{"id":6791,"date":"2022-10-26T08:21:11","date_gmt":"2022-10-26T11:21:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6791"},"modified":"2022-10-26T08:21:11","modified_gmt":"2022-10-26T11:21:11","slug":"intervencao-sobre-o-vetor-o-outro-que-nao-existe-e-o-da-verdade-o-lugar-da-verdade-em-lacan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/intervencao-sobre-o-vetor-o-outro-que-nao-existe-e-o-da-verdade-o-lugar-da-verdade-em-lacan\/","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00c3O SOBRE O VETOR: \u201cO OUTRO (QUE N\u00c3O EXISTE) \u00c9 O DA VERDADE\u201d &#8211; O LUGAR DA VERDADE EM LACAN"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Luiz Fernando Carrijo da Cunha<br \/>\n<\/strong><strong>AME, membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6792\" aria-describedby=\"caption-attachment-6792\" style=\"width: 515px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6792\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/005-1.jpg\" alt=\"\" width=\"515\" height=\"495\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/005-1.jpg 515w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/005-1-300x288.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 515px) 100vw, 515px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6792\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @adrianavarejao<\/figcaption><\/figure>\n<blockquote><p><em>\u201cMas, para que me encontreis onde estou, vou ensinar-vos por que sinal reconhecer-me. Homens, escutai, eu vos dou o segredo! Eu, a verdade, falo&#8230;\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>1 \u2013<\/strong> O sentido do retorno a Freud no dito primeiro ensino de Lacan n\u00e3o dispensa o lugar que a verdade ocupa nos desenvolvimentos de Freud. Lacan lhe \u00e9 fiel: O fracasso da linguagem \u201cpremia seu mais secreto anseio\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, ao localizar a verdade nas entrelinhas do fio da linguagem que, ao fracassar com seus \u201catos falhos\u201d, demonstra ali um efeito \u201cque, por mais fugidio que seja\u201d, n\u00e3o deixa de ser um acontecimento, no sentido mesmo da conting\u00eancia. Entretanto, ao seguir a leitura desse texto, n\u00e3o podemos deixar de ler que Lacan privilegia, e n\u00e3o poderia ser diferente, que o que interessa a Freud n\u00e3o \u00e9 a verdade enquanto fato incontest\u00e1vel, mas seus efeitos, ou seja, o efeito de verdade est\u00e1 intimamente ligado \u00e0 estrutura da linguagem na medida em que da\u00ed se desprende, na conting\u00eancia da diacronia, um <em>\u201cr\u00e9bus\u201d<\/em> que vem se alojar no lugar de um fracasso. O amor \u00e0 verdade em Freud est\u00e1 imbricado nas malhas de um sentido \u201cOutro\u201d que se depreende de uma \u201cOutra cena\u201d que vem fazer intrus\u00e3o na cadeia do discurso. A esse \u201cefeito de verdade\u201d podemos acrescentar, \u00e0 guisa de esclarecimento, o pr\u00f3prio sujeito do inconsciente ao se apresentar em sua divis\u00e3o. Lacan se ocupa desse lugar do efeito de verdade ao comentar o \u201ccaso Dora\u201d quando se refere aos desenvolvimentos da verdade numa raz\u00e3o dial\u00e9tica se servindo de Hegel. A quest\u00e3o \u00e9 colocada precisamente como um problema pois da \u201ctese\u201d que engendra uma \u201cant\u00edtese\u201d surge um movimento infinito cuja \u201c<em>Aufhebung\u201d<\/em> s\u00f3 ser\u00e1 decidida pela significa\u00e7\u00e3o do falo<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Ora, nesse sentido, recuperamos o efeito de verdade como pertencendo \u00e0 uma categoria inst\u00e1vel e s\u00f3 encontrando um ponto de estabilidade na significa\u00e7\u00e3o do falo. Isso abriria todo um cap\u00edtulo a ser explorado, ou seja, as rela\u00e7\u00f5es da verdade com o falo.<\/p>\n<p>Em um salto em dist\u00e2ncia, Lacan levou \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias esse efeito de verdade ao escrever a partir da estrutura dos quatro discursos, o sujeito barrado ocupando o lugar da verdade no discurso do mestre, sustentando o lugar deste como agente do discurso.<\/p>\n<p><strong>2 \u2013<\/strong> <strong>A verdade do Outro <\/strong><\/p>\n<p>O movimento da verdade no ensino de Lacan tem seus momentos privilegiados que demonstram sutilezas de desdobramentos que nos permitem estabelecer diferentes matizes. Em 1964, ainda com a \u00e2ncora do inconsciente como estruturado pela linguagem, Lacan d\u00e1 sua defini\u00e7\u00e3o, um pouco dura, quanto ao lugar e a fun\u00e7\u00e3o do Outro; ao estabelecer a transfer\u00eancia como um conceito fundamental d\u00e1 ao Outro o \u201clugar da fala, virtualmente o lugar da verdade\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> esclarecendo, antes, que o sujeito como efeito da linguagem estabelece com o Outro uma rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia em que aliena\u00e7\u00e3o e separa\u00e7\u00e3o se constituem como dois movimentos l\u00f3gicos necess\u00e1rios \u00e0 causa\u00e7\u00e3o do sujeito. Dessa l\u00f3gica, al\u00e9m do sujeito e do Outro, Lacan p\u00f5e em destaque o objeto <em>a<\/em> cujo \u00edndice se ligar\u00e1 \u00e0 fantasia como lugar de \u201cabrigo\u201d \u00e0 libido e cuja fun\u00e7\u00e3o ser\u00e1 a de dar suporte ao desejo, advindo a partir do que, no lugar do Outro, falta. Temos ent\u00e3o esta nuance onde do ponto em que a verdade fala, passando por sua deten\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica na significa\u00e7\u00e3o do falo que corresponde \u00e0 sua \u201cinstabilidade\u201d, chegamos no Outro como \u201clugar virtual da verdade\u201d que ao meu ver, se inscreve como a \u201cfalta no Outro\u201d, preenchida, nesse tempo, pelo objeto <em>a<\/em> abrindo a perspectiva da rela\u00e7\u00e3o da\u00a0 verdade com o objeto, raz\u00e3o pela qual Lacan esclarece que a transfer\u00eancia \u00e9, segundo Freud, resist\u00eancia<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> na medida em que preside o fechamento do inconsciente \u2013 o sil\u00eancio na an\u00e1lise liga-se, nessa vertente, \u00e0 presen\u00e7a do objeto. Ser\u00e1 pelo discurso da histeria que Lacan far\u00e1 equivaler o lugar da verdade sendo ocupado ali pelo objeto sustentando a divis\u00e3o subjetiva como agente do discurso.<\/p>\n<p><strong>3 \u2013<\/strong> J\u00e1 numa outra perspectiva, mas sem abandonar as premissas anteriores, acompanhamos Lacan, na elabora\u00e7\u00e3o dos discursos, dar ao objeto <em>a<\/em> a categoria de mais-de-gozar, localizando neste a fun\u00e7\u00e3o de condensador de gozo onde a verdade far\u00e1 parceria com o que do gozo apresenta-se como excesso. Lacan faz um uso da l\u00f3gica juntando-a \u00e0 estrutura de linguagem onde a verdade n\u00e3o depende mais de uma <em>\u201cAufhebung\u201d<\/em> dial\u00e9tica, mas aparece contida nas proposi\u00e7\u00f5es gramaticais onde o falso ou o verdadeiro aparecem desvinculados do fato; ou seja, a verdade est\u00e1 presente numa proposi\u00e7\u00e3o, mas na medida em que a proposi\u00e7\u00e3o \u00e9 enunciada por um sujeito cuja divis\u00e3o o preside, quer dizer, um sujeito dividido pelo seu gozo, a verdade estar\u00e1 do lado onde o gozo se d\u00e1! Eis a\u00ed a nuance cujo desenvolvimento podemos entrever a inexist\u00eancia do Outro. Com a frase \u201c<em>voc\u00ea me espanca\u201d<\/em> que Lacan<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> retoma de Freud em \u201cBate-se numa crian\u00e7a\u201d, a proposi\u00e7\u00e3o para ser colocada \u00e0 prova da verdade, deve ser tomada desde seu lugar de enuncia\u00e7\u00e3o, ou seja, do lugar do Outro onde o <em>\u201cvoc\u00ea\u201d<\/em> n\u00e3o est\u00e1 necessariamente em exist\u00eancia, mas logicamente adquire um corpo! O \u201c<em>voc\u00ea\u201d<\/em> n\u00e3o \u00e9 mais que o sujeito em sua face de gozo que esconde a verdade. Lacan introduz a pergunta: &#8211; \u201cO que \u00e9 que tem um corpo e n\u00e3o existe? Resposta \u2013 O grande Outro&#8230;\u201d. E, acrescenta Lacan, ao \u201cn\u2019Ele crer (fazendo refer\u00eancia a Deus como Outro, sua \u00fanica chance de exist\u00eancia \u00e9 que Ele goze, que Ele seja o gozo\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Mas Lacan n\u00e3o para por a\u00ed pois interroga a pr\u00f3pria l\u00f3gica para dar conta da verdade e do gozo.<\/p>\n<p><strong>4 \u2013 O Outro que n\u00e3o existe&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Tirando um pouco mais de consequ\u00eancia da frase proposicional \u201c<em>Voc\u00ea me espanca\u201d: <\/em>&#8211; O gozo aparece como \u201coutrificado\u201d numa vers\u00e3o do Outro cuja exist\u00eancia o garante. Para alcan\u00e7ar o gozo no corpo, antes, se faz necess\u00e1rio postular, por parte do sujeito, as modalidades do Outro que marcou sua exist\u00eancia \u2013 encontrar sua estrutura de fic\u00e7\u00e3o no decorrer e na conclus\u00e3o de uma an\u00e1lise, muda o pr\u00f3prio estatuto da verdade, agora aparecendo como barrada na medida mesma em que do gozo, ela a verdade, se cala. Por este desenvolvimento quanto \u00e0 verdade e o gozo no Semin\u00e1rio 17, pode-se entrever que ser\u00e1 da pr\u00f3pria l\u00f3gica concebida como inconsistente que Lacan postular\u00e1 que o Outro n\u00e3o existe na medida em que para existir torna-se necess\u00e1rio atrelar \u00e0 consist\u00eancia do gozo no corpo desse Outro. Isso n\u00e3o esgota toda a quest\u00e3o do gozo e da verdade. H\u00e1 o real que, por excel\u00eancia, est\u00e1 em ex-sist\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao semblante concebido como a soma do sentido, o simb\u00f3lico e da consist\u00eancia, o imagin\u00e1rio. E ser\u00e1 do lado do real que o gozo enquanto tal ser\u00e1 enodado aos outros dois na vertente sintom\u00e1tica. \u00a0Ora, toda a quest\u00e3o que se coloca hoje no plano da verdade, sua explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ficar simplesmente no que diz respeito aos efeitos de verdade que, recalcados, retornariam no simb\u00f3lico. \u00c9 preciso ir mais al\u00e9m e incluir nessa trama a incid\u00eancia do real, ou seja, h\u00e1 algo dessa verdade que se encontra foracluida, fazendo seu retorno no real. A chamada \u201cera da p\u00f3s-verdade\u201d em que vivemos em nossos dias torna-se um corol\u00e1rio de tal retorno no real. O Outro que n\u00e3o existe, em suas mais variadas modalidades, assim como seus comit\u00eas de \u00e9tica que proliferam, n\u00e3o \u00e9 mais do que o testemunho de tal fato. O Outro n\u00e3o existe, mas o real sim. Desconsider\u00e1-lo torna nossa \u00e9poca incerta quanto ao que da\u00ed poder\u00e1 advir e o cinismo, que \u00e9 companheiro dessa nega\u00e7\u00e3o, modula modos de gozo que poder\u00e3o levar a civiliza\u00e7\u00e3o ao pior.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, J. \u201cA coisa freudiana ou o sentido do retorno a Freud\u201d. In: \u201cEscritos\u201d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 410.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Idem, p. 411.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. \u201cA significa\u00e7\u00e3o do falo\u201d in \u201cEscritos\u201d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 692.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise\u201d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 124-125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Idem, p. 125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. \u201cO Semin\u00e1rio, livro 17: O avesso da psican\u00e1lise\u201d. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1991, p. 62.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Idem, p. 62 e 63.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Fernando Carrijo da Cunha AME, membro da EBP e da AMP \u201cMas, para que me encontreis onde estou, vou ensinar-vos por que sinal reconhecer-me. Homens, escutai, eu vos dou o segredo! 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