{"id":6737,"date":"2022-09-25T09:43:19","date_gmt":"2022-09-25T12:43:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6737"},"modified":"2022-09-25T09:43:19","modified_gmt":"2022-09-25T12:43:19","slug":"consideracoes-sobre-o-sintoma-e-a-angustia-na-experiencia-analitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/consideracoes-sobre-o-sintoma-e-a-angustia-na-experiencia-analitica\/","title":{"rendered":"CONSIDERA\u00c7\u00d5ES SOBRE O SINTOMA E A ANG\u00daSTIA NA EXPERI\u00caNCIA ANAL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Carmen Silvia Cervelatti<br \/>\n<\/strong><strong>Membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6723\" aria-describedby=\"caption-attachment-6723\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6723\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/004-1-300x203.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: neilcanningart\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/004-1-300x203.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/004-1.jpg 520w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6723\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: neilcanningart<\/figcaption><\/figure>\n<p>Freud notou o paradoxo do sintoma; por mais que ele fosse interpretado algo dele persistia, raz\u00e3o inclusive da rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa ou da puls\u00e3o de morte, porque algo n\u00e3o se dobra ao tratamento pela palavra. Esse osso da an\u00e1lise acompanhou suas elabora\u00e7\u00f5es, chegando inclusive a postular em 1937, em \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d, que h\u00e1 um resto intranspon\u00edvel nas an\u00e1lises, por mais que se tenha conseguido o esclarecimento da neurose infantil \u2013 s\u00e3o os restos sintom\u00e1ticos. Miller observa que, com esses restos, Freud esbarrou no real do sintoma. \u201c\u00c9 sobre o sintoma que se torna ardente a quest\u00e3o de pensar a correla\u00e7\u00e3o, a conjun\u00e7\u00e3o entre o verdadeiro e o real. Nesse sentido, o sintoma \u00e9 um Jano, ele tem duas faces, uma face de verdade e uma face de real\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>. Por isso, um sintoma deve ser lido como uma escrita, j\u00e1 que a interpreta\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 sua face de sentido.<\/p>\n<p>No trabalho anal\u00edtico podemos aproximar o sintoma como gozo, como real, \u00e0 ang\u00fastia cuja emerg\u00eancia \u00e9 um acontecimento de fundamental import\u00e2ncia cl\u00ednica; enquanto sinal \u00e9 um afeto norteador.\u00a0 Em \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d Freud se dedicou a estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre ambos, mais detidamente com a fobia, uma prote\u00e7\u00e3o contra a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>O afeto \u00e9 um acontecimento de corpo, como o sintoma. Inclusive \u00e9 poss\u00edvel aproximar sintoma e ang\u00fastia por aquilo que concerne ao corpo dos falasseres. Enquanto o primeiro tem uma face interpret\u00e1vel e outra real, a ang\u00fastia enquanto sinal do real n\u00e3o se presta a ser capturada pelo sentido, n\u00e3o se deixa agarrar pela linguagem. \u00c9 o que Lacan formula no <em>Semin\u00e1rio 22, RSI, <\/em>quando, depois do <em>Semin\u00e1rio 10, a ang\u00fastia<\/em>, volta a trabalhar o texto freudiano \u201cInibi\u00e7\u00e3o, sintoma e ang\u00fastia\u201d, agora com o n\u00f3 borromeano, localizando-a no avan\u00e7o do registro do real sobre o imagin\u00e1rio, ou seja, o simb\u00f3lico est\u00e1 fora de acesso.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 poss\u00edvel operar sobre o sintoma. Por um lado, especialmente na histeria, o sintoma indica que algo n\u00e3o vai bem no Real porque \u00e9 fonte de reclama\u00e7\u00e3o; e, por outro lado, por ser efeito do Simb\u00f3lico no Real, \u00e9 poss\u00edvel reduzi-lo desde que o inconsciente responde pelo sintoma. Na experi\u00eancia anal\u00edtica, ao se buscar a verdade, \u00e9 inexor\u00e1vel topar com o real, especialmente nos momentos em que o falasser se depara com uma certa decep\u00e7\u00e3o com a verdade e a ang\u00fastia pode se fazer sentir.<\/p>\n<p>Em sua face de real, Miller prop\u00f5e \u201cler um sintoma\u201d: \u201cconsiste em privar o sintoma de sentido\u201d, consiste na \u201cleitura do fora de sentido\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. O sintoma como acontecimento de corpo se relaciona \u00e0 lal\u00edngua, diferentemente da sem\u00e2ntica, cujas indica\u00e7\u00f5es de tal leitura est\u00e3o nos <em>Outros escritos<\/em> de Lacan, em \u201cO aturdito\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>: homofonia, gram\u00e1tica e l\u00f3gica, apontadas por Miller nesta mesma p\u00e1gina de seu texto. O gozo em quest\u00e3o no sintoma \u201cdemonstra que houve um acontecimento que marcou seu gozo\u201d, um acontecimento de corpo, \u201cum gozo produzido pelo significante\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Aqui cabe muito bem as palavras de Lacan \u201cisso s\u00f3 <em>se <\/em>goza por corporific\u00e1-lo de maneira significante\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>A ang\u00fastia \u00e9 um afeto, \u00e9 algo que se sente no corpo e \u00e9 a \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o mais flagrante desse objeto <em>a<\/em>, o sinal de sua interven\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>; por isso ela \u00e9 um importante indicador cl\u00ednico: \u00e9 sinal do real, ela localiza algo do objeto, \u00e9 o afeto que n\u00e3o engana. A ang\u00fastia \u00e9 uma presen\u00e7a que se faz sentir no lugar, l\u00e1 onde nada deveria haver: no Imagin\u00e1rio nada de especular pode completar esse lugar vazio do objeto perdido e pelo Simb\u00f3lico n\u00e3o comparece nenhuma representa\u00e7\u00e3o. Ela \u201cn\u00e3o \u00e9 sem o objeto\u201d, disse Lacan, e o objeto se faz sentir pr\u00f3ximo demais.<\/p>\n<p>O objeto <em>a<\/em> \u00e9 produzido para tentar dar conta do vazio, do abismo prim\u00e1rio e opaco do real do gozo com o corpo, enla\u00e7ando-os. Observa-se que o sintoma enquanto <em>Bedeutung, <\/em>como refer\u00eancia vazia, se conecta ao <em>Sinn, <\/em>ao sentido do sintoma. Pelo fato da linguagem aparelhar o gozo e do objeto <em>a <\/em>se relacionar com o significante e enla\u00e7ar o corpo e o real do gozo, \u00e9 que na experi\u00eancia anal\u00edtica se elabora o n\u00facleo do gozo dado pelo objeto <em>a <\/em>como matriz de satisfa\u00e7\u00e3o, liberando-o de sua pris\u00e3o na fantasia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. \u201cLer um sintoma\u201d. In <em>Op\u00e7\u00e3o lacaniana <\/em>n.70, junho 2015, p. 18.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Idem, p.20.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, J. \u201cO aturdito\u201d. In <em>Outros escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2003, p.492.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Miller, J.-A. Idem, p.19.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. <\/em>, p.35.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, J. <em>O Semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2005, p. 98<em>.<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carmen Silvia Cervelatti Membro da EBP e da AMP Freud notou o paradoxo do sintoma; por mais que ele fosse interpretado algo dele persistia, raz\u00e3o inclusive da rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa ou da puls\u00e3o de morte, porque algo n\u00e3o se dobra ao tratamento pela palavra. 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