{"id":3099,"date":"2021-07-21T18:04:17","date_gmt":"2021-07-21T21:04:17","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3099"},"modified":"2021-07-21T18:04:17","modified_gmt":"2021-07-21T21:04:17","slug":"ficcoes-e-real-na-psicanalise-e-na-cultura-do-ser-a-ex-sistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/ficcoes-e-real-na-psicanalise-e-na-cultura-do-ser-a-ex-sistencia\/","title":{"rendered":"Fic\u00e7\u00f5es e real na psican\u00e1lise e na cultura: do ser \u00e0 ex-sist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Fabi\u00e1n Fajnwaks. Membro da EOL, da ECF e da AMP<\/p>\n<p>Falar sobre o que n\u00e3o existe: o analisando n\u00e3o faz nada al\u00e9m disso, por vezes, durante longos anos de an\u00e1lise. Que os unic\u00f3rnios existem, que no Universo h\u00e1 c\u00edrculos que s\u00e3o quadrados e que 2+2 pode ser igual a 5. \u00c9 exatamente isso que pode levar algu\u00e9m a consultar um analista. Que tais coisas \u201cvistas e ouvidas\u201d, como escreveu Freud, possam constituir a origem do trauma; que o analisando suponha a exist\u00eancia de um Outro, um Outro mau que deseja sua castra\u00e7\u00e3o ou que quer gozar dele ou dela; que os homens ou as mulheres t\u00eam tal ou tal caracter\u00edstica que impede ou dificulta abord\u00e1-los \u2013 s\u00e3o essas coisas que se estruturam a partir da fantasia fundamental e sobre as quais se sustentam os sintomas. Com rela\u00e7\u00e3o a isso, Freud mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o bastante rigorosa: lembremo-nos com quanta energia ele defende em seu artigo \u201cFantasias Hist\u00e9ricas e sua Rela\u00e7\u00e3o com a Bissexualidade\u201d (1908) que, por tr\u00e1s de todo sintoma, se encontra uma fantasia inconsciente. Os analisandos, dessa forma, falam durante muito tempo sobre coisas que n\u00e3o existem, mas que, ainda assim, <em>s\u00e3o<\/em>. Elas <em>s\u00e3o <\/em>porque possuem uma exist\u00eancia na l\u00edngua que o sujeito fala, em sua l\u00edngua pessoal, sua <em>lalangue<\/em> que d\u00e1 consist\u00eancia a suas <em>fix\u00f5es<\/em>, como escreve J. Lacan, fic\u00e7\u00f5es que fixam o gozo do ser falante. Quantas vezes os analisandos podem se dar conta, ao longo de sua an\u00e1lise, de terem atribu\u00eddo uma significa\u00e7\u00e3o <em>errada<\/em> a certo termo, sobretudo quando se trata de sujeitos que s\u00e3o, como \u00e9 o caso da maioria hoje em dia, <em>pluril\u00edngues<\/em>, o que favorece as mudan\u00e7as de sentido entre as diferentes l\u00ednguas? Por exemplo, quando, aos 14 anos, eu descobri o portugu\u00eas, dizer <em>obrigado<\/em> me parecia querer evocar <em>obligado<\/em>, no espanhol que ent\u00e3o eu falava, fazendo refer\u00eancia, assim, \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nos remete o fato de dever agradecer \u2013 eu os deixo imaginar o gozo que havia a\u00ed, ainda que, nessa descri\u00e7\u00e3o, ele possa parecer banal.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a fic\u00e7\u00e3o e o real, a rela\u00e7\u00e3o entre o ser e a exist\u00eancia que n\u00f3s nos questionamos aqui, pois essa rela\u00e7\u00e3o se v\u00ea questionada no mundo da pol\u00edtica atual, no campo daquilo que se tornou habitual chamar de <em>p\u00f3s-verdade<\/em> ou <em>fake news<\/em>. Trata-se de um problema cujo fundamento epistemol\u00f3gico foi abordado por Jean-Fran\u00e7ois Lyotard, que o reconheceu como uma modalidade particular do fen\u00f4meno p\u00f3s-moderno de desaparecimento das grandes narrativas que estruturam a experi\u00eancia dos seres falantes. Mas tamb\u00e9m se trata de uma quest\u00e3o que pode ser esclarecida \u00e0 luz da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise, por ser essencialmente uma experi\u00eancia da palavra, o que permite situar as rela\u00e7\u00f5es existentes entre o simb\u00f3lico e o real da maneira mais irredut\u00edvel poss\u00edvel. Essas rela\u00e7\u00f5es podem ser observadas tamb\u00e9m na literatura, em torno da quest\u00e3o da autofic\u00e7\u00e3o, g\u00eanero que se tornou t\u00e3o popular nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>Pretendo abordar os tr\u00eas eixos da rela\u00e7\u00e3o entre fic\u00e7\u00f5es e verdade, seguindo os eixos que Louise Lhullier me prop\u00f4s: a Cl\u00ednica, a Epistemologia e a Pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>A era da p\u00f3s verdade e dos <em>fake news<\/em>: o <em>nonsense<\/em> na Pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Fa\u00e7amos uma pequena revis\u00e3o hist\u00f3rica para situar o termo <em>p\u00f3s-verdade<\/em>. Trata-se de um termo que apareceu por volta de 2004, quando o escritor americano Ralph Keyes o utilizou em seu livro <em>The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life<\/em>. Nesse mesmo ano, o jornalista Eric Alterman falou de um \u201cambiente pol\u00edtico p\u00f3s-verdade\u201d e de \u201cpresid\u00eancia p\u00f3s-verdade\u201d ao analisar as falsas afirma\u00e7\u00f5es promovidas pela administra\u00e7\u00e3o de Bush ap\u00f3s os atentados de 11 de setembro de 2001. A quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o verdadeiro e o falso no universo pol\u00edtico-midi\u00e1tico \u2013 citando o excelente artigo da Wikip\u00e9dia a respeito da p\u00f3s-verdade \u2013 \u00e9 frequentemente objeto de debates nos Estados Unidos de diferentes maneiras. Em 2005, o humorista Stephen Colbert introduziu o neologismo \u201ctruthiness\u201d para expressar o fato de que podemos considerar algo como verdadeiro tendo por base simples preconcep\u00e7\u00f5es de ordem afetiva, sem sequer considerar os fatos que s\u00e3o afirmados. A express\u00e3o \u201cpost-truth politics\u201d se tornou popular em 2010 para designar \u201cuma cultura pol\u00edtica na qual a opini\u00e3o p\u00fablica e as m\u00eddias est\u00e3o quase inteiramente desconectadas da pol\u00edtica e dos conte\u00fados da legisla\u00e7\u00e3o\u201d. Mas poder\u00edamos evocar tamb\u00e9m como caracter\u00edstica dessa era da p\u00f3s-verdade o emprego dessas mesmas m\u00eddias n\u00e3o s\u00f3 a servi\u00e7o do estabelecimento de uma legitimidade pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica a partir da difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis \u00e0 a\u00e7\u00e3o de determinado governo. \u00c9 o que parece ter mostrado a longa experi\u00eancia na It\u00e1lia. Na Fran\u00e7a, a partir dos anos 2010, come\u00e7a a se consolidar uma situa\u00e7\u00e3o na qual os homens pol\u00edticos, ao mesmo tempo, se veem temerosos com rela\u00e7\u00e3o ao povo e vivem \u00e0 margem de suas preocupa\u00e7\u00f5es. Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 favorecida pela forma\u00e7\u00e3o de tecnocratas na \u00c9cole Nationale d\u2019Administration.<\/p>\n<p>Dois fatos distintos vieram, ao mesmo tempo, cristalizar e acelerar as express\u00f5es da era p\u00f3s-fatual e da p\u00f3s-verdade: de um lado, o Brexit, em 2016, medida que recebeu boa parte de seu apoio gra\u00e7as \u00e0 difus\u00e3o de <em>fake news<\/em> a respeito de falsas proje\u00e7\u00f5es sobre a depend\u00eancia da Gr\u00e3-Bretanha com rela\u00e7\u00e3o a Bruxelas; e, de outro lado, a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos em novembro desse mesmo ano. A difus\u00e3o de anti-verdades e mesmo de mentiras contribuiu com esses dois acontecimentos. Parece-me particularmente digno de nota o termo empregado pela porta-voz do governo Trump, Kellyanne Conway, em 22 de janeiro de 2017, dois dias ap\u00f3s a posse presidencial, para designar a forma como a imprensa teria relatado a cerim\u00f4nia da posse. Segundo a imprensa, a multid\u00e3o presente teria sido menos numerosa do que em elei\u00e7\u00f5es precedentes, informa\u00e7\u00e3o que Conway qualificou de \u201cfatos alternativos\u201d. Trata-se de um termo digno do famoso livro de George Orwell, 1984, para qualificar fatos que n\u00e3o s\u00e3o convenientes para um governo!<\/p>\n<p>Outros \u201cfatos alternativos\u201d ainda podem ser apontados, como, por exemplo, o an\u00fancio do governo ucraniano de que o jornalista russo Arkadi Babtchenko, conhecido por suas posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-russas, teria sido assassinado, an\u00fancio que foi desmentido no dia seguinte como uma \u201cinforma\u00e7\u00e3o falsa\u201d que teria sido difundida \u201cno intuito de disfar\u00e7ar um atentado programado pela R\u00fassia e de capturar os assassinos mercen\u00e1rios recrutados para esse crime\u201d. Trata-se de um verdadeiro exerc\u00edcio de \u201cpregar o falso para obter o verdadeiro\u201d em Pol\u00edtica, o que d\u00e1 uma verdadeira utilidade \u00e0s <em>fake news<\/em>.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos ir ainda mais longe e identificar o in\u00edcio da era da p\u00f3s-verdade com o in\u00edcio da p\u00f3s-modernidade. Dever\u00edamos ver ent\u00e3o o ensaio fundamental escrito por Jean-Fran\u00e7ois Lyotard no in\u00edcio dos anos 80, quando ele j\u00e1 previa, de forma vision\u00e1ria, a transforma\u00e7\u00e3o que a informatiza\u00e7\u00e3o crescente da sociedade e a tecnologiza\u00e7\u00e3o do saber produzido viriam a promover na linguagem, reduzindo-a a \u201cjogos de linguagem\u201d, termo j\u00e1 empregado por Wittgenstein. Tais jogos de linguagem implicariam, para Lyotard, \u201cuma incid\u00eancia sobre a pr\u00f3pria natureza do saber e da verdade\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Lyotard j\u00e1 anunciava \u201co fim das grandes narrativas\u201d, o que determinaria que a pr\u00f3pria verdade seria subordinada a um relativismo regido pelas regras de discurso que operam na micro-narrativa. A verdade seria doravante subordinada \u00e0 l\u00f3gica interna de um texto, perdendo assim seu car\u00e1ter transcendente. O saber assim se iguala a seu \u201cvalor de uso\u201d.<\/p>\n<p>O valor da verdade ser\u00e1 doravante determinado segundo seu valor de troca e pela possibilidade de sua mercantiliza\u00e7\u00e3o em um mercado mundial, que os GAFA, por exemplo, encarnam de forma concreta nos dias atuais. Esse saber que \u00e9 vendido em um mercado cognitivo mundializado tem uma \u00e1rea de aplica\u00e7\u00e3o extremamente limitada, determinada pelo valor pr\u00e1tico correspondente a sua possibilidade de ser vendida e utilizada em um campo de aplica\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tico.<\/p>\n<p>Todo esse <em>background<\/em> constitui a base para a elimina\u00e7\u00e3o do lugar ocupado pela verdade no campo social, dando espa\u00e7o \u00e0 p\u00f3s-verdade, o <em>fake<\/em>, que se consolida como destino inexor\u00e1vel da palavra em nossa civiliza\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o parece se aproximar daquilo que o discurso anal\u00edtico descobre no campo da cl\u00ednica: que verdade e falsidade constituem duas faces que parecem dar continuidade uma \u00e0 outra na fita de Moebius. Lembremo-nos daquilo que Freud formula em seu famoso texto sobre as \u201cConstru\u00e7\u00f5es em an\u00e1lise\u201d: que a resposta \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d do analisando a uma constru\u00e7\u00e3o do analista tem exatamente o mesmo valor e que \u00e9 principalmente o conte\u00fado daquilo que se associa, seguindo a constru\u00e7\u00e3o trazida pelo analista, que permite verificar se o analisando aceita ou recusa a interpreta\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o. Tal formula\u00e7\u00e3o freudiana, que se exprime na <em>Traumdeutung<\/em> como a constata\u00e7\u00e3o de que o inconsciente n\u00e3o conhece a no\u00e7\u00e3o de contradi\u00e7\u00e3o, seria suficiente por si s\u00f3 para subverter os princ\u00edpios presentes na l\u00f3gica aristot\u00e9lica. Muito h\u00e1 a ser dito com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00f3gica, pois o verdadeiro e o falso s\u00e3o, antes de mais nada, categorias l\u00f3gicas. As l\u00f3gicas inconscientes que derivam do teorema de G\u00f6del demonstram que se pode concluir que determinado teorema \u00e9 verdadeiro mesmo se todas as suas proposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o verific\u00e1veis e mesmo se ele cont\u00e9m proposi\u00e7\u00f5es falsas. A inconsist\u00eancia presente no teorema permite tais imperfei\u00e7\u00f5es. A L\u00f3gica chega a\u00ed ao apogeu de sua toler\u00e2ncia com rela\u00e7\u00e3o a um sistema inconsistente, na medida em que pode trabalhar, ao mesmo tempo, com proposi\u00e7\u00f5es verdadeiras, n\u00e3o-verific\u00e1veis e mesmo falsas como parte de um mesmo teorema. Ainda assim, n\u00e3o existe l\u00f3gica que possa promover proposi\u00e7\u00f5es verdadeiras a partir de proposi\u00e7\u00f5es falsas, pois isso colocaria em xeque todo o sistema de proposi\u00e7\u00f5es \u2013 coisa que, por outro lado, se pode fazer na psican\u00e1lise. E \u00e9 a\u00ed que a verdade interv\u00e9m. Pois n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema em formular proposi\u00e7\u00f5es que, sem serem <em>exatas<\/em>, ainda assim s\u00e3o <em>verdadeiras<\/em>: lembremo-nos, por exemplo, da interpreta\u00e7\u00e3o feita por Freud a respeito do Homem dos ratos. Era <em>exato <\/em>que ele estava morto, mas, ainda assim, isso n\u00e3o era <em>verdade<\/em> para o sujeito, que ainda o tratava como se ele estivesse vivo. O exato, a\u00ed, se separa da verdade, o que levou JAM a afirmar que nenhuma psican\u00e1lise seria poss\u00edvel sem essa disjun\u00e7\u00e3o. Na psican\u00e1lise, privilegiamos o que \u00e9 <em>verdade <\/em>para certos sujeitos, sem prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 exatid\u00e3o dos fatos. Note-se que essa disjun\u00e7\u00e3o, que tem toda sua pertin\u00eancia no campo anal\u00edtico, se encontra tamb\u00e9m nas <em>fake news<\/em>, que espalham verdades sem levar em conta a precis\u00e3o dos fatos. Como j\u00e1 se pontuou diversas vezes, a tecnologia acelerou enormemente esse processo com a cria\u00e7\u00e3o da Internet e de meios como os telefones celulares e a tecnologia 2.0, os quais, de certa forma, fazem com que qualquer um possa criar informa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da difus\u00e3o de imagens na web e nas redes sociais. <em>Broadcast yourself<\/em>, \u00e9 o subt\u00edtulo do YouTube: <em>coloque-se em linha<\/em>, um lema que nomeia bem essa nova possibilidade que a tecnologia permite. Conhecemos bem tudo isso. Lyotard havia antecipado de maneira formid\u00e1vel tudo isso ao afirmar que \u201cas fun\u00e7\u00f5es de regula\u00e7\u00e3o e, assim, de reprodu\u00e7\u00e3o de imagens s\u00e3o e ser\u00e3o cada vez mais retiradas dos administradores e confiadas, em primeiro lugar, aos pr\u00f3prios cidad\u00e3os, et, em seguida, aos aut\u00f4matos\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. \u00c9 a\u00ed que estamos! Hoje em dia, j\u00e1 falamos de intelig\u00eancias artificiais que s\u00e3o capazes de escrever artigos jornal\u00edsticos se lhes forem dados dois ou tr\u00eas elementos presentes em uma not\u00edcia, por exemplo: um homic\u00eddio, poss\u00edveis motivos, suspeitas sobre o assassino.<\/p>\n<p>O que nos ensinam esses fatos sociais a respeito da rela\u00e7\u00e3o entre a verdade e os fatos? E, por sua vez, como a psican\u00e1lise pode, atrav\u00e9s da distin\u00e7\u00e3o que ela faz entre verdade, mentira, besteira e real, subverter ou explicar esses fen\u00f4menos sociais? Primeiramente, podemos ver que, como indica Lyotard, a tecnologia nos permite alterar o pr\u00f3prio <em>status<\/em> do saber, da informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento a partir da altera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre os fatos e a linguagem. J\u00e1 faz um bom tempo, pelo menos desde Wittgenstein, que os l\u00f3gicos se deram conta de que fatos s\u00e3o, antes de mais nada, fatos de linguagem, e que, em fun\u00e7\u00e3o da maneira como falamos dos fatos, podemos criar mundos distintos. Isso n\u00e3o significa que os fatos n\u00e3o existam por si s\u00f3; um atentado, por exemplo, \u00e9 um fato real. Mas a forma como a m\u00eddia se refere aos fatos exerce uma influ\u00eancia decisiva sobre sua recria\u00e7\u00e3o. Por exemplo, quando dizemos que um certo indiv\u00edduo foi visto exatamente antes no local do crime, ou quando afirmamos que o indiv\u00edduo em quest\u00e3o possu\u00eda tal ou tal caracter\u00edsticas. Isso n\u00e3o deve nos chocar, j\u00e1 que o que se encontra no centro das experi\u00eancia de uma an\u00e1lise \u00e9, sem d\u00favida, o fato de que trabalhamos com a palavra do sujeito, trabalhamos a partir daquilo que ele diz, independentemente de irmos verificar se o que ele diz \u00e9 verdade ou n\u00e3o. Os fatos, em uma cura anal\u00edtica, s\u00e3o, antes de mais nada, fatos de linguagem, ainda que eles possam ser traum\u00e1ticos para o sujeito e ainda que eles continuem a incidir, por vezes de forma nefasta, sobre sua vida atual. O interesse de uma psican\u00e1lise n\u00e3o est\u00e1 em sua possibilidade de mudar o futuro do sujeito, mas sobretudo seu passado. Tal possibilidade existe gra\u00e7as ao fato de se poder narrar os eventos passados, que foram realmente vividos e que continuam a exercer efeitos dur\u00e1veis ao longo do tempo, de novas maneiras, de forma a aliviar seu peso. Esse elemento me parece fundamental e vale por si mesmo no sentido de poder rejeitar ao menos uma parte dos eventos que marcaram a vida de um sujeito, produzindo assim um efeito de separa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos eventos traum\u00e1ticos vividos. Por vezes, atrav\u00e9s da narrativa que o sujeito cria em torno dos eventos, uma verdade bastante distante dos fatos pode ser criada e, assim, pode-se retirar algo da vivacidade de alguns eventos ou de certos detalhes desses eventos que se encontravam no centro das mem\u00f3rias traum\u00e1ticas. Dessa forma, pode-se aliviar o peso que certos fatos exercem, por vezes, mesmo d\u00e9cadas ap\u00f3s terem sido vividos. Isso nos mostra de que maneira a primeira de todas as <em>talking-cures<\/em>, que \u00e9 a an\u00e1lise, ao privilegiar a rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e a palavra, pode tratar <em>fatos<\/em>, ainda que eles sejam distantes do ponto de vista temporal; isso pode ser feito quando se revela o car\u00e1ter <em>fake<\/em> dos eventos em quest\u00e3o, ou por vezes quando se retifica certos elementos de forma a permitir uma outra vis\u00e3o das coisas. A dimens\u00e3o do saber articulado que pressup\u00f5e a experi\u00eancia de palavra de uma an\u00e1lise tem, dessa maneira, uma incid\u00eancia sobre a verdade (ou as verdades) de um sujeito, podendo alter\u00e1-las. Mas, para isso, deve-se passar pela articula\u00e7\u00e3o desse saber que se produz em uma cura anal\u00edtica. Assim, essas verdades n\u00e3o s\u00e3o absolutas, ainda que por vezes elas assumam esse car\u00e1ter para o sujeito. S\u00e3o verdades que muitas vezes s\u00e3o estruturadas a partir de equ\u00edvocos, de acidentes de linguagem, de \u201cjogos de linguagem\u201d \u2013 como dizia Wittgenstein \u2013 que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica \u00e9 capaz de introduzir. O exemplo m\u00e1ximo me parece ser o sujeito fetichista evocado por Freud, que buscava um \u201cbrilho sobre o nariz\u201d como objeto que condicionava seu gozo, tornando-se um fetiche. Esse fetiche se constituiu na passagem do ingl\u00eas \u201ca glance at the nose\u201d ao alem\u00e3o \u201ceine Glanz auf der Nase\u201d, quando o analisando mudou de pa\u00eds e de l\u00edngua. Foi poss\u00edvel assim reconstruir, em an\u00e1lise, o equ\u00edvoco que havia originado sua pequena pervers\u00e3o. Uma escorregadela lingu\u00edstica, um equ\u00edvoco constitui a origem da forma\u00e7\u00e3o de uma pervers\u00e3o ou de um sintoma. A interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, na medida em que ela segue esse mesmo caminho do equ\u00edvoco da linguagem, pode tratar essas quest\u00f5es. Hoje em dia, vivendo entre l\u00ednguas, isto \u00e9, entre diversas l\u00ednguas, tal como o <em>Finnegans\u2019 Wake <\/em>de James Joyce, podemos constatar que os equ\u00edvocos se fundem entre si. O importante aqui \u00e9 que esses equ\u00edvocos nos colocam diante do fato que a verdade s\u00f3 pode ser <em>meio dita<\/em>, que a verdade \u00e9 <em>pas-toute<\/em> e que ela pode ser abordada, justamente, a partir desses acidentes de linguagem introduzidos pela psican\u00e1lise. Essa dupla face da verdade e da mentira, que associamos h\u00e1 pouco com a fita de Moebius, se mostra assim similar ao plano da linguagem, o \u00fanico plano no qual os objetos tendem a escorregar, a se distorcer. Assim, verdade e mentira equivalem uma \u00e0 outra, ambas se inscrevendo no plano da palavra e se distorcendo em fun\u00e7\u00e3o de seu car\u00e1ter. Lacan chega ao ponto de fazer, em seu semin\u00e1rio XX, <em>Encore<\/em>, uma verdadeira \u201code \u00e0 besteira\u201d, a besteira que \u00e9 pr\u00f3pria da linguagem, no sentido em que ela permite o acesso \u00e0 verdade ou as verdades presentes na linguagem.<\/p>\n<p>Uma pequena digress\u00e3o no campo da L\u00f3gica nos ajudar\u00e1 a entender melhor o estatuto da verdade. Nossa ideia comum \u00e9 que o estatuto daquilo que parece ser verdadeiro, mas que, na realidade, n\u00e3o o \u00e9, n\u00e3o deveria tolerar a condi\u00e7\u00e3o de sufici\u00eancia material do grande l\u00f3gico Tarski, que se interessou por essas quest\u00f5es, exige para afirmar que determinada proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>A <em>condi\u00e7\u00e3o de sufici\u00eancia material <\/em>de Tarski, tamb\u00e9m conhecida pelo nome <em>Conven\u00e7\u00e3o I<\/em>, estima que toda teoria da verdade, para ser considerada vi\u00e1vel, deve comportar, para cada frase \u201cP\u201d, uma frase com a seguinte forma (chamada \u201cforma T\u201d):<\/p>\n<ul>\n<li>\u201cP\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se P.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Por exemplo,<\/p>\n<ul>\n<li>\u201cA neve \u00e9 branca\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se a neve \u00e9 branca.<\/li>\n<\/ul>\n<p>\u00c9 importante observar que Tarski, em um primeiro momento, aplicou essa teoria somente \u00e0s linguagens formais. Ele apresentou uma s\u00e9rie de argumentos para n\u00e3o estender sua teoria \u00e0s linguagens naturais. Isso n\u00e3o impediu Davidson de desenvolver uma abordagem das teorias do <em>sentido <\/em>com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s linguagens naturais tendo como base a teoria de Tarski, tratando a \u201cverdade\u201d como uma premissa, ao inv\u00e9s de trat\u00e1-la como um conceito definido.<\/p>\n<p>Tarski desenvolveu essa teoria no intuito de promover uma defini\u00e7\u00e3o indutiva da verdade, da seguinte forma:<\/p>\n<p>Para uma linguagem <em>L<\/em> contendo os elementos \u2013 (\u201cn\u00e3o\u201d), ^ (\u201ce\u201d), v (\u201cou\u201d), \u2200 (\u201cpara todo\u201d) e \u2203 (\u201cexiste\u201d), a defini\u00e7\u00e3o indutiva da verdade segundo Tarski seria assim:<\/p>\n<ul>\n<li>\u201cA\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se A.<\/li>\n<li>\u201c-A\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se \u201cA\u201d n\u00e3o \u00e9 verdadeiro.<\/li>\n<li>\u201cA^B\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se A e B.<\/li>\n<li>\u201cAvB\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se A ou B ou (A e B).<\/li>\n<li>\u201c\u2200x(Fx)\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se todo objeto <em>x<\/em> satisfa\u00e7a a fun\u00e7\u00e3o proposicional F.<\/li>\n<li>\u201c\u2203x(Fx)\u201d \u00e9 verdadeiro se e somente se existe um objeto <em>x<\/em> satisfa\u00e7a a fun\u00e7\u00e3o proposicional F.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As <em>fake news<\/em> se baseiam sobre o fato de que elas devem ser demonstradas ou verificadas. Em nossa civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acreditamos mais no que \u00e9 enunciado pelas m\u00eddias. Inclu\u00edmos um ponto de inconsist\u00eancia, como nos teoremas de G\u00f6del, em qualquer enunciado que parece descrever a realidade sob a forma de verdade. Pior ainda: a pr\u00f3pria Ci\u00eancia porta muitas vezes esse princ\u00edpio de inconsist\u00eancia, o que levou muitos m\u00e9dicos, na Fran\u00e7a, por exemplo, a relutar a se vacinar, alegando n\u00e3o poderem avaliar os eventuais efeitos das vacinas anti-Covid. Isso sem falar do complotismo, posi\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a sistem\u00e1tica com rela\u00e7\u00e3o a todo e qualquer enunciado da sociedade, supondo a exist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es ocultas e, de forma similar \u00e0 postura de um pr\u00e9-determinista, encontrando um sentido onde, justamente, n\u00e3o h\u00e1 sentido \u2013 fazendo surgir, assim, um Outro, geralmente mal-intencionado.<\/p>\n<p><strong>Cl\u00ednica<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>O problema \u00e9 que, na psican\u00e1lise, todo enunciado verdadeiro est\u00e1 sujeito a demonstra\u00e7\u00f5es tendo por refer\u00eancia a quest\u00e3o do gozo. Dessa forma, enunciados verdadeiros s\u00e3o \u201cfurados\u201d pela inconsist\u00eancia, na medida em que nada do que o sujeito diz em an\u00e1lise pode ser verificado, a n\u00e3o ser \u00e0 luz de sua estrutura de gozo. A palavra do analisando pode comportar enunciados verdadeiros e demonstrados lado-a-lado com outros n\u00e3o-demonstr\u00e1veis. Seja como for, tais enunciados s\u00f3 poder\u00e3o ser verificados com rela\u00e7\u00e3o ao conjunto de seus dizeres (o que, na Matem\u00e1tica, se denomina um teorema) e com rela\u00e7\u00e3o a suas modalidades de gozo. Eles n\u00e3o necessariamente poder\u00e3o ser verificados em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre diferentes proposi\u00e7\u00f5es. Inconsist\u00eancia e n\u00e3o-demonstrabilidade s\u00e3o, assim, caracter\u00edsticas dos dizeres dos analisandos. N\u00e3o se deve verificar um \u201csim\u201d ou um \u201cn\u00e3o\u201d em seu discurso, como dizia Freud em \u201cConstru\u00e7\u00f5es em psican\u00e1lise\u201d, mas deve-se ter em vista o gozo enquanto elemento exterior ao discurso. \u00c9 por conta disso que Lacan afirma, em seu semin\u00e1rio sobre a l\u00f3gica da fantasia, que \u201ca fantasia fundamental funciona como um axioma com rela\u00e7\u00e3o aos dizeres do sujeito\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse \u00e2mbito que uma distin\u00e7\u00e3o entre o Ser e a Exist\u00eancia se imp\u00f5e, conforme argumenta Jacques-Alain Miller em seu curso \u201c<em>L\u2019\u00eatre et l\u2019Un<\/em>\u201d. Trata-se de uma distin\u00e7\u00e3o entre, de um lado, o Ser como ser da palavra, o ser que a palavra produz e que Lacan promoveu ao termo de <em>parl\u00eatre. <\/em>Notemos que Lacan, atrav\u00e9s desse termo, subverte aquilo que ele mesmo afirmara em seus primeiros semin\u00e1rios, que a palavra introduz uma \u201cfalta-a-ser\u201d (<em>manque \u00e0 \u00eatre<\/em>), na medida em que a met\u00e1fora e a meton\u00edmia impedem todo ser de se constituir como tal, sendo que, no final das contas, \u201ca palavra \u00e9 a morte da Coisa\u201d na linguagem. Uma vez que falamos, o ser se desfaz. Mas o \u00faltimo Lacan \u2013 atrav\u00e9s da substitui\u00e7\u00e3o do sujeito do inconsciente pelo <em>parl\u00eatre<\/em> (presente em sua confer\u00eancia \u201cJoyce le sinthome\u201d e nos <em>Outros Escritos<\/em>) \u2013 se prop\u00f5e abordar o ser de forma positiva e de associ\u00e1-lo \u00e0 palavra, enquanto que, anteriormente, ele o abordava de forma negativa, como aquilo que \u00e9 negado pela a\u00e7\u00e3o da palavra. A palavra implica, nesse \u00faltimo momento de seu ensinamento, um \u201cganho de ser\u201d, ao passo em que, anteriormente, ela implicava uma \u201cperda de ser\u201d.<\/p>\n<p>Mas se o ser se associa \u00e0 palavra, ent\u00e3o, h\u00e1 algo que existe antes e fora dela, ou, empregando a terminologia de Martin Heidegger, <em>ex-siste<\/em>, isto \u00e9, que \u00e9 exterior em rela\u00e7\u00e3o a ela. Trata-se do campo do gozo, que, justamente, n\u00e3o se reduz \u00e0 palavra e n\u00e3o se deixa tomar pela palavra. A <em>ex-sist\u00eancia<\/em> se apresenta assim como exterior em rela\u00e7\u00e3o ao dom\u00ednio do significante e de todas as fic\u00e7\u00f5es que ele \u00e9 capaz de articular. Como vimos, Lacan afirmava que \u201ca verdade tem uma estrutura de fic\u00e7\u00e3o\u201d. Assim, a verdade ou as verdades <em>s\u00e3o<\/em> na medida em que se articulam ao significante; o real do gozo, entretanto, <em>ex-siste<\/em> em rela\u00e7\u00e3o a ele.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 abordagem anal\u00edtica da verdade, como aquilo que se associa \u00e0s fic\u00e7\u00f5es que o significante articula e ao que deve ser constru\u00eddo, utilizando a terminologia de Freud, isto \u00e9, aquilo que \u00e9 da ordem do gozo e que, pelo fato de ele <em>ex-istir<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao significante, deve ser adicionado pelo analista, visto que n\u00e3o pode se articular no discurso do pr\u00f3prio analisando.<\/p>\n<p><strong>Epistemologia: do gozo do sentido aos arranjos poss\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Interessei-me especialmente pelo subt\u00edtulo \u201cdo gozo do sentido aos arranjos poss\u00edveis\u201d, pois esse subt\u00edtulo me parece apontar para o destino do gozo na an\u00e1lise, j\u00e1 desconectado do sentido que o analisando conferia \u00e0quilo que fazia consistir seus sintomas. No sentido do <em>sens-jouit<\/em> ou ainda do <em>j\u2019ouis sens<\/em> (jogos de palavras com a palavra francesa para gozo, <em>jouissance<\/em>), isso diz respeito \u00e0 experi\u00eancia sexuada do <em>parl\u00eatre<\/em> na qual se pode fazer do Nome-de-Pai o significante principal. A an\u00e1lise permite ao sujeito confrontar-se com o objeto com que ele tem de lidar em sua fantasia fundamental e, a partir da\u00ed, reformular sua maneira de estar no mundo e de significar sua exist\u00eancia. O Nome-do-Pai, a Lei paterna, surge a partir da\u00ed como um semblante que permitiria dar sentido ao conjunto da experi\u00eancia do <em>parl\u00eatre<\/em>. Pode-se perceber isso, por exemplo, quando um analisando se d\u00e1 conta de que seus pr\u00f3prios gestos relativos ao dinheiro (como o fato de n\u00e3o guardar nenhuma quantia, nenhuma nota consigo antes de deixar um pa\u00eds cuja moeda seja diferente, antes de retornar ao seu pr\u00f3prio pa\u00eds) se associam ao fato de que era seu pai que o dizia para faz\u00ea-lo. Ou ent\u00e3o um outro analisando que escolhia seus destinos de f\u00e9rias em fun\u00e7\u00e3o das localidades que seu pai dizia que ele precisava visitar. O campo das possibilidades se amplia quando o sujeito neur\u00f3tico se confronta com o lugar central que a Lei paterna ocupava para ele e quando ele percebe que existe uma vida para al\u00e9m desse campo estruturado por esse significante principal. \u00c9 como o fil\u00f3sofo que sai da caverna na <em>Rep\u00fablica <\/em>de Plat\u00e3o, e que, assim, de repente, se d\u00e1 conta do quanto sua realidade era limitada pelas sombras que ele via projetadas na parede. A queda do semblante paterno equivale a um aumento do campo da realidade, que passa a incluir, doravante, aquilo a que o sujeito neur\u00f3tico renunciara durante muito tempo, isto \u00e9, seu desejo. Mas essa opera\u00e7\u00e3o passa principalmente pela linguagem, para poder reconhecer os significantes no seu discurso que s\u00e3o alienados e alienantes, pois eles v\u00eam do Outro.<\/p>\n<p>Atravessar o fantasma fundamental implica isolar, no seu pr\u00f3prio caso, o objeto que organizava o gozo dos seus sintomas. O \u201csens-joui\u201d (\u201csentido goza\u201d) se sustentava sobre essa modalidade privilegiada do objeto, objeto que introduz, logo, uma aus\u00eancia de sentido. Trata-se de um processo no qual o sentido que o sujeito neur\u00f3tico obtinha atrav\u00e9s dos seus sintomas perde algo de seu volume. Isso implica, precisamente, a introdu\u00e7\u00e3o de um furo na significa\u00e7\u00e3o \u2013 o que n\u00e3o significa necessariamente que se deva deix\u00e1-la completamente, mas sim perfur\u00e1-la introduzindo um ponto que escapa ao sentido. Esse ponto sem sentido representado pelo objeto <em>a<\/em> permite a compreens\u00e3o de uma s\u00e9rie de fen\u00f4menos que n\u00e3o se reduzem ao significante, nem tampouco \u2013 diga-se de passagem \u2013 \u00e0 raz\u00e3o, para os sujeitos mais cartesianos. Essa opera\u00e7\u00e3o descompleta o saber e, consequentemente, coloca em xeque seu poder de entender aquilo que resiste \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o sentido possibilita a condensa\u00e7\u00e3o do gozo, o gozo precisa encontrar um destino: \u00e9 esse o sentido da aplica\u00e7\u00e3o das \u201cbricolagens poss\u00edveis\u201d aos quais o subt\u00edtulo faz refer\u00eancia. \u201cBricolagens\u201d, pois o <em>parl\u00eatre<\/em> dever\u00e1 dar continuidade aos arranjos com o gozo, as quais, de agora em diante, n\u00e3o se autorizam mais tendo por base o Nome-do-Pai. O sujeito ainda pode realiz\u00e1-lo em nome do Nome-do-Pai, mas, nesse caso, ele o far\u00e1 sabendo disso. Trata-se, assim, de situar a \u201cbricolagem\u201d claramente na perspectiva do sinthoma, pois o sinthoma implica sempre uma bricolagem poss\u00edvel com o resto de gozo presente no sintoma que a an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 capaz de reduzir ainda mais. O n\u00f3 borromeano amarra o resto de gozo irredut\u00edvel que se deduz do sintoma. E \u00e9 nisso que ele constitui uma \u201cbricolagem\u201d, na medida em que implica um arranjo sempre singular passando por fora ou ao lado do Nome-do-Pai, que, anteriormente, permitia o n\u00f3 dos tr\u00eas registros, Real, Simb\u00f3lico e Imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>No que diz respeito \u00e0 bricolagem, diremos, como Claude L\u00e9vi-Strauss, que ele atinge todas as suas letras de nobreza. L\u00e9vi-Strauss o afirma, especialmente, em <em>Pensamento selvagem<\/em>. Citarei L\u00e9vi-Strauss:<\/p>\n<blockquote><p>O <em>bricoleur<\/em> est\u00e1 apto a executar um grande n\u00famero de tarefas diversificadas; por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do engenheiro, n\u00e3o subordina nenhuma delas \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas e de utens\u00edlios concebidos e procurados na medida de seu projeto: seu universo instrumental \u00e9 fechado, e a regra de seu jogo \u00e9 sempre arranjar-se com os \u201cmeios-limites\u201d, isto \u00e9, um conjunto sempre finito de utens\u00edlios e de materiais bastante heter\u00f3clitos, porque a composi\u00e7\u00e3o do conjunto n\u00e3o est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular, mas \u00e9 o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque ou para mant\u00ea-lo com os res\u00edduos de constru\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00f5es anteriores. O conjunto de meios do <em>bricoleur<\/em> n\u00e3o \u00e9, portanto, defin\u00edvel por um projeto (o que suporia, ali\u00e1s, como com o engenheiro, a exist\u00eancia tanto de conjuntos instrumentais quanto de tipos de projeto, pelo menos em teoria); ele se define apenas por sua instrumentalidade e, para empregar a pr\u00f3pria linguagem do <em>bricoleur<\/em>, porque os elementos s\u00e3o recolhidos ou conservados em fun\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de que \u201cisso sempre pode servir\u201d. Tais elementos s\u00e3o, portanto, semiparticularizados: suficientemente para que o <em>bricoleur<\/em> n\u00e3o tenha necessidade do equipamento e do saber de todos os elementos do <em>corpus<\/em>, mas n\u00e3o o bastante para que cada elemento se restrinja a um emprego exato e determinado. Cada elemento representa um conjunto de rela\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo concretas e virtuais; s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, utiliz\u00e1veis em fun\u00e7\u00e3o de quaisquer opera\u00e7\u00f5es dentro de um tipo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Detenhamo-nos, a partir dessa longa cita\u00e7\u00e3o, sobre alguns pontos que me parecem muito importantes: \u201c<em>seu universo instrumental <\/em>[da bricolagem]<em> \u00e9 fechado, e a regra de seu jogo \u00e9 sempre arranjar-se com os \u201cmeios-limites\u201d, isto \u00e9, um conjunto sempre finito de utens\u00edlios e de materiais bastante heter\u00f3clitos<\/em>\u201d, ou seja, quer dizer que ele n\u00e3o procede por meios t\u00e9cnicos especialmente elaborados para a situa\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o, a n\u00e3o ser que seja um conjunto fechado de ferramentas e materiais escolhidos para a opera\u00e7\u00e3o, pegando os \u201cmeios da borda\u201d, como, no caso da an\u00e1lise, aqueles que pertenciam ao sintoma. Isso fica ainda mais claro na seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u201c<em>a composi\u00e7\u00e3o do conjunto n\u00e3o est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular, mas \u00e9 o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque ou para mant\u00ea-lo com os res\u00edduos de constru\u00e7\u00f5es e destrui\u00e7\u00f5es anteriores<\/em>\u201d. N\u00e3o h\u00e1 uma t\u00e9cnica pr\u00e9via, nem um projeto que preceda a inven\u00e7\u00e3o, mas somente um resultado \u201ccontingente\u201d de uma s\u00e9rie de ocasi\u00f5es, que permitem um enriquecimento a partir dos res\u00edduos das constru\u00e7\u00f5es ou das destrui\u00e7\u00f5es anteriores; ou seja, no nosso campo, do sintoma.<\/p>\n<p>Por fim, \u201c[a bricolagem] <em>se define apenas por sua instrumentalidade e, para empregar a pr\u00f3pria linguagem do <\/em>bricoleur<em>, porque os elementos s\u00e3o recolhidos ou conservados em fun\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de que \u2018isso sempre pode servir\u2019<\/em>\u201d. Trata-se da caracter\u00edstica instrumental do sinthoma, que aparece aqui como arranjo ou inven\u00e7\u00e3o. Ele se constr\u00f3i a partir das \u201cpe\u00e7as soltas\u201d que permanecem no final de uma an\u00e1lise, ou, como dizia L\u00e9vi-Strauss: \u201c<em>Cada elemento representa um conjunto de rela\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo concretas e virtuais; s\u00e3o opera\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, utiliz\u00e1veis em fun\u00e7\u00e3o de quaisquer opera\u00e7\u00f5es dentro de um tipo<\/em>\u201d. As possibilidades de inven\u00e7\u00f5es e arranjos s\u00e3o determinadas por esses elementos que representam \u201c<em>um conjunto de rela\u00e7\u00f5es <\/em>[&#8230;]<em> utiliz\u00e1veis em fun\u00e7\u00e3o de quaisquer opera\u00e7\u00f5es<\/em>\u201d: creio que dificilmente podemos definir melhor a caracter\u00edstica instrumental e operat\u00f3ria do <em>sinthoma<\/em> que pela dimens\u00e3o de <em>savoir-faire<\/em> que Lacan lhe confere.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: David Krausz<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Diego Cervelin<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Lyotard, J. F. <em>La Condition Postmoderne. <\/em>Paris: Ed. du Minuit, 1979, p. 13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lyotard, J. F. <em>La Condition Postmoderne. <\/em>Paris: Ed. du Minuit, 1979, p. 30.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> L\u00c9VI-STRAUSS, Claude. <em>O pensamento selvagem. <\/em>5 ed. Tradu\u00e7\u00e3o de T\u00e2nia Pellegrini. Campinas: Papirus, 2005, pp.32-33.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabi\u00e1n Fajnwaks. Membro da EOL, da ECF e da AMP Falar sobre o que n\u00e3o existe: o analisando n\u00e3o faz nada al\u00e9m disso, por vezes, durante longos anos de an\u00e1lise. Que os unic\u00f3rnios existem, que no Universo h\u00e1 c\u00edrculos que s\u00e3o quadrados e que 2+2 pode ser igual a 5. \u00c9 exatamente isso que pode&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-3099","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ii-jornada","category-textos-de-orientacao","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3099"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3099\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3099"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=3099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}