{"id":735,"date":"2016-07-28T21:42:55","date_gmt":"2016-07-28T21:42:55","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpsp.org.br\/institucional\/?p=735"},"modified":"2016-07-28T21:42:55","modified_gmt":"2016-07-28T21:42:55","slug":"a-menina-da-meia-um-precioso-conto-bulgaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-menina-da-meia-um-precioso-conto-bulgaro\/","title":{"rendered":"A \u201cmenina da meia\u201d, um precioso conto b\u00falgaro"},"content":{"rendered":"<p>Na atividade inaugural da EBP-SP de 2016, Carlos Augusto Nic\u00e9as, em impec\u00e1vel confer\u00eancia, referiu-se em determinado momento ao acontecimento de corpo, dizendo: \u201cN\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. \u00c9 um dizer do analista que faz ressoar algo no corpo do analisante\u201d. Tamb\u00e9m se referiu ao acontecimento do passe como \u201cO dizer de um s\u00f3\u201d, enfatizando ser dos testemunhos dos AE que se espera um ensino sobre o mist\u00e9rio da jun\u00e7\u00e3o entre palavra e corpo.<\/p>\n<p>Dos coment\u00e1rios da plateia, destaco o de Maria do Carmo Dias Batista, por ter colocado uma quest\u00e3o sobre a disjun\u00e7\u00e3o entre sujeito e falasser em rela\u00e7\u00e3o ao acontecimento do corpo, que me fez lembrar da confer\u00eancia de Daniel Roy \u201cUma hist\u00f3ria de encontros\u201d, pronunciada na ELP,que mostra que a cl\u00ednica com crian\u00e7as tamb\u00e9m pode-nos ensinar sobre essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Na mencionada confer\u00eancia, apresentam-se v\u00e1rios casos de crian\u00e7as acolhidas em institui\u00e7\u00f5es na Bulg\u00e1ria no \u201cCrian\u00e7as sem pais\u201d, um dispositivo para uma cl\u00ednica do desamparo.<\/p>\n<p>Dentre eles, destaco um fragmento do caso de uma menina de tr\u00eas anos e meio que apresenta quadro de hospitalismo grave. N\u00e3o consegue dormir, nem de boca para cima, nem de boca para baixo. Fica de joelhos. Emite gritos irregulares. Reage quando \u00e9 mudada de lugar, ficando inerte e colada ao piso. N\u00e3o quer comer com colher. D\u00e1 as costas a todo mundo, sem prefer\u00eancia por nenhum adulto ou crian\u00e7a. Seu estranho <em>partenaire<\/em> \u00e9 o piso.<\/p>\n<p>A educadora Erma a encontra nesse momento. Surge uma primeira nomea\u00e7\u00e3o: a menina do olhar de a\u00e7o. A educadora entende algo formid\u00e1vel: ao redor da menina do olhar de a\u00e7o h\u00e1 um per\u00edmetro de um metro e \u00e9 preciso se situar na nessa fronteira para falar com ela. \u00c9 nessa fronteira que a educadora se coloca para apresentar-lhe a comida e os novos objetos. Desta forma, aos poucos a menina aceita o que a educadora lhe prop\u00f5e no piso e come\u00e7a a adotar um ritmo com os acontecimentos ao redor desse per\u00edmetro.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, a menina inventa um jogo particular: pega uma meia, faz cair e antes de que caia ao ch\u00e3o, agarra-a. A partir disso, uma nova nomea\u00e7\u00e3o: a menina da meia. A educadora come\u00e7a a introduzir outros objetos entre a menina e a meia, e \u00e9 ela, a educadora, quem pega a meia no jogo, antes que caia ao ch\u00e3o. Assim, a menina aceita que a educadora entre em seu c\u00edrculo no momento do deixar cair.<\/p>\n<p>A meia era a menina. O relato da educadora lembra que tempos atr\u00e1s ela havia ca\u00eddo e quebrado um bra\u00e7o, o que fez com que todos prestassem mais aten\u00e7\u00e3o nela. A educadora introduz um pequeno espelho e o balan\u00e7a, de forma que a imagem da menina apare\u00e7a e desapare\u00e7a. A menina come\u00e7a a vocalizar e suspirar. Ela se faz aparecer e desaparecer com j\u00fabilo, e finalmente apresenta a meia diante do espelho.<\/p>\n<p>Este fragmento ensina, a meu ver, algo do que podemos considerar um acontecimento do corpo do falasser, quando ainda n\u00e3o adveio um sujeito. Algo do dizer da educadora ressoa no corpo da menina e a faz vocalizar, suspirar e sorrir diante da pr\u00f3pria imagem pela primeira vez. Entendo que nos ensina algo do mist\u00e9rio da jun\u00e7\u00e3o entre lal\u00edngua e corpo.<\/p>\n<p>Assim como em um testemunho de AE h\u00e1 \u201cO dizer de um s\u00f3\u201d, n\u00e3o sem outros, podemos acrescentar que no caso dessas crian\u00e7as h\u00e1, como ensina Daniel Roy, crian\u00e7as sem pai, mas n\u00e3o sem outros. \u00c9 esse la\u00e7o com um Outro que permite \u00e0 crian\u00e7a separar-se do seu ser de objeto para que possa advir um sujeito da palavra.<\/p>\n<p>\u00c9 um exemplo preciso e precioso do que podemos considerar \u201cbem dizer o falasser\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><em>Blanca Musachi <\/em>\u2013 comiss\u00e3o de biblioteca<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na atividade inaugural da EBP-SP de 2016, Carlos Augusto Nic\u00e9as, em impec\u00e1vel confer\u00eancia, referiu-se em determinado momento ao acontecimento de corpo, dizendo: \u201cN\u00e3o \u00e9 qualquer coisa. \u00c9 um dizer do analista que faz ressoar algo no corpo do analisante\u201d. 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