos de Bion s\u00e3o ancestrais do cartel lacaniano, pode-se dizer que a Escola de Lacan descende do cartel.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, o &#8220;Ato de funda\u00e7\u00e3o da Escola Freudiana de Paris&#8221;, de 1964, em que Lacan define o cartel, \u00e9 um texto can\u00f4nico, pois \u00e9 a consequ\u00eancia, a formaliza\u00e7\u00e3o institucional, do que talvez tenha come\u00e7ado como uma intui\u00e7\u00e3o na visita de Lacan \u00e0 Inglaterra. A forma grupal proposta por Lacan com o termo Escola seria o desdobramento institucional da ideia de que \u00e9 poss\u00edvel haver grupos relativamente aut\u00f4nomos que possam trabalhar para um Um que n\u00e3o precisa necessariamente ser corporificado.<\/p>\n<p>O inovador na proposta de voc\u00eas do Diga\u00ed parte deste ponto. Voc\u00eas buscam o outro lado deste desdobramento, o lado cl\u00ednico do tema do pequeno grupo, a partir do cartel.<\/p>\n<p>Se a primeira perna da Escola \u00e9 o cartel, a outra \u00e9 o passe. \u00c9 mais uma experi\u00eancia criada por Lacan para ver como readmitir uma exterioridade. Uma an\u00e1lise que se faz na confid\u00eancia, como pode ela retornar ou se dirigir ao coletivo? \u00c9 uma pergunta dif\u00edcil, que s\u00f3 pode ser respondida um a um. N\u00e3o se pode fazer uma regra geral para esse retorno. \u00c9 por isso que a transmiss\u00e3o dos passes se d\u00e1 sob a forma de testemunhos. Testemunho quer dizer: aquilo que eu disse e que ningu\u00e9m nunca vai dizer igual.<\/p>\n<p>A orienta\u00e7\u00e3o lacaniana e o passe servir\u00e3o para isso, servir\u00e3o para que algu\u00e9m consiga ter uma fun\u00e7\u00e3o na Escola evitando as cis\u00f5es entre os grupos.<\/p>\n<p>Para que o funcionamento do grupo seja poss\u00edvel sem a refer\u00eancia direta ao Um sob a forma de um corpo, \u00e9 preciso que o grupo tenha um ponto de fuga, que mostra sua precariedade. O que Lacan aprendeu com os grupos ingleses vai funcionar nos cart\u00e9is e vai funcionar no passe. Quem vai dar o seu testemunho no passe \u00e9 ao mesmo tempo um sujeito que vai falar da sua an\u00e1lise a partir de um ponto externo \u2013 muito do que ter\u00e1 a dizer n\u00e3o \u00e9 &#8220;coletiviz\u00e1vel&#8221; -, e ao mesmo tempo se endere\u00e7a ao coletivo e em parte foi at\u00e9 inspirado pelo coletivo.<\/p>\n<p>O passe e os cart\u00e9is, pelo menos idealmente, s\u00e3o uma forma de tratamento permanente da Escola, se tenho raz\u00e3o em pensar que s\u00e3o duas subestruturas lacanianas que levam em conta um ponto de fuga que n\u00e3o \u00e9 o bode expiat\u00f3rio. Uma forma de tratamento da Escola, no sentido de que a Escola somente subsiste, como se dizia na minha gera\u00e7\u00e3o, como luta permanente.<\/p>\n<p>A Escola quer ser mais do que uma institui\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o de psicanalistas. Nela est\u00e1 contida uma cr\u00edtica ativa, pr\u00e1tica e te\u00f3rica ao funcionamento social como tal. A Escola \u00e9 um coment\u00e1rio vivo sobre a democracia, se posso me exprimir assim; \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que exige a democracia, por ser logicamente posterior ao assassinato do Pai, por\u00e9m sem se iludir com a igualdade dos irm\u00e3os na l\u00f3gica de Totem e Tabu. A Escola \u00e9 posterior ao assassinato do pai, sem que com isto signifique a igualdade dos irm\u00e3os e o puro dom\u00ednio da justi\u00e7a distributiva, que, como voc\u00eas sabem, \u00e9 uma coisa da qual Lacan vai falar criticamente. \u00c9 uma proposta pol\u00edtico-institucional que se coloca num patamar acima do cl\u00e3 fraterno de Totem e Tabu, sem a ilus\u00e3o de que a fam\u00edlia seja um para\u00edso.<\/p>\n<p>E por que a fam\u00edlia n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso? \u00c9 porque o coletivo dos irm\u00e3os depende da cria\u00e7\u00e3o de um bode-expiat\u00f3rio. Eu gosto dos meus irm\u00e3os se n\u00f3s dois juntos nos unirmos contra um terceiro. N\u00f3s somos tr\u00eas amigos; um vai pra casa e os outros dois ficam falando mal daquele que saiu. A rela\u00e7\u00e3o entre esses dois depende de criticar o terceiro, que, no entanto, todos amam. E se amanh\u00e3 falo com esse terceiro, &#8220;pau&#8221; no segundo. Isso \u00e9 uma l\u00f3gica que faz com que um coletivo somente subsista se tem um ponto de exterioridade, o que \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia. O ponto de exterioridade, por exemplo, de Hitler, eram os judeus. &#8220;O Ocidente est\u00e1 amea\u00e7ado pelos judeus&#8221;: n\u00e3o pelos judeus propriamente, mas pelos judeus do del\u00edrio de Hitler, que se teriam apossado de todo o saber e de todo o dinheiro, e est\u00e3o amea\u00e7ando a exist\u00eancia do povo alem\u00e3o: que sejam exterminados, ent\u00e3o. A l\u00f3gica implac\u00e1vel ser\u00e1: mortos os judeus, teremos que matar os alem\u00e3es. Esta l\u00f3gica n\u00e3o p\u00e1ra, ela devora os pr\u00f3prios filhos, como dizia Trotsky da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Escola n\u00e3o \u00e9 natural. Natural \u00e9 o grupo com lideran\u00e7a. A Escola \u00e9 um efeito de interpreta\u00e7\u00e3o, enquanto que o grupo \u00e9 natural. E \u00e0s vezes a interpreta\u00e7\u00e3o precisa ser feita v\u00e1rias vezes. Ser\u00e1 que n\u00e3o era isso o que estava atr\u00e1s da proposta do Miller em Turim quando falou da Escola como sujeito? A Escola como sujeito \u00e9 aquela capaz de fazer sintoma dos seus pontos de exterioridade. \u00c9 aquela capaz de oferecer um sintoma \u00e0s suas alteridades.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Notas<br \/>\n* Este texto resulta de uma edi\u00e7\u00e3o realizada por Marcus Andr\u00e9 Vieira de duas confer\u00eancias apresentadas para o coletivo de trabalho do Diga\u00ed-Mar\u00e9 nos dias 29 de mar\u00e7o e 17 de maio de 2007 (transcri\u00e7\u00e3o: Leandro Reis e revis\u00e3o: Tatiane Grova). Agradecemos a Romildo por ter gentilmente aceito que in\u00fameros desenvolvimentos tenham sido deixados de lado neste texto em prol da concis\u00e3o.<br \/>\n* As refer\u00eancias para o que segue s\u00e3o: LAURENT, E. O real e o grupo. In: BROWN, N (ORG). Cartel, novas leituras. Belo Horizonte: EBP, 2021, p 33-48. Tradu\u00e7\u00e3o: Vera Avellar Ribeiro. O estudo pelo grupo de suas tens\u00f5es internas BION, W.R. Experi\u00eancias com grupos: os fundamentos da psicoterapia de grupo. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1970. Apresenta\u00e7\u00e3o: Tens\u00f5es intragrupais na terap\u00eautica, p.3-18., onde Bion explica a montagem dos pequenos grupos no ex\u00e9rcito. &#8220;A psiquiatria inglesa e a guerra&#8221;, publicado em 1947 (Ref.: LACAN, J. A psiquiatria inglesa e a guerra. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.) Vamos nos apoiar nessas refer\u00eancias, al\u00e9m da &#8220;Psicologia de grupo e an\u00e1lise do eu&#8221; de 1921. Finalmente, h\u00e1 a Proposi\u00e7\u00e3o de 1967, em que Lacan prop\u00f5e que o termo Massen, que faz parte do t\u00edtulo do texto de Freud, seja traduzido \u2013 naquela \u00e9poca, ou seja, final dos anos 60 e in\u00edcio da d\u00e9cada de 70 \u2013 como grupo, de modo que ficaria: &#8220;Psicologia dos grupos e an\u00e1lise do eu&#8221;.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romildo do R\u00eago Barros (AME, EBP\/AMP) De onde podemos partir para falar de grupo? Qualquer ideia de grupo em psican\u00e1lise \u00e9 devedora, caudat\u00e1ria, da ideia de que o sujeito encerra em si uma alteridade. 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