{"id":765,"date":"2016-07-28T21:57:39","date_gmt":"2016-07-28T21:57:39","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=765"},"modified":"2016-07-28T21:57:39","modified_gmt":"2016-07-28T21:57:39","slug":"a-violencia-daquilo-que-nao-se-consegue-colocar-em-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-violencia-daquilo-que-nao-se-consegue-colocar-em-palavras\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia daquilo que n\u00e3o se consegue colocar em palavras"},"content":{"rendered":"<p>Nas Jornadas da EBP-SP \u2013 <em>Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia: impasses e sa\u00eddas<\/em> teremos a possibilidade de discutir o que tem acontecido com crian\u00e7as e adolescentes na sociedade atual, aprofundando essas discuss\u00f5es.<\/p>\n<p>Contudo, como trabalho com psican\u00e1lise e sociedade e psican\u00e1lise e cultura, al\u00e9m da cl\u00ednica, creio ser interessante, nos textos preliminares, discutirmos um sintoma da cultura contempor\u00e2nea: a viol\u00eancia entre os jovens.<\/p>\n<p>Imediatamente a cada caso que surge, aparecem quest\u00f5es: O que aconteceu? Por que ocorreu? Podia ser evitado? S\u00e3o tentativas de dar sentido ao inesperado que sempre nos escapa.<\/p>\n<p>Estamos frente a uma viol\u00eancia inusitada que se apresenta como um sintoma social da nossa \u00e9poca, desvelando o impacto da puls\u00e3o de morte nas a\u00e7\u00f5es dos sujeitos. Eric Laurent[1] nos explicita que estamos diante de dois tipos de viol\u00eancia: a privada e individualizada e aquela que pode atingir um grande n\u00famero de pessoas. Por exemplo, nos Estados Unidos ela apresenta a face de uma viol\u00eancia privada e individualizada. E, no Brasil, mais recentemente, vivenciamos uma viol\u00eancia mais centrada nas massas, nas rea\u00e7\u00f5es de grupos, que atacam, destroem, revidam.<\/p>\n<p>Nos dois casos, nos parece lapidar o filme <em>Precisamos falar sobre Kevin<\/em>, estrat\u00e9gico para discutirmos alguns desses temas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>O livro: uma hist\u00f3ria individualizada<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Trata-se de um romance de fic\u00e7\u00e3o publicado em 2003 e escrito por Lionel Shriver, uma autora que nasceu em 18 de maio de 1957, em Gastonia, na Carolina do Norte (EUA).<\/p>\n<p>Em 2011 o romance foi adaptado para o cinema pela realizadora escocesa Lynne Ramsay. Ele foi filmado em Nova York e Stanford, em Connecticut, nos Estados Unidos, ganhando v\u00e1rios pr\u00eamios.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que o livro descreve uma situa\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica: a de um massacre realizado por um adolescente que matou sete colegas de escola, uma professora, uma servente, seu pai e sua irm\u00e3. Uma hist\u00f3ria criada como produto dos encontros que a autora teve com m\u00e3es de adolescentes assassinos. Desta forma, pode-se dizer que Kevin representa as m\u00faltiplas faces de in\u00fameros relatos, possibilitando desvelar as novas formas com que a sociedade atual tem vivido a puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p>O filme come\u00e7a no momento \u201catual\u201d e vai em dire\u00e7\u00e3o ao passado. Ele \u00e9 um apanhado de mem\u00f3rias: o nascimento, as dificuldades da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e e filho, as rela\u00e7\u00f5es com o pai, a irm\u00e3 etc. Um caleidosc\u00f3pio que vai sendo montado aos poucos.<\/p>\n<p>Quem foi Kevin? Ele \u00e9 um produto de uma hist\u00f3ria. Podemos perceber em in\u00fameros momentos os meandros da montagem real, simb\u00f3lica e imagin\u00e1ria. A m\u00e3e de Kevin \u2013 Eva \u2013 n\u00e3o queria ter filhos. Nos momentos iniciais ela se banha na tomatina, uma festa em que as pessoas se mesclam com tomates amassados. O vermelho predomina e ela se banha nele.<\/p>\n<p>Pouco depois ela transa com o pai de Kevin e deixa que ele goze nela sem prote\u00e7\u00e3o. Nas cenas seguintes vemos a crian\u00e7a chorando o tempo todo nos bra\u00e7os da m\u00e3e. S\u00f3 com o pai ele consegue parar.<\/p>\n<p>Eva constata a cada momento que seu filho \u00e9 diferente. Ele n\u00e3o fala com ela, n\u00e3o se relaciona, deixando-a sempre de lado, s\u00f3 se interessando pela hist\u00f3ria com flechas que depois desempenhar\u00e1 um papel estrat\u00e9gico no filme.<\/p>\n<p>O pai acompanha os seus gostos, fazendo aparentemente tudo por Kevin. Ele lhe d\u00e1 um jogo de flechas de brinquedo e depois um jogo profissional de arco e flechas.\u00a0 Gradativamente Kevin inicia um amplo processo de destrui\u00e7\u00e3o. Ele destr\u00f3i, com fezes, a sala de descanso da m\u00e3e; atira uma flecha no olho da irm\u00e3, deixando-a cega de uma vista. E a liga\u00e7\u00e3o com sua m\u00e3e vai se tornando cada vez mais uma rela\u00e7\u00e3o de \u00f3dio.<\/p>\n<p>No \u00fanico momento em que Kevin obt\u00e9m uma rea\u00e7\u00e3o mais vigorosa da m\u00e3e: ela acaba quebrando o seu bra\u00e7o. Mais tarde, ele revela, no corpo, as marcas desse processo, marcas que ele continuamente cutuca, para mant\u00ea-las \u00e0 mostra. Nesse momento ele cobra da m\u00e3e que ela deveria t\u00ea-lo coibido.<\/p>\n<p>Eric Laurent nos possibilita uma pequena compreens\u00e3o desse processo. Ele destaca que \u201c(&#8230;) existem novas formas, ou seja, n\u00e3o podemos pensar que se trata da viol\u00eancia de sempre, da puls\u00e3o de morte de sempre, etc. N\u00e3o, cada vez mais, existem formas efetivamente novas, as quais \u00e9 necess\u00e1rio explorar\u201d[2].<\/p>\n<p>\u00c9 acerca dessa viol\u00eancia nova que precisamos discutir. Uma viol\u00eancia que se apresenta sob formas distintas como o massacre inesperado das pessoas, os estupros coletivos etc.; que n\u00e3o se apresentam escondidos, sendo expostos nas m\u00eddias eletr\u00f4nicas e televisivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>A quest\u00e3o da palavra e da viol\u00eancia<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Durante muito tempo pensou-se que seria poss\u00edvel lidar com a viol\u00eancia atrav\u00e9s da palavra. Ou seja, a ideia de que atrav\u00e9s dela seria poss\u00edvel diluir a viol\u00eancia de alguma forma.<\/p>\n<p>A segunda cl\u00ednica de Lacan tem sido pensada a partir de novos par\u00e2metros. Da cl\u00ednica lacaniana centrada no Nome-do-Pai e da ordem simb\u00f3lica mais consistente, passamos para a cl\u00ednica da inconsist\u00eancia do Outro. O que se altera \u00e9 a maneira como o sujeito constr\u00f3i uma resposta para a sua exist\u00eancia[3].<\/p>\n<p>A resposta que alguns adolescentes trazem \u00e9 da puls\u00e3o de morte declarada, vivida a cada dia, a cada passo, o que pode lev\u00e1-los \u00e0 morte, a sua ou a de outros, assim como ao estupro do outro.<\/p>\n<p>Eric Laurent nos alerta que muitas vezes acreditamos que \u00e9 poss\u00edvel evitar a viol\u00eancia, que ao falar se evita que ela aconte\u00e7a. \u201cN\u00e3o estou t\u00e3o seguro disso, a meu ver, trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o mais complexa, entre o que \u00e9 o tratamento simb\u00f3lico de um real que passa n\u00e3o somente por palavras, mas por toda a classe de dispositivos\u201d[4].<\/p>\n<p>H\u00e1 um \u00f3dio ao Outro\/outros que Kevin apresenta em rela\u00e7\u00e3o a sua m\u00e3e, irm\u00e3o, pai, colegas, professora e servente; um \u00f3dio que ele n\u00e3o coloca em palavras. Ele precisa destruir a todos. H\u00e1 um momento em que agradece depois de ter cometido os crimes, como se ele estivesse agradecendo os aplausos da plateia.<\/p>\n<p>O outro n\u00e3o ocupa nestes casos o lugar de uma identifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Veras revela que \u201co genoc\u00eddio ser\u00e1 mais bem executado na medida em que a culpabilidade for esvaziada do processo\u201d[5].<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esse esvaziamento da culpabilidade que nos alerta Veras e o que nos tem chamado a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele est\u00e1 presente em in\u00fameros atos dos jovens atuais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>A cultura do estupro<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Recentemente t\u00eam aparecido nos jornais e revistas casos de estupro em que o sujeito que realiza a a\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o se lembra de t\u00ea-lo feito\u201d. Ou at\u00e9 mesmo se sente engrandecido, como Kevin, pelo ato realizado. \u00c9 o caso do jovem estuprador que diz ao amigo que ele \u201c\u00e9 mais importante que a Dilma\u201d.<\/p>\n<p>Surgem propostas de cartilhas de como se deve ensinar as crian\u00e7as a respeito da viol\u00eancia e dos estupros, principalmente aqueles que ocorrem nas escolas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se percebe \u00e9 que, havendo um esvaziamento do Outro, em que ele vai se tornando cada vez mais inconsistente, a culpabilidade tamb\u00e9m desaparece.<\/p>\n<p>O que se destaca \u00e9 um \u00f3dio ao Outro\/outro que aparece sob a forma de deboche, de apresent\u00e1-lo nas m\u00eddias eletr\u00f4nicas em situa\u00e7\u00e3o de rid\u00edculo, transformando-o em um objeto do qual se goza do modo que quiser.<\/p>\n<p>As mulheres t\u00eam reagido a isso em v\u00e1rias passeatas pelo Brasil. Em uma das frases exibidas em uma recente manifesta\u00e7\u00e3o, havia um cartaz que dizia: \u201cEstupro n\u00e3o \u00e9 sexo\u201d.<\/p>\n<p>Isto nos faz levantar a quest\u00e3o: O que \u00e9 sexo para os jovens de hoje? Por que ele tem se tornado t\u00e3o violento? S\u00e3o muitas as quest\u00f5es a investigar.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise tem muito a contribuir para o esclarecimento daquilo que n\u00e3o se coloca em palavras. Como revela Veras \u00e9 ela que \u201ctem o poder transformador de restaurar uma er\u00f3tica onde vigora apenas o gozo obsceno\u201d[6].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><strong>Por <em>Leny Magalh\u00e3es Mrech<\/em> (comiss\u00e3o cient\u00edfica)<\/strong><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5>[1] Laurent, E. (2013). \u201cPsican\u00e1lise e viol\u00eancia: sobre as manifesta\u00e7\u00f5es da puls\u00e3o de morte\u201d. Entrevista com Eric Laurent. In: Machado, O. M. R. e Derezensky (Org.) \u2013 <em>A viol\u00eancia: sintoma social da \u00e9poca<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum Livros.<\/h5>\n<h5>[2] Idem, <em>ibidem<\/em>, p.41.<\/h5>\n<h5>[3] Veras, M. (2013). \u201cAlteridades lacanianas, a viol\u00eancia entre o Outro e o objeto\u201d. In: Machado, O. M. R. e Derezensky (Org.) \u2013 <em>A viol\u00eancia: sintoma social da \u00e9poca<\/em>. Belo Horizonte: Scriptum Livros, p.104.<\/h5>\n<h5>[4] Laurent, E. (2013). <em>Op.cit.<\/em>, p.40.<\/h5>\n<h5>[5] Veras, M. (2013). <em>Op.cit.<\/em>, p.117.<\/h5>\n<h5>[6] Idem, <em>ibidem<\/em>, p.118.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas Jornadas da EBP-SP \u2013 Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia: impasses e sa\u00eddas teremos a possibilidade de discutir o que tem acontecido com crian\u00e7as e adolescentes na sociedade atual, aprofundando essas discuss\u00f5es. Contudo, como trabalho com psican\u00e1lise e sociedade e psican\u00e1lise e cultura, al\u00e9m da cl\u00ednica, creio ser interessante, nos textos preliminares, discutirmos um sintoma da cultura&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-765","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/765\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=765"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}