{"id":7072,"date":"2023-05-16T09:34:26","date_gmt":"2023-05-16T12:34:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7072"},"modified":"2023-05-16T09:34:26","modified_gmt":"2023-05-16T12:34:26","slug":"entre-fossos-e-janelas-caminham-o-real-o-objeto-a-e-o-witz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/entre-fossos-e-janelas-caminham-o-real-o-objeto-a-e-o-witz-2\/","title":{"rendered":"Entre fossos e janelas, caminham o real, o objeto a e o WITZ?"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text]\n<figure id=\"attachment_7073\" aria-describedby=\"caption-attachment-7073\" style=\"width: 404px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7073 size-full\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_003-1.jpg 404w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_002_003-1-242x300.jpg 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 404px) 100vw, 404px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7073\" class=\"wp-caption-text\">A janela aberta (1905), Henri Matisse.<\/figcaption><\/figure>\n<h6><em>Cl\u00e1udia Reis<br \/>\n<\/em><em>Membro da EBP\/AMP<\/em><\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em>Em recente entrevista<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, o ator Marco Nanini faz uma s\u00e9rie de articula\u00e7\u00f5es que a n\u00f3s, que estamos \u00e0s voltas com o tema do R.I.S.o, interessam muito. Fala a respeito do rid\u00edculo e o riso, do improviso e o tempo da plateia bem como do sofrimento real do comediante \u201cque tem que ter uma chave na com\u00e9dia sen\u00e3o fica muito pesado\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>. O entrevistador destaca um epis\u00f3dio da rec\u00e9m lan\u00e7ada autobiografia<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a> de Nanini, em que este fora visitar o pai que estava em estado terminal devido ao avan\u00e7o de um c\u00e2ncer. Ao sair do hospital, vai para o teatro onde atuava em uma com\u00e9dia, deixando o pai em agonia. Nanini comenta: \u201cFoi isso a\u00ed, foi impactante. Eu fiz a com\u00e9dia direitinho mas eu tava com aquilo na garganta e durante um improviso eu disse: meu pai est\u00e1 morrendo, voc\u00eas est\u00e3o rindo! Era verdade e eles morreram de rir. Eu a\u00ed vi que \u00e9 isso mesmo, a vida \u00e9 assim.\u201d<\/p>\n<p>Fa\u00e7o um recorte neste ponto que me remeteu a uma das quest\u00f5es deixadas por R\u00f4mulo Ferreira da Silva no Argumento das Jornadas e \u00e9 uma das perguntas que atravessam este escrito: \u201cPodemos dizer que o riso \u00e9 efeito da ca\u00edda do semblante que deixa escapar algo do real que atinge o corpo?\u201d<\/p>\n<p>Na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, temos que o real se inscreve para cada um pela via do trauma. Descrito por Freud como um acontecimento externo e inesperado que invade a vida ps\u00edquica e provoca excita\u00e7\u00e3o, o trauma seria de dif\u00edcil assimila\u00e7\u00e3o. Algo dessa excita\u00e7\u00e3o provocada no corpo permaneceria sem liga\u00e7\u00e3o, um tra\u00e7o sem sentido que n\u00e3o deixaria de insistir.<\/p>\n<p>Para Lacan, o encontro com o real tem sempre algo de inassimil\u00e1vel, porta um resto sem representa\u00e7\u00e3o que remete \u00e0 impossibilidade da verdade ser dita toda. Estamos aqui situados em seu ensino, na aula de 12 de fevereiro de 1964<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>. Retoma a cena do Fort-da, descrita por Freud observando seu neto, onde temos: a crian\u00e7a no ber\u00e7o, a porta por onde a m\u00e3e sai e o \u201cfosso\u201d ao lado do ber\u00e7o para onde a crian\u00e7a olha que \u00e9 o lugar vazio deixado pela m\u00e3e. Diante da escurid\u00e3o do \u201cfosso\u201d, em lugar de se jogar, a crian\u00e7a constr\u00f3i uma janela, ou seja, joga o objeto que \u00e9 o carretel e o recolhe, repetidas vezes, enquanto evoca a linguagem dizendo <em>\u201cFort-da\u201d &#8230; <\/em>\u201caqui ou ali\u201d. Segundo Lacan, \u201cA este objeto daremos ulteriormente seu nome de \u00e1lgebra lacaniana \u2013 o <em>a<\/em> min\u00fasculo\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>. Quanto \u00e0 inven\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, \u201cO que ele visa \u00e9 aquilo que, essencialmente, n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1 enquanto representado.\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a><\/p>\n<p>Assim como uma janela \u00e9 a abertura que proporciona ilumina\u00e7\u00e3o e ventila\u00e7\u00e3o no interior de um ambiente, possibilitando a quem est\u00e1 dentro olhar fora e colocar uma perspectiva noutro lugar, na cena descrita acima, constatamos a primeira inven\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a para suportar o <em>troumatisme <\/em>que \u00e9 o buraco da aus\u00eancia de representa\u00e7\u00e3o. Segundo Ansermet<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>, o traumatismo se produz quando a crian\u00e7a, confrontada com o gozo do Outro, depara-se com a evid\u00eancia inevit\u00e1vel do real sexual, sempre faltoso que se revela traum\u00e1tico. Aloja-se na articula\u00e7\u00e3o entre realidade e realidade ps\u00edquica e \u00e9 sempre relativo.<\/p>\n<p>Temos que o sujeito nasce na palavra, n\u00e3o a partir da m\u00e3e que partiu, mas a partir do furo que ficou. Consiste a\u00ed o mist\u00e9rio da origem de cada um, assim como as inven\u00e7\u00f5es diante deste real.<\/p>\n<p><strong>Como o riso se articula ao objeto <em>a<\/em>?<\/strong><a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a><\/p>\n<p>Quest\u00e3o a ser percorrida ao longo deste tempo de prepara\u00e7\u00e3o das Jornadas e neste bi\u00eanio de trabalho na EBP-SP. Para deixar uma contribui\u00e7\u00e3o, destaco uma articula\u00e7\u00e3o de Lacan por ocasi\u00e3o do que chamou de excomunh\u00e3o. Aponta que n\u00e3o lhe escapou algo de vasta dimens\u00e3o c\u00f4mica nesse contorno que se liga a uma posi\u00e7\u00e3o que reconhece ter ocupado e a de colegas e alunos em rela\u00e7\u00e3o a ele, a de estar sendo negociado. Diz-nos Lacan: \u201cMas, se a verdade do sujeito, mesmo quando ele est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o de mestre, n\u00e3o est\u00e1 nele mesmo, mas, como a an\u00e1lise o demonstra, num objeto, velado por natureza \u2013 faz\u00ea-lo surgir, esse objeto, \u00e9 propriamente o elemento de c\u00f4mico puro\u201d.<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a> \u00a0Considera ser oportuno apontar esta dimens\u00e3o porque talvez ela fosse<\/p>\n<blockquote><p>objeto de uma modera\u00e7\u00e3o indevida, de uma esp\u00e9cie de falso pudor, se algu\u00e9m a testemunhasse de fora. Do lado de dentro, posso dizer-lhes que essa dimens\u00e3o \u00e9 perfeitamente leg\u00edtima, que ela pode ser vivida do ponto de vista anal\u00edtico, e mesmo a partir do momento em que \u00e9 percebida, de maneira que a supera \u2013 isto \u00e9, sob o \u00e2ngulo do humor, que n\u00e3o \u00e9 aqui sen\u00e3o o reconhecimento do c\u00f4mico.<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>A janela anal\u00edtica permite perceber e fazer cair a verdade do sujeito.<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>O real no \u00faltimo ensino<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo ensino de Lacan, o trauma \u00e9 a fixa\u00e7\u00e3o dos encontros de lal\u00edngua com o gozo que se fixa a\u00ed. S\u00e3o as palavras, como elementos externos, que traumatizam o corpo do ser falante, trazem sentidos que marcam a exist\u00eancia de cada um, mas introduzem tamb\u00e9m aquilo que jamais ter\u00e1 sentido, ou seja, um furo na simboliza\u00e7\u00e3o. O que concede ao encontro com a linguagem o valor de um trauma \u00e9 esse furo que foge ao entendimento pela via do sentido, funda um gozo que n\u00e3o ser\u00e1 absorvido na cadeia das significa\u00e7\u00f5es e que Lacan nomeou de real. Para a psican\u00e1lise, no que concerne ao real n\u00e3o h\u00e1 previsibilidade poss\u00edvel, o que funda para o ser falante a exig\u00eancia de ter que se virar com a conting\u00eancia e inventar os la\u00e7os que o sustentem. O encontro com o real &#8211; e aqui temos quest\u00f5es fundamentais sem resposta como o real sexual e a morte &#8211; \u00e9 o tempo em que se tem a possibilidade de verificar que aquilo que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever pode passar por uma invers\u00e3o ao cessa de n\u00e3o se inscrever.<\/p>\n<p><strong>Um equ\u00edvoco?<\/strong><\/p>\n<p>Com Gustavo Stiglitz<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a> temos que o <em>Witz <\/em>\u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o que det\u00e9m um equ\u00edvoco e um destinat\u00e1rio onde ocorre o riso.<em> \u201c<\/em>\u00c9 um instrumento do qual se serve a l\u00edngua para enodar algo do que n\u00e3o se pode dizer. (&#8230;) Quando h\u00e1 efeito <em>Witz<\/em>, se trata, n\u00e3o sem os outros, o excesso que n\u00e3o tem palavra, para remover do doloroso sil\u00eancio\u201d.<\/p>\n<p>Retomando a quest\u00e3o posta no in\u00edcio, Nanini se vale de um momento de improviso no seu trabalho e do tempo da plateia, especificidade que talvez s\u00f3 os atores e a arte reconhe\u00e7am, e inventa sua \u201ctirada espirituosa\u201d &#8211; parodiando a tradu\u00e7\u00e3o que Lacan prefere para <em>Witz<\/em>. Temos a revela\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica que se desvela ao mesmo tempo que se dilui em meio a com\u00e9dia, provocando risos. Poder\u00edamos ousar dizer que Nanini construiu sua janela?<\/p>\n<p>Colhemos efeitos dos nossos atos apenas no depois. Parece que para Nanini houve um efeito liberador. Aquilo que \u201ctava preso na garganta\u201d saiu pela janela que construiu: \u201cEu a\u00ed vi que \u00e9 isso mesmo, a vida \u00e9 assim.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Dispon\u00edvel em: Conversa com Bial\/Marco Nanini, 06 de abril de 2023 &#8211; YouTube<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> Idem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> FILGUEIRAS, M. <em>O avesso do bordado<\/em>. Uma autobiografia de Marco Nanini. Companhia das Letras, 2023.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> LACAN,J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990. p.55-65.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Idem, p.63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Idem, p.63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a> ANSERMET, F. \u201cTraumatismo Ps\u00edquico\u201d. <em>In:<\/em> <em>Cl\u00ednica da Origem, a crian\u00e7a entre a medicina e a psican\u00e1lise<\/em>. RJ: Contra capa, 2003<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a> Quest\u00e3o colocada pelo nosso Diretor Geral da EBP-SP, Niraldo de Oliveira Santos, na apresenta\u00e7\u00e3o das XII Jornadas.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a> LACAN, J. Op. cit., p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a> LACAN, J. Op. cit., p.12-13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a> STIGLITZ, G. \u201cWitz, o peor\u201d. In: <em>Revista Lacaniana de Psicoan\u00e1lisis<\/em>. Ano XVI, n\u00famero 29. Abril de 2021, p.106.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text] Cl\u00e1udia Reis Membro da EBP\/AMP \u00a0Em recente entrevista[i], o ator Marco Nanini faz uma s\u00e9rie de articula\u00e7\u00f5es que a n\u00f3s, que estamos \u00e0s voltas com o tema do R.I.S.o, interessam muito. 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