{"id":7196,"date":"2023-06-19T19:11:37","date_gmt":"2023-06-19T22:11:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7196"},"modified":"2023-06-19T19:11:37","modified_gmt":"2023-06-19T22:11:37","slug":"o-comico-triste-em-rei-lear","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-comico-triste-em-rei-lear\/","title":{"rendered":"O c\u00f4mico triste em Rei Lear"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7268\" aria-describedby=\"caption-attachment-7268\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7268\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/El-circo-de-la-alegria-2008-Eduardo-Medici-2.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"414\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/El-circo-de-la-alegria-2008-Eduardo-Medici-2.png 880w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/El-circo-de-la-alegria-2008-Eduardo-Medici-2-300x249.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/El-circo-de-la-alegria-2008-Eduardo-Medici-2-768x636.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7268\" class=\"wp-caption-text\">El circo de la alegria (2008), Eduardo M\u00e9dici<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Mariana Galletti Ferretti<br \/>\n<\/em><em>Participante da Comiss\u00e3o do Boletim Gaio<\/em><\/h6>\n<p>Assim como o tema das pr\u00f3ximas Jornadas, o <em>R.I.S.o<\/em>,\u00a0 a figura do <em>Bobo da corte<\/em> tem muitas dimens\u00f5es. O Bobo ou o <em>fool<\/em> \u2013 termo utilizado por Shakespeare no texto original de\u00a0 <em>Rei Lear<\/em> e destacado por Lacan como um <em>significante mais preciso<\/em> que surge no teatro elisabetano<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> \u2013 pode provocar o riso tanto por carregar uma deforma\u00e7\u00e3o ou anormalidade que estigmatiza o corpo e o aproxima do rid\u00edculo quanto pode ser aquele que faz den\u00fancias debochadas e perspicazes, sendo escutado de maneira privilegiada. Se, por um lado, ele pode perturbar a imagem do ideal ca\u00e7oando de si mesmo, por outro, pode ser a via r\u00e9gia de uma dimens\u00e3o da verdade. Nas palavras de Lacan, \u201cO <em>fool<\/em> \u00e9 um inocente, um parvo, mas por sua boca saem verdades, que n\u00e3o apenas s\u00e3o toleradas, mas que encontram sua fun\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.\u00a0 Objeto dejeto e sujeito suposto saber\u00a0 \u2013 lugares conhecidos do analista sob transfer\u00eancia.<\/p>\n<p>Para ocupar estes lugares \u00e9 preciso existir fora e dentro: estar fora dos padr\u00f5es e da l\u00f3gica do poder dominante garante ao <em>fool<\/em> a possibilidade de se autorizar e ser autorizado a falar para uma audi\u00eancia que n\u00e3o se sente amea\u00e7ada por suas interpreta\u00e7\u00f5es; tais interpreta\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser elaboradas por um olhar atento de quem est\u00e1, em certa medida, inserido num determinado contexto.<\/p>\n<p>Vejam como em poucas linhas foi poss\u00edvel apontar para diversas possibilidades de articula\u00e7\u00f5es. O tema \u00e9 vasto e \u00e9 preciso escolher uma via para trabalhar. Neste sentido, me pareceu importante retornar a Shakespeare, j\u00e1 que Lacan, ao se referir ao <em>fool<\/em> no <em>Semin\u00e1rio 7<\/em>, fez men\u00e7\u00e3o direta ao teatro elisabetano, do qual o bardo era o expoente.<\/p>\n<p>Shakespeare popularizou um tipo de teatro que envolvia de forma relevante a subjetividade dos personagens no enredo das pe\u00e7as. A vivacidade das tramas repousa na representa\u00e7\u00e3o eloquente das contradi\u00e7\u00f5es humanas. Por isso, pode ser insuficiente tomar a figura do <em>fool<\/em> somente pelo vi\u00e9s do humor, mesmo que ele esteja l\u00e1, inegavelmente. A riqueza desta figura hist\u00f3rica \u00e9 uma oportunidade para investigarmos o riso na psican\u00e1lise em sua complexidade.<\/p>\n<p>Ler as passagens nas quais aparecem as falas do <em>fool<\/em> em <em>Rei Lear <\/em>pode ser perturbador. Por mais que algumas sejam muito engra\u00e7adas<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, o deboche e a escolha certeira nas palavras fortes e dif\u00edceis de serem escutadas podem ganhar o destaque. A ang\u00fastia pode surgir para o espectador que localiza algo da ordem da proximidade do <em>objeto a<\/em> nas coloca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas passagens nas quais se pode localizar algo desta dimens\u00e3o e ambas se d\u00e3o logo na primeira cena em que o <em>fool<\/em> aparece (Ato I, Cena 3), introduzindo a relev\u00e2ncia do personagem. Uma delas \u00e9 uma pergunta ir\u00f4nica e contundente ao Rei: \u201co senhor n\u00e3o sabe fazer nada com o nada, tiozinho?\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. A outra \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de igual alcance: \u201cpelo menos sou um bobo (fool), tu n\u00e3o \u00e9s coisa nenhuma\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>. Nota-se que as duas falas apontam para o nada.<\/p>\n<p>O <em>objeto a<\/em> se destaca dos outros por designar uma falta que n\u00e3o pode ser reduzida ao significante, indicando um vazio, um nada, algo que pode ser entendido como \u201ca falta de apoio dada pela falta\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> . Dito de outro modo, a ang\u00fastia \u00e9 um alerta de que o sujeito est\u00e1 pr\u00f3ximo do real e o perigo disto \u00e9 a falta da falta que pode levar ao aniquilamento do desejo, ao nada, ao inanimado que nos sugere que toda a puls\u00e3o \u00e9 morte.<\/p>\n<p>Talvez tenha sido disto que Lear se deu conta: a proximidade da morte. N\u00e3o tanto por sensibilidade ou perspic\u00e1cia, mas por not\u00e1veis e ineg\u00e1veis efeitos da idade avan\u00e7ada.\u00a0 As medidas tomadas para manter sua virilidade foram in\u00fameras e, como num del\u00edrio narc\u00edsico, ele se autorizou a cobrar das tr\u00eas filhas demonstra\u00e7\u00f5es fidedignas de amor incondicinal. Foi Cord\u00e9lia, a filha deserdada por se negar a agir de acordo com a arrog\u00e2ncia autorit\u00e1ria do pai, que denunciou sua fragilidade ao sustentar que o tipo de amor que ele pretendia reconhecer nas belas palavras das filhas n\u00e3o existia. Ela foi, ent\u00e3o, banida da vida e do cora\u00e7\u00e3o do pai, que encontrou o que supunha procurar nas palavras das outras duas filhas. Assim, o reino seria dividido somente entre as herdeiras que deram as respostas adequadas aos ouvidos narc\u00edsicos do Rei.<\/p>\n<p>Entretanto, Lear se recusava a abrir m\u00e3o da majestade justamente por acreditar piamente na consist\u00eancia de sua soberania. Dito de outro modo, acreditava na consist\u00eancia do significante f\u00e1lico. Foi essa cren\u00e7a que o consolidou na posi\u00e7\u00e3o de d\u00e9spota, mesmo tendo abdicado do grandioso ex\u00e9rcito e de todo peda\u00e7o de terra que antes constitu\u00eda seu reino.<\/p>\n<p>Goneril e Regana, as filhas reconhecidas pelo pai, n\u00e3o mediram esfor\u00e7os para tir\u00e1-lo de cena. As estrat\u00e9gias foram muitas, inclusive uma guerra foi travada: de uma lado, as duas que n\u00e3o mais suportavam a figura do pai e, de outro, Cord\u00e9lia, que \u2013 ironicamente \u2013 foi aquela que mandou um ex\u00e9rcito para defender Lear.<\/p>\n<p>Afinal, do que se pode rir nesta trag\u00e9dia?<\/p>\n<p>Lacan, no <em>Semin\u00e1rio RSI<\/em>, nos diz que \u201cO falo \u00e9 outra coisa, \u00e9 um c\u00f4mico como todos os c\u00f4micos, \u00e9 um c\u00f4mico triste. Quando voc\u00eas l\u00eaem Lis\u00edstrata, podem peg\u00e1-lo pelos dois lados. Rir ou achar amargo\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>A ambiguidade est\u00e1 posta quando se trata do falo e pode ser isto que o <em>fool<\/em> acaba por encarnar.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O Semina\u0301rio, Livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 219.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Uma delas, para mim, se destaca: <em>Lear\u00a0 \u2013 Est\u00e1s me chamando de bobo (fool), Bobo (Fool)? <\/em><em>Bobo \u2013 Voc\u00ea abriu m\u00e3o de todos os outros t\u00edtulos; esse \u00e9 de nascen\u00e7a.<\/em><\/h6>\n<h6>(SHAKESPEARE, W. Rei Lear. In: ______. <em>Obras Escolhidas. <\/em>Traduc\u0327a\u0303o de Millo\u0302r Fernandes e Beatriz Vie\u0301gas-Faria. Porto Alegre: L&amp;PM, 2009, Ato I, cena 3,\u00a0 p. 710).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> <em>Ibid <\/em>p. 711.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> <em>Ibid<\/em>, p. 712.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> LACAN, J. <em>O Semina\u0301rio, Livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 64.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> LACAN, J. O <em>semin\u00e1rio, livro 22: RSI<\/em>. Aula de 11 de mar\u00e7o de 1975. (In\u00e9dito).<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mariana Galletti Ferretti Participante da Comiss\u00e3o do Boletim Gaio Assim como o tema das pr\u00f3ximas Jornadas, o R.I.S.o,\u00a0 a figura do Bobo da corte tem muitas dimens\u00f5es. 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