{"id":3252,"date":"2021-08-29T13:34:47","date_gmt":"2021-08-29T16:34:47","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3252"},"modified":"2021-08-29T13:34:47","modified_gmt":"2021-08-29T16:34:47","slug":"o-misterio-do-corpo-falante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/o-misterio-do-corpo-falante\/","title":{"rendered":"O mist\u00e9rio do corpo falante"},"content":{"rendered":"<h6>Elisa Alvarenga (AME EBP-AMP)<\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em>Agrade\u00e7o o convite de Nohem\u00ed Brown e dos colegas da Se\u00e7\u00e3o Sul para participar deste Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 II Jornada de voc\u00eas, sobre um tema t\u00e3o pertinente e atual. Nohem\u00ed me pediu que abordasse o quarto eixo, &#8220;Qual o estatuto do que faz falar?&#8221;. Retomando o argumento e a proposta deste eixo, pensei que poderia trazer-lhes algo que estou trabalhando no Semin\u00e1rio 20, fato este que me levou a um retorno, inicialmente, ao Semin\u00e1rio 19, para aproximar a quest\u00e3o do ser e da exist\u00eancia abordados por Lacan atrav\u00e9s dos aforismos &#8220;n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual&#8221; e &#8220;H\u00e1 Um&#8221;. Minha primeira hip\u00f3tese ent\u00e3o \u00e9: o que faz falar tem a ver com o encontro do significante com o corpo, furando o corpo e produzindo marcas de gozo. N\u00e3o sabemos por que, no banho de lal\u00edngua em que nasce um falasser, um significante marca o corpo de maneira privilegiada, introduzindo o inconsciente no corpo do ser falante. Assim, como diz Lacan no Semin\u00e1rio 20, &#8220;o real \u00e9 o mist\u00e9rio do corpo falante, \u00e9 o mist\u00e9rio do inconsciente&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan parte de uma defini\u00e7\u00e3o do real como imposs\u00edvel, abordado pela l\u00f3gica e pela matem\u00e1tica, e, em particular, desse real que constitui o Um, primeira marca de gozo que afeta o corpo. Ele passa de uma psican\u00e1lise inteiramente centrada sobre o Outro a uma reflex\u00e3o, ao contr\u00e1rio, centrada sobre o Um. Esse Um torna-se essencial, a partir do momento em que o dois, o par sexual, a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos, torna-se para Lacan muito problem\u00e1tica no in\u00edcio dos anos 70. Trata-se de um momento em que essa quest\u00e3o estava fortemente em pauta na intelectualidade francesa, como atesta o livro de \u00c9ric Marty, <em>Le sexe des modernes. <\/em>Como \u00e9 poss\u00edvel as coisas se associarem e fazerem dois? Lacan tenta aproximar a no\u00e7\u00e3o de um Um que preexiste a toda atribui\u00e7\u00e3o, um Um de exce\u00e7\u00e3o. Esse Um tem a mais estreita rela\u00e7\u00e3o com o fato de que se possa enunci\u00e1-lo, diz\u00ea-lo. Dizer &#8220;H\u00e1 Um&#8221;, &#8220;Il y a de l&#8217;Un&#8221;, \u00e9 uma maneira simples de evoc\u00e1-lo, de colocar que h\u00e1 um dizer.<\/p>\n<p>Para Lacan, n\u00e3o se trata de dizer o real, porque \u00e9 imposs\u00edvel, mas de faz\u00ea-lo existir atrav\u00e9s de um dizer. A quest\u00e3o \u00e9 saber de que real se trata, na medida que esse imposs\u00edvel concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual. Lacan retorna \u00e0 l\u00f3gica de Arist\u00f3teles das modalidades, a qual, ao especificar as qualidades do verdadeiro segundo quatro modalidades &#8211; necess\u00e1rio, poss\u00edvel, imposs\u00edvel, contingente -, n\u00e3o \u00e9 sem rela\u00e7\u00e3o com o conceito de exist\u00eancia. Definir algo como existente faz de sua exist\u00eancia uma necessidade, o que n\u00e3o \u00e9 sem la\u00e7o com a exist\u00eancia do dizer. A express\u00e3o &#8220;ex-sistir&#8221;, inspirada em Heidegger, significa &#8220;se manter fora de&#8221;: a exist\u00eancia ex-siste \u00e0 verdade. Ex-sistir significa tamb\u00e9m existir fora de, mas ter passado por. Lacan ex-siste a Freud da mesma forma que o n\u00e3o todo ex-siste ao todo f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Lacan vai al\u00e9m do falo freudiano atrav\u00e9s da inven\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Ao lado da l\u00f3gica f\u00e1lica, universal, para todos, ele demonstra que existe uma outra, que se origina do n\u00e3o todo, que ele chama de <em>Hetero<\/em>. H\u00e1 coisas que se separam de qualquer abordagem pelo sentido, por exemplo o Outro gozo qualificado de gozo feminino.<\/p>\n<p>O cap\u00edtulo V do Semin\u00e1rio 20, &#8220;Arist\u00f3teles e a outra satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;, explicita uma mudan\u00e7a substancial no &#8220;Lacan cl\u00e1ssico&#8221;, comentada por Miller no Curso<em> La fuga del sentido<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>, <\/em>sobre &#8220;a linguagem como aparelho de gozo&#8221; e, dois anos depois, no Curso <em>El partenaire-s\u00edntoma, <\/em>onde vai destrinchar a primeira frase deste cap\u00edtulo &#8211; &#8220;todas as necessidades do ser falante est\u00e3o contaminadas pelo fato de estarem implicadas com uma outra satisfa\u00e7\u00e3o [&#8230;] \u00e0 qual elas podem faltar&#8221;. Esta leitura nos permite explicitar uma mudan\u00e7a de perspectiva de Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao amor, nos anos 70, sua articula\u00e7\u00e3o com o gozo e uma nova maneira de pensar o Outro, pois se a linguagem est\u00e1 articulada ao gozo, desde o Semin\u00e1rio 17, tamb\u00e9m o Outro deixa de ser apenas o tesouro dos significantes e passa a encarnar-se no corpo.<\/p>\n<p>Em &#8220;Revaloriza\u00e7\u00e3o do amor&#8221;<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Pierre-Gilles Gu\u00e9guen aborda o que seria &#8220;a outra satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;, lembrando que, para Freud, haveria uma satisfa\u00e7\u00e3o que seria a boa, aquela que a crian\u00e7a poderia encontrar junto \u00e0 m\u00e3e. O problema \u00e9 que esta satisfa\u00e7\u00e3o est\u00e1 proibida, fundamentalmente ligada ao objeto perdido, o que Lacan escreve com a met\u00e1fora paterna, cujo resultado \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Talvez por isso possamos articular, como faz Lacan no Semin\u00e1rio 23 e Miller na Confer\u00eancia &#8220;O inconsciente e o corpo falante&#8221;, o gozo da fala ao falo.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 23, a prop\u00f3sito de Joyce, Lacan diz: &#8220;Como ele tinha o pau um pouco mole, foi sua arte que supriu sua firmeza f\u00e1lica. O falo \u00e9 a conjun\u00e7\u00e3o do que chamei de esse parasita, o pedacinho de pau em quest\u00e3o, com a fun\u00e7\u00e3o da fala. Sua arte \u00e9 o verdadeiro fiador de seu falo&#8221;<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Miller enuncia, por sua vez, que &#8220;no falasser h\u00e1, a um s\u00f3 tempo, gozo do corpo e tamb\u00e9m gozo que se deporta para fora do corpo, gozo da fala que Lacan identifica, com aud\u00e1cia e com l\u00f3gica, com o gozo f\u00e1lico, uma vez que este \u00e9 desarm\u00f4nico em rela\u00e7\u00e3o ao corpo&#8221;. O conceito de corpo est\u00e1 aqui na jun\u00e7\u00e3o do Isso com o inconsciente. &#8220;As cadeias significantes que deciframos \u00e0 maneira freudiana s\u00e3o conectadas com o corpo e s\u00e3o feitas de subst\u00e2ncia gozante. \u00c9 do corpo que s\u00e3o extra\u00eddos os objetos <em>a<\/em>; \u00e9 no corpo que \u00e9 buscado o gozo para o qual trabalha o inconsciente&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Minha hip\u00f3tese \u00e9 que esse dizer do qual se trata no &#8220;H\u00e1 Um&#8221;, que circunscreve e convoca a exist\u00eancia, n\u00e3o do verdadeiro, mas do real, imposs\u00edvel de apreender, uma marca de gozo, \u00e9 distinto da fala como gozo do sentido ou gozo do bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1. O sujeito do inconsciente \u00e9 aquele que a experi\u00eancia da psican\u00e1lise engaja a dizer besteiras e, a partir da\u00ed, um certo real pode ser atingido, que tem a ver com o gozo, a subst\u00e2ncia gozante.<\/p>\n<p>Se no Lacan cl\u00e1ssico a linguagem \u00e9 o que vem fazer barreira ao gozo, nos anos 70 a pr\u00f3pria linguagem est\u00e1 infiltrada pelo gozo do bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1. A linguagem como meio para mortificar o gozo se torna ela mesma um aparelho de gozo.<\/p>\n<p>Retornemos \u00e0 frase, inicialmente enigm\u00e1tica, sobre a outra satisfa\u00e7\u00e3o: &#8220;Todas as necessidades do ser falante est\u00e3o contaminadas pelo fato de estarem implicadas com uma outra satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual elas podem faltar&#8221;. Lacan op\u00f5e essa outra satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades, nos diz que devemos entend\u00ea-la como o que se satisfaz no n\u00edvel do inconsciente e se dedica a elucidar o gozo de que depende essa outra satisfa\u00e7\u00e3o, que se baseia na linguagem e s\u00f3 pode ser apontada atrav\u00e9s dos desfiladeiros do significante. Esta satisfa\u00e7\u00e3o, que faz falta que n\u00e3o haja, da mesma forma que fazia falta n\u00e3o haver a satisfa\u00e7\u00e3o que se poderia obter junto \u00e0 m\u00e3e, \u00e9 preciso passar por a\u00ed para desembara\u00e7ar-se dela, ou para fix\u00e1-la, atrav\u00e9s de uma letra de gozo.<\/p>\n<p>Todas as necessidades do ser falante est\u00e3o contaminadas pelo fato de ter que passar pela demanda e dependem da resposta do Outro, a qual tamb\u00e9m vale como uma satisfa\u00e7\u00e3o, independente do dom da subst\u00e2ncia que satisfaz a necessidade. Essa resposta \u00e9 um significante, e, no Semin\u00e1rio 20, Lacan diz ser essa resposta um signo de amor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Miller d\u00e1 mais um passo: Todas as necessidades do ser falante est\u00e3o contaminadas por sua implica\u00e7\u00e3o na demanda de amor. No entanto, a perspectiva do Semin\u00e1rio 20 \u00e9 a de uma puls\u00e3o profundamente autoer\u00f3tica. A boca que se beija a si mesma, express\u00e3o freudiana, n\u00e3o \u00e9 a boca que fala e demanda, mas que tem uma esp\u00e9cie de objeto interno. O objeto da puls\u00e3o \u00e9 como um vazio que pode ser encarnado por diferentes objetos do mundo.<\/p>\n<p>O autoerotismo da puls\u00e3o leva Lacan a colocar a quest\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do amor como aquilo que se introduz para estabelecer a conex\u00e3o com o Outro. Como o gozo pulsional pode ser descompletado, carecer de algo, para se ver embarcado nos assuntos do desejo? O objeto <em>a<\/em> como causa do desejo tenta traduzir este deslocamento pulsional. Se no Semin\u00e1rio 10 Lacan considera que &#8220;s\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo&#8221;<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, no Semin\u00e1rio 20 o amor faz supl\u00eancia \u00e0 aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 o correlato do autoerotismo da puls\u00e3o e o amor tem uma fun\u00e7\u00e3o destacada na sexualidade feminina, que vai al\u00e9m dos objetos da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria, aqui, a figura de um agente da castra\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o, no real, da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sem\u00e2ntica entre significante e significado. A puls\u00e3o n\u00e3o quer dizer, quer gozar. Um significante pode querer dizer qualquer coisa e a \u00fanica coisa que pode limitar sua leitura \u00e9 o discurso ao qual nos referimos. Assim, o isolamento do gozo radicaliza a exig\u00eancia do la\u00e7o social como forma t\u00edpica da rela\u00e7\u00e3o com o Outro<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Por isso Lacan diz no Semin\u00e1rio 20: &#8220;H\u00e1 apenas isso, o la\u00e7o social. Eu o designo com o termo discurso. O la\u00e7o social s\u00f3 se instaura e se imprime, se situa sobre aquilo que formiga, isto \u00e9, o ser falante.&#8221;<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Para Miller, todo o esfor\u00e7o do Semin\u00e1rio 20 \u00e9 considerar o que trouxe Freud e Arist\u00f3teles para a cl\u00ednica, levando em conta a diferen\u00e7a entre os sexos e dos gozos conforme o sexo. Neste movimento, assistimos a uma revaloriza\u00e7\u00e3o do amor, retomando o que Freud diz em &#8220;Inibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia&#8221;: do lado feminino, a castra\u00e7\u00e3o pode tomar a figura da perda do amor. Assim, do lado feminino, o gozo est\u00e1 intrinsecamente ligado ao amor do Outro.<\/p>\n<p>Se o gozo feminino tem rela\u00e7\u00e3o com o Outro sob a forma de S(A\/), o homem, em seu gozo, tem rela\u00e7\u00e3o com o objeto pulsional. O ato de amor do lado do macho, diz ironicamente Lacan, \u00e9 sua pervers\u00e3o polimorfa. O homem permanece ligado ao autoerotismo, ou faz do Outro um objeto <em>a<\/em> para a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. O gozo feminino, por sua vez, est\u00e1 enganchado ao Outro: \u00e9 mais independente da exig\u00eancia pulsional, mas a demanda de amor se torna mais insistente. No Semin\u00e1rio 20 o gozo est\u00e1 em todas as partes. O Outro do significante, do simb\u00f3lico, \u00e9 o que produz o gozo do bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>A linguagem como aparelho de gozo<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Nos primeiros anos do seu ensino, Lacan logifica o \u00c9dipo freudiano atrav\u00e9s da met\u00e1fora paterna. Nos anos 60, al\u00e9m de pluralizar o Nome-do-Pai, mostra que \u00e9 a estrutura mesma da linguagem que tem efeitos sobre o gozo, mortificando-o e levando-o a se refugiar nas zonas er\u00f3genas. Depois de introduzir os discursos e dizer, no Semin\u00e1rio 17, que a verdade \u00e9 irm\u00e3 do gozo, Lacan no 20 introduz a linguagem como aparelho de gozo.<\/p>\n<p>O gozo n\u00e3o \u00e9 mais assunto de resto, mas est\u00e1 para todo lado. Da\u00ed a frase: todas as necessidades do ser falante est\u00e3o contaminadas pelo fato de estarem implicadas em outra satisfa\u00e7\u00e3o. &#8220;Outra satisfa\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 amb\u00edgua: refere-se \u00e0 outra satisfa\u00e7\u00e3o do que aquela das necessidades, mas tamb\u00e9m uma satisfa\u00e7\u00e3o diferente daquela que seria pr\u00f3pria \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>O termo ser falante adquire aqui toda a sua import\u00e2ncia, distinguindo-se do sujeito, $, correlato da linguagem como esvaziador de gozo. O termo sujeito est\u00e1 ligado \u00e0 linguagem como desvitalizante e n\u00e3o como aparelho de gozo. O ser falante torna-se, a partir da\u00ed, o centro da aten\u00e7\u00e3o de Lacan, pois ele inclui o corpo afetado pela puls\u00e3o, para al\u00e9m do inconsciente. O Outro, tampouco, continuar\u00e1 a ser um lugar evacuado de gozo. O significante \u00e9 causa de gozo, situa-se no n\u00edvel da subst\u00e2ncia gozante. O significante n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o significado, como na met\u00e1fora e na meton\u00edmia. E o que vale como ponto de basta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o Nome-do-Pai, mas o discurso de uma comunidade.<\/p>\n<p>A partir do momento em que a linguagem e o gozo andam de m\u00e3os dadas, o significante e o inconsciente tornam-se parasit\u00e1rios. Na aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o prescrita entre os sexos, ou da sociabilidade sexual, temos os discursos e o la\u00e7o social.<\/p>\n<p>Constatar que a fala em si mesma est\u00e1 ligada ao gozo permite situar de outra maneira a posterga\u00e7\u00e3o do final de an\u00e1lise, a qual n\u00e3o se produz atrav\u00e9s dos malabarismos significantes e exige um passo a mais. Eis a import\u00e2ncia do aforismo &#8220;H\u00e1 Um&#8221; e do recurso de Lacan \u00e0s matem\u00e1ticas e \u00e0 letra para enxugar a prolifera\u00e7\u00e3o de sentido e o gozo da fala na an\u00e1lise. Aqui o bem dizer reduz o gozo do sentido na fala e permite circunscrever o gozo sinthom\u00e1tico como resto imposs\u00edvel de negativizar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com a l\u00f3gica modal aristot\u00e9lica podemos pensar sobre o que n\u00e3o cessa de se escrever, o gozo da fala, do sentido, encontrar seu limite no que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever, o imposs\u00edvel, atrav\u00e9s da conting\u00eancia de um encontro que faz borda a esse Outro gozo, o qual n\u00e3o tem um significante para nome\u00e1-lo. Uma letra cessa de n\u00e3o se escrever.<\/p>\n<p><strong>Arist\u00f3teles e Freud<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Tanto Arist\u00f3teles quanto Freud falam do gozo f\u00e1lico, o \u00fanico que h\u00e1, salvo aquele que est\u00e1 do lado da mulher, sobre o qual ela n\u00e3o solta uma \u00fanica palavra.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> N\u00e3o h\u00e1 um paralelo entre o gozo f\u00e1lico, cume do gozo autoer\u00f3tico, e o gozo feminino. Lacan, na verdade, assigna o gozo f\u00e1lico aos dois sexos e o op\u00f5e \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual. No Curso <em>El partenaire-s\u00edntoma, <\/em>Miller desenha um quadro onde situa o falo, o gozo da fala e os gozos masculino e feminino<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">F<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">gozo masculino\u00a0\u00a0 &lt;&gt;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 a<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">gozo feminino\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &lt;&gt;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S(A\/)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">gozo da fala<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O gozo f\u00e1lico vale para os dois sexos como autoer\u00f3tico. O gozo masculino \u00e9 articulado ao objeto <em>a<\/em> e o gozo feminino \u00e9 articulado a S(A\/). Aqui Miller n\u00e3o aproxima o gozo f\u00e1lico do gozo da fala, chamado por Lacan de &#8220;a outra satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;. Mas j\u00e1 na li\u00e7\u00e3o VI do Semin\u00e1rio 20, Lacan faz uma aproxima\u00e7\u00e3o, ainda que amb\u00edgua, entre &#8220;uma outra satisfa\u00e7\u00e3o, a satisfa\u00e7\u00e3o da fala&#8221;, e o gozo f\u00e1lico: &#8220;Uma outra satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que corresponde ao gozo que seria justo para que aquilo se passe entre o que abreviarei chamando-os homem e mulher. Quer dizer, aquela que corresponde ao gozo f\u00e1lico&#8221;<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Em Freud haveria uma hip\u00f3tese de mestria, de desenvolvimento do <em>Lust-Ich, <\/em>eu prazer original, para o <em>Real-Ich, <\/em>ligado ao princ\u00edpio de realidade. Ora, Lacan vai mostrar, com ironia, que nem os adultos chegam a despertar para o real: quando encontram no sonho algo que os aproxime do real, eles acordam para continuar sonhando na realidade. Na verdade, o princ\u00edpio da realidade nada mais \u00e9 que o princ\u00edpio do prazer adiado, que continua buscando o prazer.<\/p>\n<p>\u00c9 no cap\u00edtulo VII da &#8220;Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos&#8221;<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> que Miller vai buscar as bases freudianas da elabora\u00e7\u00e3o da &#8220;outra satisfa\u00e7\u00e3o&#8221;. Se a realidade \u00e9 abordada com os aparelhos de gozo, nada melhor que retornar \u00e0 concep\u00e7\u00e3o freudiana do aparelho ps\u00edquico, destinado a obter uma experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Freud exp\u00f5e o modelo de satisfa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a: surge no beb\u00ea um estado de press\u00e3o, o Outro traz o objeto de satisfa\u00e7\u00e3o. Forma-se no psiquismo um tra\u00e7o da press\u00e3o e um tra\u00e7o do objeto, associados com a cessa\u00e7\u00e3o do desprazer provocado pela press\u00e3o e com o tra\u00e7o da imagem motora do movimento em dire\u00e7\u00e3o ao objeto. Entre esses tra\u00e7os estabelecem-se associa\u00e7\u00f5es pela simultaneidade. Assim, quando o estado de press\u00e3o reaparece, o princ\u00edpio do prazer tende a reinvestir os tra\u00e7os de mem\u00f3ria ligados \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o experimentada anteriormente, produzindo a alucina\u00e7\u00e3o do objeto perdido. Isso seria a satisfa\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria do desejo.<\/p>\n<p>Entre a necessidade e sua satisfa\u00e7\u00e3o se interp\u00f5e outra satisfa\u00e7\u00e3o, aquela que daria lugar ao inconsciente. A satisfa\u00e7\u00e3o da necessidade est\u00e1 contaminada por uma satisfa\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria, de ordem ps\u00edquica, diferente da satisfa\u00e7\u00e3o devida ao objeto real. A experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o da necessidade permanece inscrita e esta inscri\u00e7\u00e3o determina que na satisfa\u00e7\u00e3o direta interfira a fun\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. O tra\u00e7o de mem\u00f3ria da experi\u00eancia permanece inscrito e retorna. Trata-se do inconsciente como uma mem\u00f3ria ativa.<\/p>\n<p>Freud faz desse esquema elementar a defini\u00e7\u00e3o do desejo como realiza\u00e7\u00e3o alucinat\u00f3ria ligada \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o deixada pela primeira vez. No ser humano, o gozo est\u00e1 condicionado, submetido, \u00e0 primeira experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 muito manifesto nos tra\u00e7os de pervers\u00e3o. E toma a forma de um trauma inicial de gozo manifesto em cada ser falante como uma marca de gozo que reitera no sintoma.<\/p>\n<p>Lacan fala de outra satisfa\u00e7\u00e3o que se satisfaz a n\u00edvel do inconsciente: o sintoma. Considerados como realiza\u00e7\u00e3o inconsciente do desejo, os sintomas resultam da outra satisfa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, no sintoma, temos uma divis\u00e3o: uma parte realiza o desejo e outra parte reage contra essa realiza\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma conex\u00e3o entre a satisfa\u00e7\u00e3o e o significante inscrito no inconsciente: o saber \u00e9 meio de gozo, mas, paradoxalmente, o ser falante pode repetir o que lhe traz sofrimento, tanto pelos rodeios da linguagem, em suas fantasias e identifica\u00e7\u00f5es, quanto pela reitera\u00e7\u00e3o das marcas de gozo e a satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal da puls\u00e3o.<\/p>\n<p>Fomos formados no esquema que representa a necessidade endere\u00e7ada ao Outro da demanda, lugar da fala. Se o sentido j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 puro significado, mas gozo-sentido, e sentido gozado &#8211; tradu\u00e7\u00f5es do equ\u00edvoco que Lacan promove com <em>jouis sens &#8211;<\/em> \u00e9 preciso transformar esse Outro em lugar de gozo do sujeito, pois ali onde Isso fala, Isso goza. Na vertente masculina, Isso se reduz ao objeto <em>a. <\/em>Na vertente feminina, o Outro \u00e9 objeto de um gozo louco e enigm\u00e1tico, S(A\/). Trata-se do Outro como lugar do gozo do ser falante, que Miller prop\u00f4s chamar sintoma quando disse parceiro-sintoma. Ent\u00e3o temos uma equival\u00eancia formal entre o Outro e o sintoma como lugar de gozo. Em 1978, Lacan diz que temos como sintoma, cada um, sua cada uma. &#8220;H\u00e1 um sinthoma ele e um sinthoma ela. \u00c9 tudo o que resta do que se chama a rela\u00e7\u00e3o sexual: uma rela\u00e7\u00e3o intersinthom\u00e1tica&#8221;<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>Para concluir, voltando \u00e0 pergunta que nos re\u00fane aqui hoje &#8211; Qual o estatuto do que faz falar? &#8211; eu diria que falamos porque n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. H\u00e1 Um, gozo sinthom\u00e1tico e h\u00e1 a outra satisfa\u00e7\u00e3o, da fala. O amor de transfer\u00eancia pode fazer supl\u00eancia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o h\u00e1, tornando-se o instrumento que faz falar para que o falasser encontre o Outro como alteridade do gozo Um, singular, que lhe \u00e9 pr\u00f3prio, para al\u00e9m do ser propiciado por suas fantasias e identifica\u00e7\u00f5es que recobrem a marca de gozo que lhe \u00e9 peculiar.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Revis\u00e3o: Gustavo Ramos da Silva<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda<em>.<\/em> Trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 178.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Mon\u00f3logo de la apalabra. In: <em>La fuga del sentido. <\/em>Trad. de Silvia Baudini. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012, p. 139-159.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Revalorizaci\u00f3n del amor. In: <em>El partenaire-s\u00edntoma. <\/em>Trad. de Dora Gladys Saroka. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2008, p. 149.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: O sinthoma<em>. <\/em>Trad. de S\u00e9rgio Laia. Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. O inconsciente e o corpo falante. In: <em>Scilicet<\/em>: O corpo falante &#8211; Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI. S\u00e3o Paulo: EBP, 2016. p. 29-30.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>: A ang\u00fastia<em>. <\/em>Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 197.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, Jacques-Alain. Relaci\u00f3n con el Otro. In: <em>La fuga del sentido. <\/em>Trad. de Silvia Baudini. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012<em>. <\/em>p. 198.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, 1985, p. 174.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20<\/em>: Mais, ainda<em>.<\/em> Trad. de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. p. 82.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> MILLER, 2008, p. 178.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Ibid, p. 87.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> FREUD, Sigmund. A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. <\/em>Rio de Janeiro: Imago, 1972. p. 602-3. vol. V.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> LACAN, Jacques. Conclusions du IXe Congr\u00e8s de l&#8217;\u00c9cole freudienne de Paris. In: <em>La Cause du d\u00e9sir, <\/em>n. 103, 9 jul. 1978. Paris, Navarin, 2019, p. 23. Tradu\u00e7\u00e3o nossa.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elisa Alvarenga (AME EBP-AMP) \u00a0Agrade\u00e7o o convite de Nohem\u00ed Brown e dos colegas da Se\u00e7\u00e3o Sul para participar deste Semin\u00e1rio Preparat\u00f3rio em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 II Jornada de voc\u00eas, sobre um tema t\u00e3o pertinente e atual. Nohem\u00ed me pediu que abordasse o quarto eixo, &#8220;Qual o estatuto do que faz falar?&#8221;. 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