{"id":3269,"date":"2021-09-10T06:23:13","date_gmt":"2021-09-10T09:23:13","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3269"},"modified":"2021-09-10T06:23:13","modified_gmt":"2021-09-10T09:23:13","slug":"ecos-do-inimaginavel-sobre-a-atividade-preparatoria-escavar-a-terra-revirar-a-cinza-modos-de-existencia-do-inimaginavel-com-marcelo-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/ecos-do-inimaginavel-sobre-a-atividade-preparatoria-escavar-a-terra-revirar-a-cinza-modos-de-existencia-do-inimaginavel-com-marcelo-ribeiro\/","title":{"rendered":"Ecos do inimagin\u00e1vel &#8211; Sobre a atividade preparat\u00f3ria Escavar a terra, revirar a cinza: modos de exist\u00eancia do inimagin\u00e1vel com Marcelo Ribeiro."},"content":{"rendered":"<h6>Por Fl\u00e1via C\u00eara (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_3267\" aria-describedby=\"caption-attachment-3267\" style=\"width: 266px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-3267 size-medium\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/rebotalhos8_001-266x300.png\" alt=\"Fotografia: C\u00edcero Bezerra\" width=\"266\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-3267\" class=\"wp-caption-text\">Fotografia: C\u00edcero Bezerra<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Sobre a atividade preparat\u00f3ria Escavar a terra, revirar a cinza: modos de exist\u00eancia do inimagin\u00e1vel com Marcelo Ribeiro.<\/strong><\/p>\n<p>Nos desdobramentos do nosso tema de trabalho, chegamos ao inimagin\u00e1vel e recebemos Marcelo Ribeiro, professor de Hist\u00f3ria e Teorias do Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Bahia que nos ofereceu uma bel\u00edssima e generosa apresenta\u00e7\u00e3o e conversa. Marcelo nos falou da experi\u00eancia paradoxal do inimagin\u00e1vel a partir de Robert Antelme, um sobrevivente dos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista. O inimagin\u00e1vel atua em um constante trabalho nas entre-linhas, nos entre-lugares das imagens, dos textos, l\u00e1 mesmo onde a experi\u00eancia e a linguagem sofrem uma disjun\u00e7\u00e3o, onde o fio do sentido se perde. Assim, essa experi\u00eancia nos imp\u00f5e o dever de imagina\u00e7\u00e3o. Por que \u00e9 importante o exerc\u00edcio de imaginar o inimagin\u00e1vel? Uma das raz\u00f5es \u00e9, justamente, para faz\u00ea-lo existir, para escrev\u00ea-lo na hist\u00f3ria, para que n\u00e3o seja esquecido, repetido, ou abandonado em uma sorte de paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia, fonte de muitos negacionismos. Se, por um lado, ele representa, por outro ele sempre aponta para o irrepresent\u00e1vel, para seu resto que n\u00e3o pode ser integrado e que tampouco reconstitu\u00eddo em sua integralidade. De modo que ao inimagin\u00e1vel n\u00e3o podemos inferir um \u00e9, mas podemos dizer que ele existe. E existe como presen\u00e7a irredut\u00edvel desse resto que atesta que a hist\u00f3ria n\u00e3o poder\u00e1 mais ser contada da mesma maneira. \u00c9 a irrup\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o pode apelar ao Outro para sua restitui\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pode reconstruir uma origem. Se apresenta como uma mudan\u00e7a no tempo e no espa\u00e7o que reconfigura o mundo. Uma experi\u00eancia de perda e falta que resta opaca, na hip\u00f3tese de Marcelo, como as cinzas propostas por Derrida. Isso nos ensina, em alguma medida, sobre a irrup\u00e7\u00e3o do Um, esse real do gozo que atesta a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, porque tem algo que ressoa a ideia de origem, de algo que se apaga e se inscreve como a possibilidade de leitura que a an\u00e1lise permite para ir constituindo uma borda em torno do indiz\u00edvel. Tomando o Um como a abertura de uma fratura onde n\u00e3o existe rela\u00e7\u00e3o complementar nem restitui\u00e7\u00e3o da perda, como um acontecimento heterog\u00eaneo em que a trama ficcional estabelecida na fantasia se rompe e algo dali come\u00e7a a restar. Se trata menos de restituir a fic\u00e7\u00e3o, e mais de construir as fix\u00f5es e com os restos, compor. Portanto, essa exig\u00eancia de imaginar o inimagin\u00e1vel, lugar que nos exige uma \u00e9tica, \u00e9 o constante trabalho de narra\u00e7\u00e3o, fragment\u00e1rio por excel\u00eancia, que pode fundar outros pontos de partida. \u00c9 importante destacar tamb\u00e9m que o trabalho de leitura, de escrita, de representa\u00e7\u00e3o a que o inimagin\u00e1vel se presta, para que ele se inscreva, \u00e9 sempre o de uma contra-hist\u00f3ria, de uma leitura a contrapelo, que cava os sulcos na organiza\u00e7\u00e3o dos arquivos que se pretende sem restos. Por isso \u00e9 importante mant\u00ea-lo como for\u00e7a muito mais que como forma, manter ali mesmo na representa\u00e7\u00e3o seu n\u00facleo irrepresent\u00e1vel, o ileg\u00edvel no leg\u00edvel, para sustentar seu ponto de indetermina\u00e7\u00e3o, seu car\u00e1ter aberto. N\u00e3o por acaso, uma das obras de cria\u00e7\u00e3o com os restos evocadas por Marcelo foi a a\u00e7\u00e3o de Denilson Baniwa Nada que \u00e9 dourado permanece 1: Hilo em que o artista ind\u00edgena leva as cinzas do Museu Nacional para um plantio de ervas medicinais, flores na parte externa da Pinacoteca tamb\u00e9m considerada pelo artista como um anti-monumento aos ind\u00edgenas atingidos pela Covid-19. Tantas linhas de for\u00e7a se inscrevem nessa obra: os monumentos, a viol\u00eancia, os arquivos, a hist\u00f3ria, tantas camadas de um pa\u00eds fundado (e continuado) no genoc\u00eddio ind\u00edgena podem ser lidas nessa a\u00e7\u00e3o que germina com os restos, que atesta, como nos lembrava Marcelo, que n\u00e3o existe documento de cultura que n\u00e3o seja ao mesmo tempo um documento da barb\u00e1rie. O gesto de re-existir (ou rexistir, um pouco ao modo da fix\u00e3o) da incans\u00e1vel luta ind\u00edgena nos d\u00e1 o tom do que \u00e9 viver sob a \u00e9gide do inimagin\u00e1vel, quando in\u00fameras vezes viram seus mundos amea\u00e7ados sen\u00e3o acabados. S\u00e3o eles quem t\u00eam nos mostrado recentemente no acampamento Luta pela Vida em Bras\u00edlia, por ocasi\u00e3o da vota\u00e7\u00e3o do Marco Temporal, que na pol\u00edtica de rexist\u00eancia existe viol\u00eancia e morte, canto e dan\u00e7a, corpo e vida, e que toca a cada um de n\u00f3s ouvir suas hist\u00f3rias, imaginar com eles esse inimagin\u00e1vel para resistir \u00e0 desapropria\u00e7\u00e3o da terra que \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a expropria\u00e7\u00e3o do corpo de cada um e da vida de cada povo. E j\u00e1 \u00e9 tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fl\u00e1via C\u00eara (EBP\/AMP) Sobre a atividade preparat\u00f3ria Escavar a terra, revirar a cinza: modos de exist\u00eancia do inimagin\u00e1vel com Marcelo Ribeiro. 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