{"id":6794,"date":"2022-10-26T08:22:33","date_gmt":"2022-10-26T11:22:33","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6794"},"modified":"2022-10-26T08:22:33","modified_gmt":"2022-10-26T11:22:33","slug":"verdades-intercambiaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/verdades-intercambiaveis\/","title":{"rendered":"\u2018VERDADES\u2019 INTERCAMBI\u00c1VEIS"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Teresinha Natal Meirelles do Prado<br \/>\n<\/strong><strong>Membro da EBP\/AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6795\" aria-describedby=\"caption-attachment-6795\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6795\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/004-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"513\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/004-1.jpg 500w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/004-1-292x300.jpg 292w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6795\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @fortesdaloiagabriel<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um fen\u00f4meno cada vez mais evidente na atualidade \u00e9 o papel das redes sociais na vida dos seres humanos, algo que se intensificou ainda mais com a pandemia. Contudo, enquanto nos deliciamos com posts an\u00f3dinos de belas paisagens, comidas apetitosas, bichinhos e beb\u00eas bonitinhos, todo um mercado se realiza, cujos produtos nem sempre est\u00e3o claros, talvez porque, no final das contas, em parte, os produtos sejamos n\u00f3s, atrav\u00e9s dos dados que fornecemos sem saber.<\/p>\n<p>Quem assistiu ao document\u00e1rio da Netflix lan\u00e7ado em 2019: \u201cPrivacidade hackeada\u201d, certamente se perguntou, em algum momento do filme, se aquilo era mesmo um document\u00e1rio ou se se tratava de uma obra de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica, algo do estilo Matrix, este declaradamente ficcional, mas que nos confrontava com a inc\u00f4moda sensa\u00e7\u00e3o de que havia algo de verdadeiro no que v\u00edamos ali. Em Matrix, a atmosfera \u00e9 de sonho, os seres humanos s\u00e3o objetos de uma interven\u00e7\u00e3o que, atrav\u00e9s do coma induzido, criava uma realidade paralela em que os seres humanos, manipulados, realizavam estritamente o que estava previsto para sua p\u00edfia exist\u00eancia. O document\u00e1rio sobre o uso dos algoritmos nos faz sentir objetos de um pan\u00f3ptico universal sem precisar do coma induzido.<\/p>\n<p>O filme acompanha parte do processo que um americano, David Carrol, moveu na Inglaterra contra a empresa Cambridge Analytica (CA), para exigir que fornecessem os dados que foram coletados de seu perfil nas redes sociais. Sua inten\u00e7\u00e3o era, a partir disso, entender como atuava essa empresa que possu\u00eda \u2018bra\u00e7os\u2019 em diversos continentes a fim de escapar da legisla\u00e7\u00e3o de cada pa\u00eds. O desenrolar do processo mostrou a complexidade dessa empresa e do que ela fazia, paralelamente \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es de uma jornalista do jornal <em>The Guardian<\/em>, Carole Cadwalladr, que localizou duas figuras importantes nesse processo, que revelaram \u00e0 imprensa e \u00e0 justi\u00e7a os bastidores de sua a\u00e7\u00e3o e o que era comercializado.<\/p>\n<p>A CA se definia como uma \u201cempresa de mudan\u00e7a de comportamento\u201d, o \u201cSanto graal das comunica\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, associando Big data a testes de personalidade a fim de obter as melhores t\u00e9cnicas de persuas\u00e3o (ao estilo \u201cos fins justificam os meios\u201d), utilizando-se dos dados obtidos nas redes sociais (majoritariamente no Facebook, de quem eram clientes comerciais e em troca tinham acesso aos dados, com o consentimento desta outra empresa) a partir das intera\u00e7\u00f5es de cada perfil, e em seguida de todos os seus contatos, constituindo um banco de dados cuja magnitude \u00e9 incalcul\u00e1vel. Esses dados eram utilizados conforme os interesses dos clientes que os contratavam, em especial pol\u00edticos interessados em se servir das redes sociais para suas campanhas. As t\u00e1ticas da CA eram t\u00e3o agressivas e eficazes, que o sucesso era garantido. O slogan de seu vice-presidente e um de seus fundadores era: \u201cSe voc\u00ea quiser mudar uma sociedade, deve primeiro destru\u00ed-la\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Em seu material de divulga\u00e7\u00e3o, a empresa informava sua atua\u00e7\u00e3o bem-sucedida em mais de 200 elei\u00e7\u00f5es espalhadas pelo globo terrestre. Um dos cases em seu material de divulga\u00e7\u00e3o foram as elei\u00e7\u00f5es em Trinidad-Tobago, em que havia uma polariza\u00e7\u00e3o entre cidad\u00e3os de origem indiana e caribenhos. Contratados pela candidata cuja elei\u00e7\u00e3o sua atua\u00e7\u00e3o garantiu, CA realizou um mapeamento dos perfis dos jovens desse pa\u00eds, definindo seu alvo: visavam os jovens, com uma campanha que deveria se mostrar como apol\u00edtica, pois os dados mostravam que a maioria dos jovens n\u00e3o ligava para pol\u00edtica; tinha que ser incendi\u00e1ria e contagiosa, pois esse p\u00fablico era, segundo a empresa, pregui\u00e7oso. Ent\u00e3o criaram a campanha: \u201cFa\u00e7a parte da nossa turma, fa\u00e7a parte do movimento\u201d. Utilizaram um s\u00edmbolo conhecido de todos, a sauda\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia naquele pa\u00eds (ao que parece, essa etapa do slogan e da apropria\u00e7\u00e3o de um s\u00edmbolo nacional \u00e9 um elemento estrat\u00e9gico nessas a\u00e7\u00f5es) e intitularam a campanha: \u201cDo so\u201d (n\u00e3o votarei). A difus\u00e3o foi massiva; a aposta era que os jovens caribenhos n\u00e3o votariam, ao passo que os indianos, apegados \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es familiares, obedeceriam a seus pais. O resultado foi gritante: uma diferen\u00e7a de 40% na faixa et\u00e1ria entre 18-35 anos, fazendo oscilar em 6% os resultados anteriormente estimados, o que garantiu a vit\u00f3ria de sua cliente. Outras campanhas vitoriosas para seus clientes foram as de Trump, do Brexit, as elei\u00e7\u00f5es da Argentina em 2015, e qui\u00e7\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es de 2018 no Brasil&#8230; Na Fran\u00e7a, em algum momento, o dado aparece no filme quando Kaiser afirma, durante o julgamento, que se recusou a participar das tratativas da campanha de Marine Le Pen, e essa candidata n\u00e3o chegou a vencer as elei\u00e7\u00f5es. Seus clientes eram normalmente candidatos de extrema-direita, dispostos a ultrapassar qualquer barreira \u00e9tica para atingir seus objetivos.<\/p>\n<p>Uma reflex\u00e3o inquietante \u00e9 feita pela jornalista do <em>Guardian<\/em>: A CA foi dissolvida por seus s\u00f3cios, muito provavelmente para eliminar provas contra sua atua\u00e7\u00e3o il\u00edcita, mas sua l\u00f3gica de funcionamento n\u00e3o acabou. Podemos ver que governos totalit\u00e1rios est\u00e3o em ascens\u00e3o e utilizam essa tecnologia para difundir \u00f3dio e medo atrav\u00e9s do Facebook. Cita como exemplo o Brasil: &#8220;(&#8230;) esse extremista de direita que foi eleito, e sabemos que o WhatsApp, que faz parte do Facebook, estava claramente implicado na divulga\u00e7\u00e3o de <em>fake news<\/em> l\u00e1. (&#8230;) \u00c9 sobre incutir medo e \u00f3dio para dominar um pa\u00eds, dividir e conquistar. (&#8230;) Essas plataformas que foram criadas para nos conectar, agora s\u00e3o usadas como armas. E \u00e9 imposs\u00edvel saber o que \u00e9 o qu\u00ea, pois est\u00e1 acontecendo nas mesmas plataformas em que nos comunicamos com amigos ou compartilhamos fotos de beb\u00eas. Nada \u00e9 o que parece ser&#8230; Depois disso, ainda \u00e9 poss\u00edvel termos elei\u00e7\u00f5es livres e justas?\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 deste modo que as redes sociais, em especial o Facebook, aponta o document\u00e1rio, exploram a audi\u00eancia emotiva, especialmente o medo e a raiva, em seguida vendem esses dados para terceiros. Com isto se constitui um imenso mercado de consumo, e quem conseguir domin\u00e1-lo, ser\u00e1 hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Brittany Kaiser, que trabalhou por anos nesse conglomerado, foi uma figura-chave no rastreio das a\u00e7\u00f5es dessa empresa. E mais: ela desvela um processo irrevers\u00edvel, em que se evidencia uma nova ordem mundial, regida pela for\u00e7a do mercado de consumo: os dados que cada cidad\u00e3o fornece voluntariamente, sem saber que usos esp\u00farios podem ser feitos deles. Kaiser destaca que este \u00e9 o bem mais valioso no planeta atualmente, vale mais do que ouro, e \u00e9 utilizado como instrumento de guerra, uma guerra da comunica\u00e7\u00e3o, exatamente como os PSYOPS<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> dos militares.<\/p>\n<p>Os dados coletados<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> eram divididos em tr\u00eas \u00e2mbitos: factual (dados demogr\u00e1ficos, geogr\u00e1ficos, socioecon\u00f4micos); atitudinal (rea\u00e7\u00f5es a postagens, dados de consumo, dados de estilo de vida e padr\u00f5es de compra, tipos de engajamento c\u00edvico, pol\u00edtico e a emiss\u00e3o de opini\u00f5es nas redes) e de personalidade (dados obtidos por testes que os usu\u00e1rios preenchiam nas pr\u00f3prias redes, sem saber que seriam utilizados para outros fins), bem como suas rea\u00e7\u00f5es a diferentes tipos de persuas\u00e3o (se eram tocados pelo medo, pela press\u00e3o social, pelo sentimento de autoridade, de escassez ou reciprocidade). A partir dessas informa\u00e7\u00f5es, que chegavam a reunir 5000 pontos de dados de cada usu\u00e1rio (conforme divulga\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria CA), formulavam-se estrat\u00e9gias de convencimento que fundamentariam as campanhas personalizadas e massivas, como a do exemplo acima. A partir de ent\u00e3o, concentravam for\u00e7as naqueles que podiam mudar de ideia, at\u00e9 que eles vissem o mundo da forma como a CA queria. No caso da campanha presidencial dos EUA, por exemplo, a empresa utilizava os dados mapeados para orientar uma publicidade particularizada, colocando o usu\u00e1rio em contato com posts que tocavam exatamente nos pontos sens\u00edveis de seus temores e aspira\u00e7\u00f5es para aplic\u00e1-los \u00e0s figuras de Hillary e Trump, manipulando o modo como viam cada um dos pol\u00edticos. A estrat\u00e9gia era encontrar os pontos vulner\u00e1veis nesses indecisos e bombarde\u00e1-los com posts persuasivos que n\u00e3o tinham nenhum compromisso com princ\u00edpios \u00e9ticos ou fidedignidade. Eram t\u00e1ticas de mercado, e suas estrat\u00e9gias eram os meios para obter a meta contratada com o cliente.<\/p>\n<p>Este caso da CA ilustra muito bem o que em 1970 Lacan descreveu sobre o discurso capitalista, que deriva de uma muta\u00e7\u00e3o em que o lugar de agente passa a ser ocupado pelo $, e o lugar da verdade pelos S<sub>1<\/sub>, que se pluralizam, assim como o produto, os objetos <em>a<\/em>, objetos descart\u00e1veis, s\u00e3o oferecidos pelo mercado com a promessa de complementaridade e gozo, que se torna um imperativo insaci\u00e1vel, aumentando, em vez de arrefecer o mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Lacan nomeia o novo mestre nesse discurso: o capitalista, que com o aux\u00edlio do discurso universit\u00e1rio estabelece os fundamentos para um consumo \u2018orientado\u2019 pela ci\u00eancia. O tipo de com\u00e9rcio exercido pelas redes sociais consegue amalgamar esses dois discursos: o capitalista vende ao seu cliente um resultado bem-sucedido nas elei\u00e7\u00f5es e o universit\u00e1rio lan\u00e7a m\u00e3o de t\u00e9cnicas de avalia\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e manipula\u00e7\u00e3o dirigida (o termo que utilizam \u00e9 \u2018microdirecionamento comportamental\u2019). E o mais intrigante que vemos nesse novo matema \u00e9 que o agente desse discurso \u00e9 o pr\u00f3prio $; \u00e9 ele quem quer consumir e busca o suporte da ci\u00eancia para comprar seus produtos e solu\u00e7\u00f5es de modo avalizado. Conforme aponta Laurent, Lacan \u201cprop\u00f4s, para o discurso capitalista, que de fato n\u00e3o havia ali mais nenhum significante mestre, exceto a pr\u00f3pria vacuidade do sujeito, o culto de sua pr\u00f3pria autenticidade, de seu desenvolvimento, de sua autorrealiza\u00e7\u00e3o e de sua autorrefer\u00eancia\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Nesse sentido o consumidor sujeito \u00e9 coautor do que o consome. Na realidade, o discurso capitalista ludibria o sujeito, fazendo-o acreditar-se agente, quando na verdade ele \u00e9 comandado por uma profus\u00e3o de significantes-mestre (S<sub>1<\/sub>) que se sucedem no lugar da verdade e servem ao imperativo do consumo.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o que s\u00e3o as redes sociais? Embora n\u00e3o sejam objetos palp\u00e1veis, s\u00e3o um tipo especial de <em>gadget<\/em>, na medida em que oferecem a promessa de aliviar a solid\u00e3o irremedi\u00e1vel daqueles que a elas recorrem, seja para tomar conhecimento do que se passa \u00e0 sua volta, sob o crivo de seus interesses particulares (a chamada \u2018bolha\u2019), seja para sentir-se protagonista em uma hist\u00f3ria que parece seguir seu curso a despeito das idiossincrasias individuais, ou tamb\u00e9m para \u2018mostrar-se ao mundo\u2019, mostrar um sucesso e realiza\u00e7\u00e3o montados para os olhos de seus interlocutores. Atrav\u00e9s delas, muitos colocam seu fantasma a c\u00e9u aberto, compartilhando-o em comunidades organizadas segundo certos modos de gozo e nas intera\u00e7\u00f5es p\u00fablicas com desconhecidos, que subitamente podem passar \u00e0 categoria de \u2018contatos\u2019, sin\u00f4nimo de uma \u2018amizade\u2019 virtual. As redes tamb\u00e9m oferecem ocasi\u00e3o para dar lugar a gozos inconfess\u00e1veis, o anteparo da tela parece destravar algumas censuras sociais, o que encoraja a \u2018tirar do arm\u00e1rio\u2019 velhos medos e intoler\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Quando Lacan construiu o discurso do capitalista a partir da muta\u00e7\u00e3o no discurso do mestre, ele o fez por observar o que j\u00e1 se delineava nos anos 70.<\/p>\n<p>Podemos nos perguntar: por que essas t\u00e1ticas muitas vezes esdr\u00faxulas de difus\u00e3o massiva de vers\u00f5es constru\u00eddas dos fatos funcionam t\u00e3o bem? T\u00e1ticas de publicidade para a manipula\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es sempre existiram, mas n\u00e3o com a efic\u00e1cia do manejo dos dados que orientam o tipo de artif\u00edcio utilizado para cada tipo de p\u00fablico, tal como vemos na atualidade.<\/p>\n<p>Isto tamb\u00e9m Lacan permite vislumbrar. A partir da constata\u00e7\u00e3o do lugar e da a\u00e7\u00e3o do novo mestre, o capitalista, auxiliado pelo discurso universit\u00e1rio, que forneceu os fundamentos para um consumo \u2018orientado\u2019 pela ci\u00eancia, j\u00e1 na d\u00e9cada de 70, ele identificou e previu mudan\u00e7as na subjetividade que nos tempos atuais se tornaram evidentes: o que muitos autores referem como a queda dos valores e das refer\u00eancias, a efemeridade das rela\u00e7\u00f5es (l\u00edquidas), a exig\u00eancia de buscar felicidade a curto prazo e a aus\u00eancia de projetos ou ideais de futuro, est\u00e1 relacionado \u00e0 pluraliza\u00e7\u00e3o dos Nomes-do-pai, que se enuncia no que Lacan chamou de p\u00e8re-vers\u00e3o (especialmente a partir do <em>Semin\u00e1rio<\/em> 21: <em>Les non-dupes errent<\/em>, t\u00edtulo que evoca essa pluraliza\u00e7\u00e3o pelo trocadilho com <em>Les non-dupes errent<\/em>, os n\u00e3o-tolos sendo os \u2018tolos do pai\u2019, sem o que seu destino \u00e9 a err\u00e2ncia), que desmistifica a ideia de pervers\u00e3o ao associ\u00e1-la ao pai, destacando que o que nomeia n\u00e3o \u00e9 a autoridade do pai simb\u00f3lico, mas uma opera\u00e7\u00e3o meio capenga, que permite que o sujeito tenha acesso \u00e0 l\u00f3gica f\u00e1lica e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de falante pelo modo particular como o pai real (que n\u00e3o se trata aqui do pai da horda primitiva, mas daquele que toma uma mulher como objeto causa de seu desejo e faz dela seu sintoma), ocupando o que seria uma posi\u00e7\u00e3o de exce\u00e7\u00e3o, que parece remeter ao fato de servir de conector para que ela \u201cse torne esse Outro para ela mesma, como o \u00e9 para ele\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Isto tamb\u00e9m aparece no <em>Semin\u00e1rio <\/em>20, em que Lacan discute os fundamentos e decorr\u00eancias do famoso enunciado \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, em que afirma que \u201co ato de amor \u00e9 a pervers\u00e3o polimorfa do macho\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. Em 1975, Lacan \u00e9 bastante claro ao associar a pervers\u00e3o paterna ao que \u00e9 necess\u00e1rio para que um pai possa fazer sua fun\u00e7\u00e3o<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, e evoca o fato de que um pai deve falhar em ocupar essa fun\u00e7\u00e3o, caso contr\u00e1rio, como no exemplo de Schreber, \u00e9 o que conduz ao pior: \u201cnada \u00e9 pior do que o pai que profere a lei sobre tudo\u201d<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>A partir dos anos 70, \u00e9 poss\u00edvel evidenciar no ensino de Lacan as rela\u00e7\u00f5es entre a ascens\u00e3o do discurso capitalista, a pluraliza\u00e7\u00e3o dos nomes-do-pai, a no\u00e7\u00e3o de p\u00e8re-vers\u00e3o e o imperativo de gozo nas sociedades contempor\u00e2neas, uma vez que essa \u2018vers\u00e3o do pai\u2019 descrita por ele se orienta pelo gozo e n\u00e3o propriamente pelo desejo. Sendo assim, a leitura dos fen\u00f4menos de massa a partir do tra\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o ligado ao ideal j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente, temos que levar em conta as comunidades de gozo e o mais-de-gozar que circula e se oculta em suas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se o que sustenta o &#8216;pacto social&#8217; n\u00e3o \u00e9 mais a interdi\u00e7\u00e3o, sob os ausp\u00edcios do NP, e com sua queda a ideia de uma verdade indiscut\u00edvel tamb\u00e9m caiu por terra, tal como vemos justamente nos usos que os discursos de extrema-direita fazem disso (por exemplo, ao afirmar, como uma verdade, que Hitler era de esquerda, sob a alega\u00e7\u00e3o do nome de seu partido, &#8216;Nacional-socialista&#8217;, ou como em um post recente de um integrante de um movimento intitulado &#8216;gays com Bolsonaro&#8217;, que afirma ter derrubado a &#8216;narrativa&#8217; dos movimentos LGBT, que ele acusa de homofobia&#8230;), ca\u00edmos em um relativismo desbussolado, em que a &#8216;narrativa&#8217; de cada um \u00e9 sua &#8216;verdade&#8217; e podem haver &#8216;verdades&#8217; incompat\u00edveis que reivindicam igualmente o estatuto de verdades&#8230; Isto justifica, por exemplo, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00eamica da americana que se declarou negra nos EUA, sem nenhum fundamento gen\u00e9tico que justificasse essa afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se basta declarar-se para ser, a verdade se torna o equivalente da fala de cada um&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Cf. Privacidade hackeada. Dire\u00e7\u00e3o: Karim Amer\/Jehane Noujaim. EUA\/Egito, 2019. Dispon\u00edvel em Netflix.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <em>Ibidem.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Cf. Privacidade hackeada. <em>Op.cit.<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> <em>Psychological operations<\/em> (opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, Op Psico), s\u00e3o t\u00e9cnicas de combate, termo militar que designa o que se faz em uma guerra a fim de manipular as pessoas; s\u00e3o recursos com a finalidade de influenciar a tropa inimiga, afetando valores, cren\u00e7as, emo\u00e7\u00f5es, motiva\u00e7\u00f5es, racioc\u00ednio ou o comportamento de seu p\u00fablico-alvo. Fonte: Wikipedia, verbete: Guerra psicol\u00f3gica.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Fonte: <a href=\"https:\/\/www.hacking-social.com\/2022\/01\/31\/comment-manipuler-les-elections-laffaire-cambridge-analytica\/\">Comment manipuler les \u00e9lections ? L&#8217;affaire Cambridge Analytica [CA1] &#8211; Hacking social (hacking-social.com)<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Fala de Eric Laurent na aula de 27\/11\/96 do Curso de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana \u201cO Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. (1998[1960]). \u201cDiretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina\u201d. \u00a0In\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p.741.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lacan, J. (1985 [1972-73]).\u00a0<em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20:\u00a0<em>mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p.98.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, J. [1974-75]. \u201cRSI\u201d (in\u00e9dito), aula de 21\/01\/75.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Idem,\u00a0<em>ibidem<\/em>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresinha Natal Meirelles do Prado Membro da EBP\/AMP Um fen\u00f4meno cada vez mais evidente na atualidade \u00e9 o papel das redes sociais na vida dos seres humanos, algo que se intensificou ainda mais com a pandemia. Contudo, enquanto nos deliciamos com posts an\u00f3dinos de belas paisagens, comidas apetitosas, bichinhos e beb\u00eas bonitinhos, todo um mercado&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6794","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-inter-dito","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6794","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6794"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6794\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6794"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6794"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6794"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6794"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}