{"id":3075,"date":"2021-07-08T10:39:01","date_gmt":"2021-07-08T13:39:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/?p=3075"},"modified":"2021-07-08T10:39:01","modified_gmt":"2021-07-08T13:39:01","slug":"alguns-comentarios-sobre-falar-sobre-o-que-nao-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/alguns-comentarios-sobre-falar-sobre-o-que-nao-existe\/","title":{"rendered":"Alguns coment\u00e1rios sobre: Falar sobre o que n\u00e3o existe. Do gozo do sentido \u00e0s bricolagens poss\u00edveis."},"content":{"rendered":"<h6>Por: Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna<\/h6>\n<p>Em primeiro lugar meus agradecimentos a Louise Lulhier e Nohemi Brown pelo convite de estar aqui, hoje com os colegas da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul e outros que nos acompanham, para comentar o argumento do tema da II jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul.<\/p>\n<p>Creio que foi o Unic\u00f3rnio que me trouxe at\u00e9 aqui. Ser fant\u00e1stico<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> citado por Louise em seu texto a partir da leitura do curso de J. A Miller: O ser e o Um. O unic\u00f3rnio, assim como todos os seres que conhecemos s\u00e3o seres de linguagem.<\/p>\n<p>Minha rela\u00e7\u00e3o com os unic\u00f3rnios at\u00e9 agora tem sido bastante restrita, mas pode ser que aumente a partir de hoje. Na semana passada tive a oportunidade de comentar o caso do Sonho do Unic\u00f3rnio de Serge Leclaire, junto com outros colegas, no Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-Se\u00e7\u00e3o Rio. \u00a0No caso citado o analisante era obcecado por unic\u00f3rnios e durante sua an\u00e1lise foi produzida uma sequ\u00eancia de palavras que ao reduzi-la se transformou em Li-corne, as letras impregnadas de gozo. Lacan, no semin\u00e1rio livro 11, sugere a leitura desse caso como uma ilustra\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m do sentido.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da jornada indica que a dimens\u00e3o daquilo que no existe emerge no campo da linguagem e da fala. E seu subt\u00edtulo, prop\u00f5e uma orienta\u00e7\u00e3o que alude ao trabalho anal\u00edtico, no qual se produz um movimento que vai do gozo do sentido \u00e0s bricolagens poss\u00edveis. Esse passo \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que inclui necessariamente o analista.<\/p>\n<p>O argumento apresentado \u00e9 uma proposta de trabalho para a pr\u00f3xima jornada que circunscreve as elabora\u00e7\u00f5es do ensino de J. Lacan (1971-1973), elucidadas por J. A Miller em seu curso: O ser e o Um. Tomo essa proposta como uma aposta de elabora\u00e7\u00e3o dos elementos que se encontram nessa abordagem te\u00f3rica.<\/p>\n<p>Lembro que J. Lacan disse que seu ensino era capaz de dar consist\u00eancia ao discurso anal\u00edtico, o que foi traduzido posteriormente por J.-A Miller; \u201c&#8230;a elucubra\u00e7\u00e3o faz parte da experi\u00eancia.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Nesse sentido temos o desafio de dizer o que muda na experi\u00eancia psicanal\u00edtica orientada pelo axioma que toma o gozo como uma evid\u00eancia, como um ponto de partida que instaura a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o entre o gozo e o Outro. \u00a0Esse axioma apresenta o Um totalmente separado do Outro, do qual se desprende a f\u00f3rmula: n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Mas como entra o Um no mundo, no corpo? J. Lacan responde que o significante introduz o Um no mundo; o encarna (encorps), nesse contexto, o significante \u00e9 elevado \u00e0 causa de gozo<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a isso, sugiro revisitar as tr\u00eas primeiras hip\u00f3teses de Parm\u00eanides retomadas pelos neoplat\u00f4nicos, junto com J. -A Miller, que oferecem a possibilidade de entender a rela\u00e7\u00e3o entre o Um e o ser em cada hip\u00f3tese, e a partir delas, situar os matemas lacanianos $, S1, S2 e o objeto a.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Cabe dizer que o argumento oferece uma excelente costura entre o ensino e a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, demostrando por um lado, que a elucubra\u00e7\u00e3o faz parte da experi\u00eancia<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, e por outro, abrindo algumas linhas de pesquisa poss\u00edveis. \u00a0Nesse sentido interrogo; o que traz de novo a elabora\u00e7\u00e3o do Um do gozo?<\/p>\n<p>Essa pergunta acompanha a dire\u00e7\u00e3o apontada no t\u00edtulo e, tamb\u00e9m na escolha dos termos elencados no texto que s\u00e3o: a associa\u00e7\u00e3o livre, a interpreta\u00e7\u00e3o, o sinthoma, o corpo, desembocando por fim, no tema da inven\u00e7\u00e3o-bricolagem.<\/p>\n<p>Extraio do argumento que a associa\u00e7\u00e3o livre, isto \u00e9, \u201cdizer tudo o que vem \u00e0 cabe\u00e7a\u201d (regra fundamental da psican\u00e1lise) \u00e9 o caminho, onde a fala produz as diferentes modalidades de exist\u00eancia, tal qual foram trabalhadas por Lacan em rela\u00e7\u00e3o \u201cao que cessa\u201d e \u201cao n\u00e3o para\u201d de se escrever. E \u00e9 o analista, a partir da aten\u00e7\u00e3o flutuante, que interv\u00e9m na fala do analisante, lendo o significante (separado de sua articula\u00e7\u00e3o) e isolando seu valor de letra encarnada no corpo que faz gozar.<\/p>\n<p>Outro ponto a ressaltar \u00e9 sobre como a interpreta\u00e7\u00e3o se livra das amarras do sentido para dar lugar ao <em>n\u00e3o sense,<\/em> passagem fundamental, que girar\u00e1 entorno do imposs\u00edvel de dizer, promovendo algo in\u00e9dito, surpreendente para o pr\u00f3prio sujeito. \u00a0Assim essa concep\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o faz ressoar as letras agarradas no corpo, que n\u00e3o se articulam com nada e que indicam o gozo do Um.<\/p>\n<p>Ao comentar o t\u00f3pico sobre o sintoma, cabe lembrar que Freud elaborou duas defini\u00e7\u00f5es para conceber o sintoma, a primeira diz que o sintoma \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o de desejo inconsciente (campo do desejo), e a segunda que o considera como uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional (puls\u00e3o).<\/p>\n<p>J\u00e1 Lacan retoma, ao longo de seu ensino, o sintoma como uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, como uma mensagem que se articula ao Outro, portanto interpret\u00e1vel. Posteriormente introduz o sinthoma com um neologismo que aloja a letra h indicando que a letra se infiltra na palavra. Assim o sinthoma localiza uma forma de gozar do corpo, disjunta do Outro, \u00edndice da presen\u00e7a do Um e da aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>As duas defini\u00e7\u00f5es de Freud e de Lacan abordam os campos do desejo e do gozo presentes na fala. Mas a elabora\u00e7\u00e3o de Lacan parte da premissa do Um do gozo, desligado da estrutura, do campo do Outro, e, \u00e9 justamente isso, o que permite ir al\u00e9m das elabora\u00e7\u00f5es sobre a puls\u00e3o em Freud.<\/p>\n<p>Mas como ordenar as duas abordagens do sintoma em J. Lacan. Elas se substituem, se complementam, que rela\u00e7\u00e3o propor? A princ\u00edpio penso que n\u00e3o se trata de substituir uma pela outra e, sim, de poder articul\u00e1-las. Nesse sentido, indago se \u00e9 poss\u00edvel considerar que sinthoma est\u00e1 presente no sintoma, assim como a letra esta presente no significante?<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Partilho da ideia de que a delimita\u00e7\u00e3o da letra presente no gozo do sinthoma \u00e9 aquilo que toca o corpo que est\u00e1 al\u00e9m do corpo narc\u00edsico, tal como, \u00e9 apontado na proposta para a jornada.<\/p>\n<p>Entendo que todas essas considera\u00e7\u00f5es abrem o trabalho anal\u00edtico para um al\u00e9m do sintoma, um al\u00e9m do sentido, um al\u00e9m do corpo narc\u00edsico, exigindo uma nova topologia. Esse movimento de ir al\u00e9m vai produzindo restos, peda\u00e7os, com os quais, em algum momento poder\u00e1 surgir algo novo, que ganhe o estatuto de inven\u00e7\u00e3o para o analisante. Ali se encontra a aproxima\u00e7\u00e3o entre a bricolagem e a inven\u00e7\u00e3o. Podem se aproximar, mas \u00e9 necess\u00e1rio examin\u00e1-las mais de perto para tecer rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis ou imposs\u00edveis. \u00c9 importante continuar a trabalhar para extrair mais consequ\u00eancias para a pr\u00e1tica do analista, seja aonde ela for, das constru\u00e7\u00f5es que tomam como ponto de partida: H\u00e1 gozo.<\/p>\n<p>Obrigada.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> O unic\u00f3rnio \u00e9 um ser fant\u00e1stico, considerado s\u00edmbolo da pureza, da castidade e da for\u00e7a. Ele aparece\u00a0nas narrativas medievais como um animal extremamente d\u00f3cil e pr\u00f3ximo das donzelas virgens.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J.- A. Los signos del goce. Editora Paidos. Buenos Aires. 1998. P. 352.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J. A. Os seis paradigmas do gozo. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online. Nova s\u00e9rie. Ano III. Mar\u00e7o 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan. J. Semin\u00e1rio livro 20:mais ainda. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. Los signos del goce. Buenos Aires. Paid\u00f3s. 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Miller. J.-A Os seis paradigmas do gozo. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online. Nova S\u00e9rie\u00a0\u00a0 Ano III mar\u00e7o 2012<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Jimenez, S. No cinema com Lacan. Rio de janeiro. Ponteio.2014.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna Em primeiro lugar meus agradecimentos a Louise Lulhier e Nohemi Brown pelo convite de estar aqui, hoje com os colegas da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul e outros que nos acompanham, para comentar o argumento do tema da II jornada da EBP-Se\u00e7\u00e3o Sul. 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