{"id":6797,"date":"2022-10-26T08:24:28","date_gmt":"2022-10-26T11:24:28","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6797"},"modified":"2022-10-26T08:24:28","modified_gmt":"2022-10-26T11:24:28","slug":"desajuste-entre-a-verdade-e-o-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/desajuste-entre-a-verdade-e-o-real\/","title":{"rendered":"DESAJUSTE ENTRE A VERDADE E O REAL"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Joaqu\u00edn Carrasco<br \/>\n<\/strong><strong>Membro da NEL e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6798\" aria-describedby=\"caption-attachment-6798\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6798\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/003-1.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"352\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/003-1.jpg 353w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/003-1-300x300.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/003-1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6798\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @beatrizmilhazes<\/figcaption><\/figure>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e a verdade varia entre o come\u00e7o de uma an\u00e1lise e uma an\u00e1lise que dura. Este ponto, que encontramos no argumento sob o subt\u00edtulo \u201cO parentesco da verdade com o gozo\u201d, causa-me especial interesse. Proponho-me, ent\u00e3o, um pequeno desenvolvimento em torno desta varia\u00e7\u00e3o, tomando como principal refer\u00eancia \u201cSutilezas anal\u00edticas\u201d, curso em que Jacques-Alain Miller distingue tr\u00eas modalidades da an\u00e1lise: a an\u00e1lise que come\u00e7a, a an\u00e1lise que dura e a an\u00e1lise que termina.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise que come\u00e7a, essa que \u201cse desenvolve em uma atmosfera de revela\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, est\u00e1 marcada pela formaliza\u00e7\u00e3o de algo que permanecia amorfo. Gra\u00e7as \u00e0 regra fundamental e \u00e0 suspens\u00e3o de todo ju\u00edzo por parte do analista, o analisante come\u00e7a a dizer aquilo que se apresenta a ele. Em outras palavras, um enfraquecimento do controle eg\u00f3ico sobre o que se diz, para dar lugar a um deixar-se falar pr\u00f3prio do sujeito. Graciela Brodsky coloca da seguinte maneira: \u201cA ideia de Lacan \u00e9 que o inconsciente com o qual operamos se constr\u00f3i na an\u00e1lise, o inconsciente \u00e9 um produto da transfer\u00eancia, \u00e9 um produto da associa\u00e7\u00e3o livre\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. S\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para o encontro com uma verdade in\u00e9dita para o sujeito, uma verdade que se produz a partir da experi\u00eancia do inconsciente.<\/p>\n<p>Com o tempo, o analisante se depara com essas verdades que n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas, mas que v\u00e3o se transformando. S\u00e3o verdades movedi\u00e7as. Encontra-se com algo que se experimenta como definitivo, mas que logo cai ou muda, dando lugar a uma nova verdade. Poder\u00edamos dizer que \u00e9 o encontro com <em>A verdade que n\u00e3o existe<\/em>. Apesar disso, alguns sujeitos continuam suas an\u00e1lises. Nesse caso, quando se trata de uma an\u00e1lise que dura, Miller nos diz que \u201ca revela\u00e7\u00e3o se faz mais escassa, se det\u00e9m, inclusive desaparece. Pois, trata-se de um regime completamente distinto. A revela\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda, do lugar essencial, pela repeti\u00e7\u00e3o [\u2026]. Na an\u00e1lise que dura, evidentemente, h\u00e1 revela\u00e7\u00f5es, mas o que se espera na verdade &#8211; tanto o analisante como o analista &#8211; \u00e9 algo da ordem da cess\u00e3o de libido, a retirada da libido, de alguns elementos rastre\u00e1veis, que se extra\u00edram na \u00e9poca da revela\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Da dimens\u00e3o da verdade \u00e0 dimens\u00e3o libidinal.<\/p>\n<p>O gozo vai tomando um lugar de maior protagonismo \u00e0 medida que o analisante se depara com a repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica. Apesar das voltas e da produ\u00e7\u00e3o de verdades que concernem ao inconsciente, o sintoma persiste. Agora bem, \u00e9 preciso dizer que a libido est\u00e1 desde o princ\u00edpio, considerando que a entrada em an\u00e1lise \u201cs\u00f3 \u00e9 conceb\u00edvel com a condi\u00e7\u00e3o de um deslocamento de investimento libidinal sobre o analista\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. No Semin\u00e1rio 8, Lacan diz do seguinte modo: \u201cPelo simples fato de haver transfer\u00eancia, estamos implicados na posi\u00e7\u00e3o de ser aquele que cont\u00e9m o <em>\u00e1galma<\/em>, o objeto fundamental que est\u00e1 em jogo na an\u00e1lise do sujeito\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. Se trata do momento no qual o analista se torna <em>partenaire<\/em>, entrando no programa de gozo do analisante. Esta dimens\u00e3o libidinal, presente desde o in\u00edcio, vai se desdobrando durante a an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Esta substitui\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o total &#8211; da verdade pela repeti\u00e7\u00e3o que o sintoma imp\u00f5e, p\u00f5e em destaque a dimens\u00e3o do gozo. Vai construindo o fantasma e situando o objeto que organiza a exist\u00eancia do <em>parl\u00eatre<\/em>. \u00c9 nesta dimens\u00e3o que se joga o final de uma an\u00e1lise, enquanto provoca uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o que muda ao sujeito o que h\u00e1 de mais \u2018profundo\u2019, e que \u00e9 sua rela\u00e7\u00e3o com o gozo. Esta rela\u00e7\u00e3o, na medida em que se revela condicionando tudo o que, para um sujeito, produz sentido e significa\u00e7\u00e3o, \u00e9 chamado de fantasma fundamental. Seu desvelamento, seu atravessamento, n\u00e3o deixa de ter incid\u00eancias na pr\u00f3pria puls\u00e3o; a posi\u00e7\u00e3o que dela resulta \u00e9 de um ser que n\u00e3o \u00e9 mais desavisado do seu fantasma\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. No horizonte da an\u00e1lise, n\u00e3o encontramos uma verdade absoluta a alcan\u00e7ar, mas sim uma muta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e seu gozo.<\/p>\n<p>Diante da pergunta: quem seria analista? Miller afirma: \u201calgu\u00e9m que tenha podido legitimamente concluir uma impossibilidade de <em>hystoriciza\u00e7\u00e3o<\/em>, poderia dar testemunho da verdade mentirosa sob a forma de cingir o desajuste entre a verdade e o real\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: \u00c9lida Biasoli<br \/>\nRevis\u00e3o: Cynthia Gon\u00e7alves Gindro<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Miller, J-A., <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Paid\u00f3s, 2011, p. 114.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Brodsky, G. <em>Endgame. Final de partida<\/em>. NEL-Caracas, 2012, p. 32.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Miller, J-A., <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p. 115.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Miller, J-A., <em>C\u00f3mo terminan los an\u00e1lisis. Paradojas del pase<\/em>. Grama Ediciones, 2022, p. 87.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacan, J., <em>Seminario 8 La transferencia<\/em>. Paid\u00f3s, 2013, p. 223.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J-A., <em>C\u00f3mo terminan los an\u00e1lisis. Paradojas del pase<\/em>. Grama Ediciones, 2022, p. 271-272.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Miller, J-A., <em>Sutilezas anal\u00edticas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2011, p. 135.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaqu\u00edn Carrasco Membro da NEL e da AMP A rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e a verdade varia entre o come\u00e7o de uma an\u00e1lise e uma an\u00e1lise que dura. Este ponto, que encontramos no argumento sob o subt\u00edtulo \u201cO parentesco da verdade com o gozo\u201d, causa-me especial interesse. 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