{"id":9111,"date":"2023-09-24T18:16:50","date_gmt":"2023-09-24T21:16:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7408"},"modified":"2023-09-25T16:12:49","modified_gmt":"2023-09-25T19:12:49","slug":"rir-de-tudo-e-desespero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/rir-de-tudo-e-desespero\/","title":{"rendered":"Rir de tudo \u00e9 desespero"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_9122\" aria-describedby=\"caption-attachment-9122\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9122\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/gaio005_003.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"747\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/gaio005_003.png 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/gaio005_003-228x300.png 228w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9122\" class=\"wp-caption-text\">Clown skull (1987), Vik Muniz.<br \/>Fonte: https:\/\/vikmuniz.net\/pt\/<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Cassandra Dias Farias<br \/>\n<\/em>Membro da EBP\/AMP<\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cQuando voc\u00ea ficar triste, que seja por um dia<\/em><\/p>\n<p><em>E n\u00e3o o ano inteiro<\/em><\/p>\n<p><em>E que voc\u00ea descubra que rir \u00e9 bom<\/em><\/p>\n<p><em>Mas que rir de tudo \u00e9 desespero\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os versos desse poema sempre me impressionaram por se referirem ao riso como desespero.<\/p>\n<p>De fato, me ocorre pensar que a rela\u00e7\u00e3o do falante com o riso, t\u00e3o explorada nas com\u00e9dias, programas de humor e mais recentemente, nos <em>stand ups<\/em>, baseia-se em extrair gra\u00e7a e riso de situa\u00e7\u00f5es em que, muitas vezes, prevalecem o sofrimento e a dificuldade na vida ou at\u00e9 mesmo, aquilo que \u00e9 grotesco. Rir de tudo \u00e9 levado ao p\u00e9 da letra, como na express\u00e3o \u201ctudo para n\u00e3o perder a piada\u201d.<\/p>\n<p>Tal era a figura do buf\u00e3o, esse artista do humor e do disforme, forjado na Idade M\u00e9dia e que tinha o seu lugar garantido nas cortes, com a fun\u00e7\u00e3o de entreter e divertir o rei e a rainha, fazendo-os rir. Transgressor das normas sociais utilizava-se do desprezo, da ironia e caricatura, inclusive com fins de den\u00fancia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m fazia parte da corte a figura do an\u00e3o que ocupava com sua deformidade o lugar daquele que provocava o riso, associando o car\u00e1ter de abjeto a essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do buf\u00e3o para o palha\u00e7o, se manteve a mesma din\u00e2mica em ressaltar no outro os tra\u00e7os que destoavam e que poderiam ser utilizados para a zombaria, a humilha\u00e7\u00e3o e o constrangimento.<\/p>\n<p>O humor parece que se constituiu tendo a segrega\u00e7\u00e3o na cultura como base. Tal din\u00e2mica contribuiu, decisivamente, para a dissemina\u00e7\u00e3o da homofobia, do machismo, do racismo e de todo tipo de segrega\u00e7\u00e3o tendo por prerrogativa, rir daquilo que, no Outro, ressoava como insuport\u00e1vel e pass\u00edvel de recha\u00e7o. Gozar do outro o ridicularizando a um limite extremo, l\u00e1 onde n\u00e3o h\u00e1 gra\u00e7a alguma.<\/p>\n<p>Esse cen\u00e1rio vem mudando, \u00e0 medida que se avan\u00e7a a discuss\u00e3o em torno das minorias que se organizam enquanto discurso social. O que antes era tido como motivo de piada, hoje em dia encontra seus limites e o campo do humor est\u00e1 tendo que se reinventar em outras bases que n\u00e3o as do racismo estrutural.<\/p>\n<p>Esfor\u00e7o civilizat\u00f3rio para regular aquilo que, no humano, insiste em se revelar atrav\u00e9s do riso \u2013 a segrega\u00e7\u00e3o. Esse real insensato que se imiscui a partir da aniquila\u00e7\u00e3o no outro daquilo que lhe \u00e9 mais particular.<\/p>\n<p>Portanto, o lugar do riso na cultura nos permite interrogar a rela\u00e7\u00e3o entre essa manifesta\u00e7\u00e3o e suas raz\u00f5es para os falantes. Aquilo que os faz rir.<\/p>\n<p>A psicose nos ensina, atrav\u00e9s do riso estereotipado, sobre esse real n\u00e3o recoberto pela significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, puro <em>nonsense<\/em>, como no personagem do filme Curinga, que sofre de um tipo de transtorno em que o riso \u00e9 disparado freneticamente, sem, no entanto, expressar alegria.<\/p>\n<p>Muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 no riso descontrolado, desproporcional e inadequado que o desespero do personagem se apresenta em toda sua dimens\u00e3o. A marca da insensatez do gozo do Outro incidindo sobre sua posi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica, a boca que se abre em um sorriso ao mesmo tempo em que se contorce num esgar que se transforma em pranto, como no s\u00edmbolo do teatro. As duas m\u00e1scaras que surgiram na Gr\u00e9cia por volta do s\u00e9culo V a.c.: a Com\u00e9dia e a Trag\u00e9dia, retrata o car\u00e1ter moebiano dessas duas dimens\u00f5es da exist\u00eancia: o pranto e o riso. \u00a0Uma n\u00e3o vai sem a outra.<\/p>\n<p>O riso como \u00edndice do real, gozo opaco do Outro diante do qual o sujeito situa-se na condi\u00e7\u00e3o de objeto se distingue radicalmente do riso enquanto <em>witz <\/em>\u2013 forma\u00e7\u00e3o do inconsciente em que o riso se produz a partir daquilo que o Outro atesta. O enigma do desejo do Outro est\u00e1 colocado para o neur\u00f3tico, que tenta acercar-se dessa opacidade. Pela evanesc\u00eancia, como no sorriso do Gato de Alice, que aparece e desaparece de forma fulgurante, o riso na neurose permite a altern\u00e2ncia dial\u00e9tica entre a alegria e a tristeza.<\/p>\n<p>Se por um lado, \u201crir de tudo \u00e9 desespero\u201d, como nos ensina a face segregativa do humor e o nosso Curinga, por outro, passar do drama ao humor pode ser efeito de uma experi\u00eancia anal\u00edtica, tal como encontramos em alguns testemunhos de AEs.<\/p>\n<p>Tomo aqui o testemunho de Fabi\u00e1n Naparstek, <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> AE 2002 a 2005, onde ele relata sua experi\u00eancia anal\u00edtica tomando como partida um chiste paterno que articulava humor e morte. Em sua travessia, no momento em que a ilus\u00e3o do Outro completo cai por terra, o sujeito adotou uma posi\u00e7\u00e3o c\u00ednica,\u00a0 desenganchada do Outro,\u00a0 na medida em que p\u00f4de rir da cren\u00e7a no Outro. \u201cNeste ponto vale assinalar que a rela\u00e7\u00e3o entre o cinismo e o humor, \u00e9 algo que historicamente se encontra ligado\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>A sa\u00edda pelo cinismo consiste na cren\u00e7a de que o inferno \u00e9 o outro, como pensava Sartre e que para al\u00e9m desse outro, se encontraria a liberdade. \u201cLacan discute sobre esse inferno com Sartre e exemplifica com seu ap\u00f3logo que n\u00e3o existe sa\u00edda sem o Outro\u201d. <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Ao final de sua an\u00e1lise e mais uma vez diante do mesmo chiste paterno, ocorre uma passagem no estatuto da cren\u00e7a que sustenta o sujeito e que o permite passar a crer no sintoma. \u00c9 o que permite Fabi\u00e1n dizer que \u201co humor tem permanecido enla\u00e7ado aos trope\u00e7os como sintoma no dizer. \u00c9 o que me leva a crer no chiste como um modo de \u201cir ao p\u00e9 da letra\u201d e como um modo de crer no limite da palavra\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Uma nova alian\u00e7a com o Outro para al\u00e9m do saldo c\u00ednico no final da an\u00e1lise como efeito da destitui\u00e7\u00e3o do Outro e da cren\u00e7a no Pai, que o enla\u00e7ou \u00e0 comunidade anal\u00edtica e \u00e0 causa da psican\u00e1lise, levando-o ao dispositivo do passe. \u201cSem d\u00favida, hoje me encontro embarcado em dar voltas sobre o mesmo com um chiste novo a cada vez.\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda sem o Outro e poder servir-se do humor diante da estrutura dram\u00e1tica que tem a vida para o neur\u00f3tico diz de uma captura da com\u00e9dia que \u201chavia tido o drama de sua vida\u201d.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>Ensinamento precioso do Analista da Escola que articula o humor como um tratamento ao real, prescindindo tanto do cinismo quanto da segrega\u00e7\u00e3o ao Outro. Que possamos fazer bom uso desse recurso e do enla\u00e7amento da dimens\u00e3o tr\u00e1gica, mas, tamb\u00e9m c\u00f4mica do viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Amor pra recome\u00e7ar: can\u00e7\u00e3o interpretada por Frejat, vocalista da banda Bar\u00e3o Vermelho. A autoria desse poema, no entanto, \u00e9 atribu\u00edda a Victor Hugo, poeta franc\u00eas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> NAPARSTEK, F. \u201cDo sujeito ocidentado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o pelo sintoma: modula\u00e7\u00f5es sobre a cren\u00e7a\u201d. <em>In:<\/em> \u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n\u00ba 42<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, fevereiro de 2005.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p 62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p 61.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cassandra Dias Farias Membro da EBP\/AMP \u201cQuando voc\u00ea ficar triste, que seja por um dia E n\u00e3o o ano inteiro E que voc\u00ea descubra que rir \u00e9 bom Mas que rir de tudo \u00e9 desespero\u201d.[1] Os versos desse poema sempre me impressionaram por se referirem ao riso como desespero. 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