{"id":7312,"date":"2023-08-15T06:31:09","date_gmt":"2023-08-15T09:31:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7312"},"modified":"2023-08-15T06:31:09","modified_gmt":"2023-08-15T09:31:09","slug":"o-riso-efeito-de-afeto-no-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-riso-efeito-de-afeto-no-corpo\/","title":{"rendered":"O riso, efeito de afeto no corpo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7313\" aria-describedby=\"caption-attachment-7313\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7313\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"381\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_003-1.jpg 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/gaio004_003-1-236x300.jpg 236w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7313\" class=\"wp-caption-text\">Masks, James Ensor<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O riso, efeito de afeto no corpo<\/strong><\/p>\n<h6><em>Silvia Jacobo<br \/>\nCorrespondente da EBP<br \/>\n<\/em><em>Colaboradora do Clin-a<\/em><\/h6>\n<p><em>\u201c&#8230; o efeito do inconsciente tem nos demonstrado at\u00e9 os confins de sua preciosidade, que o rosto que nos revela \u00e9 o mesmo do esp\u00edrito na ambiguidade que confere \u00e0 linguagem, onde a outra cara de seu poder r\u00e9gio \u00e9 a \u201cagudeza\u201d pela qual sua ordem inteira se deslumbra em um instante &#8211; agudeza em efeito onde sua atividade criadora desvela sua gratuidade absoluta, onde sua supremacia sobre o real se expressa no desafio do sem sentido, onde o humor, na gra\u00e7a malvada do esp\u00edrito livre, simboliza uma verdade que n\u00e3o disse sua \u00faltima palavra\u201d <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<p>Em \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d Lacan j\u00e1 destacava a resson\u00e2ncia sem\u00e2ntica das palavras e seus efeitos de evoca\u00e7\u00e3o, de fazer escutar aquilo que n\u00e3o se diz em seus efeitos po\u00e9ticos anunciando, j\u00e1 no in\u00edcio de seu ensino, o que ser\u00e1 o modo de dizer pr\u00f3prio da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A agudeza deslumbra em um instante a ordem inteira da linguagem, revela e indica em sua fugacidade, no desafio do sem sentido, que n\u00e3o h\u00e1 \u00faltima palavra, vale dizer que indica a inconsist\u00eancia do Outro. O <em>Witz<\/em> subverte o sentido, faz vacilar os semblantes, o Outro sanciona um pouco de sentido, se surpreende e ri e, nessa mesma opera\u00e7\u00e3o, o barra. O chiste se serve do humor e do sem sentido e faz passar algo novo no dizer perto de um real que se pretende desconhecer. \u201c\u00c9 um instrumento do qual se serve a l\u00edngua para enodar algo que n\u00e3o se pode dizer\u201d <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, algo inquietante na gra\u00e7a malvada, a satisfa\u00e7\u00e3o de um gozo indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>A agudeza irrompe como um clar\u00e3o que ilumina uma verdade n\u00e3o dita e faz tremer o senso comum para indicar \u201csempre ao lado\u201d uma verdade. Assim, verdade subjetiva, cria\u00e7\u00e3o e inconsciente se enla\u00e7am na agudeza fazendo emergir o novo.<\/p>\n<p>A atividade criadora que Lacan destaca no trecho citado, articula o chiste \u00e0 \u201cest\u00e9tica da linguagem\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> que estaria na ordem de um saber fazer ali, um bem dizer, um ler de outro modo que a opera\u00e7\u00e3o mesma do chiste demonstra.<\/p>\n<p>A surpresa \u00e9 consubstancial ao desejo e abre a enuncia\u00e7\u00e3o e ao riso \u201csombra feliz, o reflexo da antiga satisfa\u00e7\u00e3o\u201d <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Se reproduz um prazer antigo e ao mesmo tempo d\u00e1 acesso a um saber novo. O sentido se reduz, e a sombra feliz, o riso, recai sobre ele, a fuga de sentido se det\u00e9m por um instante.<\/p>\n<p>\u201cUm minuto antes, digamos, n\u00e3o sabemos ainda o chiste que faremos, e que s\u00f3 precisar\u00e1 ser dotado de palavras. Pressentimos antes algo indefin\u00edvel, que eu compararia com uma aus\u00eancia, um s\u00fabito abandono da tens\u00e3o intelectual \u2013 e o chiste surge ent\u00e3o de um golpe s\u00f3, em geral ao mesmo tempo que sua roupagem\u201d <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1, no in\u00edcio, uma aus\u00eancia, um espa\u00e7o de um lapso e, de um golpe s\u00f3, o inesperado, a surpresa o que desperta.<\/p>\n<p>\u201cO pensamento que mergulha no inconsciente com vistas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do chiste est\u00e1 apenas procurando pelo velho lar de seu jogo primitivo com as palavras\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Miller destaca que o que Freud chama de \u201cvelho prazer\u201d \u00e9 \u201co prazer que est\u00e1 ao n\u00edvel da simples asson\u00e2ncia, do simples significante, ou do sem sentido, pr\u00f3ximo \u00e0quele da inf\u00e2ncia, quando se prescinde do sentido\u201d <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> e acrescenta que \u201c(&#8230;) o prazer puro do jogo dos significantes \u00e9 o que d\u00e1 acesso ao prazer da puls\u00e3o. Mas em outro sentido, o chiste d\u00e1 sentido para fazer passar o sem sentido do antigo prazer&#8221;<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>Ao justificar que o chiste afunda suas ra\u00edzes no inconsciente, demonstra que n\u00e3o \u00e9 a compreens\u00e3o ou o sentido o que nos faz rir, mas a puls\u00e3o. \u201cAquilo que est\u00e1 presente na explos\u00e3o de riso \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. A puls\u00e3o freudiana se expressa em palavras mantendo em seu centro o n\u00facleo de gozo do sem sentido.<\/p>\n<p>Lacan refere que nos reconhecemos na ocorr\u00eancia do chiste porque ela procede da <em>lalangue<\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><em>.<\/em> \u00a0O chiste surge de um <em>lapsus<\/em>, de um equ\u00edvoco inesperado, ro\u00e7a o real, em um instante, abre um espa\u00e7o que perturba a defesa e produz efeito na distribui\u00e7\u00e3o do gozo. \u00a0O saber fazer do <em>Witz<\/em> se funda ent\u00e3o no equ\u00edvoco pelo que opera <em>lalangue,<\/em> \u201c\u00e9 um curto-circuito, uma economia a respeito do prazer, de uma satisfa\u00e7\u00e3o\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. O riso sanciona o ponto em que o curto-circuito passa e faz furo no sentido, um dizer que diz mais daquilo que se pode saber, mostra em um instante que o sentido \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 fora de sentido. Nesta perspectiva o riso irrompe como efeito de afeto no corpo.<\/p>\n<p>Esta vers\u00e3o renovada do chiste indica que j\u00e1 n\u00e3o se trata do retorno de um saber n\u00e3o sabido, mas de uma equivoca\u00e7\u00e3o que se sustenta do tecido mesmo do inconsciente, ilumina a materialidade do significante e toca o corpo. Nesse sentido o enunciado interpretativo tem a estrutura do <em>Witz<\/em> que l\u00ea de outro modo \u00e0 economia de gozo em jogo no dizer do falasser, l\u00ea o que se ouve do significante, o que ressoa visando o gozo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos nada a dizer sobre o belo. \u00c9 de outra resson\u00e2ncia que se trata, a ser fundada sobre o chiste. Um chiste n\u00e3o \u00e9 belo. Ele se ocupa de um equ\u00edvoco\u201d <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. O equ\u00edvoco curto-circuita o sentido, sua resson\u00e2ncia se liga a uma po\u00e9tica que faz furo, vazio. Ressoa, n\u00e3o por sua beleza, mas porque toca o gozo. Se o efeito da interpreta\u00e7\u00e3o provoca o riso \u00e9 porque, \u00e0s vezes, acerta o alvo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. \u201cFun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise\u201d. <em>In: Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.271.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> STIGLITZ, G. <em>Witz<\/em>, o peor. <em>In:<\/em> <em>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis.<\/em> Ano XVl, n\u00b0 29, 2021, p.106.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid, <\/em>p.278<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p.101<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> FREUD, S. O chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente. <em>In: Obras Completas<\/em>, Volume 7, Companhia das Letras, 2017, p. 239.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> <em>Ibid, <\/em>p.242.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, J.A. <em>La fuga del sentido. <\/em>Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2012, p. 323. (tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Ibid.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibid, <\/em>p.336.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> LACAN, J. L\u00b4insu que sait de l\u00b4une-beuve s\u00b4aile \u00e0 mourre, <em>In: Revista Lacaniana<\/em>, ano XVl, n\u00b0 29, p.9<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: O Sinthoma<\/em>. Rio de janeiro: Zahar, p.94. (tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. Rumo a um significante novo. <em>In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, <\/em>S\u00e3o Paulo: \u00c9olia, n\u00b0 22, 1998, p.11.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O riso, efeito de afeto no corpo Silvia Jacobo Correspondente da EBP Colaboradora do Clin-a \u201c&#8230; o efeito do inconsciente tem nos demonstrado at\u00e9 os confins de sua preciosidade, que o rosto que nos revela \u00e9 o mesmo do esp\u00edrito na ambiguidade que confere \u00e0 linguagem, onde a outra cara de seu poder r\u00e9gio \u00e9&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-7312","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-gaio","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7312","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7312"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7312\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7312"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7312"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7312"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=7312"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}