{"id":2695,"date":"2020-07-22T11:12:53","date_gmt":"2020-07-22T14:12:53","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/sc\/?page_id=2695"},"modified":"2020-07-22T11:12:53","modified_gmt":"2020-07-22T14:12:53","slug":"eixos-de-trabalho-i-jornada-da-ebp-secao-sul","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sul\/eventos\/jornadas\/1a-jornada-da-secao-sul-o-feminino-e-os-litorais-do-indizivel\/eixos-de-trabalho-i-jornada-da-ebp-secao-sul\/","title":{"rendered":"Eixos de Trabalho &#8211; I Jornada da EBP &#8211; Se\u00e7\u00e3o Sul"},"content":{"rendered":"<h2><span style=\"color: #993300;\">Eixo 1<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Como o sujeito se autoriza na feminilidade?<\/span><\/h3>\n<h6>Oscar Reymundo (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Lacan disse que o gozo feminino \u00e9 o gozo enquanto tal e que ele se apresenta de modo contingencial. Nesse sentido, a feminilidade \u00e9 como a felicidade: acontece \u00e0s vezes e n\u00e3o se anuncia.<\/p>\n<p>Desta afirma\u00e7\u00e3o entendemos que h\u00e1 algo que resiste \u00e0 ordem simb\u00f3lica, algo opaco ao sentido, em todo e em cada sujeito pelo fato de ser falante. Em outras palavras, todo discurso se sustenta num real, o objeto <em>a<\/em>, resto indiz\u00edvel que est\u00e1 fora da cadeia significante e, portanto, fora de todo sentido. Assim colocado, podemos nos perguntar se ser\u00e1 que esse gozo opaco, chamado, na paroquia, de feminino, precisa de algu\u00e9m se autorizar para apresentar-se, contingencialmente, com seus efeitos de desarranjos na vida e na agenda, at\u00e9 daqueles que acreditam ser poss\u00edvel ter algum dom\u00ednio sobre a linguagem. Mas ent\u00e3o, se essa opacidade do gozo n\u00e3o precisa que algu\u00e9m se autorize para experiment\u00e1-la: como virar-se, quando ela se manifesta, sem apelar ao negacionismo segregativo, causa de viol\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma consequ\u00eancia do silencio pulsional?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos escrever uma hist\u00f3ria das culturas orientados pelas estrat\u00e9gias que se implementaram nas diversas civiliza\u00e7\u00f5es, ao longo dos tempos, para silenciar as manifesta\u00e7\u00f5es dessa dimens\u00e3o do indiz\u00edvel, do imposs\u00edvel de controlar, programar, governar, educar. Muitos, muitas e muites acabam nas fogueiras da purifica\u00e7\u00e3o nas suas mais diversas vers\u00f5es quando, de um modo ou outro, exp\u00f5em o lado opaco, incompreens\u00edvel, dum gozo que o amo n\u00e3o consegue sequer admitir.<\/p>\n<p>Talvez devamos pensar o autorizar-se como efeito de um consentimento com o pr\u00f3prio da dimens\u00e3o pulsional, isto \u00e9, imposs\u00edvel foracluir o que, sem aviso pr\u00e9vio, inunda o ser falante deixando-lhe t\u00e3o somente duas possibilidades pulsionais: o masoquismo ou o sadismo. Duas possibilidades que poder\u00e3o ser limitadas, ora pela castra\u00e7\u00e3o, ora pela sublima\u00e7\u00e3o, mas nunca desaparecer. No m\u00e1ximo podemos ficar advertidos.<\/p>\n<p>Quando falamos, ent\u00e3o, de consentimento, um por um, com esses \u201cfora da casinha\u201d, estamos fazendo refer\u00eancia a uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica que, de in\u00edcio, exclui o para\u00edso na terra. Estado de gra\u00e7a prometido pela religiosidade do voluntarismo cognitivista que, desconhecendo o real presente no sintoma, aposta \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios do corpo falante. Esse \u00e9 o real que na nossa cl\u00ednica encontramos, por exemplo, no sofrimento de quem nos consulta porque n\u00e3o encontra resposta para a indefini\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o sexual, ou porque seu recha\u00e7o do corpo sexuado com o qual nasceu j\u00e1 n\u00e3o lhe permite viver.<\/p>\n<p>Fora da casinha, fora da cadeia significante, fora do sentido&#8230;tra\u00e7o do gozo opaco, esse que habita o \u201cContinente Negro\u201d, com o qual \u00e9 necess\u00e1rio consentir para poder orientar-se e autorizar-se na dire\u00e7\u00e3o das inven\u00e7\u00f5es, que cada um pode produzir, para que a vida seja viv\u00edvel junto com outros.<\/p>\n<hr \/>\n<h2><span style=\"color: #993300;\">Eixo 2<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Sobre aquilo que n\u00e3o se pode falar deve-se calar? Da narrativa \u00e0 poiesis do indiz\u00edvel<\/span><\/h3>\n<h6><span style=\"color: #000000;\">Marcia M. Stival Onyszkiewicz (EBP\/AMP)<\/span><\/h6>\n<p>Do in\u00edcio da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, extrai-se uma cita\u00e7\u00e3o de Lacan, na qual ele salienta que se o seu \u201cdiscurso n\u00e3o viesse a ser nada al\u00e9m de um vagido, ao menos colheria ali o ausp\u00edcio de renovar em sua disciplina os fundamentos que ela retira da linguagem\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Assim, fazendo uso da regra fundamental, neste per\u00edodo de retorno a Freud, Lacan come\u00e7a a organizar a psican\u00e1lise a partir do imagin\u00e1rio, para em seguida fundament\u00e1-la no estruturalismo. Contando com o inconsciente transferencial, faz da travessia da fantasia o fim de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Mas Lacan chega ao \u00faltimo ensino considerando sua inven\u00e7\u00e3o e destacando que, \u201corientar-se pelo sintoma como resposta da exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que orientar-se pela fantasia.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Deste tempo de elabora\u00e7\u00e3o, resgata-se que cada um se satisfaz e sofre de um modo, sendo imposs\u00edvel fazer de dois, Um.<\/p>\n<p>Repercuss\u00f5es deste amplo percurso s\u00e3o tocadas pelo segundo eixo de trabalho da primeira Jornada da Se\u00e7\u00e3o Sul, a partir de uma quest\u00e3o: \u201csobre aquilo que n\u00e3o se pode falar deve-se calar?\u201d. Eis uma provoca\u00e7\u00e3o que explicita a presen\u00e7a do imposs\u00edvel, enquanto traz \u00e0 tona que \u201co real n\u00e3o fala\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Esta proposi\u00e7\u00e3o, marcada pela obscuridade, remete \u00e0 considera\u00e7\u00e3o de que \u201c a orienta\u00e7\u00e3o do real &#8230;foraclui o sentido.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Ent\u00e3o trata-se de calar ou de contar com o simb\u00f3lico para encaminhar-se rumo ao significante, no estatuto de letra? Estaria a\u00ed uma oportunidade para refletir sobre a fun\u00e7\u00e3o do escrito, como o que se coloca al\u00e9m da linguagem e da narrativa, como fruto de uma redu\u00e7\u00e3o que possibilita um saber-fazer?<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando no que este eixo apresenta, depara-se com uma afirmativa: \u201cda narrativa \u00e0 poiesis do indiz\u00edvel\u201d.\u00a0 Trata-se de uma duplicidade abarcada pelo significante, que conduz da consist\u00eancia do Outro a sua inconsist\u00eancia, da aliena\u00e7\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o. Provavelmente uma aposta, que resgata o que a arte ensina: \u201ca poesia est\u00e1 guardada nas palavras\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, do percurso inclu\u00eddo na afirma\u00e7\u00e3o, poderiam ser contemplados distintos modos de conceber o amor, de lidar com as conting\u00eancias, de conduzir a cl\u00ednica?<\/p>\n<p>Eis um campo aberto para conversa, a ser ancorada nos ecos que os trabalhos desta Jornada puderem suscitar.<\/p>\n<hr \/>\n<h2><span style=\"color: #993300;\">Eixo 3<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Que litorais poss\u00edveis com outros discursos?<\/span><\/h3>\n<h6>Adriano Aguiar (EBP\/AMP)<\/h6>\n<p>Litoral\u2026 litoral \u00e9 a no\u00e7\u00e3o propriamente lacaniana para falar do encontro entre dois campos heterog\u00eaneos, que diferente da fronteira, n\u00e3o faz apelo a um denominador comum:<\/p>\n<p>\u201ca fronteira, com certeza, ao separar dois territ\u00f3rios simboliza que eles s\u00e3o iguais para quem a transp\u00f5e, que h\u00e1 entre eles um denominador comum. (&#8230;) N\u00e3o \u00e9 a letra&#8230;litoral, mais propriamente, ou seja, figurando que um campo inteiro serve de fronteira para outro, por serem eles estrangeiros, a ponto de n\u00e3o serem rec\u00edprocos?\u201d<\/p>\n<p>Sabemos que Lacan introduz a no\u00e7\u00e3o de litoral na psican\u00e1lise para falar de um encontro em particular. Aquele que se d\u00e1 entre saber e gozo, de onde emerge de maneira renovada a inst\u00e2ncia da letra no ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel lan\u00e7ar m\u00e3o da no\u00e7\u00e3o lacaniana de litoral para pensar outros encontros, tais como entre a psican\u00e1lise e outros saberes?<\/p>\n<p>Lacan sempre buscou algo em outros saberes. Psiquiatria, etologia, lingu\u00edstica, antropologia, \u00f3ptica, literatura, filosofia, matem\u00e1tica, l\u00f3gica, topologia. Por que lhe foi necess\u00e1rio faz\u00ea-lo? O que ele buscava nesses outros dom\u00ednios?<\/p>\n<p>Sabemos com Lacan que para se constituir um campo ou um corpo estruturado como um todo, uma exce\u00e7\u00e3o ou extra\u00e7\u00e3o se faz necess\u00e1ria. Se esse todo for, no caso, um corpo te\u00f3rico, h\u00e1 que pensar que, por estrutura, existe algo que esse campo te\u00f3rico n\u00e3o pensa; que al\u00e9m disso, ele est\u00e1 obrigado por si mesmo a n\u00e3o pens\u00e1-lo; e que, mais ainda, ele s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se n\u00e3o o pensa. Haveria ent\u00e3o um impensado da psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>E se pensarmos a partir da l\u00f3gica do n\u00e3o-todo? Seria poss\u00edvel fazer outros artefatos com o impensado no litoral entre a psican\u00e1lise e outros campos?<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o algumas quest\u00f5es que este eixo da jornada convida nossa comunidade a pensar. Estas e outras ainda n\u00e3o pensadas que lhes convidamos a trazer a partir de suas experi\u00eancias no litoral.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem\u201d. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 239.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MILLER, J.-A <em>O ser e o Um <\/em>aula XI, 04 de maio de 2011.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.-A. <em>El ultim\u00edssimo Lacan <\/em>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2014, p.235.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio livro 23 <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 2007, p.117.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> BARROS, M. <em>Tratado Geral das Grandezas do \u00cdnfimo <\/em>Rio de janeiro: Record, 2001.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eixo 1 Como o sujeito se autoriza na feminilidade? Oscar Reymundo (EBP\/AMP) Lacan disse que o gozo feminino \u00e9 o gozo enquanto tal e que ele se apresenta de modo contingencial. Nesse sentido, a feminilidade \u00e9 como a felicidade: acontece \u00e0s vezes e n\u00e3o se anuncia. 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