{"id":755,"date":"2016-07-28T21:53:26","date_gmt":"2016-07-28T21:53:26","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=755"},"modified":"2016-07-28T21:53:26","modified_gmt":"2016-07-28T21:53:26","slug":"projeto-caminho-de-volta-uma-possibilidade-de-escuta-para-casos-de-desaparecimento-e-fuga-de-adolescentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/projeto-caminho-de-volta-uma-possibilidade-de-escuta-para-casos-de-desaparecimento-e-fuga-de-adolescentes\/","title":{"rendered":"Projeto Caminho de Volta: uma possibilidade de escuta para casos de desaparecimento e fuga de adolescentes"},"content":{"rendered":"<p>Em 2004, o <em>Projeto Caminho de Volta<\/em> (<a href=\"http:\/\/www.caminhodevolta.fm.usp.br\">www.caminhodevolta.fm.usp.br<\/a>) foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da USP, com a finalidade de auxiliar a identifica\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes desaparecidos no Estado de S\u00e3o Paulo, cuja m\u00e9dia \u00e9 de 9000 casos\/ano. A princ\u00edpio esse aux\u00edlio seria por meio do cruzamento de informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas dos perfis de DNA de familiares consangu\u00edneos com os perfis de DNA dos desaparecidos quando encontrados, desde que n\u00e3o fosse poss\u00edvel sua identifica\u00e7\u00e3o. Por exemplo, no caso de mudan\u00e7as fision\u00f4micas do desaparecido em decorr\u00eancia do tempo do desaparecimento, de crian\u00e7as e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de abrigamento sem identifica\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de cad\u00e1veres desconhecidos, ossadas ou restos humanos. Os perfis seriam armazenados em Bancos de DNA.<\/p>\n<p>Para ter acesso a essas fam\u00edlias foi assinado um conv\u00eanio entre o Projeto e a Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica para atend\u00ea-las na 4\u00aa Delegacia de Pessoas Desaparecidas do Dep. de Homic\u00eddios e de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Pessoa (DHPP), \u00fanica delegacia da capital respons\u00e1vel pela investiga\u00e7\u00e3o desses casos. Os crit\u00e9rios para a entrada no projeto foram que as fam\u00edlias tivessem um registro do desaparecimento na delegacia e que os desaparecidos fossem menores de 18 anos na \u00e9poca de seu desaparecimento[1].<\/p>\n<p>Todavia, somente o cruzamento de informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas n\u00e3o responderia uma pergunta crucial: por que ocorriam esses desaparecimentos? Como estariam psiquicamente as fam\u00edlias e os encontrados ap\u00f3s o desaparecimento? Como seria o retorno do encontrado depois de tanto tempo desaparecido? O significante \u201cCaminho de Volta\u201d[2] surgiu a partir dessas primeiras indaga\u00e7\u00f5es. E, na tentativa de encontrar algumas respostas, foi desenvolvida uma metodologia de atendimento as essas fam\u00edlias[3]. As entrevistas s\u00e3o feitas na delegacia, ap\u00f3s as fam\u00edlias terem conversado com os policias, que as convidam a conhecer o Caminho de Volta. A participa\u00e7\u00e3o \u00e9 gratuita e volunt\u00e1ria. As fam\u00edlias que aceitam se dirigem a um espa\u00e7o destinado a escut\u00e1-las por meio do dispositivo anal\u00edtico, uma vez que a coordena\u00e7\u00e3o dessa cl\u00ednica \u00e9 orientada pela psican\u00e1lise lacaniana, tanto na sele\u00e7\u00e3o dos profissionais do Projeto quanto nas supervis\u00f5es dos casos. Ao todo s\u00e3o realizadas 4 entrevistas. Na primeira, o psic\u00f3logo apresenta o Caminho de Volta dizendo sobre a import\u00e2ncia e coleta do material biol\u00f3gico para os bancos de DNA. Esclarece sobre a realiza\u00e7\u00e3o de mais entrevistas, chamadas de retornos, que ser\u00e3o feitas em espa\u00e7os de quinze a vinte dias na delegacia, enfatizando a import\u00e2ncia da presen\u00e7a nesses retornos, da crian\u00e7a e\/ou adolescente, quando encontrado. Se concordarem, as fam\u00edlias assinam um Termo de Consentimento P\u00f3s-Esclarecido. N\u00e3o h\u00e1 troca de informa\u00e7\u00f5es sobre o caso com a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O trabalho de escuta nas entrevistas busca tomar os casos um a um, em sua singularidade, mas aponta particularidades muito interessantes. Ao contr\u00e1rio do que comumente \u00e9 associado ao desaparecimento, por ser o mais divulgado na m\u00eddia, na grande maioria dos casos, principalmente de adolescentes, trata-se de fugas de casa que come\u00e7am na entrada da puberdade e n\u00e3o de subtra\u00e7\u00f5es conhecidas como \u201craptos ou roubos\u201d de pessoas que ocorrem por uma a\u00e7\u00e3o criminosa, praticada por terceiros e cujos motivos s\u00e3o diferentes de uma fuga de casa.<\/p>\n<p>As adolescentes fogem o dobro, quando comparadas com os rapazes e o n\u00famero de homossexuais e bissexuais femininas tamb\u00e9m \u00e9 maior[4]. A repeti\u00e7\u00e3o das fugas ocorreu em mais da metade dos 1150 casos at\u00e9 hoje atendidos e esses desaparecimentos tem uma resolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, pois os adolescentes voltam no mesmo dia ou nos dias e semanas seguintes. E depois voltam a fugir, em um movimento de repeti\u00e7\u00e3o que insiste. As entrevistas revelam ainda que os conflitos familiares sem viol\u00eancia f\u00edsica s\u00e3o o que mais aparece no discurso, tanto das fam\u00edlias quanto dos adolescentes. Constata\u00e7\u00e3o que vai em dire\u00e7\u00e3o oposta aos dados da literatura nacional e internacional, que apontam a viol\u00eancia dom\u00e9stica como o principal agente facilitador para a ocorr\u00eancia de fugas.[5]\n<p>Uma fragilidade da fun\u00e7\u00e3o paterna e o empuxo ao gozo sem limites aparecem na maioria dos relatos. Por um lado, adolescentes reivindicando maior autonomia, tanto no ir e vir quanto no usufruir da sexualidade, sem dar satisfa\u00e7\u00f5es ao Outro parental (escolhas de parceiros, frequentar bailes funk, usar roupas provocativas, situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o sexual etc.). E por outro, familiares que, ou n\u00e3o sabem como se posicionar como pais, ou exercem sua autoridade de forma ditatorial, invasiva ou devastadora. Somam-se a isto o consumo de drogas e \u00e1lcool, o envolvimento no tr\u00e1fico ou a pr\u00e1tica de atos infracionais[6]. Todavia, estes s\u00e3o conflitos que tamb\u00e9m podem aparecer em fam\u00edlias de adolescentes que n\u00e3o fogem, podendo desencadear outros sintomas. Nas fam\u00edlias do Caminho de Volta, o sintom\u00e1tico s\u00e3o as fugas, que podem ser endere\u00e7amentos, atua\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 passagens ao ato. Os adolescentes fogem quando n\u00e3o conseguem nomear a ang\u00fastia, que pode surgir de quest\u00f5es ligadas \u00e0 mudan\u00e7a em seus corpos, \u00e0 sua identidade e ao encontro sexual, d\u00favidas quanto a seu futuro, dificuldades de relacionamento e para encontrar um lugar no la\u00e7o social.<\/p>\n<p>A fuga, concebida como um sintoma em ato e n\u00e3o um dist\u00farbio de comportamento, permite que, nas supervis\u00f5es semanais dos casos, seja poss\u00edvel observar qual lugar o adolescente ocupa no romance familiar, que significantes lhe s\u00e3o atribu\u00eddos, qual o sentido da fuga para o sujeito que desaparece, por que voltou para casa, que demandas os sujeitos apresentam, quais s\u00e3o os modos de gozo de que n\u00e3o abrem m\u00e3o e o que se repete na hist\u00f3ria familiar al\u00e9m das fugas, ou seja, que outros sintomas se manifestam. Como se trata de uma interven\u00e7\u00e3o por tempo limitado, os casos s\u00e3o encaminhados para outros servi\u00e7os que possam lhes oferecer desde um tratamento psicanal\u00edtico, psiqui\u00e1trico, m\u00e9dico, at\u00e9 participar de atividades sociais ou esportivas em institui\u00e7\u00f5es que propiciem condi\u00e7\u00f5es para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova maneira de relacionamento com o Outro social.<\/p>\n<p>Um efeito dessa cl\u00ednica espec\u00edfica de adolescentes que desapareceram quando fugiram foi a cria\u00e7\u00e3o do significante \u201cdesfugir\u201d<em>,<\/em> resultante da jun\u00e7\u00e3o dos significantes desaparecer e fugir. O \u201cdesfugir\u201d traz uma gama de quest\u00f5es cl\u00ednicas para o analista que se prop\u00f5e a escutar os efeitos de um sintoma presente nos adolescentes que procuram, longe da fam\u00edlia, encontrar uma maneira de viver \u201ca verdadeira vida\u201d como salientou Lacad\u00e9e ao parafrasear o jovem poeta Rimbaud, que nas suas err\u00e2ncias \u201ctinha pressa para encontrar o lugar e a f\u00f3rmula\u201d[7].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><em>Claudia Figaro-Garcia<\/em> (comiss\u00e3o cient\u00edfica)<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h5>[1] Gatt\u00e1s, GJF., Figaro-Garcia, C., Fridman, C., Neumann, MM., Lopez, LF., Chao, LW., &amp; Massad, E. (2005). \u201cProjeto Caminho de Volta: busca de crian\u00e7as e adolescentes desaparecidos no Estado de S\u00e3o Paulo\u201d. <em>Revista Cultura e Extens\u00e3o<\/em> USP, (0): 28-37.<\/h5>\n<h5>[2] Gatt\u00e1s, GJF., Figaro-Garcia, C. (2007). <em>Caminho de Volta: tecnologia na busca de crian\u00e7as e adolescentes desaparecidos no Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Secretaria Especial de Direitos Humanos: CONANDA \u2013 Conselho Nacional dos Direitos da Crian\u00e7a e do Adolescente.<\/h5>\n<h5>[3] Figaro-Garcia, C. [2010]. \u201cUma proposta de pr\u00e1tica psicol\u00f3gica para casos de desaparecimento de crian\u00e7as e adolescentes\u201d. Tese de doutorado. Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/h5>\n<h5>[4] Figaro-Garcia, C. [2015]. \u201cMeninas que fogem e a quest\u00e3o homossexual\u201d. Trabalho apresentado no VII ENAPOL, Imp\u00e9rio das Imagens. S\u00e3o Paulo, de 4 a 6 de outubro de 2015.<\/h5>\n<h5>[5] Cf. Finkelhor, D., Hotaling, G., &amp; Sedlak, A. (1990). \u201cMissing abducted, runaway and thrownaway children in America\u201d.Washington DC: US Department of Justice. Recuperado em 30 de maio de 2006, de <a href=\"http:\/\/www.ncjrs.gov\/html\/ojjdp\/nismart\">http:\/\/www.ncjrs.gov\/html\/ojjdp\/nismart<\/a>.\u00a0Cf. tb: Hammer, H., Finkelhor, D., &amp; Sedlak, A. (2002). \u201cRunaway\/Thrownaway Children: National Estimates and Characteristics\u201d. Recuperado em 10 de abril de 2006, de http:\/\/www.ncjrs.gov\/html\/ojjdp\/nismart\/04\/ . E tb: Oliveira, D. D. [2007]. \u201cDesaparecidos civis: conflitos familiares, institucionais e seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d. Tese de doutorado. Bras\u00edlia: Instituto de Ci\u00eancias Sociais, UNB.<\/h5>\n<h5>[6] Estes, R., &amp; Weiner, N. (2005). \u201cThe commercial sexual exploitation of children in the United States\u201d. In S. W. Cooper, R. Estes, A. P. Giardino, N. D. Kellogg, &amp; V. I Vieth. <em>Medical, legal &amp; science aspects of child sexual exploitation. A comprehensive review for pornography, prostituition and internet crimes<\/em>. (Vol.1, pp. 95-128). St. Louis: G.W. Medical.<\/h5>\n<h5>[7] Lacad\u00e9e, P. (2007). A passagem ao ato dos adolescentes 1. Acesso: em 16 de maio de 2016 de\u00a0<a href=\"http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_04\/asephallus04.pdf\">http:\/\/www.isepol.com\/asephallus\/numero_04\/asephallus04.pdf<\/a><\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2004, o Projeto Caminho de Volta (www.caminhodevolta.fm.usp.br) foi desenvolvido por uma equipe multidisciplinar do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da USP, com a finalidade de auxiliar a identifica\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes desaparecidos no Estado de S\u00e3o Paulo, cuja m\u00e9dia \u00e9 de 9000 casos\/ano. 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