{"id":759,"date":"2016-07-28T21:54:59","date_gmt":"2016-07-28T21:54:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=759"},"modified":"2016-07-28T21:54:59","modified_gmt":"2016-07-28T21:54:59","slug":"pornografia-e-a-ameaca-a-virilidade-a-primeira-geracao-de-jovens-que-cresceu-com-acesso-ilimitado-ao-porno-online-soa-o-alarme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/pornografia-e-a-ameaca-a-virilidade-a-primeira-geracao-de-jovens-que-cresceu-com-acesso-ilimitado-ao-porno-online-soa-o-alarme\/","title":{"rendered":"Pornografia e a amea\u00e7a \u00e0 virilidade: a primeira gera\u00e7\u00e3o de jovens que cresceu com acesso ilimitado ao porn\u00f4 online soa o alarme"},"content":{"rendered":"<p>A edi\u00e7\u00e3o de 11 de abril de 2016 da revista americana <em>TIME<\/em>[1] traz uma reportagem de capa sobre os jovens da gera\u00e7\u00e3o da Internet, consumidores de pornografia desde muito cedo, e que t\u00eam procurado consult\u00f3rios de urologistas apresentando queixas de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til nos encontros sexuais com parceiras no mundo real. Esses jovens est\u00e3o convencidos de que suas respostas sexuais foram sabotadas porque seus c\u00e9rebros foram \u201cmarinados\u201d em pornografia virtual quando eram crian\u00e7as e adolescentes. Uma parte desses jovens deu in\u00edcio a um movimento para denunciar os perigos do consumo constante de pornografia, associando diretamente o fracasso no encontro sexual \u00e0 superexposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pornografia virtual desde a inf\u00e2ncia, que teria levado a altera\u00e7\u00f5es \u201cneuro-cognitivas\u201d.<\/p>\n<p>Noah Church, 26, \u00e9 um bombeiro florestal na cidade de Portland, Oregon. Quando ele tinha 9 anos encontrou fotos de nudez na internet e aprendeu a baixar v\u00eddeos pornogr\u00e1ficos. Aos 15, chegaram os v\u00eddeos por <em>streaming <\/em>e ele logo come\u00e7ou a assisti-los com frequ\u00eancia, muitas vezes ao dia, acompanhado de masturba\u00e7\u00e3o. \u201cEu encontrava tudo o que eu podia imaginar e muitas coisas que eu nem imaginava\u201d, diz ele. Depois que o apelo de algum tipo de v\u00eddeo diminu\u00eda, Noah seguia para o pr\u00f3ximo, mais intenso e muitas vezes mais violento.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo ano no colegial, ele teve a oportunidade de ter um encontro sexual com uma parceira na realidade. Ele se sentia atra\u00eddo por ela, e ela por ele. Mas seu corpo n\u00e3o parecia interessado. \u201cHavia uma desconex\u00e3o entre o que eu queria na minha mente e como o meu corpo reagia\u201d, diz. Ele n\u00e3o obteve ere\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio acreditou que se trava de nervosismo de principiante. No entanto, 6 anos se passaram e n\u00e3o importava a garota com quem ele estivesse, seu corpo n\u00e3o cooperava. Ele respondia apenas \u00e0 pornografia.<\/p>\n<p>Diferentemente de Noah e de outros ativistas anti-porn\u00f4, Gabe Deem, 28, tinha uma vida sexual ativa na juventude e consumia porn\u00f4 apenas como um complemento. No entanto, a pornografia passou a dominar seu interesse sexual. \u201cAlguns anos ap\u00f3s o colegial, eu fiquei com uma linda garota. N\u00f3s fomos transar e meu corpo n\u00e3o apresentou resposta alguma. Eu fiquei assustado porque eu era jovem, em forma, e estava super atra\u00eddo por ela\u201d. Ele procurou o m\u00e9dico receando estar com n\u00edveis baixos de testosterona.<\/p>\n<p>Em abril de 2015, Alexander Rhodes deixou um bom emprego na empresa Google para desenvolver websites de aconselhamento e apoio comunit\u00e1rio para pessoas que sofrem com o v\u00edcio em pornografia. Ele iniciou um f\u00f3rum anti-masturba\u00e7\u00e3o no popular site Reddit, al\u00e9m de um website pr\u00f3prio com o nome NoFap.com (\u201cFap\u201d, em linguagem de internet, significa masturba\u00e7\u00e3o). Atualmente ele se dedica a esse trabalho em tempo integral. Assim como os outros ativistas, Rhodes consumia porn\u00f4 com regularidade desde muito cedo. No final de sua adolesc\u00eancia, quando estava com sua namorada, as coisas n\u00e3o iam bem. \u201cEu realmente a machuquei [emocionalmente]. Eu pensava que era normal ter fantasias relacionadas aos v\u00eddeos porn\u00f4s enquanto fazia sexo com outra pessoa\u201d. Ele diz que se parava de pensar em pornografia para focar na garota, seu corpo perdia interesse. Ele tentou parar de assistir v\u00eddeos pornogr\u00e1ficos algumas vezes antes de finalmente jurar nunca mais acess\u00e1-los no final de 2013. Segundo Rhodes, seus dois websites t\u00eam cerca de 200.000 membros cadastrados e mais de um milh\u00e3o de visualiza\u00e7\u00f5es de usu\u00e1rios \u00fanicos por m\u00eas. Para grande parte dos usu\u00e1rios desses sites, deixar de consumir pornografia n\u00e3o tem nada a ver com valores morais e religiosos. \u201cEu parei de assistir v\u00eddeos porn\u00f4s para ter mais sexo\u201d, diz Deem. \u201cParar de assistir porn\u00f4 \u00e9 uma das maiores atitudes pr\u00f3-sexo que uma pessoa pode fazer\u201d. Ou, como diz um dos usu\u00e1rios do website: \u201cEu s\u00f3 quero ter prazer com o sexo e sentir desejo por outra pessoa novamente\u201d.<\/p>\n<p>Estat\u00edsticas recentes sugerem a exist\u00eancia de correla\u00e7\u00e3o entre o consumo de pornografia e o aumento dos casos de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til entre jovens. Em 1992, cerca de 5% dos homens apresentaram disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til aos 40 anos de idade, de acordo com o Instituto Nacional de Sa\u00fade dos EUA. Um estudo em julho de 2013, publicado no <em>Journal of Sexual Medicine<\/em> descobriu que 26% dos homens que procuravam tratamento para disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til tinham menos de 40 anos. Um estudo de 2014 descobriu que um ter\u00e7o de um total de 367 militares americanos abaixo de 40 anos relatava disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til. Em 2012, um estudo su\u00ed\u00e7o encontrou essa disfun\u00e7\u00e3o em um ter\u00e7o de um grupo de homens ainda mais jovens: entre 18 e 25 anos.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja poss\u00edvel afirmar que esse aparente aumento no n\u00famero de casos de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til em jovens esteja diretamente relacionado ao consumo de pornografia, o fato \u00e9 que esse grupo tem consumido cada vez mais esses v\u00eddeos. Um dos maiores sites de compartilhamento de v\u00eddeos adultos do mundo, o Pornhub, diz que recebe 2,4 milh\u00f5es de visitantes por hora e que, apenas em 2015, as pessoas ao redor do globo assistiram 4.392.486.580 horas de seu conte\u00fado, tempo que equivale ao dobro do que a esp\u00e9cie humana j\u00e1 viveu na Terra. A internet \u00e9 como um buffet 24-horas \u201ccoma-\u00e0-vontade\u201d, que serve todo tipo de aperitivo sexual. E os jovens est\u00e3o devorando.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria apresenta a opini\u00e3o de diversos estudiosos no campo da neuroci\u00eancia e do comportamento. O guru do rec\u00e9m-criado movimento anti-porn\u00f4 \u00e9 um antigo professor-adjunto de Biologia da Universidade de Southern Oregon, Gary Wilson, 59. Ele \u00e9 autor do livro: <em>Your Brain on Porn: Internet Pornography and the Emerging Science of Addiction<\/em>. O livro argumenta que assistir porn\u00f4 de forma demasiada afeta o c\u00e9rebro de m\u00faltiplas formas. \u201cA pornografia treina o seu c\u00e9rebro de forma a necessitar de tudo o que \u00e9 associado \u00e0 pornografia para se excitar\u201d. Isto inclui n\u00e3o apenas o conte\u00fado, mas tamb\u00e9m o m\u00e9todo de entrega. Como os v\u00eddeos porn\u00f4s s\u00e3o ilimitados, gratuitos e r\u00e1pidos, os usu\u00e1rios podem clicar e mudar completamente a cena ou o tipo de v\u00eddeo assim que sua excita\u00e7\u00e3o ceda, de forma a \u201ccondicionar seu padr\u00e3o de excita\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade de novidade constante\u201d.<\/p>\n<p>Um estudo desenvolvido pelo Instituto Max Planck em 2014 descobriu que quanto mais pornografia os homens consumiam, menor \u00e9 o estriado cerebral, o centro da recompensa no c\u00e9rebro. E quanto mais pornografia algu\u00e9m consumia, menor era a resposta desta \u00e1rea a fotos pornogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>\u201cA pornografia coloca voc\u00ea no que eu chamo de fuso hor\u00e1rio hedonista\u201d, diz Philip Zimbardo, professor em\u00e9rito de Psicologia da Universidade de Stanford. \u201cVoc\u00ea busca prazer e novidade e vive o momento. Embora n\u00e3o seja quimicamente viciante, a pornografia tem o mesmo efeito no comportamento que a drogadi\u00e7\u00e3o: algumas pessoas deixam de fazer outras coisas em favor desta pr\u00e1tica\u201d, diz. \u201cE ent\u00e3o, o problema \u00e9 que quanto mais voc\u00ea faz isso, os centros de recompensa do seu c\u00e9rebro perdem a capacidade de excita\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria comenta brevemente, ainda, as consequ\u00eancias do consumo de pornografia para as garotas. Garotos consomem mais porn\u00f4 do que as garotas, o que n\u00e3o \u00e9 surpreendente. Cerca de metade dos alunos de n\u00edvel superior nos EUA consomem semanalmente pornografia enquanto apenas 3% das mulheres o fazem.<\/p>\n<p>A autora da mat\u00e9ria argumenta que \u00e9 comum que a pornografia apresente agress\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas contra as mulheres como algo sexy. Assim, a pornografia parece agir como um dessensibilizador. Mulheres consumidoras de pornografia s\u00e3o menos propensas a intervir quando veem outra mulher sendo amea\u00e7ada ou atacada e demoram mais para perceber quando elas mesmas est\u00e3o em perigo.<\/p>\n<p>\u201cA pornografia tem um efeito terr\u00edvel em como as mulheres jovens acreditam que devem ser, particularmente durante o sexo\u201d, diz Leslie Bell, uma psicoterapeuta e autora do livro <em>Hard to Get<\/em>. \u00c9 o que diz tamb\u00e9m uma estudante do colegial da Carolina do Norte: \u201cQuando fico com um cara bem atraente e as coisas come\u00e7am a ficar mais quentes, de repente minha mente se transforma e eu n\u00e3o sou mais uma pessoa real: \u00e9 como se fosse uma performance, como se eu estivesse atuando&#8230; e eu nem sei quem \u00e9 essa personagem que eu estou interpretando, quem realmente \u00e9 essa mulher. Acho que \u00e9 uma garota imaginada, talvez uma garota de um filme porn\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma vez que a pornografia parece ter se instalado como um <em>Leitmotiv<\/em> na vida dos jovens conectados do s\u00e9culo XXI, o que n\u00f3s, psicanalistas, a partir do ensino de Lacan, podemos aprender com este fen\u00f4meno?<\/p>\n<p>Para Miller, do per\u00edodo vitoriano ao porn\u00f4, \u201cn\u00e3o apenas passamos da interdi\u00e7\u00e3o \u00e0 permiss\u00e3o, mas \u00e0 incita\u00e7\u00e3o, \u00e0 intrus\u00e3o, \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o, ao for\u00e7amento. O que \u00e9 o porn\u00f4 sen\u00e3o uma fantasia filmada com uma variedade pr\u00f3pria para satisfazer os apetites perversos em sua diversidade? Nada melhor do que a profus\u00e3o imagin\u00e1ria de corpos se entregando a um \u201cse dar\u201d e a um \u201cse pegar\u201d para mostrar a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual <em>no real<\/em>\u201d[2].<\/p>\n<p>Ainda de acordo com Miller, este algo novo na sexualidade tem produzido \u201cmasturbadores aliviados de ter de produzir eles mesmos os sonhos quando despertos, uma vez que os encontram feitos, j\u00e1 sonhados para eles. O sexo fr\u00e1gil, no que concerne ao porn\u00f4, \u00e9 o masculino, que cede a isso de muito bom grado\u201d. Miller cita a frequ\u00eancia com que temos ouvido em an\u00e1lise homens se queixando das compuls\u00f5es de acompanhar \u201cas perip\u00e9cias pornogr\u00e1ficas e at\u00e9 mesmo de estoc\u00e1-las em uma reserva eletr\u00f4nica\u201d, enquanto que, em outra perspectiva, aquela do lado das esposas e das amantes, a pr\u00e1tica \u00e9 bem menos frequente. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o que se imp\u00f5e para muitos \u00e9 a de saber se se considera uma trai\u00e7\u00e3o ou um divertimento sem consequ\u00eancias. Segundo Miller, a cl\u00ednica da pornografia \u00e9 do s\u00e9culo XXI e merece ser detalhada por ser insistente e por ter se tornado extremamente presente nas an\u00e1lises.<\/p>\n<p>Portanto, pelo que \u00e9 poss\u00edvel antever a partir dessa reportagem da <em>Times<\/em>, mencionada acima, somos convocados a discutir este tema trazido pelos jovens e, com os efeitos da cl\u00ednica, verificar as consequ\u00eancias do furo que a imagem pornogr\u00e1fica exibe, sem v\u00e9u, no corpo falante do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Por <em>Niraldo de Oliveira Santo <\/em>\u00a0(comiss\u00e3o cient\u00edfica)<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5>[1] Luscombe, B &amp; Orenstein, P. Porn. (11\/04\/16) \u201cWhy Young men who grew up with Internet porn are becoming advocates for turning it off? In <em>Time<\/em>.<\/h5>\n<h5>[2] Miller, J.-A. (2016). \u201cO inconsciente e o corpo falante\u201d. In: <em>Scilicet: O Corpo Falante<\/em> \u2013 <em>Sobre o inconsciente no s\u00e9culo XXI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A edi\u00e7\u00e3o de 11 de abril de 2016 da revista americana TIME[1] traz uma reportagem de capa sobre os jovens da gera\u00e7\u00e3o da Internet, consumidores de pornografia desde muito cedo, e que t\u00eam procurado consult\u00f3rios de urologistas apresentando queixas de disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til nos encontros sexuais com parceiras no mundo real. 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