{"id":767,"date":"2016-07-28T21:58:31","date_gmt":"2016-07-28T21:58:31","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=767"},"modified":"2016-07-28T21:58:31","modified_gmt":"2016-07-28T21:58:31","slug":"a-saida-da-infancia-de-que-impasse-se-trata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-saida-da-infancia-de-que-impasse-se-trata\/","title":{"rendered":"A sa\u00edda da inf\u00e2ncia: de que impasse se trata?"},"content":{"rendered":"<p>No argumento das nossas Jornadas h\u00e1 um ponto central que d\u00e1 fundamenta\u00e7\u00e3o ao seu tema \u2013 Inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia: impasses e sa\u00eddas \u2013, o qual ser\u00e1 retomado aqui a partir do texto de Freud \u201cAs metamorfoses da puberdade\u201d<sup>1<\/sup>. Trata-se da proposi\u00e7\u00e3o de que haveria uma \u201carticula\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia\u201d. Esta proposi\u00e7\u00e3o exige investiga\u00e7\u00e3o, que pode ser tomada por v\u00e1rias vias.<\/p>\n<p>Com a ajuda de alguns autores, podemos ler como as indica\u00e7\u00f5es freudianas permanecem refer\u00eancia essencial para elucidar, ainda, o que \u00e9 da ordem de uma \u201cruptura\u201d, um \u201ccorte\u201d ou uma \u201cdescontinuidade\u201d. E este debate, a partir das coordenadas que encontramos em Freud, estabelece um divisor de \u00e1guas com qualquer abordagem que tenta situar uma poss\u00edvel articula\u00e7\u00e3o entre inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia pelo caminho de uma \u201clinearidade psicol\u00f3gica gradual\u201d<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Neste seu terceiro ensaio sobre a teoria da sexualidade, Freud coloca a puls\u00e3o no cerne de suas considera\u00e7\u00f5es e destaca que as mudan\u00e7as que ocorrem nesse momento \u201cdestinam-se a dar \u00e0 vida sexual infantil sua forma final normal\u201d. Em torno desta frase poder\u00edamos situar seu intenso trabalho de investiga\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o deixa de fora um exaustivo invent\u00e1rio sobre os determinantes biol\u00f3gicos<sup>3<\/sup>. Mas, ao caracterizar estas mudan\u00e7as de acordo com uma \u201cl\u00f3gica dedut\u00edvel da atua\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es\u201d<sup>4<\/sup>, tal como nos elucida Daniel Roy, Freud introduz refer\u00eancias cruciais para localizarmos os poss\u00edveis impasses em v\u00e1rios \u00e2mbitos: na mudan\u00e7a de corpo e de objeto, no modo de satisfa\u00e7\u00e3o, nas determina\u00e7\u00f5es em torno da escolha de objeto, nas reviravoltas em torno de uma autoridade (ou, podemos tamb\u00e9m dizer, em torno de um saber) antes circunscrita no dom\u00ednio ed\u00edpico.<\/p>\n<p>O que se passa em cada um desses \u00e2mbitos nos elucida acerca da articula\u00e7\u00e3o l\u00f3gica entre a posi\u00e7\u00e3o infantil e o que vem depois? E, ainda, caberia nomear como \u201cruptura\u201d ou \u201ccontinuidade\u201d o que a\u00ed se realiza?<\/p>\n<p>Daniel Roy, ao nos dar uma preciosa chave de leitura do texto freudiano, abre muitas portas para trilharmos em torno destas quest\u00f5es. Primeiro, deslocando parte da discuss\u00e3o freudiana que se centra nas poss\u00edveis mudan\u00e7as que ocorrem no corpo a partir de determinantes biol\u00f3gicos, nos faz ver que se trata de uma mudan\u00e7a \u2018de\u2019 corpo e que esta \u00e9, de fato, uma mudan\u00e7a de objeto: \u201cantes autoer\u00f3tica, agora a puls\u00e3o encontra o objeto sexual\u201d. Ou seja, \u00e9 o \u2018corpo do outro\u2019 que entra em cena. E como parte dos \u201cideais da vida sexual\u201d, esse objeto teria como desafio poder conjugar as duas correntes propostas por Freud: a sensual e a afetiva. Dois impasses se colocam: do lado do sensual, \u201cna inf\u00e2ncia, h\u00e1 uma medida incomum de obten\u00e7\u00e3o de prazer onde o objeto n\u00e3o conta e, por consequ\u00eancia, nada na puls\u00e3o predisporia a uma mudan\u00e7a de corpo\u201d e, pela corrente da ternura, sempre o \u201cencontro do objeto \u00e9, na verdade, um reencontro\u201d, ou seja, um reencontro do primeiro objeto de amor e \u201c\u00e9 precisamente a isto que o sujeito deve renunciar na puberdade\u201d<sup>5<\/sup>. Assim, temos de ter o cuidado de n\u00e3o pegar, equivocadamente, outra via, que conduziria \u00e0quilo que poder\u00edamos nomear como os embara\u00e7os na escolha de objeto, pois \u00e9 justamente a \u201cperda do objeto que estar\u00e1 em quest\u00e3o novamente no momento da puberdade, quando o \u201cencontro do objeto\u201d \u00e9 de fato o encontro com o Outro sexo\u201d<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>Creio que neste ponto podemos falar de uma articula\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, uma vez que o encontro com o objeto se d\u00e1, sempre, sob o fundo de uma perda e, como Freud reafirma em v\u00e1rias passagens, o afeto de uma crian\u00e7a por seus pais \u00e9 o tra\u00e7o infantil mais importante que, ap\u00f3s \u2018revivido na puberdade\u2019, indica um dos caminhos para a escolha de objeto.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, como situar que o que se realiza \u00e9 da ordem de uma continuidade ou de uma ruptura? Algo da ordem de uma ruptura, seguindo a leitura que faz Daniel Roy do texto freudiano, talvez possa ser localizado a partir de outra perspectiva: nas consequ\u00eancias que tem para todo sujeito o fato de que um \u2018saber novo\u2019 se imp\u00f5e, qual seja: a constata\u00e7\u00e3o de que a excita\u00e7\u00e3o sexual, que antes mantinha um lugar na parcialidade das puls\u00f5es na posi\u00e7\u00e3o infantil, engendra e conduz ao ato sexual. Ou seja, agora a libido \u2013 \u201cnovo aparelhamento do corpo no momento da puberdade\u201d ou, poder\u00edamos dizer, o \u00f3rg\u00e3o do gozo \u2013 se imp\u00f5e ao sujeito e cria um campo de tens\u00e3o entre os corpos no qual o recurso ao falo, \u00f3rg\u00e3o piv\u00f4 da inf\u00e2ncia para estabelecer a diferen\u00e7a sexual, n\u00e3o pode responder da mesma forma. Se tomarmos a indica\u00e7\u00e3o de que a \u201cpuberdade \u00e9 o momento em que o sujeito tem de se haver com a libido sem o recurso do falo\u201d<sup>7<\/sup>, para se orientar na reparti\u00e7\u00e3o entre os sexos, o que irrompe \u00e9 o furo no saber sobre esta reparti\u00e7\u00e3o e, consequentemente, entra em jogo o \u201csaber fazer com os semblantes\u201d. Isto, ainda, implica um abandono da posi\u00e7\u00e3o infantil, daquela em que a \u201cautoridade\u201d dos pais exerce o seu papel para dar ao sujeito a possibilidade de localizar um saber no Outro e, ao mesmo tempo, instalar um furo neste saber por meio das cl\u00e1ssicas fantasias dos romances familiares, como t\u00e3o bem nos conduz a ver Daniel Roy<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Portanto, proponho como discuss\u00e3o que o que se imp\u00f5e e faz ruptura \u00e9 o furo no saber e a exig\u00eancia, que instauraria um impasse, de avan\u00e7ar justamente quando o saber falta.<\/p>\n<p>Se tomarmos como orienta\u00e7\u00e3o o fato de que \u201cnos homens, o problema em todas as idades da vida \u00e9 fazer uso deste \u00f3rg\u00e3o suplementar que \u00e9 a linguagem\u201d<sup>9<\/sup>, podemos pensar que a adolesc\u00eancia, como \u201csintoma da puberdade\u201d<sup>10<\/sup> e seguindo as pegadas deixadas por Freud, \u00e9 o nome do impasse que se instaura para o sujeito ao se confrontar, de maneira in\u00e9dita, com a aus\u00eancia de uma palavra que possa dar conta da irrup\u00e7\u00e3o de um novo gozo e do encontro com o Outro sexo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Por <em>Heloisa Prado R. da Silva Telles<\/em> (comiss\u00e3o cient\u00edfica)<\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><sup>\u00a0<\/sup><\/p>\n<hr \/>\n<h5><sup>1<\/sup>Freud, S. (1972 [1905]). <em>Tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade<\/em>. Parte III. \u201cAs transforma\u00e7\u00f5es da puberdade\u201d. In: <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago Editora, volume VII, p. 213-228.<\/h5>\n<h5><sup>2<\/sup>De acordo com a feliz express\u00e3o de Domenico Cosenza, presente em seu texto \u201cA inicia\u00e7\u00e3o na adolesc\u00eancia: entre mito e estrutura\u201d. In: CIEN Digital 19.<\/h5>\n<h5>Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.institutopsicanalise-mg.com.br\/ciendigital\/\">http:\/\/www.institutopsicanalise-mg.com.br\/ciendigital\/<\/a><\/h5>\n<h5><sup>3<\/sup>Este terceiro ensaio, na edi\u00e7\u00e3o brasileira intitulado \u201cAs transforma\u00e7\u00f5es da puberdade\u201d, datado de 1905, divide-se em cinco partes assim intituladas: \u201cO primado das zonas er\u00f3genas genitais e o pr\u00e9-prazer\u201d; \u201cO problema da excita\u00e7\u00e3o sexual\u201d; \u201cA teoria da libido\u201d; \u201cA diferencia\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres\u201d; \u201cO encontro de um objeto\u201d. A este ensaio, datado de 1905, Freud acrescentou muitas notas, em sua maioria de 1915 e 1920. Toda a se\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 teoria da libido foi acrescentada em 1915, e baseia-se no seu trabalho sobre o narcisismo, de 1914. As interroga\u00e7\u00f5es de Freud acerca dos determinantes biol\u00f3gicos (tal como a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel hormonal), notadamente presentes neste ensaio, s\u00e3o geralmente destacadas por comentadores; no entanto, a problem\u00e1tica em torno da libido, da diferencia\u00e7\u00e3o entre os sexos e do encontro do objeto nos parece sobrepor-se a elas.<\/h5>\n<h5><sup>4<\/sup>Roy D. &#8220;Metamorfose&#8221;. Tradu\u00e7\u00e3o de Bruna Sim\u00f5es Albuquerque e Lisley Braun Toniolo. Dispon\u00edvel em:<a href=\"http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com.br\/p\/textos.html\">http:\/\/jornadaebpmg.blogspot.com.br\/p\/textos.html<\/a>.<\/h5>\n<h5><sup>5<\/sup>Roy D. <em>Idem.<\/em><\/h5>\n<h5><sup>6<\/sup>Roy D. <em>Idem.<\/em><\/h5>\n<h5><sup>7<\/sup>Roy D. <em>Idem<\/em>.<\/h5>\n<h5><sup>8<\/sup>Roy D. <em>Idem<\/em>.<\/h5>\n<h5><sup>9 <\/sup>Seynhaeve, B. \u201cL\u2019adolescence au si\u00e8cle de l\u2019objet\u201d. Dispon\u00edvel em:<\/h5>\n<h5><a href=\"http:\/\/pontfreudien.org\/content\/bernard-seynhaeve-ladolescence-au-sciecle-de-l%CA%BCobjet\">http:\/\/pontfreudien.org\/content\/bernard-seynhaeve-ladolescence-au-sciecle-de-l%CA%BCobjet<\/a><\/h5>\n<h5><sup>10<\/sup>Stevens, A. \u201cAdolesc\u00eancia como sintoma da puberdade\u201d. In: <em>Curinga, <\/em>n. 20. Belo Horizonte: EBP-Minas Gerais, p. 31. Alexandre Stevens nos prop\u00f5e o seguinte: A <em>puberdade<\/em> seria um dos nomes da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e a <em>adolesc\u00eancia <\/em>seria uma das respostas sintom\u00e1ticas poss\u00edveis que o sujeito pode dar a isto.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No argumento das nossas Jornadas h\u00e1 um ponto central que d\u00e1 fundamenta\u00e7\u00e3o ao seu tema \u2013 Inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia: impasses e sa\u00eddas \u2013, o qual ser\u00e1 retomado aqui a partir do texto de Freud \u201cAs metamorfoses da puberdade\u201d1. 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