{"id":7075,"date":"2023-05-16T09:36:23","date_gmt":"2023-05-16T12:36:23","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7075"},"modified":"2023-05-16T09:36:23","modified_gmt":"2023-05-16T12:36:23","slug":"o-chiste-o-declinio-da-paroquia-e-as-vicissitudes-da-ironia-para-a-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-chiste-o-declinio-da-paroquia-e-as-vicissitudes-da-ironia-para-a-psicanalise\/","title":{"rendered":"O chiste, o decl\u00ednio da par\u00f3quia e as vicissitudes da ironia para a psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text]\n<figure id=\"attachment_7076\" aria-describedby=\"caption-attachment-7076\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7076\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_002-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"415\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_002-1.jpg 567w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_002-1-300x249.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7076\" class=\"wp-caption-text\">Travelling Show (1906), Raoul Dufy<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Laura Rubi\u00e3o<br \/>\n<\/em><em>Membro da EBP \/ AMP<\/em><em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<p>Freud situou o vasto dom\u00ednio do riso e suas declina\u00e7\u00f5es: o humor, o c\u00f4mico e a tirada espirituosa (<em>Witz<\/em>), n\u00e3o apenas como manifesta\u00e7\u00f5es da cultura, mas como \u00edndices da presen\u00e7a do inconsciente em sua articula\u00e7\u00e3o com o discurso do Outro.<\/p>\n<p>A plena realiza\u00e7\u00e3o de um chiste depende da par\u00f3quia, nos dir\u00e1 Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>1<\/sup><\/a>. Ele opera a partir do uso compartilhado do tesouro dos significantes, condi\u00e7\u00e3o primordial da incid\u00eancia do Outro do sentido como base de sustenta\u00e7\u00e3o de um discurso estabelecido.<\/p>\n<p>Embora dependa do Outro da par\u00f3quia, o chiste est\u00e1 a servi\u00e7o do campo pulsional e se apresenta como intensa fonte de frui\u00e7\u00e3o (Lustgewin). Ele traz \u00e0 tona tend\u00eancias que convocam o dom\u00ednio do gozo do um: \u00a0a obscenidade, a hostilidade, o cinismo e o ceticismo [<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>2<\/sup><\/a>]. Esta \u00faltima tend\u00eancia parece colocar \u00e0 prova os pr\u00f3prios par\u00e2metros l\u00f3gicos da linguagem:<\/p>\n<blockquote><p>Acho que os chistes desse tipo [os chistes c\u00e9ticos] divergem suficientemente dos demais para que lhes seja conferida posi\u00e7\u00e3o especial. O que eles atacam n\u00e3o \u00e9 uma pessoa ou uma institui\u00e7\u00e3o, mas a pr\u00f3pria certeza de nosso conhecimento, uma de nossas capacidades especulativas. O nome que lhes caberia mais apropriado seria, portanto, o de chistes c\u00e9ticos.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>3<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Sobre o ceticismo no dom\u00ednio do chiste, Freud nos fornece um exemplo retirado do c\u00edrculo de piadas judias, ao qual Lacan retorna em mais de uma ocasi\u00e3o. Ele enfatiza o modo pelo qual os chistes podem operar por meio da suspens\u00e3o das coordenadas l\u00f3gicas convencionais:<\/p>\n<blockquote><p>Dois judeus encontram-se num vag\u00e3o de trem em uma esta\u00e7\u00e3o na Gal\u00edcia. \u2018Onde vai?\u2019 perguntou um. \u2018\u00c0 Crac\u00f3via\u2019, foi a resposta. \u201cComo voc\u00ea \u00e9 mentiroso!\u2019 n\u00e3o se conteve o outro. \u201cSe voc\u00ea dissesse que ia \u00e0 Crac\u00f3via, voc\u00ea queria fazer-me acreditar que estava indo a Lemberg. Mas sei que, de fato, voc\u00ea vai \u00e0 Crac\u00f3via. Portanto, voc\u00ea est\u00e1 mentindo para mim.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O ceticismo a que se refere Freud talvez coincida, exatamente, com a perda de um par\u00e2metro fixo de determina\u00e7\u00e3o da verdade. Notemos que o segundo judeu mente quando diz a verdade e fala a verdade por meio da mentira. \u00a0O que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 a destitui\u00e7\u00e3o da inst\u00e2ncia reguladora do uso equilibrado da l\u00edngua, aquela que supostamente garantiria os limites convencionais da comunica\u00e7\u00e3o. Haveria uma tend\u00eancia no chiste e, por consequ\u00eancia, no riso, que dispensaria o Outro da par\u00f3quia, permitindo a irrup\u00e7\u00e3o do novo na jun\u00e7\u00e3o do Simb\u00f3lico com o Real?<\/p>\n<p>Um chiste que coloca em destaque o dom\u00ednio da frui\u00e7\u00e3o, passando por fora do campo do sentido, parece capturar o interesse lacaniano ao final de seu ensino, na medida em que se valoriza a dimens\u00e3o do equ\u00edvoco como terreno f\u00e9rtil para a dissemina\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria gozante em detrimento das resson\u00e2ncias simb\u00f3licas que fazem apelo ao Outro.<\/p>\n<p>A partir dos anos 70, Lacan prop\u00f5e-nos uma nova leitura do <em>Witz<\/em>, distinta da que nos apresenta em seu semin\u00e1rio 5. Ele passa a enfatiz\u00e1-lo a partir do que brota no equ\u00edvoco, ro\u00e7ando o real por meio dos avatares de <em>lalangue<\/em>, ou seja, daquilo que se l\u00ea no \u2018espa\u00e7o de um lapso\u2019 <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>5<\/sup><\/a> como a certeza do que emerge no inconsciente real.<\/p>\n<p>No posf\u00e1cio escrito em 1973 para o semin\u00e1rio 11, Lacan retoma o chiste dos dois judeus na esta\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando o car\u00e1ter de cifra de uma leitura pautada na premissa interrogativa do primeiro judeu: \u201cporque mentes para mim dizendo a verdade\u201d?.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>6<\/sup><\/a> Quando o objeto <em>a<\/em> se instala no lugar do trilho que promove a via do mais-gozar, a quest\u00e3o n\u00e3o se resolve consultando-se o cat\u00e1logo da rede ferrovi\u00e1ria para se saber o destino correto.<\/p>\n<p>Seria o pressuposto c\u00e9tico do <em>Witz<\/em> uma via de acesso a esse novo uso lacaniano da dimens\u00e3o do equ\u00edvoco, mais atrelado ao real do que \u00e0s articula\u00e7\u00f5es entre o simb\u00f3lico e o imagin\u00e1rio? No momento em que o gozo se extravia da rota principal do Outro &#8211; cuja cren\u00e7a, em nossos dias, encontra-se esgar\u00e7ada \u2013 o que esperar dos efeitos do riso? Como ele se apresenta frente ao decl\u00ednio da Par\u00f3quia?<\/p>\n<p>A ironia, tamb\u00e9m devedora do pressuposto c\u00e9tico, \u00e9 uma das vertentes do vasto campo concernente ao humor e ao riso que guarda importantes afinidades com a experi\u00eancia anal\u00edtica. Lacan chegou a comparar o analista \u00e0 figura de S\u00f3crates, o grande ironista da antiguidade, aquele que sabia fazer um bom uso do semblante discursivo, promovendo uma disjun\u00e7\u00e3o entre os campos do ser e do parecer.<\/p>\n<p>Miller nos lembra que talvez fosse poss\u00edvel curar a neurose pela ironia que \u201c\u00e9 a forma c\u00f4mica tomada pelo saber de que o Outro n\u00e3o existe\u201d <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>7<\/sup><\/a>. Para que a ironia anal\u00edtica se realize \u00e9 preciso que, mesmo n\u00e3o dispondo do \u201ccat\u00e1logo da rede ferrovi\u00e1ria\u201d possamos seguir um mapa pr\u00f3prio, cuja dire\u00e7\u00e3o e o destino s\u00e3o dados pelo sinthoma. Para que isso se produza no contexto de uma an\u00e1lise que dura e se dirige ao seu final, \u00e9 preciso abster-se dos semblantes, podendo fazer deles um novo uso, ou seja, \u00e9 preciso consentir com a exist\u00eancia de uma verdade que contenha o furo, para incluir seus efeitos em uma nova alian\u00e7a com o gozo.<\/p>\n<p>Resta, contudo, a pergunta: em tempos em que os sujeitos se creem transparentes a si mesmos, fiando-se pela autodeclara\u00e7\u00e3o e pela l\u00f3gica do direito ao gozo como restaurar a tor\u00e7\u00e3o ir\u00f4nica do ato anal\u00edtico, que reintroduz a opacidade da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual?<\/p>\n<p>Creio que a pr\u00f3xima Jornada da Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo, ao nos propor como t\u00edtulo essa escrita original &#8211; R.I.S.o, promete fomentar um vivo debate sobre o que se imiscui do real no dom\u00ednio do riso, extraindo da\u00ed suas consequ\u00eancias para a psican\u00e1lise!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">1<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 5: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p.130.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">2<\/a> FREUD, S. <em>Os chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p.156.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">3<\/a> Idem, p.136.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">4<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">5<\/a> : LACAN, J. \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. In <em>Outros Escritos<\/em>, 2003, p. 567-69. Conferir ainda outros desdobramentos sobre essa nova concep\u00e7\u00e3o do Witz em: LACAN, J. \u201c<em>Nomina non sunt consequentia rerum\u201d<\/em>. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> n\u00ba 28, S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, 2003, p.6 e LACAN, J. \u201cRumo a um significante novo\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> n\u00ba 22. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia, 1998, p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">6<\/a> LACAN, J. \u201cPosf\u00e1cio ao Semin\u00e1rio 11\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 505.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">7<\/a> MILLER, J.A. &#8220;Cl\u00ednica ir\u00f4nica&#8221;. In: <em>Matemas<\/em> I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.191.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text] Laura Rubi\u00e3o Membro da EBP \/ AMP\u00a0 Freud situou o vasto dom\u00ednio do riso e suas declina\u00e7\u00f5es: o humor, o c\u00f4mico e a tirada espirituosa (Witz), n\u00e3o apenas como manifesta\u00e7\u00f5es da cultura, mas como \u00edndices da presen\u00e7a do inconsciente em sua articula\u00e7\u00e3o com o discurso do Outro. 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