{"id":763,"date":"2016-07-28T21:56:32","date_gmt":"2016-07-28T21:56:32","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=763"},"modified":"2016-07-28T21:56:32","modified_gmt":"2016-07-28T21:56:32","slug":"resenha-lacadee-p-nov-2006-fuga-e-errancia-na-clinica-com-adolescentes-carta-de-sao-paulo-2-ano-xiii-p-21-32","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/resenha-lacadee-p-nov-2006-fuga-e-errancia-na-clinica-com-adolescentes-carta-de-sao-paulo-2-ano-xiii-p-21-32\/","title":{"rendered":"Resenha: Lacad\u00e9e, P. (nov., 2006). \u201cFuga e err\u00e2ncia na cl\u00ednica com adolescentes\u201d. Carta de S\u00e3o Paulo, 2 Ano, XIII, p. 21-32."},"content":{"rendered":"<p>Para o discurso da ci\u00eancia, as fugas e err\u00e2ncias na adolesc\u00eancia s\u00e3o consideradas \u201cdist\u00farbios de comportamento\u201d. Para a psican\u00e1lise \u00e9 fundamental interrogar essa afirma\u00e7\u00e3o, como diz Phillipe Lacad\u00e9e no in\u00edcio de seu texto. Duas quest\u00f5es s\u00e3o colocadas: como decifrar essas fugas e err\u00e2ncias; como situ\u00e1-las em face da \u00e9tica do bem dizer? O behaviorismo e as TCCs primam pela reeduca\u00e7\u00e3o do adolescente e de seu corpo. Por desconhecerem o que o autor chamou de \u201clugar central do gozo\u201d, ou seja, a puls\u00e3o em ato, essas terapias tamb\u00e9m desconhecem o que levou o sujeito adolescente \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o e \u00e0 passagem ao ato. Como o adolescente n\u00e3o consente em mudar essa parte de seu gozo por meio de palavras, ele vaga ou se torna errante. O autor relembra que Freud j\u00e1 \u201ccondenava a deriva educativa\u201d, uma vez que o recalcamento \u201cn\u00e3o \u00e9 assunto de sociedade, de educa\u00e7\u00e3o, mas de ang\u00fastia de castra\u00e7\u00e3o\u201d que acomete a todo sujeito.<\/p>\n<p>Segundo a l\u00f3gica behaviorista, as fugas passam a ser tratadas como signo de delinqu\u00eancia e o sujeito que foge deve ser tratado em centros fechados de educa\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada. Para Lacad\u00e9e, as fugas e err\u00e2ncias surgem quando o adolescente se depara com um sentimento de vazio, quando se depara com a separa\u00e7\u00e3o de sua inf\u00e2ncia, de uma \u201ccrian\u00e7a presa ao discurso do Outro\u201d para se defrontar com um buraco na significa\u00e7\u00e3o. O autor alerta: \u201cTratar esse vazio, saturando-o com ideais de bem-estar da \u201cpseudo sa\u00fade mental\u201d, pretender regul\u00e1-lo em nome da seguran\u00e7a, desemboca sempre no pior. Fugas e err\u00e2ncias s\u00e3o sintomas que colocam em evid\u00eancia uma cl\u00ednica do ideal do eu, ligada \u00e0 fun\u00e7\u00e3o Nome-do-Pai\u201d (p. 25). O ideal do eu, portanto, estabilizaria o sentimento da vida, dando ao adolescente seu lugar no Outro e sua f\u00f3rmula. Este seria o \u201cponto de apoio\u201d que possibilitaria ao adolescente se \u201cver digno de ser amado, mesmo am\u00e1vel, para um Outro que saiba dizer sim ao novo, ao real da libido que surge nele\u201d. (p.25).<\/p>\n<p>Cabe, portanto, ao analista ajudar o adolescente a encontrar um lugar de endere\u00e7amento de seu sofrimento, para que ele possa elaborar f\u00f3rmulas pr\u00f3prias, uma vez que rejeita as f\u00f3rmulas advindas do Outro. Lacad\u00e9e diz que \u201cEm face do excedente de gozo que invade seu corpo e o deixa fora do discurso, a fuga ou a err\u00e2ncia podem, de fato, representar uma \u00faltima tentativa de inscri\u00e7\u00e3o no la\u00e7o social\u201d (p. 22). Esse excedente de gozo deixa o sujeito sem condi\u00e7\u00f5es de traduzir ou de nomear, surgindo o dist\u00farbio de comportamento como \u201cforma\u00e7\u00e3o do inconsciente mais longa, mais continuada do que o sintoma freudiano\u201d (p. 22). L\u00e1 onde significante e corpo se enla\u00e7am a partir de uma opera\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, h\u00e1 uma \u201cpr\u00e1tica de ruptura\u201d, diz Lacad\u00e9e, condenando o adolescente a \u201cvagabundear\u201d distante de qualquer tipo de inscri\u00e7\u00e3o significante que possa ancor\u00e1-lo no Outro.<\/p>\n<p>Ao ilustrar seu texto com tr\u00eas exemplos, Lacad\u00e9e mostra diferentes formas de decifra\u00e7\u00e3o de como esses sujeitos se situaram diante do desejo do Outro, ou se separaram dele ou o fizeram surgir.<\/p>\n<p>Lucie foge de casa \u00e0 noite, ap\u00f3s escutar, de seu quarto, a m\u00e3e e o atual parceiro fazendo sexo. Ao se confrontar com o furo da sexualidade (de sua m\u00e3e e sua pr\u00f3pria), e sem poder interrogar o Outro, Lucie sai de casa de madrugada, vestindo seu pijama ap\u00f3s ver sua irm\u00e3 pequena dormindo com os olhos abertos. Lacad\u00e9e considera esse <em>acting-out<\/em> como uma resposta frente ao que a ang\u00fastia incapacitou a Lucie de falar algo sobre o que escutou e viu, conduzindo-a a um \u201cprofundo sentimento de despertar e de ex\u00edlio\u201d (p. 26). A adolescente fugiu para se proteger desse Outro. O encontro com a irm\u00e3 dormindo de olhos abertos lhe foi insuport\u00e1vel, algo que n\u00e3o pode ser olhado, mas que a olha, \u201cque a projeta para longe da cena, e que a empurra para a fuga\u201d. (p. 26). Lucie fica fora da cena do desejo do Outro, e o objeto olhar a identifica com o objeto j\u00e1 ca\u00eddo por n\u00e3o ser mais o falo desejado pelo Outro. No exemplo de Fritz, personagem adolescente do livro <em>L\u2019\u00c9tang<\/em>, de Walser, observa-se que sua fuga e suic\u00eddio simulado, serviram para avaliar o quanto era desejado pelo Outro, no caso sua m\u00e3e. Fritz acredita que \u00e9 o filho menos amado por ela. N\u00e3o se sente reconhecido e se sente cansado de ter esses pensamentos. Encontra-se com Paul, irm\u00e3o que julga ocupar o lugar de filho desejado, diz-lhe que est\u00e1 cansado de viver e segue em dire\u00e7\u00e3o a uma lagoa. L\u00e1, joga seu casaco e seu chap\u00e9u na \u00e1gua e v\u00ea, de cima de uma \u00e1rvore, a ang\u00fastia de seu irm\u00e3o ao imaginar que havia morrido afogado. O adolescente queria verificar o quanto sua m\u00e3e iria chorar ou se preocupar com ele, ou seja, o quanto valia em seu desejo. Sua m\u00e3e lhe diz, quando ele volta para casa: \u201c\u00c9 preciso falar se se quer ser compreendido\u201d. Quando Fritz lhe diz que achava que a m\u00e3e n\u00e3o o suportava, ela reassegura seu lugar dizendo que ele era seu filho mais \u201crazo\u00e1vel\u201d e que ele era \u201cgrande\u201d. Lacad\u00e9e diz que a fuga de Fritz e sua fic\u00e7\u00e3o lhe permitiram um lugar onde percebeu seu valor para a m\u00e3e e tamb\u00e9m como adulto. Em seu \u00faltimo exemplo, Lacad\u00e9e chama o adolescente poeta Arthur Rimbaud de \u201cPr\u00edncipe da Err\u00e2ncia\u201d. Ao romper qualquer la\u00e7o social e viver de forma errante pelo mundo, sem fincar ra\u00edzes em nenhum lugar, Rimbaud \u201cfaz da pressa uma das condi\u00e7\u00f5es de sua vida e de sua obra \u2013 uma passagem obrigat\u00f3ria.\u201d (p. 29). Sua escrita mostra um adolescente \u201ccom pressa de terminar o instante presente\u201d, uma vez que o tempo para ele n\u00e3o \u00e9 jamais a dura\u00e7\u00e3o \u00e0 qual aspira, diz Lacad\u00e9e. A escrita se produzia no momento de sua fuga, sua salva\u00e7\u00e3o. Para Lacad\u00e9e, Rimbaud \u201cencarna a figura do \u201cn\u00e3o-tolo\u201d, acerca do qual Lacan diz que se recusa \u00e0 captura do espa\u00e7o do ser falante, aquele que recusa os semblantes do Outro, denunciando sua impostura. (p. 30). Esse lugar dos \u2018n\u00e3o-tolos\u2019 a que Lacan se refere, evoca um lugar terceiro no qual o Outro, por ser constantemente recusado pelo adolescente a ser inscrito nele, \u00e9 paradoxalmente um Outro cuja consist\u00eancia \u00e9 mais forte.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h5><strong>Por <em>Claudia Figaro-Garcia <\/em>(comiss\u00e3o de secretaria)<\/strong><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o discurso da ci\u00eancia, as fugas e err\u00e2ncias na adolesc\u00eancia s\u00e3o consideradas \u201cdist\u00farbios de comportamento\u201d. Para a psican\u00e1lise \u00e9 fundamental interrogar essa afirma\u00e7\u00e3o, como diz Phillipe Lacad\u00e9e no in\u00edcio de seu texto. 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