{"id":7316,"date":"2023-08-15T06:32:59","date_gmt":"2023-08-15T09:32:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7316"},"modified":"2023-10-09T06:28:15","modified_gmt":"2023-10-09T09:28:15","slug":"o-instante-fugaz-de-um-witz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-instante-fugaz-de-um-witz\/","title":{"rendered":"O instante fugaz de um Witz"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_9248\" aria-describedby=\"caption-attachment-9248\" style=\"width: 315px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-9248\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Imagem1-2.jpg\" alt=\"\" width=\"315\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Imagem1-2.jpg 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Imagem1-2-236x300.jpg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 315px) 100vw, 315px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-9248\" class=\"wp-caption-text\">Mem\u00f3ria 2 (2000), Yue Minjun<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O instante fugaz de um <em>Witz<\/em><\/strong><\/p>\n<h6><em>Andr\u00e9a Eul\u00e1lio de Paula Ferreira<br \/>\n<\/em><em>Membro da EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<p>Em <em>O<\/em> <em>semin\u00e1rio<\/em>, <em>livro 24<\/em>,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> <em>L\u2019insu-que-sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre<\/em>, Jacques Lacan prop\u00f5e uma nova leitura do <em>Witz<\/em> articulando-o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica: \u201cSe voc\u00eas s\u00e3o psicanalistas, ver\u00e3o que o for\u00e7amento \u00e9 por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa que o sentido. (&#8230;) O sentido tampona. (&#8230;) \u00c9 de uma outra resson\u00e2ncia que se trata, a ser fundada sobre o chiste. (&#8230;) Ele n\u00e3o se sustenta sen\u00e3o de um equ\u00edvoco, ou como diz Freud, de uma economia\u201d.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica com crian\u00e7as, somos surpreendidos com a dimens\u00e3o do gozo e do sem sentido com que as palavras recaem sobre elas. \u00c9 o encontro contingente com o analista que torna o inconsciente operat\u00f3rio \u2013 em seu efeito de separa\u00e7\u00e3o das palavras impostas a elas como forma de tratamento do real que lhes pressiona<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Bia, 8 anos, encontra-se, nas primeiras sess\u00f5es, numa esp\u00e9cie de profus\u00e3o pulsional. Agita-se, fala ininterruptamente \u2013 sem significar algo com seu dizer \u2013, apresenta acessos constantes de raiva, al\u00e9m de um comportamento desafiador de quem n\u00e3o tolera limites e faz somente o que lhe d\u00e1 prazer. \u201cHiperatividade\u201d \u00e9 como a m\u00e3e nomeia o que acontece com o corpo agitado de sua filha.<\/p>\n<p>Durante uma brincadeira, Bia p\u00f5e-se a falar, comicamente, com o sotaque nordestino do pai, ao qual sempre se refere com ironia e insol\u00eancia. Passo a conversar com ela com o mesmo sotaque. Bia ri muito. Em seguida, Bia passa a conversar em ingl\u00eas, dada a desenvoltura que ela tem com essa l\u00edngua. Ao encerrar a sess\u00e3o, digo-lhe \u201c<em>see you later<\/em>\u201d, e Bia indaga com vis\u00edvel excita\u00e7\u00e3o: \u201cvoc\u00ea est\u00e1 no cio?\u201d. Devolvo-lhe a pergunta ao mesmo tempo que a encaminho \u00e0 porta. Quando ela faz men\u00e7\u00e3o de voltar, empurro-a com firmeza para fora da sala.<\/p>\n<p>Na sess\u00e3o seguinte, Bia chega surpreendentemente tranquila, e uma s\u00e9rie de perguntas passam a se articular. Ao se referir a uma figura e dizer \u201colha, \u00e9 um <em>gay<\/em>\u201d, ela esclarece que \u201cum <em>gay<\/em> \u00e9 um homem que gosta de outro homem\u201d, e da\u00ed por diante.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o da analista, contida no gesto de conten\u00e7\u00e3o do corpo de Bia, possibilitou que a fala de Bia deixasse de ser pura vocifera\u00e7\u00e3o dirigida ao pai que, at\u00e9 ent\u00e3o, a privava de dar qualquer significa\u00e7\u00e3o sobre o sexual.\u00a0 Diante do imposs\u00edvel de dizer, a frase \u201cvoc\u00ea est\u00e1 no cio\u201d, enquanto letra que promove a articula\u00e7\u00e3o de um S1 \u00e0 presen\u00e7a viva do gozo permite que esse sujeito produza sentidos discursivos sobre o enigma da sexualidade que, antes, agitava-lhe o corpo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Estar\u00edamos aqui diante de um <em>Witz <\/em>fundado no sem sentido, por meio da intrus\u00e3o de lalangue? \u00a0Para Jacques-Alain Miller h\u00e1 uma modalidade na qual o chiste e o c\u00f4mico est\u00e3o misturados. Se trata de uma express\u00e3o codificada em uma l\u00edngua e, utilizando as asson\u00e2ncias, opera-se uma transfer\u00eancia de uma l\u00edngua a outra sem passar pelas dimens\u00f5es sem\u00e2nticas, mas pela asson\u00e2ncia<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Em seguida, apresento um fragmento em que o tema do (des)encontro amoroso p\u00f4de ser tratado em sua dimens\u00e3o c\u00f4mica a partir de uma situa\u00e7\u00e3o corriqueira na vida dos parceiros; especialmente em momentos nos quais algo \u201cn\u00e3o anda\u201d ou algo sempre escapa.<\/p>\n<p>Ela deita-se no div\u00e3 e, mais uma vez, lamenta-se do descompasso temporal entre ela e o parceiro. Ela sempre atrasada, ele sempre adiantado. Discorre sobre uma s\u00e9rie de acontecimentos nos quais a dimens\u00e3o antag\u00f4nica existente entre a espera e o encontro remete \u00e0 maneira como a er\u00f3tica do tempo afeta seu corpo.<\/p>\n<p>Chorosa diante de tantos desencontros, recorda a cena em que os dois est\u00e3o saindo de uma montanha-russa e ela, ainda ofegante, at\u00f4nita e recuperando-se do \u201cstress emocional\u201d, v\u00ea o parceiro correr descomedidamente em dire\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo brinquedo e agarrar, por engano, a m\u00e3o de outra mulher. Nesse momento, ela irrompe numa sonora gargalhada, e interrompo a sess\u00e3o.<\/p>\n<p>O que esperar dos efeitos dessa gargalhada na sess\u00e3o anal\u00edtica?<\/p>\n<p>Na fugacidade dessa cena, ao ser surpreendida pelo encontro contingente com um elemento novo, algo cai para essa mulher enquanto objeto de desejo do homem. Poder\u00edamos dizer que a gargalhada revela o que estava h\u00e1 muito encoberto? Ou seja, o homem que agarra a m\u00e3o de \u201cqualquer uma\u201d desnuda para essa mulher, para al\u00e9m do embara\u00e7o da cena, o lugar que ela ocupa na parceria amorosa \u2013 o de \u201cqualquer uma\u201d?<\/p>\n<p>A gargalhada, nesse caso, vem no lugar de uma interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se pode evitar de pensar o que Freud disse a respeito da interpreta\u00e7\u00e3o: que ela deve ser como salto de le\u00e3o. Ele s\u00f3 salta uma vez\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>\u00a0 Segundo Esthela Solano<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, cabe ao analista, ao escutar sonoridade dos ditos do analisante e a percuss\u00e3o de um equ\u00edvoco, que ele possa intervir no espa\u00e7o de um instante, e que n\u00e3o seja nem muito cedo nem muito tarde.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o da gargalhada \u2013 acolhida de modo vivo \u2013 permite que algo se desloque e opere de um outro modo, relan\u00e7ando essa mulher a um outro tempo, uma Outra cena, e, quem sabe, dar um novo rumo na vida amorosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>\u00a0<\/em><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN. J. Rumo ao significante novo \u2013 A varidade do sintoma. <em>In<\/em>:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>\u00a022 (agosto de 1998).\u00a0 Aula 19 de abril de 1977.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> REGO BARROS, M.R.C. Lo que el inconsciente ense\u00f1a a un ni\u00f1o. <em>In:<\/em> <em>Notas de ni\u00f1os. Revista del \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Departamento de Investigaci\u00f3n de Psicoan\u00e1lisis con Ni\u00f1os<\/em> CIEC-NRC, a\u00f1o 3, n. 3, C\u00f3rdoba, septiembre, 2018, p.25-26.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>Coment\u00e1rios feitos por Ant\u00f4nio Teixeira (mais-um) a partir das discuss\u00f5es do cartel para as Atividades Preparat\u00f3rias da Jornada \u201cAcontecimento de corpo: da conting\u00eancia \u00e0 escrita. ttps:\/\/www.jornadaebpmg.com.br\/2021\/a-interpretacao-nos-tempos-do-falasser\/<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J-A<em>. La fuga del sentido<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012, p. 379.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J-A. <em>La fuga del sentido<\/em>. Buenos Aires, Paid\u00f3s, 2012, p. 374.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> SUAREZ E.S. <em>Le moment de l\u2019 \u00ednterpr\u00e9tation<\/em>. https:\/\/journees.causefreudienne.org\/le-moment-de-linterpretation\/?print=pdf<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O instante fugaz de um Witz Andr\u00e9a Eul\u00e1lio de Paula Ferreira Membro da EBP\/AMP Em O semin\u00e1rio, livro 24,[1] L\u2019insu-que-sait de l\u2019une-b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre, Jacques Lacan prop\u00f5e uma nova leitura do Witz articulando-o \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica: \u201cSe voc\u00eas s\u00e3o psicanalistas, ver\u00e3o que o for\u00e7amento \u00e9 por onde um psicanalista pode fazer soar outra coisa&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-7316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-gaio","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7316"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9249,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7316\/revisions\/9249"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7316"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=7316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}