{"id":6653,"date":"2022-08-29T07:47:12","date_gmt":"2022-08-29T10:47:12","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6653"},"modified":"2022-08-29T07:47:12","modified_gmt":"2022-08-29T10:47:12","slug":"intervencao-sobre-o-vetor-o-amor-a-verdade-em-freud1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/intervencao-sobre-o-vetor-o-amor-a-verdade-em-freud1\/","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00c3O SOBRE O VETOR: \u201cO AMOR \u00c0 VERDADE EM FREUD[1]\u201d"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6><strong>Vel\u00e1ria Ferranti<br \/>\n<\/strong><strong>Membro da EBP e da AMP<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6630\" aria-describedby=\"caption-attachment-6630\" style=\"width: 292px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6630\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_005-1-292x300.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: @rosettedestefano\" width=\"292\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_005-1-292x300.jpg 292w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_005-1.jpg 462w\" sizes=\"auto, (max-width: 292px) 100vw, 292px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6630\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: @rosettedestefano<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em 1896, em uma carta endere\u00e7ada a Fliess<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> , encontramos o primeiro modelo do Aparelho Ps\u00edquico. Pareceu-me interessante tom\u00e1-lo tanto no tempo &#8211; j\u00e1 que escrito h\u00e1 mais de um s\u00e9culo-, como por aquilo que escapa ao pr\u00f3prio aparelho: os <em>fueros.<\/em> J\u00e1 de sa\u00edda, algo falha no maquin\u00e1rio da representa\u00e7\u00e3o. Ao inventar um m\u00e9todo e orientar seus pacientes a falar livremente, Freud busca, naquilo que falha, os ind\u00edcios da verdade recalcada (lembrando que aqui se trata do recalque prim\u00e1rio).<\/p>\n<p>Em outra carta endere\u00e7ada a Fliess, datada de 1897, Freud escreve: \u201cn\u00e3o existe no inconsciente nenhum \u00edndice de realidade, de tal modo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel distinguir uma da outra, a verdade e a fic\u00e7\u00e3o investida de afeto\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. A realidade, apreendida pelo aparelho ps\u00edquico, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, uma constru\u00e7\u00e3o \u201cda verdade\u201d que inclui a\u00ed aquele que fala.\u00a0 Assim, o nascimento da psican\u00e1lise promove uma reviravolta epistemol\u00f3gica em um dos aspectos da verdade, um deslocamento no sentido do vetor: n\u00e3o se trata de representar a realidade, mas sim de tomar a realidade a partir das representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Localizar na hist\u00f3ria daquele que fala, atribuir sentido e esclarecer o que manca n\u00e3o se mostrou suficiente para que a verdade dos pensamentos inconscientes se revelasse e se mantivesse perene. Entra em cena a Puls\u00e3o. For\u00e7a constante que atravessa o aparelho, desorganiza e promove a possibilidade do novo. Creio que este foi um dos pontos considerados por Lacan ao afirmar que a puls\u00e3o \u00e9 sempre Puls\u00e3o de Morte pois, a tal Puls\u00e3o de Vida alimenta o sentido e a repeti\u00e7\u00e3o. Assim, a verdade veiculada nos sintomas, chistes, atos falhos e sonhos n\u00e3o pode ser totalmente apreendida, pois a puls\u00e3o, que \u201cfor\u00e7a\u201d passagem no aparelho ps\u00edquico, n\u00e3o ganha representa\u00e7\u00e3o estando sempre por fora do pr\u00f3prio inconsciente, fora do aparelho ps\u00edquico e encontra sua satisfa\u00e7\u00e3o na morte, no sil\u00eancio do aparelho.<\/p>\n<p>Vale lembrar que<em> As cinco psican\u00e1lises<\/em> foram escritas e publicadas at\u00e9 1920. Quando a dimens\u00e3o mais radical da puls\u00e3o ganha o centro, n\u00e3o temos mais os relatos cl\u00ednicos do mestre vienense.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale lembrar que, para Freud, a puls\u00e3o \u00e9 inata e, desde o primeiro grito, perturba o \u201ccorpo vivo\u201d que se apazigua com os pensamentos inconscientes, que por sua vez produzem cadeias associativas, dramas, hist\u00f3rias e lembran\u00e7as. Uma verdade associada ao sentido produzida simbolicamente. Verdades associadas aos pensamentos inconscientes que produzem uma \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d sobre a quebra na homeostase do aparelho ps\u00edquico.<\/p>\n<p>Uma brev\u00edssima situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica para produzir uma tor\u00e7\u00e3o: durante a sess\u00e3o, uma crian\u00e7a pequena bate a cabe\u00e7a na quina de um m\u00f3vel. Evidentemente, ela sente dor e diz: &#8220;machucou, t\u00e1 sangrando\u201d. Repete muitas vezes esta afirma\u00e7\u00e3o e se mostra bastante desorganizada, andando pela sala e repetindo a mesma \u201cfrase\u201d sem parar.\u00a0 Embora eu tenha dito coisas como: \u201dvoc\u00ea bateu sua cabe\u00e7a; est\u00e1 doendo\u201d na tentativa de doar alguma significa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o teve efeito. Em frente ao espelho segue afirmando: \u201cmachucou, t\u00e1 sangrando.\u201d O que dizer ent\u00e3o da verdade, do amor \u00e0 verdade, quando o simb\u00f3lico ocorre, mas n\u00e3o socorre?<\/p>\n<p>Com a capacidade para nomear comprometida pela via da representa\u00e7\u00e3o aquilo que afetou seu \u201ccorpo\u201d, esta crian\u00e7a se vale de um signo &#8211; machucou\/sangrou &#8211; para poder dizer daquilo que foi desorganizador. Ver sua imagem no espelho sem sangue n\u00e3o alterou seu recurso, e como nos diz Lacan: \u201cs\u00f3 h\u00e1 fato pelo artif\u00edcio\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Para esta crian\u00e7a, instituir um fato n\u00e3o foi suficiente para apazigu\u00e1-la, uma vez que o signo n\u00e3o representa o sujeito, portanto n\u00e3o adquire valor de verdade.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Parece-me que a tor\u00e7\u00e3o que se apresenta aqui \u00e9 que a verdade n\u00e3o \u00e9 universal, o amor a verdade n\u00e3o \u00e9 para todos e o autismo nos mostra isto.<\/p>\n<p>No argumento das XI Jornadas, encontramos uma refer\u00eancia \u00e0 aula de Lacan<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a> de 10 maio de 1977, intitulada Rumo a um significante novo<em>, <\/em>em que h\u00e1 uma considera\u00e7\u00e3o acerca da <em>Verneinung<\/em>:<\/p>\n<p>(\u2026) onde Freud promoveu o essencial. Ele diz que a nega\u00e7\u00e3o sup\u00f5e uma<em> Bejahung<\/em>, que \u00e9 a partir de alguma coisa que se enuncia como positiva que se escreve a nega\u00e7\u00e3o. Em outros termos, o signo deve ser procurado &#8211; \u00e9 justamente o que na &#8220;Inst\u00e2ncia da Letra\u201d coloquei como congru\u00eancia do signo ao real.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o signo que n\u00e3o poderia se escrever? &#8211; pois esse signo se escreve realmente. J\u00e1 coloquei em evid\u00eancia a pertin\u00eancia do que a l\u00edngua francesa toca como adv\u00e9rbio. Pode-se dizer que o <em>real mente<\/em>?\u00a0 Na an\u00e1lise pode-se certamente dizer que o <em>verdadeiro mente<\/em> (LACAN, 1988, p. 11).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia com o Real sem o aux\u00edlio, sem o socorro da verdade coloca estas crian\u00e7as, como nos diz Lacan, em um inferno. Se o simb\u00f3lico diz somente mentiras, o que real atesta?<\/p>\n<p>Em <em>O Semin\u00e1rio, livro 23<\/em>: <em>o sinthoma<\/em>, Lacan<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a> dir\u00e1:<\/p>\n<p>(\u2026) n\u00e3o h\u00e1 necessidade de dizer mais, a sentimentalidade pr\u00f3pria do falasser -, a mentalidade, uma vez que ele a sente, sente seu fardo &#8211; a ment-alidade enquanto mente \u00e9 um fato.<\/p>\n<p>O que \u00e9 um fato? \u00c9 justamente ele quem faz. S\u00f3 h\u00e1 fato pelo fato de o falasser o dizer. N\u00e3o h\u00e1 outros fatos sen\u00e3o aqueles que o falasser reconhece como tais dizendo-os. S\u00f3 h\u00e1 fato pelo artificio. \u00c9 um fato que ele mente, isto \u00e9, que ele instaura falsos fatos e o reconhece, porque tem mentalidade isto \u00e9, amor-pr\u00f3prio (LACAN, 2007, P. 63-64).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> I Atividade Preparat\u00f3ria para as XI Jornadas da EBP-SP, realizada no dia 17\/08\/2022. Interven\u00e7\u00e3o sobre o Vetor: \u201cO amor \u00e0 verdade em Freud\u201d, escrito por Fabr\u00edcio Donizete, que comp\u00f5e o argumento das XI Jornadas da EBP \u2013 SP.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> FREUD, Sigmund<em>. Extrato dos documentos dirigidos \u00e0 Fliess<\/em> (1887\/1904). Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00e3o Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Imago, 1986, carta 52, p. 254.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Freud, Sigmund 1986, p. 191<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23, o sinthoma<\/em>. A pista de Joyce. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2007, p. 63.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> LACAN, J<em>. Rumo a um significante novo. <\/em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, S\u00e3o Paulo, n. 22, 1988, p. 11.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> LACAN, Jacques. <em>O Semin\u00e1rio, livro 23, o sinthoma<\/em>. A pista de Joyce. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2007, p. \u00a063-64<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Vel\u00e1ria Ferranti Membro da EBP e da AMP\u00a0 Em 1896, em uma carta endere\u00e7ada a Fliess[2] , encontramos o primeiro modelo do Aparelho Ps\u00edquico. Pareceu-me interessante tom\u00e1-lo tanto no tempo &#8211; j\u00e1 que escrito h\u00e1 mais de um s\u00e9culo-, como por aquilo que escapa ao pr\u00f3prio aparelho: os fueros. J\u00e1 de sa\u00edda,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-inter-dito","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6653\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6653"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}