{"id":7183,"date":"2023-06-19T18:57:12","date_gmt":"2023-06-19T21:57:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7183"},"modified":"2023-06-19T18:57:12","modified_gmt":"2023-06-19T21:57:12","slug":"estao-fazendo-arte-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/estao-fazendo-arte-3\/","title":{"rendered":"Est\u00e3o Fazendo Arte"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_7170\" aria-describedby=\"caption-attachment-7170\" style=\"width: 311px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7170\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/boletim_gaio_003-004-001-1.jpg\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"420\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/boletim_gaio_003-004-001-1.jpg 311w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/boletim_gaio_003-004-001-1-222x300.jpg 222w\" sizes=\"auto, (max-width: 311px) 100vw, 311px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7170\" class=\"wp-caption-text\">La comuni\u00f3n de Ramona, (1962), Antonio Berni.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Falar com Ela?<\/strong><\/p>\n<h6><em>James Alberto de Moura Valeriano<br \/>\n<\/em><em>Associado ao Clin-a<br \/>\n<\/em><em>Participante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura<\/em><\/h6>\n<p>No Eixo tem\u00e1tico 1 \u201cS\u00f3 Risos?!\u201d, das XII Jornadas da EBP-SP: R.I.S.o, algumas perguntas s\u00e3o lan\u00e7adas: como localizar o riso em uma an\u00e1lise e qual sua fun\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Uma vez que a arte interpreta e transmite o que se passa na cultura de seu tempo, o que inclui certamente o mal-estar e os modos de gozo, e podendo o psicanalista se servir dela a partir de seu &#8220;saber ler de outra maneira&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> o que essa interpreta\u00e7\u00e3o traz, seria, assim, poss\u00edvel avan\u00e7ar na proposta desse eixo de investiga\u00e7\u00e3o a partir do cinema? Particularmente, do cinema do diretor Pedro Almod\u00f3var?<\/p>\n<p>Podemos inferir que no cinema almodovariano (sim, ele se tornou um adjetivo, constituiu um modo pr\u00f3prio de organizar os semblantes \u2013 como da mascarada, da com\u00e9dia do falo \u2013 para apontar para o car\u00e1ter perverso do desejo, dizer do indiz\u00edvel e, portanto, da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual) h\u00e1 uma promo\u00e7\u00e3o de um <em>witz<\/em>, tendo como resto da experi\u00eancia do encontro com essa arte, o fen\u00f4meno do riso em suas variadas acep\u00e7\u00f5es \u2013 o riso nervoso, sobretudo diante da falta, o riso do espanto, o riso da ironia? Vejamos\u2026<\/p>\n<p>Sabemos que uma par\u00f3dia \u00e9 uma forma narrativa que, mais antiga que a novela e diferente da fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00f5e em d\u00favida o Real<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. E Almod\u00f3var vai se valer dela para expressar certos elementos da cultura.<\/p>\n<p>Lacan faz refer\u00eancia ao <em>witz<\/em>, conceito freudiano que n\u00e3o quis traduzir, ao longo de todo o seu ensino, admitindo a condi\u00e7\u00e3o tragic\u00f4mica do sujeito, uma vez que a trag\u00e9dia e a com\u00e9dia n\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Do Semin\u00e1rio VI, de Lacan, trago um recorte de como ele articula com\u00e9dia e psican\u00e1lise, que muito nos remete ao cinema de Almod\u00f3var:<\/p>\n<blockquote><p>Mas a com\u00e9dia, por sua vez, \u00e9 um apanha-desejos muito curioso. Cada vez que uma armadilha para desejos funciona, estamos na com\u00e9dia. \u00c9 o desejo que aparece ali onde n\u00e3o se esperava. O pai rid\u00edculo, o devoto hip\u00f3crita, o virtuoso \u00e0s voltas com um caso ad\u00faltero, \u00e9 com isso que se faz com\u00e9dia. \u00c9 preciso haver esse elemento que faz com que o desejo n\u00e3o se confesse. Ele \u00e9 mascarado e desmascarado, escarnecido, punido conforme o caso, mas \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia, pois, nas verdadeiras com\u00e9dias, a puni\u00e7\u00e3o nem mesmo ro\u00e7a a asa de corvo do desejo, que escapa absolutamente intacta (&#8230;). O desejo, na com\u00e9dia, \u00e9 desmascarado, mas n\u00e3o refutado<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Proponho o filme &#8220;Fale com Ela&#8221;<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> para esta reflex\u00e3o, pois h\u00e1 um imposs\u00edvel, uma ironia colocada desde o t\u00edtulo. Como falar com ela, que est\u00e1 absolutamente adormecida, em coma?<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 o \u00fanico filme de Almod\u00f3var em que um corpo quase morto surge. E, como no dizer de um dos personagens do diretor, &#8220;n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se livrar de um corpo&#8221;<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse filme, temos uma bailarina \u2013 e seu corpo em um estado inerte, vegetativo \u2013, cuidada por um enfermeiro chamado Benigno. Um cuidador benigno? Almod\u00f3var planta encontros improv\u00e1veis, filma com seu &#8220;El Deseo&#8221; (nome de sua produtora) o la\u00e7o desse cuidador benigno com sua amada adormecida. Ele s\u00f3 fala com Ela, pois sup\u00f5e ali que \u00e9 escutado e que \u00e9 amado\u2026 E que amante nunca sup\u00f4s no outro um saber? Nesse enlace de puro imagin\u00e1rio, Benigno toma o corpo inerte como objeto do seu amor.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa passagem ao ato, Benigno desaparece, sucumbindo ao corpo feminino dormente. Em poucas palavras, seu \u00fanico amigo, Marco, afirma: &#8220;Benigno \u00e9 inocente!&#8221;. De que inoc\u00eancia se trata?<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, ap\u00f3s o ato, surpreendentemente, a bailarina passa a gerar uma vida e desperta do estado de coma!<\/p>\n<p>A s\u00edndica fofoqueira do apartamento que nosso anti-her\u00f3i morava, ainda se espanta, junto ao amigo do tolo Benigno, nem querendo saber sobre a causa do crime: Por que raz\u00e3o a transgress\u00e3o de Benigno n\u00e3o tinha gerado rep\u00f3rteres no pr\u00e9dio?<\/p>\n<p>Em uma frase, Benigno localiza sua posi\u00e7\u00e3o subjetiva quando, em um golpe de espanto, revela para seu amigo Marco que deseja casar-se com a bailarina em coma: &#8220;eu n\u00e3o tenho nada, invento tudo&#8221;.<\/p>\n<p>Miller, em &#8220;Gays em an\u00e1lise&#8221;, esclarece-nos sobre o mais al\u00e9m do \u00c9dipo:<\/p>\n<blockquote><p>Evocamos a palavra espirituosa de Lacan, la p\u00e8re-version. O que quer dizer, exatamente, p\u00e8re-version? Eu a compreendo assim: esse `witz&#8221; de Lacan \u00e9 uma zombaria do \u00c9dipo. O \u00c9dipo cl\u00e1ssico era o que op\u00fanhamos \u00e0 pervers\u00e3o, que n\u00e3o havia norma, ou que a dita norma era da mesma natureza que a pervers\u00e3o. A via edipiana era voltar para o pai enquanto se ocupa de uma mulher, para barr\u00e1-la e, tamb\u00e9m, para se embara\u00e7ar com ela.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para Lacan, dizer p\u00e8re-version \u2013 depois de ter formulado, desde o come\u00e7o dos anos sessenta, que o termo pervers\u00e3o era simplesmente &#8220;rid\u00edculo&#8221; \u2013 \u00e9 classificar o \u00c9dipo como uma forma de pervers\u00e3o. \u00c9 o fim do privil\u00e9gio do Nome-do-Pai<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Benigno fala com sua amada e faz do corpo dela um corpo vivo, revelando assim seu modo de gozo mais al\u00e9m do \u00c9dipo. Dessa forma, estaria esse incr\u00edvel cineasta a altura do seu tempo, fazendo passar, pela via do <em>witz<\/em> para alguns, o car\u00e1ter mais ilegal, mas n\u00e3o ileg\u00edtimo, do desejo?<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> MILLER,\u00a0 J. A. Os trumains &#8211; Apresenta\u00e7\u00e3o do tema do VII Congresso da AMP. <em>Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> 52, p.9.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MACEDO,\u00a0 L.F. <em>Primo Levi, a escrita do trauma<\/em>. Rio de Janeiro: Ed. Subversos, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN,\u00a0 J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/em> Rio de Janeiro: Ed Jorge Zahar, 1997, p. 376.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN,\u00a0 J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 6: o desejo e sua interpreta\u00e7\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Ed Jorge Zahar, 2016, p. 443.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> FALE com ela. Dire\u00e7\u00e3o: Pedro Almod\u00f3var. Produ\u00e7\u00e3o: El Deseo S.A. Espanha, 2002. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pxz69FEaW-I\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pxz69FEaW-I<\/a>. Acesso em: 06 jun. 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> A FLOR do meu segredo. Dire\u00e7\u00e3o: Pedro Almod\u00f3var. Produ\u00e7\u00e3o: El Deseo S.A. Espanha, 1995. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9z80RWJNr0I\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=9z80RWJNr0I<\/a>. Acesso em: 06 jun. 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> MILLER, J.A. Gays em an\u00e1lise? <em>In:<\/em>\u00a0<em>Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> 47, p. 15.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar com Ela? 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