{"id":3122,"date":"2021-07-27T07:26:12","date_gmt":"2021-07-27T10:26:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3122"},"modified":"2021-07-27T07:26:12","modified_gmt":"2021-07-27T10:26:12","slug":"entre-fake-e-ex-sistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/entre-fake-e-ex-sistencia\/","title":{"rendered":"Entre fake e ex-sist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<h6 style=\"text-align: right;\">Diego Cervelin*<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: right;\">\u201cNem sempre as nuvens ofuscam o c\u00e9u:<br \/>\n\u00e0s vezes, elas o iluminam\u201d<br \/>\nElsa Morante<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Antes de mais nada, algumas perguntas que talvez demandem outras coisas que n\u00e3o respostas r\u00e1pidas demais: que ter\u00e1 acontecido com quem, tempos atr\u00e1s,ria do <em>fake<\/em> vendido como real\u00edstico \u2013 por exemplo, em filmes ao estilo de <em>A bruxa de Blair<\/em> \u2013 e foi capaz de votar em Donald Trump? E j\u00e1 mais ao sul da linha do Equador, que ter\u00e1 acontecido com quem, anos atr\u00e1s, ridicularizava as repetidas valentonadas de Jair Bolsonaro em programas de humor e foi capaz de apostar \u2013 ou de&#8230; pelo menos dizer que apostava \u2013 que ele n\u00e3o configuraria nenhum ponto de inflex\u00e3o nos caminhos da constru\u00e7\u00e3o da democracia no Brasil? Se at\u00e9 mesmo Nicolau Maquiavel foi capaz de descrever alguma er\u00f3tica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica (com todas aquelas artimanhas virilmente virtuosas interpostas aos meneios da Fortuna), Trump e Bolsonaro parecem ter conseguido formula refetivos e verdadeiros feitos de pornografia pol\u00edtica. Trata-se da exposi\u00e7\u00e3o nua e crua de que, no reverso da palavra comunicativa, sempre houve e h\u00e1 gozo, mais ou menos modulado. Quem sabe&#8230; inclusive j\u00e1 possamos assumir que \u00e9 enganoso considerar que se trata de coisa amadora. Ali\u00e1s, de amadorismo parece haver muito pouco ou quase nada. A quest\u00e3o, no fundo, talvez esteja em saber em que consiste essa <em>expertise<\/em> e se&#8230; mesmo assim, ainda sobra algum espa\u00e7o para amor depois de tamanha dissemina\u00e7\u00e3o de \u00f3dio. Figuras como Trump e Bolsonaro surfam na crista da onda do real que se entranha no tecido linguageiro. Mas n\u00e3o deixa de ser ir\u00f4nico que justamente uma emerg\u00eancia do real tamb\u00e9m tenha mostrado que algumas ondas podem ser muito maiores do que eles e seus negacionismos. Diante disso, as vacinas apresentam alguma efic\u00e1cia real, embora tampouco seja suficiente.<\/p>\n<p>Lacan, no decorrer de seu ensino e sem grandes arroubos salvacionistas, foi bastante taxativo em sustentar que, do real, s\u00f3 se apreendem alguns peda\u00e7os. Essa considera\u00e7\u00e3o talvez n\u00e3o esteja t\u00e3o longe assim da virada que, no <em>Semin\u00e1rio 16<\/em>, se abateu sobre uma das cl\u00e1ssicas frases da \u00e9poca da primazia do Simb\u00f3lico, isto \u00e9, quando Lacan retomava \u201ceu, a verdade, falo\u201dpara ent\u00e3o assinalar que \u201co fato de ela falar n\u00e3o significa que ela diga a verdade\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. De fato, nesses tempos em que as verdades brotam aos gritos e em caixa alta, os psicanalistas podem ter muito a dizer. (Contudo, se isso servir para apenas engrossar o caldo das verdades gritadas e em caixa alta, talvez coubesse seguir, antes, aquele antigo conselho evocado pelo pintor seiscentista Salvator Rosa: <em>auttace, autlo quere melior a silentio<\/em>, algo mais ou menos como \u201ccale-se, a menos que o que tem a dizer seja melhor do que o sil\u00eancio\u201d).Afinal, escutar, ou seja, ler as trilhas de gozo que decantam nos desfilamentos da verdade mentirosa \u00e9 algo que, sim, possibilita emergir algum bem-dizer \u2013 mesmo que parcial e prec\u00e1rio \u2013 em torno do encontro contingente que nos constitui como seres falantes, sexuados e com modos singulares de gozo. Por outro lado, na medida em que \u201co gozo do Outro n\u00e3o \u00e9 o gozo do Um\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> e considerando-se, quem sabe, alguma possibilidade de presen\u00e7a do analista cidad\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, n\u00e3o se poderia assinalar que aquilo de que os analistas mais t\u00eam a dizer se relaciona justamente tanto com a promo\u00e7\u00e3o quanto com a verifica\u00e7\u00e3o daquele saber em torno do que faz furo no Simb\u00f3lico? N\u00e3o mais para descortinar o sentido que resiste entre as palavras ou por tr\u00e1s delas, sen\u00e3o para reabilitar alguma possibilidade de fazer algo com aquele fora do sentido que, ao pegar carona nas palavras \u2013 e nos gritos \u2013, insiste na superf\u00edcie da pele de um e de outro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>* Da Equipe da Diretoria de Biblioteca da EBP Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 16 \u2013 de um Outro ao outro. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 168.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Ventura, Oscar. Identifica\u00e7\u00e3o, acontecimento de corpo e la\u00e7o social. In: <em>Arteira \u2013 Revista de psican\u00e1lise<\/em>, n. 10, Florian\u00f3polis, Escola Brasileira de psican\u00e1lise \u2013 Se\u00e7\u00e3o Santa Catarina, 2018 Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/revistaarteira.com.br\/index.php\/identificacao\">http:\/\/revistaarteira.com.br\/index.php\/identificacao<\/a>&gt;.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>Cf. Laurent, \u00c9ric. O analista cidad\u00e3o. In: <em>A sociedade do sintoma \u2013 a psican\u00e1lise, hoje.<\/em> Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2007, pp. 163-178.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Cervelin* \u201cNem sempre as nuvens ofuscam o c\u00e9u: \u00e0s vezes, elas o iluminam\u201d Elsa Morante &nbsp; Antes de mais nada, algumas perguntas que talvez demandem outras coisas que n\u00e3o respostas r\u00e1pidas demais: que ter\u00e1 acontecido com quem, tempos atr\u00e1s,ria do fake vendido como real\u00edstico \u2013 por exemplo, em filmes ao estilo de A bruxa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,6],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3122","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-bricolagens","category-ii-jornada","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3122","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3122"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3122\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3122"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3122"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3122"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3122"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}