{"id":7078,"date":"2023-05-16T09:38:15","date_gmt":"2023-05-16T12:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7078"},"modified":"2023-05-16T09:38:15","modified_gmt":"2023-05-16T12:38:15","slug":"um-sorriso-para-lia1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/um-sorriso-para-lia1\/","title":{"rendered":"Um sorriso para Lia<sup>1<\/sup>"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text]\n<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-7079\" style=\"font-size: 16px;\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_001-1.jpg\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"709\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_001-1.jpg 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_001-1-240x300.jpg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/h6>\n<p>Retrato de Madame Matisse (1905), Henri Matisse<\/p>\n<h6>Iordan Gurgel<br \/>\nAME da EBP \/ AMP<\/h6>\n<p><em>\u201ca cura de crises paranoicas residiria n\u00e3o tanto numa solu\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o das ideias delirantes, quanto numa retirada delas da catexia que lhes foi emprestada\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<p>Se uma das possibilidades de tratar uma psicose passa por esta indica\u00e7\u00e3o de Freud, por que n\u00e3o pensar que o humor pode bem servir a este prop\u00f3sito?<\/p>\n<p>Para atender o pedido de escrever um texto sobre o riso, tema das <strong><em>Jornadas da EBP-SP<\/em><\/strong>, optei em tomar a psicose como refer\u00eancia e demonstrar, via um caso cl\u00ednico, a estabiliza\u00e7\u00e3o que se produziu a partir de um efeito c\u00f4mico de um significante, tendo como resultado a constru\u00e7\u00e3o de um sinthoma. Se trata de tomar <em>o humor como estrat\u00e9gia de estabiliza\u00e7\u00e3o de uma psicose. <\/em><\/p>\n<p>Freud dizia que para se entender um chiste e para que esse possa produzir o riso \u00e9 necess\u00e1rio compartir os mesmos c\u00f3digos para que se possa distinguir o sentido do n\u00e3o-sentido e, assim, ap\u00f3s um momento de certo espanto, o riso aconte\u00e7a. Paradoxalmente, poder\u00edamos questionar se esta concep\u00e7\u00e3o se aplicaria tamb\u00e9m \u00e0 psicose. Encontramos uma luz em Freud, que nos d\u00e1 uma dire\u00e7\u00e3o para o tratamento das psicoses: \u201dcom as ideias de persegui\u00e7\u00e3o h\u00e1 um sofrimento que \u00e9 atenuado \u2013 h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o no gozo que a\u00ed prevalece \u2013 com o riso que alivia o eu\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Se trata aqui de aliviar o retorno no real daquilo que foi foracluido, uma tentativa de saber fazer com a inadequa\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o paterna e chamar aten\u00e7\u00e3o do sujeito psic\u00f3tico para a realidade. A ideia \u00e9 que o psic\u00f3tico, que n\u00e3o teve acesso ao simb\u00f3lico \u2013 e, justamente por isso, d\u00e1 testemunho de um encoberto a decifrar \u2013 por estar fixado em uma posi\u00e7\u00e3o que o impossibilita de restaurar o sentido, possa compartilhar com o outro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, quando, ap\u00f3s o momento de sidera\u00e7\u00e3o, advenha o efeito sujeito, consequente a um aporte de sentido ao n\u00e3o sentido. Vejamos a cl\u00ednica:<\/p>\n<p>Em um dia de inverno a paciente chega com roupa de ver\u00e3o. A analista pergunta: por que voc\u00ea n\u00e3o usa um casaco? Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 com frio? A paciente responde: com o que voc\u00ea quer que eu compre? Voc\u00ea sabe que eu sou pobre! A analista sorrindo diz: voc\u00ea n\u00e3o tem prata para comprar um casaco? A inten\u00e7\u00e3o era indicar que ela pertencia a uma fam\u00edlia rica com alto poder aquisitivo. Ela responde secamente: voc\u00ea sabe que eu sou uma <em>sovina<\/em>. Aqui se introduz no tratamento o riso da analista ao provocar algo da ordem de um chiste.<\/p>\n<p>O significante sovina, que aparece reiteradas vezes no discurso de Lia<em>, <\/em>causa gra\u00e7a na analista, pelo absurdo da situa\u00e7\u00e3o. Esta resposta, sutil e chistosa abre caminho para a inje\u00e7\u00e3o de sentido. A interven\u00e7\u00e3o, no primeiro momento, provoca em Lia desconcerto e temor. Ela n\u00e3o entende o porqu\u00ea da pergunta e do riso e, por isso mesmo, reage ao sem sentido da interven\u00e7\u00e3o da analista, que faz uma manobra transferencial, dando-lhe uma explica\u00e7\u00e3o \u2013 diz que <em>sovina<\/em> n\u00e3o \u00e9 ant\u00f4nimo de rica \u2013 para dar conta do deslizamento provocado ao dito: sou <em>sovina<\/em>. A interven\u00e7\u00e3o visava apontar a foraclus\u00e3o da riqueza familiar.<\/p>\n<p>Em um segundo momento, se verifica uma mudan\u00e7a no modo de falar de Lia<em>,<\/em> que passa a utilizar piadas sobre sua qualifica\u00e7\u00e3o de <em>sovina<\/em>. Nesta dire\u00e7\u00e3o, o significante <em>sovina<\/em> se configura como uma marca que clama por sentido, e a analista, com o riso, aponta a possibilidade de uma outra leitura pelo sujeito, abrindo caminho para partilhar um sentido.<\/p>\n<p>A paciente estava petrificada no significante <em>pobre<\/em> e a manobra transferencial se centrara em buscar uma possibilidade ortop\u00e9dica de separa\u00e7\u00e3o deste significante e de lograr, mediante um cauteloso jogo pobre-sovina-rica,\u00a0um certo deslizamento. Foi levando em considera\u00e7\u00e3o esta condi\u00e7\u00e3o que a analista, no lugar do Outro, come\u00e7a a operar jocosamente sobre o significante <em>sovina<\/em> com o significante rica, criando um falso ant\u00f4nimo.<\/p>\n<p>O sorriso da analista e sua proposta de humor produzem certo desconcerto em Lia, operando como uma san\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que modifica a imagem torturante que ela tinha de si mesma \u2013 ser <em>sovina<\/em>. H\u00e1 um movimento de articula\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e do simb\u00f3lico consequente do olhar e da voz do Outro, que faz limite ao real invasivo, dando testemunho da presen\u00e7a da analista.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se observa que no primeiro momento a paciente teme, mas logo em seguida, brinca. H\u00e1 uma vacila\u00e7\u00e3o naquilo que a aterrorizava quando confrontada com o outro \u2013 sua certeza sobre ser pobre \u2013 e se produz uma mudan\u00e7a de sentido do significante <em>sovina<\/em>, moderando o gozo. Por exemplo, ela consegue realizar pequenos gastos e desfrutar de f\u00e9rias. Aqui, na linguagem freudiana podemos dizer que houve \u201cuma retirada da catexia que lhes foi (anteriormente)&#8230;emprestada\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>, o que proporcionou um certo apaziguamento frente a seu tema mais frequente: o pressentimento da morte, direcionando-a na constru\u00e7\u00e3o do sinthoma.<\/p>\n<p>Neste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio destacar que isso s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 transfer\u00eancia, que possibilitou a analista, considerando a cena caricata do \u2018est\u00e1dio do espelho\u2019 e a rela\u00e7\u00e3o eu-eu, propor o sorriso e o humor como equivalentes do primeiro contato com o Outro primordial \u2013 a m\u00e3e \u2013 acreditando na \u2018imagem jubilosa\u2019 (teorizada por Lacan), como sustento desta manobra transferencial. A isso se agrega o aporte lacaniano que considera, ao se referir ao desenvolvimento da crian\u00e7a, que \u201cantes mesmo da fala, a primeira comunica\u00e7\u00e3o verdadeira&#8230; para al\u00e9m daquilo que voc\u00eas s\u00e3o diante dela como presen\u00e7a simbolizada, \u00e9 o riso \u2013 antes de qualquer palavra, a crian\u00e7a ri\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese freudiana do riso \u00e9 consequente \u00e0s primeiras experi\u00eancias precoces da crian\u00e7a: o esgar caracter\u00edstico do sorriso, a tor\u00e7\u00e3o dos cantos da boca, \u201caparecem primeiro quando a crian\u00e7a de peito ap\u00f3s ser saciada e satisfeita, abandona o seio e cai adormecida\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> e que, s\u00f3 depois, se associa aos processos de descarga. Assim, seguindo Freud<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, o riso acontece quando uma cota de energia ps\u00edquica se torna inutiliz\u00e1vel e esta energia pode encontrar descarga livre e, ent\u00e3o, encontrar prazer.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas perguntas que podemos formular sobre o caso; por exemplo: como operou o sorriso da analista? Como explicar que haja estabelecido com sua analista um c\u00f3digo particular, onde ela se permite brincar? N\u00e3o temos respostas prontas, tampouco podemos usar este caso como uma dire\u00e7\u00e3o padr\u00e3o, mas podemos concluir que, neste caso de esquizofrenia, houve um efeito de estabiliza\u00e7\u00e3o a partir da intermedia\u00e7\u00e3o do c\u00f4mico da palavra.<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese para entender este caso \u00e9 evocar novamente Freud, quando se refere a uma modalidade de chiste, cujo prazer n\u00e3o se origina do livre uso das palavras e pensamentos e sim do <em>nonsense<\/em>, que vai al\u00e9m do jogo de palavras e se caracteriza pelo absurdo \u2013 sua for\u00e7a est\u00e1 em suspender e desafiar a raz\u00e3o e o ju\u00edzo cr\u00edtico e assim obter maior prazer pela suspens\u00e3o da inibi\u00e7\u00e3o. Freud n\u00e3o diz, mas podemos deduzir que a\u00ed se aplica a fun\u00e7\u00e3o do riso na psicose. Esta condi\u00e7\u00e3o <em>nonsense<\/em> adquire a fun\u00e7\u00e3o de aumentar a aten\u00e7\u00e3o para o que se diz e desconcertar o ouvinte, podendo provocar ou acelerar a compreens\u00e3o e possibilitar um outro \u201cju\u00edzo contido no pensamento\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>E assim, o riso funcionou para a estabiliza\u00e7\u00e3o de Lia!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Este texto foi inspirado por outro de Luz Casenave, psicanalista da EOL, j\u00e1 falecida, a quem presto homenagem.\u00a0 Tomei, \u201cEl humor como estrat\u00e9gia en la estabilizacio\u0301n de una psicoses\u201d <em>in:<\/em>\u00a0<em>Las estrat\u00e9gias de la transfer\u00eancia em psicoan\u00e1lisis<\/em>. Buenos Aires: Manantial, 1992, p. 144), como refer\u00eancia e, inclusive, \u00e9 onde o caso cl\u00ednico est\u00e1 mais detalhado.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> FREUD, S. <em>O Humor<\/em>. <em>In:<\/em> ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1974, V 21, p. 193.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O<\/em> <em>semin\u00e1rio<\/em>, <em>livro 3: as psicoses.<\/em>\u00a0Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985, p. 153.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Conforme cita\u00e7\u00e3o, nota 2<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>, Rio de Janeiro: JZE, 1999, p. 343.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> FREUD, S.<em> O Humor. <\/em>In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1974, V 21, n1, p 170.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>\u00a0Ibid, <\/em>p. 171.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> _______, <em>Os chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em>. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1974, V 8, p.161\/2, Nota 1.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text] Retrato de Madame Matisse (1905), Henri Matisse Iordan Gurgel AME da EBP \/ AMP \u201ca cura de crises paranoicas residiria n\u00e3o tanto numa solu\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o das ideias delirantes, quanto numa retirada delas da catexia que lhes foi emprestada\u201d[2]. 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