{"id":9107,"date":"2023-09-25T09:42:49","date_gmt":"2023-09-25T12:42:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7393"},"modified":"2023-09-25T16:16:16","modified_gmt":"2023-09-25T19:16:16","slug":"o-riso-a-fotografia-e-o-objeto-a","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-riso-a-fotografia-e-o-objeto-a\/","title":{"rendered":"O riso, a fotografia e o objeto a"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_9116\" aria-describedby=\"caption-attachment-9116\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9116\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_gaio005_007.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_gaio005_007.jpg 250w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mini_gaio005_007-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9116\" class=\"wp-caption-text\">Walter Firmo, Festa Bumba meu boi, S\u00e3o Luiz, Maranh\u00e3o, 1994.<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Marcella Pereira de Oliveira<br \/>\n<\/em><em>Associada ao Clin-a<br \/>\n<\/em><em>Participante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura das XII Jornadas da EBP-SP<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cQuando fotografo, estou tomando um tonificante de vida, de energia\u201d. Walter Firmo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, muitas vezes, pode ser considerada um objeto que causa o sorriso. Nesta fotografia, temos av\u00f3 e neta, negras, livres, numa festa que convoca ao relaxamento e libera\u00e7\u00e3o do prazer. Walter Firmo \u00e9 um fot\u00f3grafo, tamb\u00e9m negro, cujo estilo \u00e9 atravessado pela dignifica\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a negra no Brasil. Tamb\u00e9m foi nomeado de documentarista de festas populares brasileiras, as quais s\u00e3o retratadas partindo de suas pesquisas sobre o folclore brasileiro.<\/p>\n<p>Por meio de um ato aliado a um objeto, o fot\u00f3grafo nos conduz a uma experi\u00eancia vivida no corpo, fora do alcance conceitual, cujo efeito, neste caso, foi o riso; causado pela festa, ou tamb\u00e9m pela m\u00e1quina. Ao elevar esta fotografia ao estatuto de obra, o autor nos conduz a uma profundidade, sem que nada seja dito.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> faz uma pontua\u00e7\u00e3o sobre o ato de fotografar aliado \u00e0 apreens\u00e3o do objeto esc\u00f3pico. Ele afirma que o ponto de vista que se toma com rela\u00e7\u00e3o a uma paisagem, \u00e9 imposs\u00edvel de ser visto. Por\u00e9m, \u201cquando se acrescenta uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica a ela, destaca-se uma esp\u00e9cie de objeto invis\u00edvel, materializa-se o objeto que \u00e9 o ponto de vista, que n\u00e3o era visto\u201d. Val\u00e9ria Erlijman<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, psicanalista que tamb\u00e9m \u00e9 artista visual e fot\u00f3grafa, descreve sua rela\u00e7\u00e3o com a fotografia como uma forma de encontrar presen\u00e7a. Uma atividade que pode transformar a dor em intensa felicidade que lhe atravessa o corpo, trazendo vitalidade. Ela descreve sua obra como uma busca de luz e cor, com tonalidade l\u00fadica. A fotografia, junto ao processo de an\u00e1lise, a ensinou a simplesmente saber gozar; \u00e9 a linguagem pela qual ela se expressa.<\/p>\n<p>Dos Semin\u00e1rios 7, 10 e 11, resgato um percurso de Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> na dimens\u00e3o da puls\u00e3o e do objeto <em>a<\/em>. A partir do funcionamento pulsional sob a forma de vasos comunicantes, ele nos conduz a fun\u00e7\u00e3o do objeto como causa. Um objeto como uma torneira aberta, por exemplo, pode causar vontade de fazer xixi, pois somos como vasos comunicantes: nos comunicamos com nossos objetos a n\u00edvel corporal. Quando um sujeito \u00e9 capturado no olhar por um quadro, h\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o que opera no espa\u00e7o entre ambos. Algo do quadro fisga o sujeito, provocando um efeito pacificador, cujo resultado \u00e9 a deposi\u00e7\u00e3o do olhar, como algu\u00e9m que deposita as armas. Concomitantemente, o sujeito faz fun\u00e7\u00e3o de anteparo ao quadro, na medida em que ret\u00e9m a luz que ele reflete.<\/p>\n<p>Marcus Andr\u00e9, em O resto e o riso<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, trabalha a dimens\u00e3o criativa contida na \u00e9tica da psican\u00e1lise, num retorno ao sentido da a\u00e7\u00e3o, partindo daquilo que o Outro fez com o sujeito. A sublima\u00e7\u00e3o aparece enquanto cria\u00e7\u00e3o, que pode surgir no desfecho do vazio deixado pela dimens\u00e3o tr\u00e1gica. Contudo, h\u00e1 um passo a mais a ser dado em rela\u00e7\u00e3o a esta retifica\u00e7\u00e3o de sentido pela via de elevar um objeto \u00e0 dignidade da Coisa; \u00e9 preciso n\u00e3o inflar a Coisa, de modo a n\u00e3o conduzir \u00e0 busca pelo sentido no real. Penso que a morte de Ant\u00edgona ilustra a pureza de um gozo que n\u00e3o alcan\u00e7ou a \u00e9gide de um saber fazer.<\/p>\n<p>Suponho que \u00e9 a partir da teoriza\u00e7\u00e3o sobre o objeto <em>a<\/em> que Lacan alcan\u00e7a uma diretriz sobre a retifica\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Para falar sobre isso, Marcus Andr\u00e9 faz uso da poesia. Ele afirma que ela transmite o modo como o Outro afeta o sujeito, por meio de opera\u00e7\u00f5es \u2018erotol\u00f3gicas\u2019 que fazem um objeto <em>a<\/em> ganhar lugar no Outro reorganizando o campo do desejo\u201d. Sobre esta reorganiza\u00e7\u00e3o, o autor parte da concep\u00e7\u00e3o de <em>gaio issaber<\/em>, uma virtude definida em Televis\u00e3o<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> como o polo oposto da tristeza, ilustrada no vigor dan\u00e7arino de Dion\u00edsio e na alegria como paix\u00e3o que aumenta a pot\u00eancia de agir, frente ao que insiste, e nunca consiste. O autor define o <em>gaio issaber <\/em>como \u201cdeixar-se fisgar pelo sentido, sem nele se \u2018envisgar\u2019\u201d. Em vez de erigir para nossos objetos <em>a<\/em> um sentido maior, saber lidar com modo de gozo que se extrai dele:<\/p>\n<blockquote><p>O gaio saber de Lacan afasta-nos da diviniza\u00e7\u00e3o do vazio, de uma \u00e9tica do elevamento, sublimat\u00f3rio, da promo\u00e7\u00e3o de um fora do sentido et\u00e9reo, e p\u00f5e nossos p\u00e9s no ch\u00e3o por deixar evidente: o nonsense do riso afasta a apologia do indiz\u00edvel por evidentemente ser imposs\u00edvel sem as palavras.<\/p><\/blockquote>\n<p>Concluo apostando na arte de Walter Firmo como uma forma de opera\u00e7\u00e3o erotol\u00f3gica que parte da puls\u00e3o e do objeto esc\u00f3pico, num ato em que, depositando o olhar, o autor modifica a forma de lidar com o gozo advindo do trauma da escravid\u00e3o.\u00a0 Fisgado pelo sentido, mas n\u00e3o \u2018envisgado\u2019, ele retifica o descarte da ra\u00e7a negra por meio de um saber fazer com a sua arte.\u00a0 Na perspectiva de Freud<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, o riso pode ser visto como uma descarga de energia, a qual, liberta de outros processos ps\u00edquicos, encontrou livre escoamento. Finalizo com a quest\u00e3o de que a arte pode se alinhar \u00e0 psican\u00e1lise pela via do objeto <em>a<\/em> e do gozo, trazendo uma nova forma de saber, calcado menos no desvelamento e mais na \u00e9gide de um fazer.<\/p>\n<p>Walter Firmo, Festa Bumba meu boi, S\u00e3o Luiz, Maranh\u00e3o, 1994.<\/p>\n<p>Fonte: https:\/\/ims.com.br\/walter-firmo-audioguia-parada-017\/<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER, J.-A. \u201cMostrado em Pr\u00e9montr\u00e9\u201d. <em>In:<\/em> <em>Matemas 1. <\/em>Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1996. P. 153<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Entrevista realizada por Graciela Allende (EOL) e Beatriz Moreno (NEL) para a revista Lacan XXI, junho de 2022.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. \u201cAs puls\u00f5es e os engodos\u201d. <em>In<\/em>: <em>O Semin\u00e1rio, livro 7<\/em>:<em> a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. P. 111-126.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. \u201cA torneira de Piaget\u201d. <em>In<\/em>: <em>O Semin\u00e1rio, livro 10<\/em>:<em> a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.\u00a0 304-319.<\/h6>\n<h6>LACAN, J.\u00a0 \u201cA linha e a luz\u201d. <em>In<\/em>: <em>O Semin\u00e1rio, livro 11<\/em>: <em>os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 93-105.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> VIEIRA, M. A. \u201cO resto e o riso\u201d. <em>In:<\/em> <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 62<\/em>, S\u00e3o Paulo, EBP, dez 2011, p. 193-201.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> LACAN, J. \u201cTelevis\u00e3o\u201d.<em> In<\/em>: <em>Outros Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar. P. 508-543.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> FREUD, S. \u201cO chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d<em>. In: Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1995.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcella Pereira de Oliveira Associada ao Clin-a Participante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura das XII Jornadas da EBP-SP \u201cQuando fotografo, estou tomando um tonificante de vida, de energia\u201d. Walter Firmo. Uma m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, muitas vezes, pode ser considerada um objeto que causa o sorriso. 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