{"id":7055,"date":"2023-05-16T09:03:41","date_gmt":"2023-05-16T12:03:41","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=7055"},"modified":"2023-05-16T09:03:41","modified_gmt":"2023-05-16T12:03:41","slug":"estao-fazendo-arte-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/estao-fazendo-arte-2\/","title":{"rendered":"Est\u00e3o fazendo arte"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text]\n<figure id=\"attachment_7056\" aria-describedby=\"caption-attachment-7056\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-7056\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_005_001-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"692\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_005_001-1.jpg 487w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/boletim_gaio_n2_005_001-1-217x300.jpg 217w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-7056\" class=\"wp-caption-text\">O homem que ri (2019), Leo Du Lac &#8211; www.dulac.com.br<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O homem que ri<\/strong><\/p>\n<h6><em>Marcia Eliane Rosa<br \/>\n<\/em><em>Participante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura das XII Jornadas da EBP &#8211; SP<\/em><em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<p>O romance de Victor Hugo, \u201cO homem que ri\u201d, publicado em 1869, nos faz olhar para complexas quest\u00f5es sobre o riso e o humor. \u00a0A hist\u00f3ria traz como personagem principal Gwynplaine (o homem que ri), um homem deformado a partir de uma cirurgia for\u00e7ada, realizada ainda na inf\u00e2ncia, que transforma seu rosto deixando-o permanentemente distorcido em um sorriso perto do grotesco. A condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica do personagem pode ser vista como uma met\u00e1fora para seu estado emocional de sofrimento e uma sensa\u00e7\u00e3o de isolamento e aliena\u00e7\u00e3o. No entanto, apesar de sua condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, Gwynplaine tamb\u00e9m \u00e9 retratado como algu\u00e9m que tem um senso de humor e \u00e9 capaz de rir de si mesmo e das situa\u00e7\u00f5es absurdas que enfrenta.<\/p>\n<p>A narrativa de Gwynplaine, que se tornou um artista perform\u00e1tico circense, foi recontada em mais duas obras emblem\u00e1ticas: no filme \u201cO homem que ri\u201d, dirigido pelo cineasta alem\u00e3o expressionista Friedrich Wilhelm Murnau, em 1928, e na primeira hist\u00f3ria do Batman, \u201cThe Man Who Laughs\u201d (1940), que deu vida ao personagem Coringa. A autoria da cria\u00e7\u00e3o do personagem gera algumas discord\u00e2ncias<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> e reivindica\u00e7\u00e3o do ilustrador Jerry Robinson, mas \u00e9 certo que Coringa nasce da parceria dos roteiristas Bob Kane e Bill Finger. E apesar de diferen\u00e7as entre os personagens Gwynplaine e Joker, h\u00e1 muita semelhan\u00e7a na caracteriza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n<p>No livro de Victor Hugo, diversas cenas mostram que Gwynplaine &#8211; impedido de usar o riso como forma de responder \u00e0s situa\u00e7\u00f5es sociais, j\u00e1 que em seu rosto era escrachado seu riso constante &#8211; buscava no humor o caminho poss\u00edvel. Para Henri Bergson<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, o humor seria uma transposi\u00e7\u00e3o do moral para o cient\u00edfico, algo que reverteria o car\u00e1ter equ\u00edvoco da comicidade para a elabora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para a emo\u00e7\u00e3o, como no riso. \u201c[&#8230;] Um car\u00e1ter pode ser bom ou mau; pouco importa: se for insoci\u00e1vel, poderia tornar-se c\u00f4mico. Vemos agora que a gravidade do caso n\u00e3o importa tampouco: grave ou n\u00e3o grave, ele poder\u00e1 fazer-nos rir se tudo for arranjado para que n\u00e3o nos comova\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que Lacan<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, no Semin\u00e1rio 5, n\u00e3o poupa cr\u00edticas a Bergson ao dizer que \u201cj\u00e1 se proferiu uma por\u00e7\u00e3o de barbaridades particularmente obscuras, desde que o sr. Bergson fez sobre o riso um livro do qual podemos simplesmente dizer que \u00e9 leg\u00edvel<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>\u201d ou quando faz o coment\u00e1rio sobre a \u201c<em>rigidez mec\u00e2nica<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Lacan vai dizer \u201cque nada est\u00e1 mais longe de satisfazer-nos do que a teoria de Bergson, do mec\u00e2nico que surge no meio da vida\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. No entanto, mostra-se mais pr\u00f3ximo da ideia de Bergson sobre a necessidade do Outro na comunica\u00e7\u00e3o do riso. \u201cEm outras palavras, para que minha tirada espirituosa fa\u00e7a o Outro rir, \u00e9 preciso, como diz Bergson em algum lugar &#8211; e essa \u00e9 a \u00fanica coisa boa que existe em <em>O riso<\/em> [o livro] -, que ele seja da par\u00f3quia<em>\u201d<\/em><a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Lacan busca, neste momento do texto, recuperar a ideia da \u201cterceira pessoa\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, que Freud exp\u00f5e no quinto cap\u00edtulo do livro <em>Witz \u2013 \u201c<\/em>Os chistes e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente\u201d, na tentativa de elucidar a fun\u00e7\u00e3o do p\u00fablico na estrutura do dito espirituoso.<\/p>\n<p>No filme \u201cO homem que ri\u201d (1928), do alem\u00e3o Murnau, o ator Conrad Veidt foi desafiado a mostrar as emo\u00e7\u00f5es e toda essa comicidade e dramaticidade, em um filme do cinema mudo, mesmo expressando o sorriso permanente em seu rosto. O filme \u00e9 um dos exemplos mais conhecidos do cinema expressionista alem\u00e3o, caracterizado por uma forte \u00eanfase na estiliza\u00e7\u00e3o visual e na utiliza\u00e7\u00e3o de efeitos especiais para criar uma atmosfera de mist\u00e9rio e surrealismo. A dire\u00e7\u00e3o de Murnau foi considerada not\u00e1vel por suas composi\u00e7\u00f5es visualmente impressionantes, com o uso de sombras e ilumina\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica para criar um clima sombrio e melanc\u00f3lico. Veidt consegue expressar uma ampla gama de emo\u00e7\u00f5es, apesar da maquiagem grotesca que o transforma em um personagem deformado. Al\u00e9m disso, a trilha sonora do filme, composta por Werner Richard Heymann, contribui para a atmosfera intensa e emocional do filme.<\/p>\n<p>J\u00e1 na primeira hist\u00f3ria do Batman (1940), o personagem do Coringa, inspirado em Gwynplaine, \u00e9 algu\u00e9m que ri de maneira compulsiva e descontrolada, o que o torna um dos mais emblem\u00e1ticos vil\u00f5es dos quadrinhos. No filme \u201cJoker\u201d (2019), dirigido por Todd Phillips, o personagem do Coringa, interpretado por Joaquin Phoenix, sofre de uma condi\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica que o faz rir incontrolavelmente em momentos inapropriados. Quase como uma forma subversiva e pol\u00edtica do riso.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo 19<em>, \u201c<\/em>O homem que ri\u201d, em suas diversas apresenta\u00e7\u00f5es e vers\u00f5es, \u00e9 um universo de situa\u00e7\u00f5es e contracenas que nos remete \u00e0s diferentes perspectivas do riso, do humor e do c\u00f4mico. No entanto, a forma pol\u00edtica de apresenta\u00e7\u00e3o \u00e9 notavelmente frequente. \u00c0s vezes como uma ferramenta para questionar as normas sociais e pol\u00edticas<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Outras para trazer esta quest\u00e3o para o campo da interdi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou da subvers\u00e3o<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> dos valores dominantes da sociedade.<\/p>\n<p>Beirando ao final do romance de Victor Hugo, uma cena chama a aten\u00e7\u00e3o para este contexto pol\u00edtico e social do riso. Gwynplaine, que \u00e9 um homem sens\u00edvel e inteligente, come\u00e7a a falar com seriedade sobre sua hist\u00f3ria e sobre as injusti\u00e7as que sofreu em sua vida. No entanto, conforme ele come\u00e7a a falar, os nobres e aristocratas riem dele e de sua apar\u00eancia, considerando-o um mero objeto de divers\u00e3o e de esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p>A cena \u00e9 marcada pela tens\u00e3o entre a seriedade e a comicidade, com Gwynplaine tentando se afirmar como um sujeito com voz e vontade pr\u00f3prias, mas sendo constantemente interrompido e humilhado pelo riso dos outros.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, \u201cO homem que ri\u201d apresenta o riso e o humor como elementos complexos e multifacetados, capazes de gerar emo\u00e7\u00f5es entre o prazer e a alegria e a dor e a humilha\u00e7\u00e3o. O personagem Gwynplaine encena como o riso pode ser utilizado como uma forma de resist\u00eancia e subvers\u00e3o diante das adversidades, mas tamb\u00e9m \u00e9 um exemplo de como o riso pode ser usado como uma forma de opress\u00e3o e de desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Em entrevista, Bob Kane haveria dito a seguinte frase: <em>\u201cBill finger e eu criamos o Coringa\u2026 Bill era o roteirista\u2026 Jerry Robinson veio me ver com a carta de um baralho que tinha um curinga (joker)\u2026\u00a0 ele n\u00e3o teve absolutamente nada a ver, mas diria que sim at\u00e9 morrer.\u201d<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> BERGSON, Henri. <em>O Riso: ensaio sobre a significa\u00e7\u00e3o da comicidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fonte, 2001, p. 109.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, Jacques (1957-58) <em>O\u00a0Semin\u00e1rio, livro\u00a05: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 114.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Bergson far\u00e1 a seguinte cita\u00e7\u00e3o sobre o tema: O ris\u00edvel em ambas as situa\u00e7\u00f5es \u00e9 certa rigidez mec\u00e2nica onde deveria haver maleabilidade atenta e a flexibilidade viva de uma pessoa. A \u00fanica diferen\u00e7a nos dois casos \u00e9 que o primeiro se deu espontaneamente, enquanto o segundo foi produzido artificialmente. No primeiro caso, o transeunte apenas observava; no segundo, o brincalh\u00e3o experimenta. BERGSON, Henri. O Riso: ensaio sobre a significa\u00e7\u00e3o da comicidade. S\u00e3o Paulo: Martins Fonte, 2001, p. 08.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, Jacques (1999[1957-58]) <em>O\u00a0Semin\u00e1rio, livro\u00a0<strong>5<\/strong>: as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, p. 135.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Idem, p. 124.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Aqui, Lacan se refere a maneira como se constitui esse Outro, no plano da tirada espirituosa, como \u00e9 conhecido atrav\u00e9s do uso de Freud. O Outro constitui-se como um filtro que p\u00f5e em ordem e cria obst\u00e1culos naquilo que pode ser aceito ou simplesmente ouvido.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> BERGSON, Henri. <em>O Riso: ensaio sobre a significa\u00e7\u00e3o da comicidade<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fonte, 2001.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>Bakhtin, Mikhail. <em>A Cultura Popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento<\/em>. Bras\u00edlia: Editora Universidade de Bras\u00edlia, 1987.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6885&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][vc_column_text] O homem que ri Marcia Eliane Rosa Participante da Comiss\u00e3o de Arte e Cultura das XII Jornadas da EBP &#8211; SP\u00a0 O romance de Victor Hugo, \u201cO homem que ri\u201d, publicado em 1869, nos faz olhar para complexas quest\u00f5es sobre o riso e o humor. \u00a0A hist\u00f3ria traz como personagem principal Gwynplaine&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-7055","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-gaio","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7055","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7055"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7055\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7055"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7055"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7055"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=7055"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}