{"id":750,"date":"2016-07-28T21:50:25","date_gmt":"2016-07-28T21:50:25","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=750"},"modified":"2016-07-28T21:50:25","modified_gmt":"2016-07-28T21:50:25","slug":"meninos-e-guillaume-a-mesa-um-filme-de-guillaume-galienne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/meninos-e-guillaume-a-mesa-um-filme-de-guillaume-galienne\/","title":{"rendered":"Meninos e Guillaume, \u00e0 mesa!, um filme de Guillaume Galienne"},"content":{"rendered":"<p><em>A primeira lembran\u00e7a que tenho da minha m\u00e3e \u00e9 quando eu tinha quatro ou cinco anos. Ela chamava, meus dois irm\u00e3os e eu para o jantar, dizendo: &#8220;Meninos e Guillaume, o jantar est\u00e1 servido!&#8221;* e da \u00faltima vez que eu falei com ela por telefone, ela desligou dizendo &#8220;Um beijo, querida! Podemos dizer que entre estas duas frases, h\u00e1 alguns mal-entendidos.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>O filme <em>Les gar\u00e7ons et Guillaume, \u00e0 table!<\/em>, em portugu\u00eas traduzido por <em>Eu, Mam\u00e3e e os Meninos<\/em>, \u00e9 a hist\u00f3ria de vida do diretor e ator do filme Guillaume Galienne e a maneira como ele virou ator, imitando a sua m\u00e3e:<\/p>\n<p><em>&#8211; &#8220;Quando eu era crian\u00e7a, minha m\u00e3e dizia: \u00ab\u00a0Os meninos e Guillaume\u00bb. Este &#8220;e&#8221; me fazia acreditar que para continuar \u00fanico aos olhos desta Mam\u00e3e, para me distinguir da massa an\u00f4nima que eram os meninos, eu precisava sobretudo n\u00e3o ser um. Eu fiz de tudo para ser uma menina, ent\u00e3o, e qual o melhor modelo para isso do que minha m\u00e3e? Assim, comecei a imit\u00e1-la e pouco tempo depois adotei a mesma voz, os mesmos gestos, as mesmas express\u00f5es. Eu n\u00e3o virei afeminado, mas feminino me apropriando de Mam\u00e3e.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Este relato autobiogr\u00e1fico do pr\u00f3prio realizador do filme nos deixa entrever este <em>lapso<\/em> de tempo entre a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia do personagem\/ator Guillaume e a constru\u00e7\u00e3o que este vai fazendo frente ao <em>sexual.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Para sair da l\u00f3gica universal e n\u00e3o ser inclu\u00eddo entre os homens da s\u00e9rie &#8211; os dois irm\u00e3os e o pai &#8211; e ser amado de forma \u00danica, Guillaume se aloja na identifica\u00e7\u00e3o com o feminino.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, que n\u00e3o cede em momento algum ao desejo de ter tido uma filha mulher, faz de Guillaume seu verdadeiro objeto. Guillaume consente, \u201ccrendo\u201d ter algo de menina, e mais do que isso &#8211; <em>faz um esfor\u00e7o<\/em> para ser feminino &#8211; em \u00faltima inst\u00e2ncia, para corresponder o desejo da m\u00e3e.<\/p>\n<p><em>&#8211; Mam\u00e3e, encontrei a minha primeira namoradinha da inf\u00e2ncia. Lembra da Ana?<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0&#8211; Sim, como <\/em><em>ele<\/em><em> vai?<\/em><\/p>\n<p>O filho responde hesitando<em>, &#8211; vai bem! <\/em>N\u00e3o ousando contradizer a m\u00e3e dizendo que, na verdade, Ana, a namoradinha de inf\u00e2ncia, era uma menina!<\/p>\n<p>A conversa segue&#8230;.<\/p>\n<p><em>&#8211; \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 esportista como seu pai e os meninos, n\u00e3o pode, portanto, acompanh\u00e1-los nas viagens de ver\u00e3o para lugares selvagens\u201d.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Oferece, ent\u00e3o, ao filho, um curso de espanhol durante as f\u00e9rias de ver\u00e3o, na cidade \u2018mais feia\u2019 da Espanha.<\/p>\n<p>A cidade mais feia, a fim de n\u00e3o fazer concorr\u00eancia com a pr\u00f3pria m\u00e3e, que queria ser \u2018A mais bela\u2019. Um tom de inveja e de ci\u00fames, marcas de f\u00e1brica da fantasia feminina, ficam evidentes em alguns momentos do filme.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3e devoradora, que n\u00e3o se limita a satisfazer-se em chamar Guillaume e seus meninos a passar \u00e0 mesa, mas a mordiscar-lhe pouco a pouco a masculinidade.<\/p>\n<p>\u00c9 isto que \u00e9 posto <em>\u00e0 mesa<\/em> neste filme! Um filme sobre a (impossibilidade da) identidade de g\u00eanero e a identifica\u00e7\u00e3o com o feminino da m\u00e3e, que lhe serve de b\u00fassola, mas que fracassa. O filme tamb\u00e9m retrata como se d\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o da sexua\u00e7\u00e3o para este filho, apesar desta Mulher.<\/p>\n<p>\u00c9 um filme sobre a constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o da sexualidade no decorrer da vida; da inf\u00e2ncia &#8211; onde n\u00e3o \u00e9 contado na s\u00e9rie dos homens amados pela m\u00e3e e as consequ\u00eancias do recalque para o pequeno garoto; da adolesc\u00eancia &#8211; este menino estranho que fora marcado pela homossexualidade for\u00e7ada para dar continuidade \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o, a de se manter como falo da m\u00e3e; \u00e0 idade adulta, onde o gozo enfim em relevo desmascara todo o esfor\u00e7o da vida de Guillaume: corresponder ao desejo do Outro ao pre\u00e7o de fazer-se devorar (o pr\u00f3prio falo).<\/p>\n<p>A ser <em>degustado<\/em> \u00e0 luz da psican\u00e1lise lacaniana, esperando que sua <em>aprecia\u00e7\u00e3o<\/em> nos oriente frente aos embara\u00e7os do corpo. Pois, diante da puls\u00e3o, ac\u00e9fala, o corpo \u201cse goza\u201d e se releva do Um, contrariamente ao desejo, que \u00e9 sempre desejo do Outro, nos lembra Miller[i]\n<p>Ser\u00e1 que Guillaume poder\u00e1 ainda sustentar o desejo de Mam\u00e3e, ao se enfrentar com este corpo masculino, passados os percal\u00e7os da adolesc\u00eancia?!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><em>Fernanda Turbat <\/em>(Comiss\u00e3o de boletins)<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><sup>*<\/sup>\u00a0Filme vencedor do melhor filme e melhor ator do festival de Cannes de 2013.<\/p>\n[i]\u00a0Miller, J.A. [25\/05\/11]. \u201cA orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. O Ser e o Um\u201d, ensino pronunciado no departamento de psican\u00e1lise na universidade Paris VIII, li\u00e7\u00e3o do dia 25 de maio de 2011, in\u00e9dito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira lembran\u00e7a que tenho da minha m\u00e3e \u00e9 quando eu tinha quatro ou cinco anos. 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