{"id":9206,"date":"2023-09-24T18:19:15","date_gmt":"2023-09-24T21:19:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7414"},"modified":"2023-09-24T18:19:15","modified_gmt":"2023-09-24T21:19:15","slug":"rir-se-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/rir-se-2\/","title":{"rendered":"Rir-se"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7415\" aria-describedby=\"caption-attachment-7415\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7415\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_gaio005_002-1.png\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"250\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7415\" class=\"wp-caption-text\">Medusa Marinara (1997), Vik Muniz.<br \/>www.vikmuniz.net<\/figcaption><\/figure>\n<h6>Marcus Andr\u00e9 Vieira<br \/>\nMembro da EBP\/AMP<strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<p><strong>Trapalhadas<\/strong><\/p>\n<p>De que rimos? Humor \u00e9 coisa grande. Neste universo quase sem fim, Lacan, em seu quinto semin\u00e1rio, entra cortando: uma coisa \u00e9 o c\u00f4mico, outra \u00e9 o chiste. Come\u00e7a por separar nossos risos em dois grandes rios.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>De um lado, as v\u00eddeo-cassetadas, as crian\u00e7as fofas, os gatinhos mais inteligentes que os c\u00e3es e tudo mais que nos leva a rir pelas trapalhadas da exist\u00eancia, que \u00e9 sempre mais destrambelhada do que nossos c\u00e1lculos. \u00c9 essa ideia do c\u00f4mico, segundo seus autores de refer\u00eancia para o tema, Theodor Lipps e Henri Bergson. Ambos sup\u00f5em que o riso do c\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 apenas fruto da ridiculariza\u00e7\u00e3o de uma entidade de poder, como quando rimos da torta na cara do chefe. Em um espectro maior, o essencial \u00e9 que rimos porque automatismos s\u00e3o quebrados quando surge o imprevis\u00edvel. Projetos de proeza s\u00e3o interrompidos, mergulhos acrob\u00e1ticos viram barrigadas, crian\u00e7as imp\u00f5em desastres a adultos cansados que tentavam apenas fazer as coisas funcionarem no <em>automaton<\/em> da educa\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 impressionante e divertido ver a capacidade da vida, encarnada nesses pequenos seres, de dar um tombo em qualquer ordena\u00e7\u00e3o. Rimos, ent\u00e3o, porque o excesso vital que passamos os dias a educar e a \u201cortopedizar\u201d retorna a n\u00f3s nessa identifica\u00e7\u00e3o dual \u2013 nos identificamos n\u00e3o apenas com o adulto que se estatela na casca de banana, mas igualmente com a crian\u00e7a que jogou a casca.<\/p>\n<p><strong>Tirada<\/strong><\/p>\n<p>Do outro lado est\u00e1 o chiste. Nem Freud nem Lacan subestimam a for\u00e7a do c\u00f4mico, apenas querem marcar a especificidade do chiste, j\u00e1 que ele, como a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, subverte a ordem instaurada a partir do material inconsciente.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, proponho assumir que nossa cultura n\u00e3o \u00e9 especialmente dada ao chiste. Nem temos um termo usual para a coisa no portugu\u00eas. Foi preciso ressuscitar essa palavra, \u201cchiste\u201d, que quase s\u00f3 \u00e9 usada pelos <em>psis<\/em>. J\u00e1 <em>ingenio<\/em>, <em>witz<\/em>, <em>wit<\/em>, <em>esprit<\/em> est\u00e3o a\u00ed, em outras l\u00ednguas, apontando para outro modo de rela\u00e7\u00e3o esse modo de uso da l\u00edngua. Nomeiam sem dificuldade os m\u00e9ritos chistosos de algu\u00e9m, assim como aquilo que sua capacidade produz. Lembro, no momento de definir a vers\u00e3o brasileira do <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, como sofremos para traduzir com o mesmo termo<em> esprit<\/em> e <em>mot d\u2019esprit<\/em>, a capacidade do produtor e seu produto, o chiste. Optamos com <em>espirituosidade<\/em> e <em>tirada espirituosa<\/em>, apelando ainda para outras possibilidades como <em>presen\u00e7a de esp\u00edrito<\/em>, <em>trocadilho<\/em> e, claro, <em>chiste<\/em>.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> E como se diria isso em termos coloquiais? Sagacidade? Desistimos.<\/p>\n<p><strong>Saudade<\/strong><\/p>\n<p>Sem grandes generaliza\u00e7\u00f5es sobre a cultura brasileira, quero apenas destacar o valor da nomea\u00e7\u00e3o. Tomemos o exemplo da palavra <em>saudade<\/em>. Com orgulho, dizemos que s\u00f3 n\u00f3s a nome\u00e1ssemos e, portanto, como se apenas n\u00f3s a sent\u00edssemos. N\u00e3o \u00e9 bem assim. N\u00e3o h\u00e1 um nome que diga a Coisa. Mas \u00e9 verdade que algumas vezes a cercamos pela meton\u00edmia, quando v\u00e1rios nomes lhe fazem borda. Outras vezes, um termo faz efeito de met\u00e1fora, parece se colocar sobre a coisa dizendo-a do melhor modo poss\u00edvel. \u00c9 o caso de \u201csaudade\u201d, que traz n\u00e3o s\u00f3 o sentido da perda e da falta, mas um \u201ca mais\u201d de significa\u00e7\u00e3o, segundo a f\u00f3rmula de Lacan para a met\u00e1fora (S\/S (+)), que n\u00e3o tem em si sentido, mas acompanha o termo.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> Porque n\u00e3o supor que o \u201ca mais\u201d de nossa saudade tenha bebido do banzo mortal de tantos escravizados, a ponto de que viesse a inscrever na l\u00edngua essa dor? Por isso, mais tarde Lacan designar\u00e1 seu \u201c+\u201d com termo <em>gozo<\/em>, nesse caso em seu aspecto brutal.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 esse gozo fora do sentido que interessa, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ao analista? Nem sempre ser\u00e1 t\u00e3o mort\u00edfero. No caso do chiste, por exemplo, apresenta-se como riso. Esse \u00e9 o maior valor da \u201ctirada espirituosa\u201d, mas tamb\u00e9m sua limita\u00e7\u00e3o. Afinal, nem sempre rir \u00e9 o melhor a fazer. Apesar disso, ri-se muito menos do que se poderia. \u00c9 a tese lacaniana que gostaria de defender: uma an\u00e1lise tende a aumentar o n\u00famero de risadas.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><strong>Nomea\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A sagacidade chistosa diz respeito \u00e0 possibilidade de se produzir uma <em>nomea\u00e7\u00e3o<\/em> para alguma coisa que precisa ser dita, mas resiste a se materializar. Uso nomea\u00e7\u00e3o, aqui, de modo geral, menos espec\u00edfico do sentido que lhe d\u00e1 Lacan, por exemplo a partir de Saul Kripke e que se aproxima do que ocorre com o nome pr\u00f3prio. Um nome n\u00e3o diz a coisa, mas dispensa explica\u00e7\u00f5es. Apenas, como os d\u00eaiticos, designa.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Abordar o chiste a partir da nomea\u00e7\u00e3o, nos leva ao que Lacan chamou S1. O modo mais simples de definir um S1 me parece ser: \u00e9 uma palavra que n\u00e3o pede explica\u00e7\u00e3o. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 o que chamamos na \u00e1lgebra lacaniana S2 &#8211; o termo que vem dar sentido ao que se disse primeiro. O S1 \u00e9 uma palavra sem sentido em si e que, por alguma raz\u00e3o, se sustenta assim, sem sentido.<\/p>\n<p>O S1 deve ser distinguido do <em>significante-mestre<\/em>, outra produ\u00e7\u00e3o conceitual de Lacan no <em>Semin\u00e1rio 17 <\/em>que tamb\u00e9m se sustenta sem sentido.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> O significante-mestre \u00e9 um S1 especial. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o pede explica\u00e7\u00e3o, mas no seu caso, o \u201ca mais\u201d de significa\u00e7\u00e3o \u00e9 bancado pela cren\u00e7a na autoridade. Se perguntado sobre o porqu\u00ea do que exige, o mestre pode dizer: \u201cporque sim\u201d. O significante mestre \u00e9 um S1 cujo S2 \u00e9 dispensado pelos efeitos da cren\u00e7a na tradi\u00e7\u00e3o, no Nome do Pai.<\/p>\n<p><strong>Outra cena<\/strong><\/p>\n<p>Uma chave do discurso do analista, na teoria lacaniana dos discursos, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de um S1. Interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 isto: sustentar um S1 sem apoio no recalque, do mestre &#8211; o que ressalta o gozo pelo S1 veiculado e que n\u00e3o passa pelo sentido.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> Diversos s\u00e3o os modos de acesso ao gozo deixando o sentido em segundo plano. Todas as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente o fazem de um modo ou de outro. O chiste, por\u00e9m, ensina como \u00e0s vezes na vida \u00e9 poss\u00edvel produzir um significante de gozo \u201ccoletivo\u201d.<\/p>\n<p>Segundo a estrutura descrita por Freud, aquele que cria ou vai contar a piada tem de trazer \u00e0 cena o que n\u00e3o pode ser dito, vencendo, portanto, o recalque. Assim, quando a piada for contada, essa segunda pessoa tamb\u00e9m ter\u00e1 seu recalque vencido pelo chiste. Ri, ent\u00e3o, meio sem gra\u00e7a, por participar do jogo como palco da subvers\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 uma terceira pessoa, supostamente presente, que rir\u00e1 de verdade, pois pode assistir confortavelmente ao triunfo sobre o recalque, identificando-se com a segunda pessoa, mas sem ter que ter vencido nada ou vivido em si a subvers\u00e3o. \u00c9 esse o car\u00e1ter coletivo do chiste: seus efeitos devem ir al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o dual, ou nada feito.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo o chiste \u00e9, como Lacan define, uma economia de gozo. O gozo, tornado dispon\u00edvel de modo gratuito por toda essa opera\u00e7\u00e3o, leva ao riso que \u201ceclode, pelo caminho poupado\u201d. Encontramos o que n\u00e3o se podia dizer e ao mesmo tempo o gozo. Rimos por \u201cabrirmos a porta al\u00e9m da qual n\u00e3o h\u00e1 mais nada a encontrar\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Mas e o riso em si? At\u00e9 agora, ele \u00e9 uma descarga como outras. \u00c9 preciso examinar a Outra cena, a face hist\u00f3rica, transferencial do inconsciente a que a porta do chiste nos abre, assim como o fora da hist\u00f3ria, o \u201cnada mais a encontrar\u201d do gozo, que Lacan denomina mais tarde, inconsciente real.<\/p>\n<p><strong>Salgados<\/strong><\/p>\n<p>O chiste produz, assim, uma nomea\u00e7\u00e3o que \u201cabre uma porta\u201d. \u00c9, a partir de Jakobson, <em>shifter<\/em>, embreagem, passagem a uma Outra cena, uma cadeia significante inconsciente.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>H\u00e1 um perfil do Instagram inteiramente constru\u00eddo em um chiste e que encarna a passagem \u00e0 Outra cena admiravelmente: <em>Sebasti\u00e3o Salgados<\/em>, com \u201cs\u201d. A cena oficial a que ele remete \u00e9 a do trabalho do grande fot\u00f3grafo em suas caracter\u00edsticas mais \u00f3bvias: o horror do humano nas margens da civiliza\u00e7\u00e3o, em preto e branco, quase estetizado, mas forte, imenso. Nenhum lugar para o humor. Claro est\u00e1 que sua obra n\u00e3o se reduz a isso, mas a p\u00e1gina joga com o que se tornou fixado Sebasti\u00e3o Salgado no Outro. Sebasti\u00e3o Salgados \u00e9, em contraponto, uma tenda virtual, em que as pessoas se encontram como se estivessem entre coxinhas e empadas a um real para falar da vida e rir. Quando o tema da discuss\u00e3o \u00e9, por exemplo, o de palavras que deveriam existir cada um traz sua p\u00e9rola: \u201cvimos muitas <em>Capiv\u00e1rias<\/em>\u201d, \u201cfulano <em>rejuvelheceu<\/em>\u201d, entre outras, assim como express\u00f5es: \u201ca luz dormiu acesa\u201d ou \u201cdaqui para frente \u00e9 s\u00f3 para tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Ainda falta, por\u00e9m, uma peculiaridade da nomea\u00e7\u00e3o-chiste que se apresenta de forma bem discreta no Sebasti\u00e3o Salgados. Por isso, \u00e9 importante lembrar que Lacan caracteriza o chiste como um novo <em>ser verbal<\/em>, que pode ser aproximado do modo como ele nomeia o recalque, <em>monstruoso<\/em>.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> Sua conex\u00e3o exibe a face de absurdo do recalcado \u00e0s vezes de modo evidente, neol\u00f3gico, deformado, deixando claro que ele \u00e9 portador de Outra cena, mas igualmente de algo mais. Em nossa cultura, classista escravocrata, esse car\u00e1ter \u00e9 associado \u00e0 ignor\u00e2ncia. Vejam como se ri de: \u201c<em>Trouxe seu tampou\u00e9r<\/em>\u201d, \u201c<em>Que<\/em> <em>crian\u00e7a mais imperativa!\u201d, \u201cfui fazer meu exame psicod\u00e9lico\u201d<\/em>, \u201c<em>isso foge \u00e0 minha ossada<\/em>\u201d, ou ainda a de uma paciente que foi ao radiologista para examinar, no ultrassom, o \u00fatero e diz ao m\u00e9dico: \u201c<em>n\u00e3o d\u00e1 porque j\u00e1 fiz xerectomia<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><strong>Encruza<\/strong><\/p>\n<p>Quem disse que \u00e9 simples ignor\u00e2ncia? \u00c9 tentar reduzir a quase nada essa vida que parasita tanto a tenda de salgados quanto o sexual da \u201cxerectomia\u201d &#8211; essa aura, esse \u201ca mais\u201d de ancestralidade, de banzo, da saudade. Esses monstros verbais traduzem uma certeza, fazem borda, dizem que dali n\u00e3o h\u00e1 como passar sem cair no vulc\u00e3o. Como <em>shifters<\/em>, passadores, por\u00e9m, nos d\u00e3o a chance, por sua estrutura semi-controlada, de pular a cerca, roubar um tanto de fogo, para, de volta, descarreg\u00e1-lo no riso.<\/p>\n<p>Neste sentido, o chiste, como todas as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente, tem efeito de litoral, no sentido que Lacan lhe d\u00e1 em <em>Lituraterra<\/em>. H\u00e1 uma leitura da met\u00e1fora lacaniana do litoral como a da linha de encontro entre dois elementos, \u00e1gua e ar, para sempre d\u00edspares, mas ainda assim unidos. H\u00e1 tamb\u00e9m, <em>litoral<\/em>, no sentido do que se articula nesse texto a partir do c\u00e9lebre ap\u00f3logo da plan\u00edcie siberiana.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> Ao ver da janela do avi\u00e3o o brilho da \u00e1gua refletida pelo sol na mir\u00edade de sulcos da plan\u00edcie siberiana, Lacan convoca a met\u00e1fora do litoral para trazer \u00e0 cena mais uma rede, uma teia de luz, em que se re\u00fanem ao menos tr\u00eas (e n\u00e3o dois elementos): \u00e1gua, solo e a luz do sol. Neste sentido, os monstros verbais s\u00e3o um n\u00f3 em que um nome, articula a cena consciente e um mundo de possibilidade alternativas de gozo a partir dos tra\u00e7os m\u00faltiplos da cena inconsciente.<\/p>\n<p>Um <em>witz<\/em> pertence a uma classe muito especial de significante, a dos nomes-encruzilhada, palavra <em>carrefour<\/em> como tamb\u00e9m a ele se refere Lacan no <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>. Talvez, para que possamos sentir de modo mais pr\u00f3ximo a presen\u00e7a do gozo fora do sentido, seja preciso nos transportarmos da plan\u00edcie e trocar o ilimitado dos raios de luz na brancura da Sib\u00e9ria pela for\u00e7a imensa concentrada, por exemplo, em uma vela acesa na encruzilhada, no escuro da noite. Quem n\u00e3o pressente um a-mais de gozo nessa presen\u00e7a, m\u00e1gica, meio-tudo-meio-nada, em torno da vela?<\/p>\n<p><strong>Ironia<\/strong><\/p>\n<p>O tema do riso \u00e9 inesgot\u00e1vel. Ele \u00e9 essencial em nossos dias, quando os S1 costumam ser anti-ci\u00eancia (anti-S2). Funcionam n\u00e3o mais apoiados na cren\u00e7a do pai, mas porque quem o enuncia est\u00e1 com um porrete na m\u00e3o, ou com o poder do capital. \u201cA terra \u00e9 plana e ponto final\u201d, \u201cn\u00e3o se pode gastar mais do que se arrecada\u201d s\u00e3o verdades sem discuss\u00e3o. Aqui, haveria que se destacar a ironia, e o <em>humor<\/em>, este com o qual Freud assinala uma vit\u00f3ria sobre o supereu no riso. Retomar ainda o modo como Lacan indicou uma eventual sa\u00edda para gozo enlouquecido do discurso capitalista pelo riso. Haver\u00edamos de falar daquilo que, talvez, encerre o que resta de ironia nas redes, o dos <em>memes<\/em>. Dever\u00edamos, ainda, falar do campo em que a ironia reina, o da loucura, da psicose.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> Mas isso ficar\u00e1 para uma pr\u00f3xima e, assim, concluo com Arnaldo Antunes e seu micro-poema-quase-chiste.<\/p>\n<p><em>The And<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para as refer\u00eancias desse texto remeto a outro, apesar de bem datado:\u00a0 Vieira, M. A. \u201cNotas para uma discuss\u00e3o sobre o riso na experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d, <em>Correio &#8211; Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, Rio de Janeiro, v. 25, 2000, p. 18-20. (<a href=\"https:\/\/litura.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Notas-para-uma-discussao-sobre-o-riso-3-1.pdf\">https:\/\/litura.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Notas-para-uma-discussao-sobre-o-riso-3-1.pdf<\/a>).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. Nota da tradu\u00e7\u00e3o: LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>, Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. \u201cA Inst\u00e2ncia da letra\u201d. <em>In: Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 519 (cf. ainda Vieira, M. A. R\u00eago Barros, R. <em>M\u00e3es<\/em>, Subversos, 2015, p. 25).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> \u201cA quest\u00e3o do riso se acha longe de estar resolvida\u201d (LACAN, J. 1999, p. 134). Para a passagem da \u00eanfase no aspecto significante do <em>witz<\/em>, no <em>Semin\u00e1rio 5<\/em>, para sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo Cf. MILLER, J. A., <em>Perspectivas do Semin\u00e1rio 5 de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Assumindo-se que ela nos leve ao <em>gaio s\u00e7aber<\/em>, definido como raspar o sentido, mas sem afundar nele. Afinal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver no n\u00e3o-sentido, mas uma an\u00e1lise pode lhe dar lugar e, com isso, ao riso (cf. Lacan, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d. <em>In: Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 525.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Vejam esta defini\u00e7\u00e3o de Lacan do nome pr\u00f3prio: aquele significante do qual se pode dizer que \u201cseu enunciado iguala-se \u00e0 sua significa\u00e7\u00e3o\u201d (LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 833).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 83.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Lacan j\u00e1 no in\u00edcio de seu ensino fornecia dois exemplos de nomea\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se sustentam no pai: Os nomes de alcova e as senhas (LACAN, J. \u201cO simb\u00f3lico, o imagin\u00e1rio e o real\u201d, <em>Nomes-do-Pai<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005). Senha aqui n\u00e3o \u00e9 a do celular, mas a palavra que abre acesso, como o <em>abre-te s\u00e9samo<\/em> do conto \u00e1rabe. Os nomes de alcova s\u00e3o aqueles apelidos ou express\u00f5es que os amantes usam para nomear seu parceiro: xuxu etc. S\u00e3o dois modos de produzir um termo que n\u00e3o passa pela significa\u00e7\u00e3o. O primeiro remete a uma a\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a um sentido, o segundo a um gozo, do casal, que o institui.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LACAN, J. <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 356. O terceiro, em geral, pode ser associado \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Mas os tr\u00eas personagens podem eventualmente caber na mesma pessoa, desde que a estrutura seja mantida. \u00c9 o que demonstra aquela antiga piada de um sujeito apalermado que ri tr\u00eas vezes da piada: a primeira vez quando lhe contam, a segunda quando a explicam e a terceira quando ele entende. Para a rela\u00e7\u00e3o entre o riso e o objeto <strong><em>a<\/em><\/strong> como mais-de-gozar (plus-de-jouir) cf. LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16 &#8211; De um Outro ao outro<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> O <em>shifter<\/em>, \u00e9 ponto de passagem porque \u00e9 furo. Segundo Lacan, \u201cdesigna o sujeito da enuncia\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o que ele significa\u201d (LACAN, J. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 814).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Para o \u201cser verbal\u201d cf. LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>, Rio de Janeiro: Zahar,<\/h6>\n<h6>1999, p. 47. Para o \u201cmonstruoso\u201d, cf. LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1988, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u201cAssim se me apareceu, invencivelmente (&#8230;) por entre-as-nuvens, o escoamento das \u00e1guas, \u00fanico tra\u00e7o a aparecer, (&#8230;) naquilo que Sib\u00e9ria \u00e9 plan\u00edcie, plan\u00edcie desolada de qualquer vegeta\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser por reflexos, que empurram para a sombra aquilo que n\u00e3o reluz. (&#8230;) Rasura de tra\u00e7o algum que seja anterior, \u00e9 isso que do litoral faz terra\u201d (LACAN, J. 2003, 15).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Cf. por exemplo, MILLER, J. A. \u00a0\u201cCl\u00ednica ir\u00f4nica<em>\u201d. In<\/em>: <em>Matemas<\/em>. Rio de Janeiro:<\/h6>\n<h6>Zahar, 1996, p. 190-200; e VIEIRA, M. A., \u201cDa ironia \u00e0 inven\u00e7\u00e3o\u201d, <em>Arquivos da Biblioteca n. 7<\/em>, Rio de Janeiro, EBP-Rio, 2009.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira Membro da EBP\/AMP\u00a0 Trapalhadas De que rimos? Humor \u00e9 coisa grande. Neste universo quase sem fim, Lacan, em seu quinto semin\u00e1rio, entra cortando: uma coisa \u00e9 o c\u00f4mico, outra \u00e9 o chiste. Come\u00e7a por separar nossos risos em dois grandes rios.[1] De um lado, as v\u00eddeo-cassetadas, as crian\u00e7as fofas, os gatinhos mais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-9206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-gaio","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9206"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9206\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9206"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=9206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}