{"id":739,"date":"2016-07-28T21:44:11","date_gmt":"2016-07-28T21:44:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=739"},"modified":"2016-07-28T21:44:11","modified_gmt":"2016-07-28T21:44:11","slug":"as-maes-em-radio-lacan-o-chapeuzinho-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/as-maes-em-radio-lacan-o-chapeuzinho-vermelho\/","title":{"rendered":"As m\u00e3es em Radio Lacan: \u201cO Chapeuzinho vermelho\u201d"},"content":{"rendered":"<h5>Por <em>Daniel Roy\u00a0[1]<\/em><\/h5>\n<p>Vou falar a voc\u00eas sobre o conto de Perrault, <em>Chapeuzinho Vermelho<\/em>. \u00c9 um de seus contos mais curtos, conhe\u00e7o-o h\u00e1 muito tempo, como muitos de voc\u00eas. Mas fui levado a escut\u00e1-lo de maneira diferente quando estudava psiquiatria no primeiro Hospital-dia para crian\u00e7as que abriu em Bordeaux. Havia uma menininha que se interessava particularmente por esse conto e mais precisamente a primeira frase: &#8211; \u201cSua m\u00e3e era louca por ela e sua av\u00f3 mais louca ainda\u201d.<\/p>\n<p>A cada vez que ela escutava esta frase, ficava em um estado de excita\u00e7\u00e3o e de nervosismo extremamente intensos. Isto me levou a trabalhar com esta menina em torno da m\u00e3e louca e da av\u00f3 mais louca ainda.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o faremos essa aposta, para come\u00e7ar, de que esse conto fala da loucura materna. Daremos uma volta para abordar este ponto delicado, pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil abordar este assunto de forma direta.<\/p>\n<p>H\u00e1 diferentes n\u00edveis discursivos nesse conto. Ele entra no que os folcloristas ir\u00e3o chamar de conto de advert\u00eancia. Por\u00e9m, \u00e9 um conto de advert\u00eancia especial, na medida em que a m\u00e3e envia a pequena menina, a Chapeuzinho Vermelho, at\u00e9 a vov\u00f3 para levar um bolo e um pequeno pote de manteiga, sem adverti-la do perigo que ela corre na floresta. Ficamos com a pulga atr\u00e1s da orelha.<\/p>\n<p>Vladmir Propp, em <em>Morfologia do Conto<\/em>, diz que uma demanda em um conto \u00e9 o inverso estrito de uma interdi\u00e7\u00e3o. H\u00e1, ent\u00e3o, entre a m\u00e3e e a av\u00f3, algo que circula. Este objeto que circula n\u00e3o \u00e9 somente o bolo e um pote de manteiga (que ela deve levar \u00e0 vov\u00f3), \u00e9 tamb\u00e9m o Chapeuzinho Vermelho. Este nome que Perrault escolhe para essa personagem central que \u00e9 tamb\u00e9m o nome do conto, extrai a dimens\u00e3o da advert\u00eancia dada pelas m\u00e3es \u00e0s filhas, aborda o tema de que se deve tomar cuidado com os diversos lobos que as meninas encontrar\u00e3o na vida. A moral que Perrault quer dar atrav\u00e9s desse conto nos orienta a isso. Mas, digamos que a advert\u00eancia aparece em um primeiro n\u00edvel do discurso. Por\u00e9m, n\u00e3o precisamos ficar s\u00f3 nisso.<\/p>\n<p>Para ir al\u00e9m, vamos nos apoiar nos outros elementos do conto que nos levam a um segundo n\u00edvel de discurso. O momento mais dram\u00e1tico, o final do conto, escutado de maneira t\u00e3o tensa pelas crian\u00e7as \u2013 com a mistura de prazer e ang\u00fastia que caracteriza a escuta de todo bom conto \u2013, quando Chapeuzinho Vermelho se despe, vai at\u00e9 a cama e fica surpresa de ver sua av\u00f3 despida. \u00c9 toda a s\u00e9rie:<\/p>\n<p>&#8211; Para que servem estes bra\u00e7os t\u00e3o longos, vov\u00f3? &#8211; \u00c9 para melhor te abra\u00e7ar, minha netinha.<\/p>\n<p>&#8211; Para que servem estas pernas t\u00e3o grandes, vov\u00f3? \u2013 \u00c9 para melhor correr.<\/p>\n<p>&#8211; Para que estas orelhas t\u00e3o grandes, vov\u00f3? \u2013 \u00c9 para melhor te escutar, minha netinha.<\/p>\n<p>&#8211; Para que estes olhos t\u00e3o grandes, vov\u00f3? \u2013 \u00c9 para melhor te ver, minha netinha.<\/p>\n<p>&#8211; Para que servem estes dentes t\u00e3o grandes, vov\u00f3? \u2013 \u00c9 para te comer!<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que Marc Soriano, que tamb\u00e9m estudou os contos de Perrault, sublinha desta \u00faltima r\u00e9plica:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para te comer!<\/p>\n<p>Sublinhamos este fato: a verdade deste conto \u00e9 que o lobo que substitui a av\u00f3, que substitui am\u00e3e, representa, encarna a devora\u00e7\u00e3o materna. A m\u00e3e que escuta que ela te come! E o fato de que \u00e9 bom ser devorada pela m\u00e3e. Este \u00faltimo ponto que eu queria insistir: seja menina ou menino, o Chapeuzinho Vermelho, se faz devorar. Para al\u00e9m da m\u00e3e que demanda e que interdita h\u00e1 a m\u00e3e que devora.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que o psicanalista pode dizer \u00e9 o seguinte: &#8211; J\u00e1 que \u00e9 assim, \u00e9 melhor saber disso: voc\u00ea pode ficar com medo; pode tentar evit\u00e1-lo; pode tentar esquivar-se disso; pode denunciar o abuso que \u00e9; levar consigo e projetar at\u00e9 o fim de sua exist\u00eancia; deixar que tenha a apar\u00eancia da morte; tentar colocar a\u00ed o bast\u00e3o f\u00e1lico durante toda a sua vida, jogando-o na cara do lobo devorador; pedir ajuda ao pai lobo, que vir\u00e1 devorar melhor do que a m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 claro que voc\u00ea pode fazer isto por toda a vida, mas vai se cansar!<\/p>\n<p>E como no trecho do conto<em>: e dizendo essas palavras, o malvado lobo se jogou sobre o Chapeuzinho vermelho e a engoliu.<\/em> Isso \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o, a m\u00e3e come! E porque a m\u00e3e come? Ela come, pois \u00e9 ela que d\u00e1 de comer ao significante, que alimenta o significante. E com o significante voc\u00ea se faz devorar um pouco.<\/p>\n<p>E isto se sabe tamb\u00e9m no conto, pois h\u00e1 no centro esse prazer da l\u00edngua que permite sempre recome\u00e7ar e escut\u00e1-lo, e muitas vezes seguidas. S\u00e3o esses famosos jogos de l\u00edngua, as repeti\u00e7\u00f5es: <em>puxe o trinco da porta e ela se abrir\u00e1<\/em> (<em>tire la chevillete et la bobinette cherra<\/em>[2]),<em>um pequeno pote de manteiga, um pequeno pote de manteiga&#8230; <\/em>que se repete m\u00faltiplas vezes, e por fim este di\u00e1logo que evoquei h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>\u00c9 isto a\u00ed. A m\u00e3e de Chapeuzinho Vermelho \u00e9 a m\u00e3e que encontramos na vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5>Transcri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o- <em>Fernanda Turbat<\/em> \u2013 comiss\u00e3o de boletins<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n[1] Radio Lacan. Gravado em 05.09.2014. Dispon\u00edvel emhttp:\/\/www.radiolacan.com\/fr\/topic\/230\/3<\/p>\n[2] N.T.: f\u00f3rmula emblem\u00e1tica do conto de Charles Perrault. \u00c9 um tipo de s\u00e9samo, que permite penetrar no recinto da vov\u00f3, onde acontecer\u00e3o eventos dram\u00e1ticos. O efeito da repeti\u00e7\u00e3o d\u00e1 um car\u00e1ter encantado \u00e0 f\u00f3rmula de Perrault.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Daniel Roy\u00a0[1] Vou falar a voc\u00eas sobre o conto de Perrault, Chapeuzinho Vermelho. \u00c9 um de seus contos mais curtos, conhe\u00e7o-o h\u00e1 muito tempo, como muitos de voc\u00eas. Mas fui levado a escut\u00e1-lo de maneira diferente quando estudava psiquiatria no primeiro Hospital-dia para crian\u00e7as que abriu em Bordeaux. 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