{"id":6733,"date":"2022-09-25T09:41:06","date_gmt":"2022-09-25T12:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6733"},"modified":"2022-09-25T09:41:06","modified_gmt":"2022-09-25T12:41:06","slug":"intervencao-sobre-o-vetor-o-parentesco-da-verdade-com-o-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/intervencao-sobre-o-vetor-o-parentesco-da-verdade-com-o-gozo\/","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00c3O SOBRE O VETOR: \u201cO PARENTESCO DA VERDADE COM O GOZO\u201d"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Sandra Arruda Grostein<br \/>\n<\/strong><strong>AME, membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6721\" aria-describedby=\"caption-attachment-6721\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6721\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/006-1-300x295.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: @oddstorage.aa\" width=\"300\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/006-1-300x295.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/006-1.jpg 482w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6721\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: @oddstorage.aa<\/figcaption><\/figure>\n<p>Vou buscar neste texto breve, atrav\u00e9s de quatro textos, articular os conceitos que d\u00e3o suporte ao t\u00edtulo. S\u00e3o eles: As estruturas elementares do parentesco<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, de Claude L\u00e9vi-Strauss; a quarta li\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio 17 \u2013 Verdade, irm\u00e3 do Gozo<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>; Radiofonia<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, ambos de Jacques Lacan, e, finalmente, a s\u00e9tima li\u00e7\u00e3o do Curso de Jaques Alain Miller, publicada no livro Perspectivas dos Escritos e dos Outros Escritos<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Come\u00e7o com L\u00e9vi-Strauss para recuperar algo relativo ao parentesco, no que podemos nos basear para estabelecer um tipo espec\u00edfico de rela\u00e7\u00e3o entre a verdade e o gozo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um parentesco qualquer, uma vez que no Semin\u00e1rio 17 Lacan se refere \u00e0 verdade, irm\u00e3 do gozo.<\/p>\n<p>As rela\u00e7\u00f5es de parentesco est\u00e3o divididas, segundo L\u00e9vi-Strauss, em duas categorias: as biol\u00f3gicas (da natureza) e as sociais (da cultura). Nas diferentes culturas pesquisadas por ele, pode-se verificar o lugar das mulheres como determinante para definir o parentesco: \u201celas s\u00e3o os valores por excel\u00eancia, tanto do ponto de vista biol\u00f3gico quanto social, sem as quais a vida n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel\u201d. O autor acrescenta que a regra fundamental para o estabelecimento do parentesco se sustenta na interdi\u00e7\u00e3o do incesto. Nem tanto por proibir ao homem se casar com m\u00e3e ou filha, mas por ser uma regra que ao mesmo tempo instaura um campo proibido e exige que a troca aconte\u00e7a. \u201c\u00c9 a regra do dom por excel\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Ao estender esta regra com a instaura\u00e7\u00e3o da fraternidade de sangue em algumas sociedades originais, cria-se um la\u00e7o de alian\u00e7a entre os indiv\u00edduos; por\u00e9m, ao instituir a condi\u00e7\u00e3o de irm\u00e3, submetida tamb\u00e9m \u00e0 lei do incesto, acarreta-se a proibi\u00e7\u00e3o do casamento entre irm\u00e3os. As leis do parentesco incluem a interdi\u00e7\u00e3o, instituindo uma falta e, como consequ\u00eancia, a necessidade de buscar fora do grupo familiar a parceria poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A retomada desse fragmento de uma obra t\u00e3o fundamental para Lacan nos primeiros anos do seu ensino, foi inspirada pelas considera\u00e7\u00f5es muito enigm\u00e1ticas sobre a cunhada de Freud no final do cap\u00edtulo IV do Semin\u00e1rio 17. L\u00e9vi-Strauss trata, exatamente, da diferen\u00e7a entre o irm\u00e3o e o cunhado enquanto fun\u00e7\u00e3o social neste regime de trocas.<\/p>\n<p>Se o caminho que decidi percorrer se sustenta, poder-se-ia dizer que a proibi\u00e7\u00e3o define que n\u00e3o h\u00e1 casamento da verdade com o gozo ao nomear esta rela\u00e7\u00e3o de parentesco.<\/p>\n<p>O casamento est\u00e1 interditado, mas h\u00e1 abertura para outro regime de troca, como est\u00e1 muito bem discutido no argumento desta Jornada, ao recuperar, na li\u00e7\u00e3o sete do Perspectivas dos Escritos e outros Escritos, o lugar da verdade numa an\u00e1lise que se inicia e numa an\u00e1lise que dura, e sua rela\u00e7\u00e3o com o saber e com o gozo.<\/p>\n<p>Neste ir e vir entre o Semin\u00e1rio 17 e o Perspectivas, poder\u00edamos encontrar uma visada da verdade a ser revelada atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o, numa an\u00e1lise inicial, compar\u00e1vel \u00e0 procura de uma verdade escondida, como Lacan trabalha no semin\u00e1rio 17. \u00c9 muito diferente dizer que a verdade est\u00e1 escondida, portanto pass\u00edvel de ser \u201cencontrada\u201d atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o significante, do que dizer que a verdade est\u00e1 ausente e s\u00f3 \u00e9 alcan\u00e7\u00e1vel atrav\u00e9s de uma opera\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para desenvolver melhor estas ideias, poder\u00edamos recorrer \u00e0 p\u00e1gina 101 do texto de Miller quando diz que uma an\u00e1lise come\u00e7a sob o modo da formaliza\u00e7\u00e3o. O analisante apresenta-se com uma massa mental amorfa. E, a partir da suposi\u00e7\u00e3o de saber ao dispositivo anal\u00edtico, este amorfo se v\u00ea dotado de uma morfologia. N\u00e3o se trata apenas de o impl\u00edcito tornar-se explicito, mas da ocorr\u00eancia de uma transforma\u00e7\u00e3o radical&#8230; a massa mental do amorfo reparte-se em elementos de discurso, em estrutura da linguagem, ele diz.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia como sujeito suposto saber favorece esta formata\u00e7\u00e3o ao privilegiar que h\u00e1 o endere\u00e7amento a um destinat\u00e1rio e, o que se sup\u00f5e a ele, permite articular o saber \u00e0 verdade. Miller exemplifica utilizando-se da hip\u00f3tese lacaniana de que os cat\u00f3licos s\u00e3o inanalis\u00e1veis porque \u201cseu amorfo mental se curva \u00e0 pr\u00e1tica da confiss\u00e3o\u201d, impedindo assim uma formata\u00e7\u00e3o articulada a partir da associa\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p>Se na an\u00e1lise que se inicia trata-se de buscar a parte da verdade que est\u00e1 escondida do sujeito, na an\u00e1lise que dura podemos dizer tratar-se da busca da verdade que est\u00e1 ausente. Ou dito de uma outra maneira: na an\u00e1lise que dura, a verdade se faz presente na repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise que se inicia h\u00e1 uma suposi\u00e7\u00e3o de saber que inclui a genealogia da verdade, diz Lacan, isto \u00e9, h\u00e1 um primeiro verdadeiro do qual n\u00e3o se pode afastar.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a verdade que varia, atrav\u00e9s do ato anal\u00edtico, com a pr\u00e1tica da sess\u00e3o curta. O analista em seu ato, utilizando-se do corte da sess\u00e3o, se torna o mestre da verdade.\u00a0 Ou seja, a verdade varia conforme um novo sentido institu\u00eddo no corte.<\/p>\n<p>Em Radiofonia, ao responder \u00e0 quest\u00e3o \u201cEm que o saber e a verdade s\u00e3o incompat\u00edveis?\u201d, Lacan responde que n\u00e3o se trata de pensar o casamento do psicanalista com a verdade, mas que \u00e9 atrav\u00e9s da transfer\u00eancia que o sujeito sustenta um saber. Na medida em que o trabalho avan\u00e7a (uma an\u00e1lise que dura), percebe-se que o saber ali presente se restringe a um \u201csaber haver-se\u201d (<em>savoir y faire<\/em>) com a verdade.<\/p>\n<p>Lacan desenvolve que \u201ccom a verdade n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o amorosa poss\u00edvel nem de casamento nem de uni\u00e3o livre, existe apenas uma rela\u00e7\u00e3o que \u00e9 segura &#8211; a castra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso, nem se pode saber toda verdade: \u201cda verdade sabemos apenas um bocado\u201d. Ou seja, \u00e9 o limite da verdade de que se trata, pois a verdade enquanto efeito \u00e9 resultado daquilo que resta, de sua rela\u00e7\u00e3o com o saber.<\/p>\n<p>O incompat\u00edvel da quest\u00e3o faz Lacan dizer que saber e verdade n\u00e3o s\u00e3o complementares pois n\u00e3o fazem o todo, j\u00e1 que este n\u00e3o existe. N\u00e3o existe a complementaridade, mas a compatibilidade \u00e9 poss\u00edvel. Lacan brinca ao dizer que \u201co saber pode arcar com a despesa de uma rela\u00e7\u00e3o com a verdade\u201d.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer o mesmo da verdade e do gozo?<\/p>\n<p>A verdade se liga ao gozo pela interdi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata aqui tamb\u00e9m do casamento da verdade com o gozo, pois ela, a verdade, vem ocupar um lugar deixado vazio pela articula\u00e7\u00e3o significante. A verdade ausente parece-nos estranha. Lacan utiliza-se do termo <em>Das Unheimliche<\/em> freudiano para falar deste estranhamento. Ela est\u00e1 conosco, sem d\u00favida, ele diz, mas sem que possamos nos concernir a ponto de admitirmos diz\u00ea-la.<\/p>\n<p>A verdade n\u00e3o permite um acesso f\u00e1cil e, ao designar como fraterna a posi\u00e7\u00e3o da verdade em rela\u00e7\u00e3o ao gozo, ambos se apresentam como &#8220;insepar\u00e1veis dos efeitos de linguagem\u201d. No entanto, cabe aqui retomar a propostas de L\u00e9vi-Strauss sobre o parentesco: \u00e9 da troca que se trata, da substitui\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Isto \u00e9, a partir do Semin\u00e1rio 20, Lacan passa a desmentir que o gozo pudesse ser aprisionado num objeto, ou seja, se o liberamos deste lugar e o colocamos numa posi\u00e7\u00e3o de comando, produziremos uma cis\u00e3o entre o inconsciente transferencial e o inconsciente real.<\/p>\n<p>Entendo que a necessidade de dividir o inconsciente entre o real e o transferencial responde a como localizar o parentesco entre o gozo e a verdade, tanto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade como fic\u00e7\u00e3o, quanto ao gozo na opacidade do sentido.<\/p>\n<p>Para concluir: este gozo opaco ao sentido, liberto de sua rela\u00e7\u00e3o com o objeto mais de gozar, depende da verdade-mentirosa, do inconsciente transferencial, para restabelecer uma outra homeostase que Lacan chamou de sinthoma,\u00a0 gozo-satisfa\u00e7\u00e3o, que\u00a0 rotiniza o excesso na repeti\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica, implicando uma\u00a0 substitui\u00e7\u00e3o da verdade revela\u00e7\u00e3o por uma verdade ausente, que se articula apenas na cess\u00e3o deste gozo, isto \u00e9, a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> L\u00c9VI-STRAUSS, C. \u201cOs Princ\u00edpios do Parentesco\u201d. In: <em>As estruturas elementares do parentesco<\/em>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008, p. 519.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a> LACAN, J. \u201cVerdade, irm\u00e3 de gozo\u201d. In: <em>O Semin\u00e1rio, Livro 17: O avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 51.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> LACAN, J. \u201cRadiofonia\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 440.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. \u201cS\u00e9tima Li\u00e7\u00e3o\u201d. In: <em>Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 99.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra Arruda Grostein AME, membro da EBP e da AMP Vou buscar neste texto breve, atrav\u00e9s de quatro textos, articular os conceitos que d\u00e3o suporte ao t\u00edtulo. 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