{"id":6655,"date":"2022-08-29T07:48:13","date_gmt":"2022-08-29T10:48:13","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6655"},"modified":"2022-08-29T07:48:13","modified_gmt":"2022-08-29T10:48:13","slug":"a-verdade-como-contradicao-entre-o-verdadeiro-e-o-falso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/a-verdade-como-contradicao-entre-o-verdadeiro-e-o-falso\/","title":{"rendered":"A VERDADE COMO CONTRADI\u00c7\u00c3O ENTRE O VERDADEIRO E O FALSO"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6><strong>J\u00e9sus Santiago<br \/>\n<\/strong><strong>AME, Membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6629\" aria-describedby=\"caption-attachment-6629\" style=\"width: 179px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6629\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_004-1.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: @luziapl\" width=\"179\" height=\"230\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6629\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: @luziapl<\/figcaption><\/figure>\n<p>O in\u00edcio do ensino de Lacan toma as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente \u2013 o sonho, o lapso e os chistes \u2013 como dependentes da verdade do desejo a respeito da letra e, no contexto desta elabora\u00e7\u00e3o, trata-se da letra alojada no inconsciente. No in\u00edcio dos anos cinquenta, em seu c\u00e9lebre coment\u00e1rio sobre a \u201cA carta roubada\u201d, de Edgar Alan Poe, confirma-se a import\u00e2ncia concedida \u00e0 carta\/letra, pois esta se apresenta reduzida ao significante da verdade do desejo inconsciente. Segundo Lacan, a verdade do desejo, para os distintos personagens do conto, \u00e9 a carta\/letra, tendo em vista que ela se confunde com o falo. Ou seja, o falo \u00e9 concebido como significante do desejo e tamb\u00e9m se apresenta como resposta \u00e0 presen\u00e7a da verdade recalcada da castra\u00e7\u00e3o. Em suma, a carta\/letra assume um valor f\u00e1lico e por ela se veicula a verdade recalcada da castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A narrativa do conto demonstra a \u201cdetermina\u00e7\u00e3o fundamental que o sujeito recebe do percurso de um significante\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, visto que toda a trama se desenrola em torno de uma carta\/letra enigm\u00e1tica e amea\u00e7adora, furtada dos bens da rainha e posta em circula\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da corte. Por meio da leitura anal\u00edtica da l\u00f3gica envolvida nesta pe\u00e7a ficcional, percebe-se o quanto o analista se serve da autonomia relativa do significante para se conduzir sobre a via da verdade que se veicula na letra. Em fun\u00e7\u00e3o da estrutura significante em posi\u00e7\u00e3o de causa com rela\u00e7\u00e3o aos efeitos de significado, postula-se que a letra sempre chega \u00e0 sua destina\u00e7\u00e3o. A partir da determina\u00e7\u00e3o maior que o sujeito recebe da letra, Lacan conclui que se a carta roubada dos aposentos da rainha \u00e9 signo de uma verdade do desejo, cedo ou tarde, ela chegar\u00e1 ao seu destino que se sup\u00f5e ser o pr\u00f3prio rei.<\/p>\n<p>A tese que se sustenta nesse escrito, e que jamais ser\u00e1 abandonada, \u00e9 que mesmo depois dos desvios que a carta sofre, ela sempre atinge o seu destino, pois ela \u00e9 portadora de uma verdade que mant\u00e9m sua afinidade com a castra\u00e7\u00e3o. A cada vez que Lacan retorna ao seu \u201cO Semin\u00e1rio sobre a \u2018Carta Roubada\u2019\u201d, como \u00e9 o caso de seu escrito \u201cLituraterra\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>, ele faz quest\u00e3o de reafirmar sua tese de que a carta sempre chega ao seu destino.<\/p>\n<p>A meu ver, \u00e9 a quest\u00e3o da verdade tratada de modo in\u00e9dito por Lacan em seu Semin\u00e1rio \u2013 \u201cLes non-dupes errent\u201d \u2013 que melhor esclarece as raz\u00f5es que embasam a manuten\u00e7\u00e3o desta tese que como se sabe, foi alvo de in\u00fameras cr\u00edticas por parte do fil\u00f3sofo Jacques Derrida<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Nesse Semin\u00e1rio \u2013 \u201cLes non-dupes errent\u201d \u2013 que aconteceu em 1974, a verdade n\u00e3o se funda na suposi\u00e7\u00e3o de que ela est\u00e1 do lado oposto ao falso, o que n\u00e3o impede que em seu enunciado ela n\u00e3o possa contradizer o falso<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Se a verdade cont\u00e9m a contradi\u00e7\u00e3o entre o verdadeiro e o falso, ela apenas se expressa por meio de um <em>semi-dizer. <\/em><\/p>\n<p>Enquanto <em>semi-dizer,<\/em> ela jamais poder\u00e1 constituir-se numa esp\u00e9cie de metalinguagem que permitiria dizer o \u201cverdadeiro sobre o verdadeiro\u201d pois \u201cela \u00e9 contradi\u00e7\u00e3o, e se enra\u00edza sempre sobre o \u201cn\u00e3o\u201d, e o seu des\u00edgnio consiste na \u201cden\u00fancia da <em>n\u00e3o-verdade\u201d<\/em><a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\"><em><strong>[5]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em>Se de um lado, a verdade padece desta limita\u00e7\u00e3o, de outro, <em>\u201cela \u00e9 sem limite, ela \u00e9 abertura\u201d<\/em> em condi\u00e7\u00f5es de vir \u00e0 tona sob o modo de den\u00fancia do falso. A firmeza com a qual Lacan abra\u00e7a essa leitura diz respeito ao fato de que se a carta\/letra encarna o falo como portador da verdade da castra\u00e7\u00e3o, mais dia, menos dia, ela chegar\u00e1 ao seu destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Como se sabe, a quest\u00e3o da verdade sofre mudan\u00e7as ao longo do ensino de Lacan e certamente, no final de seu ensino, ela \u00e9 efetivamente objeto de um decl\u00ednio quando no Semin\u00e1rio \u201cO avesso da psican\u00e1lise\u201d, ela \u00e9 concebida como \u201cirm\u00e3 do gozo\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. No entanto, \u00e9 preciso manter a pergunta: com qual concep\u00e7\u00e3o da verdade Lacan opera em sua leitura do conto de Edgar Allan Poe? Um dos aspectos mais importantes da cr\u00edtica do referido fil\u00f3sofo \u00e0 leitura lacaniana do conto \u00e9 que esta permanece prisioneira de uma concep\u00e7\u00e3o da verdade como <em>aleth\u00e9ia. <\/em>Sob esse ponto de vista, a verdade se mostra subordinada ao movimento de v\u00e9u que, ao mesmo tempo, vela e desvela a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ensino de Lacan d\u00e1 provas de operar com distintas concep\u00e7\u00f5es da verdade, por\u00e9m nos interessa destacar aquela que carrega nela pr\u00f3pria o verdadeiro e o falso. Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o que faz parte desse momento em que a verdade se mostra em franco processo de decl\u00ednio, pois, ao se localizar do lado do semblante, ela se apresenta causada pelo real.<\/p>\n<p>Se a verdade migra para o lado do semblante, se a partir da\u00ed ela se torna <em>irm\u00e3 do gozo,<\/em> ainda assim, n\u00e3o se abandona a tese de que a carta\/letra sempre chega ao seu destino. A cr\u00edtica de Derrida \u00e9 que a carta\/letra n\u00e3o deve ser reduzida a uma esp\u00e9cie de \u201clocalidade indivis\u00edvel\u201d pr\u00f3pria do \u201csignificante que n\u00e3o se arrisca se perder, se destruir, se dividir, se despeda\u00e7ar<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>\u201d, enfim, sem atingir ao seu destinat\u00e1rio. \u00c9 certo que o ensino de Lacan trilha por caminhos que fazem com que a sua doutrina da letra se edifique separada da l\u00f3gica do significante. Contudo, se Lacan jamais abandona a tese cl\u00ednica de que a carta sempre chega ao seu destino \u00e9, antes de tudo, porque a quest\u00e3o da verdade se formula como sintoma.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma dimens\u00e3o do sintoma que \u201cse articula por representar o retorno da verdade como tal na falha de um saber\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. A verdade n\u00e3o apenas se distingue do saber, mas \u00e9 retorno do real visto que n\u00e3o pode ser representada pelo significante. Quando se afirma que o sintoma e o retorno do recalcado s\u00e3o a mesma coisa \u00e9 porque \u201cele (o sintoma) \u00e9 talhado da mesma madeira que a verdade\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>. A verdade, portanto, n\u00e3o est\u00e1 condicionada pelo jogo dos efeitos do significante (significa\u00e7\u00e3o), mas ao contr\u00e1rio, resulta de seu retorno nas falhas do saber, o que implica considerar que mais dia menos dia ela chegar\u00e1 ao seu destino.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>LACAN, J. O semin\u00e1rio sobre \u201cA carta roubada\u201d. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 12.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>LACAN, J. Lituraterra. In: <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>DERRIDA, J. Le facteur de la v\u00e9rit\u00e9. In: <em>La carte postale<\/em>. Flammarion: Paris, 1980, p. 439-511.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 21: <em>Les non-dupes errent<\/em>. In\u00e9dito, li\u00e7\u00e3o de 15 de janeiro de 1974.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Ibid.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 17: O Avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1992, p. 64.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>DERRIDA, J. Le facteur de la v\u00e9rit\u00e9. Op. cit, p. 484.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>LACAN, J. Do sujeito enfim em quest\u00e3o. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1998, p. 234.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>Ibid., p. 235.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] J\u00e9sus Santiago AME, Membro da EBP e da AMP O in\u00edcio do ensino de Lacan toma as forma\u00e7\u00f5es do inconsciente \u2013 o sonho, o lapso e os chistes \u2013 como dependentes da verdade do desejo a respeito da letra e, no contexto desta elabora\u00e7\u00e3o, trata-se da letra alojada no inconsciente. 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