{"id":7203,"date":"2023-06-19T19:14:52","date_gmt":"2023-06-19T22:14:52","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7203"},"modified":"2023-06-19T19:14:52","modified_gmt":"2023-06-19T22:14:52","slug":"a-dimensao-singular-do-riso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-dimensao-singular-do-riso\/","title":{"rendered":"A dimens\u00e3o singular do riso"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7265\" aria-describedby=\"caption-attachment-7265\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7265\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-22-at-14.50.26-2.jpeg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-22-at-14.50.26-2.jpeg 768w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/WhatsApp-Image-2023-06-22-at-14.50.26-2-225x300.jpeg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7265\" class=\"wp-caption-text\">ROUGE \u2013 S\u00e9rie Meninas Argentinas (2007), Eduardo M\u00e9dici.<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Andrea V. Zelaya<br \/>\n<\/em><em>Membro da EOL\/AMP<\/em><\/h6>\n<p><strong>Uma perspectiva psicanal\u00edtica do riso<\/strong><\/p>\n<p>\u201c<em>Para Freud o chiste n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma piada que pretende gerar riso <\/em>[\u2026]\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> O valor cl\u00ednico do riso que o chiste produz \u00e9 sua dimens\u00e3o disruptiva e de impacto no corpo. Destaco seu vi\u00e9s vital, n\u00e3o somente pelo produzido na com\u00e9dia, mas tamb\u00e9m pelo eco que se produziria com o riso, na complac\u00eancia e resson\u00e2ncia no Outro, inclusive sua cumplicidade para que chegue a se efetuar.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma import\u00e2ncia na fun\u00e7\u00e3o social no riso e em sua utilidade. H\u00e1 uma afeta\u00e7\u00e3o de satisfa\u00e7\u00e3o que consegue atravessar, pela intensidade pulsional, os limites da repress\u00e3o; por esse motivo tem seu valor na experi\u00eancia de uma an\u00e1lise, seja pela irrup\u00e7\u00e3o contingente, seja por seu impacto na mat\u00e9ria do corpo. Em refer\u00eancia a esta \u00faltima vertente, Miller introduz que: \u201cO que indiretamente mostra como o orgasmo na mat\u00e9ria, quer dizer, o desencadeamento do riso &#8211; o momento de gozo \u00e9 o hil\u00e1rio &#8211; se deve n\u00e3o s\u00f3 ao prazer do <em>Witz<\/em>, mas tamb\u00e9m \u00e0 puls\u00e3o<em>\u201d<sup> <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/sup>. <\/em>O riso ultrapassa o sentido, o qual est\u00e1 articulado aos significantes, atravessa algo da repress\u00e3o tocando o pulsional, que ao liberar-se provoca um efeito que tamb\u00e9m incide no Outro. A partir desta vertente, at\u00e9 a puls\u00e3o, poder\u00edamos animarmo-nos a dizer &#8211; recordando o sintagma utilizado por Lacan no Semin\u00e1rio da \u00c9tica sobre a sublima\u00e7\u00e3o -, que a eleva \u00e0 dignidade do fator riso que toca o corpo, por ele passa e nesta deriva afeta ao Outro. \u201cO que faz rir \u00e9 a puls\u00e3o e sua satisfa\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a><em>, <\/em>gera surpresa que provoca um despertar do sujeito e do Outro, \u201c[\u2026]desperta-se sua aten\u00e7\u00e3o, e uma vez que o feixe de sua aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberto &#8211; representando isso como um raio laser &#8211; podemos provocar surpresa [\u2026]\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Estes pontos vivos que recorto s\u00e3o os que Miller introduz para pensar o efeito do riso, e nos orientam a enfatizar o valor cl\u00ednico do riso e refletir sobre as consequ\u00eancias subjetivas atuais.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>H\u00e1 risos e risos: suas diferen\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p>Na vida contempor\u00e2nea o valor libidinal e singular da palavra se encontra n\u00e3o somente em perigo de extin\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m, amea\u00e7ada pelo abarrotamento que produz o mercado da tecnoci\u00eancia ao mesmo tempo veloz, iminente e excessivo; \u00e9 um \u201c[\u2026] imediatamente [\u2026]\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> que produz um sujeito cada vez mais assujeitado ao consumo, pela produ\u00e7\u00e3o de uma\u00a0 multiplicidade de objetos a serem consumidos. O que se garante \u00e9 a certeza de que o sujeito termina por ser consumido; neste circuito o sujeito fica aplicado<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> ao discurso do mestre dos mercados comuns e universalizantes que impera.<\/p>\n<p>Graciela Brodsky coloca:<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) A utopia contempor\u00e2nea \u00e9 biopol\u00edtica (&#8230;) As novas utopias, das quais jornais e revistas ecoam e &#8211; que somente nos fazem rir, como \u00faltimo recurso para burlar ao supereu que se insinua sob o disparate -, se aplicam aos corpos. Elas v\u00e3o de m\u00e3os dadas com uma fic\u00e7\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 jur\u00eddica, mas sim cientificista, que busca na estrutura do c\u00e9rebro e na medida estat\u00edstica, um Real \u00faltimo que, na falta de Deus, sirva de fundamento e torne intelig\u00edvel e prediz\u00edvel ao homem\u00a0e\u00a0seus\u00a0atos.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O tema destas jornadas sobre \u201cla R.I.S.a\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a>, evoca um equ\u00edvoco na l\u00edngua n\u00e3o isento de certa ironia, uma vez que leio e escrevo R.I.S.-a. Ela \u00e9 agente e causa, produz um encontro contingente e surpresivo que pode enodar real, imagin\u00e1rio e simb\u00f3lico por um vazio central (o <em>objeto a<\/em>), a partir do qual se produz uma diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 importante estabelecer uma das diferen\u00e7as a respeito do riso, pois uma quest\u00e3o bem diferente no posicionamento do sujeito \u00e9 a que descreve Lacan sobre a dimens\u00e3o do chiste e o riso do capitalista, pois se refere \u00e0 descoberta que Marx realizou neste momento, com respeito \u00e0 ess\u00eancia da mais-valia, que assinala: \u201c[\u2026] \u00e0 conjun\u00e7\u00e3o do riso com a fun\u00e7\u00e3o radicalmente eludida da mais-valia, da qual j\u00e1 indiquei suficientemente a rela\u00e7\u00e3o com a elis\u00e3o caracter\u00edstica que \u00e9 constitutiva do objeto <em>a<\/em>\u201d.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup>[9]<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Ainda que esta fun\u00e7\u00e3o do riso no capitalista desvele a expropria\u00e7\u00e3o do mestre da <em>mais-valia<\/em> e a submiss\u00e3o do sujeito a ela enquanto elidido, ao mesmo tempo, esclarece a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o do riso com o objeto pulsional, aquele que nomeia a perda estrutural do sujeito, o <em>objeto a<\/em>, enquanto ele mesmo \u00e9 a pr\u00f3pria falta de objeto.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a do riso no capitalista \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o da <em>mais-valia<\/em> pelo Outro, que provoca no sujeito o sofrimento de uma perda, enquanto que o riso do lado do sujeito se d\u00e1 pela apropria\u00e7\u00e3o de seu pr\u00f3prio mais-de-gozar, faz algo diferente de sofrer pela aliena\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o riso \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o, \u00e9 um gozo que se sente e acontece em um corpo, singular. A experi\u00eancia anal\u00edtica como tratamento do gozo permite isolar o valor de seu real no sintoma. Possibilita, por meio da \u201c[\u2026] interpreta\u00e7\u00e3o em sua variante do Witz pulsional\u201d,<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> na qual esvaziaria um gozo solit\u00e1rio, triste e entediado do sujeito preso \u00e0s demandas das leis do mercado.<\/p>\n<p><strong>Um riso fora da repeti\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cO chiste deve surpreender, deve ser novo, n\u00e3o pode ser repetido\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup>[11]<\/sup><\/a>. A partir desta perspectiva, o ato que provoca um <em>Witz, <\/em>tal como ressalta Miller, \u00e9 o que Freud indica da interpreta\u00e7\u00e3o: \u201c[\u2026] ela deve ser como o pulo do le\u00e3o. S\u00f3 pula uma vez, e se depois a gazela partiu, j\u00e1 n\u00e3o pode repeti-lo\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup>[12]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>O analista mediante seu ato recorta e localiza o modo de gozo cuja satisfa\u00e7\u00e3o poderia transformar e constatar pelo riso, um acontecimento de corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1via Machado S. Leibovitz<\/em><\/h6>\n<h6><em>Revis\u00e3o: Eduardo Vallejos<\/em><\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> SILVA, R. F. Argumento das XII Jornadas da EBP \u2013 SP. <em>In: Boletim Gaio no.1, <\/em>2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> MILLER, J-A. <em>La fuga del sentido. Los cursos psicoanal\u00edticos de Jacques-Alain Miller.<\/em> Paid\u00f3s: Buenos Aires, 2012, p 371.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> <em>Ibid,<\/em> p. 370.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 405.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 406.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> NT: para al\u00e9m da assiduidade, implica no original, ser focado em raz\u00e3o de sua utilidade.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> BRODSKY, G. \u201cFelicidad\u201d <em>Variaciones del humor. Jacques-Alain Miller y otros<\/em>. ICdeBA. Buenos Aires. A\u00f1o 2015. p.203. N.T. Uma vers\u00e3o parecida deste texto est\u00e1 na Confer\u00eancia: as utop\u00edas contempor\u00e2neas. <em>In. Carta de S\u00e3o Paulo \u2013 Boletim da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise \u2013 S\u00e3o Paulo. <\/em>Edi\u00e7\u00e3o Especial, mar\u00e7o de 2009. p. 20.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> NT<sup>2<\/sup>: O tema das jornadas, na l\u00edngua original, \u00e9 um substantivo feminino: risa.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro<\/em>. Rio de janeiro: Zahar, 2008 p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup>[10]<\/sup><\/a> MILLER, J.-A. op. cit., p. 362.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup>[11]<\/sup><\/a> <em>Ibid., <\/em>p. 374.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup>[12]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>., p. 374.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andrea V. 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