{"id":7319,"date":"2023-08-15T06:34:18","date_gmt":"2023-08-15T09:34:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7319"},"modified":"2023-08-15T06:34:18","modified_gmt":"2023-08-15T09:34:18","slug":"dedicatoria-falha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/dedicatoria-falha\/","title":{"rendered":"Dedicat\u00f3ria falha"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7320\" aria-describedby=\"caption-attachment-7320\" style=\"width: 567px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7320\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_001-1.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"451\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_001-1.jpg 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_001-1-300x239.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7320\" class=\"wp-caption-text\">Room in New York (1932), Hooper<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Dedicat\u00f3ria falha<\/strong><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/p>\n<h6><em>Dalila Arpin<br \/>\n<\/em><em>AME da ECF\/AMP<\/em><\/h6>\n<p>Do ponto de vista do inconsciente, o ato falho \u00e9 um ato bem-sucedido. No meu caso, foi uma dedicat\u00f3ria, e o ato falho n\u00e3o foi o meu.<\/p>\n<p>Durante um encontro do PIPOL<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, meu analista autografa e escreve dedicat\u00f3rias. Eu me aproximo dele para lhe pedir uma. Ele me diz que n\u00e3o dormiu bem. Estou perplexa! Ele diz isso logo a mim, que sou insone? Com a dedicat\u00f3ria feita, saio com meu exemplar.<\/p>\n<p>Ao chegar no hotel, eu \u201cleio\u201d a dedicat\u00f3ria a uma amiga que compartilha o quarto comigo: \u201c\u00e0 Dalila Arpin, que sabe se orientar de sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d . Mas, chegando em Paris, eu a mostro a meu marido, que a l\u00ea de verdade e me diz: \u201cele n\u00e3o colocou seu primeiro nome\u201d. Eu olho e, para minha grande surpresa, descubro que ele escreveu o nome de uma das minhas amigas. Essa amizade era o paradigma de um antigo sintoma: ter uma \u201cmelhor amiga\u201d, com quem eu tinha uma rela\u00e7\u00e3o fusional, seguindo o modelo da minha m\u00e3e e da irm\u00e3 dela. Essa amiga tinha tra\u00e7os da minha tia, como os olhos claros. A similitude do meu nome com o nome da amiga da dedicat\u00f3ria fazia com que os colegas do Campo Freudiano nos assimilassem. No in\u00edcio da minha an\u00e1lise, eu ficava furiosa, porque muitas vezes essa confus\u00e3o era em meu detrimento. Mas desta vez, desato a rir. Nessas ocasi\u00f5es, como as assinala Freud em \u201cO chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d, a transforma\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o (traum\u00e1tica) em <em>witz <\/em>j\u00e1 \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o do inconsciente.<\/p>\n<p>Saindo da sess\u00e3o em que evoco esse acontecimento, passo na frente da loja \u201cThe Kooples\u201d. Pela primeira vez, percebo o equ\u00edvoco que esse nome esconde. O significante est\u00e1 a\u00ed, pois n\u00e3o s\u00f3 estou preparando um volume sobre os\u00a0\u201cCasais celebres\u201d<em>, <\/em>mas tamb\u00e9m o casal, ou mesmo as amizades, acabaram sendo as solu\u00e7\u00f5es que encontrei para a solid\u00e3o que me assombrava quando crian\u00e7a<em>. <\/em>Nesse momento, uma ideia atravessa minha mente: \u201catr\u00e1s do grande Outro, se esconde um pequeno outro\u201d. Mas, por onde se produziu essa associa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Na dedicat\u00f3ria, o analista aparece como sujeito barrado: ele n\u00e3o dormiu bem, ele cometeu um <em>lapsus calami<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> no nome de sua analisante&#8230; Desde ent\u00e3o, pela via da transfer\u00eancia, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o ao Outro que \u00e9 tocada. E meu riso testemunha a dist\u00e2ncia tomada em rela\u00e7\u00e3o ao Outro, como resultado de uma an\u00e1lise. No encontro com o Outro, n\u00e3o h\u00e1 Outro, mas rela\u00e7\u00e3o de sujeito a sujeito: \u201cEsse reconhecimento [dos signos da rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao inconsciente] n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a maneira pela qual a rela\u00e7\u00e3o dita sexual \u2013 tornada a\u00ed rela\u00e7\u00e3o de sujeito a sujeito, sujeito em que ele \u00e9 apenas efeito de um saber inconsciente \u2013 para de n\u00e3o se inscrever\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.\u00a0 A rela\u00e7\u00e3o com o parceiro ocupou um lugar importante na minha an\u00e1lise. Sempre tive dificuldades em terminar com meus parceiros. E isso tocava a separa\u00e7\u00e3o, presa na rede da fantasia do abandono. Se eu me sentia obrigada a ficar com meus parceiros, eu tamb\u00e9m os colocava no lugar de grandes Outros, aos quais eu me submetia, os obedecia, como \u00e1libis da express\u00e3o do meu desejo. A insatisfa\u00e7\u00e3o que mantinha, deixava-me melanc\u00f3lica. Ent\u00e3o, para mim, o parceiro era um Outro n\u00e3o barrado. Desde ent\u00e3o, pelo vi\u00e9s dessa\u00a0\u201cdedicat\u00f3ria falha\u201d, se abre para mim a possibilidade de ter uma rela\u00e7\u00e3o diferente com meu parceiro: Lacan precisa que no encontro \u201cn\u00e3o h\u00e1 outra coisa sen\u00e3o o encontro, o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo que em cada um marca o tra\u00e7o do seu ex\u00edlio, n\u00e3o como sujeito, mas como falante, do seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Dois anos depois, dois sonhos marcam a queda da transfer\u00eancia e eu termino minha an\u00e1lise.<\/p>\n<p>No primeiro, sonho que vou para a supervis\u00e3o. O supervisor recebe na sala dos meus pais. Distraio-me com uma professora que <em>passa<\/em> com crian\u00e7as da <em>escola<\/em><em>. <\/em>Enquanto tento retomar o caso que expunha, encontro-me diante de uma porta. Quando a abro, o supervisor havia sido engolido com sua poltrona. No segundo, vou a uma sess\u00e3o e me divirto com os outros analisantes que esperam. Quando parto, percebo que n\u00e3o vi nem escutei o analista.<\/p>\n<p>No meu caso, o <em>witz <\/em>que inicia a queda do Sujeito Suposto Saber antecipa a solu\u00e7\u00e3o que encontrei para o meu sintoma na minha cura: o humor para tratar a melancolia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c9lida Biasoli<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto originalmente publicado na Revista <em>Mental<\/em>, n.36, \u201cL\u2019inconscient, intime et politique\u201d, nov. 2017. Agradecemos a autora que amavelmente autorizou a tradu\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Congresso Europeu de Psican\u00e1lise.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Express\u00e3o latina usada para justificar um erro que se cometeu ao escrever. (Nota da tradutora)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J., <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2008, p.155.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 156.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dedicat\u00f3ria falha[1] Dalila Arpin AME da ECF\/AMP Do ponto de vista do inconsciente, o ato falho \u00e9 um ato bem-sucedido. No meu caso, foi uma dedicat\u00f3ria, e o ato falho n\u00e3o foi o meu. Durante um encontro do PIPOL[2], meu analista autografa e escreve dedicat\u00f3rias. Eu me aproximo dele para lhe pedir uma. 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