{"id":6651,"date":"2022-08-29T07:45:15","date_gmt":"2022-08-29T10:45:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6651"},"modified":"2022-08-29T07:45:15","modified_gmt":"2022-08-29T10:45:15","slug":"intervencao-sobre-o-vetor-a-verdade-como-estrutura-de-ficcao1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/intervencao-sobre-o-vetor-a-verdade-como-estrutura-de-ficcao1\/","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00c3O SOBRE O VETOR: \u201cA VERDADE COMO ESTRUTURA DE FIC\u00c7\u00c3O\u201d[1]"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6><strong>Maria Cec\u00edlia Galletti Ferretti<br \/>\n<\/strong><strong>AME, Membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6631\" aria-describedby=\"caption-attachment-6631\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6631\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_006-1-300x298.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: @eyekot\" width=\"300\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_006-1-300x298.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_006-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_006-1.jpg 490w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6631\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: @eyekot<\/figcaption><\/figure>\n<p>Freud e Lacan, depararam-se, ambos, com a quest\u00e3o da verdade, quest\u00e3o tratada pela filosofia desde os seus prim\u00f3rdios. Marie-H\u00e9l\u00e8ne Brousse, abordando o uso que faz Lacan da filosofia e fazendo notar o quanto Lacan refere-se a ela, afirma que ele \u201cutiliza alguns fil\u00f3sofos de uma maneira que lhe \u00e9 pr\u00f3pria. Depois da descontinuidade radical que Freud produziu no discurso por meio de uma defini\u00e7\u00e3o in\u00e9dita do psiquismo, ele julga necess\u00e1rio reler certos fil\u00f3sofos \u00e0 luz da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Na medida em que a obra destes fil\u00f3sofos \u201cs\u00e3o verdadeiros parceiros na elabora\u00e7\u00e3o de seu ensino, o pr\u00f3prio Lacan o diz: a obra deles \u00e9 como a de Freud, incontorn\u00e1vel\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Sim, estamos diante de ensinos incontorn\u00e1veis e voltamos \u00e0 quest\u00e3o: Freud e Lacan depararam-se, ambos, com a quest\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>Embora Freud tenha, em \u201cAn\u00e1lise termin\u00e1vel e intermin\u00e1vel\u201d, reiterado que o trabalho anal\u00edtico se baseia no amor \u00e0 verdade, o pr\u00f3prio fato de haver redigido tal texto, nos mostra sua preocupa\u00e7\u00e3o com o alcance da psican\u00e1lise. \u00c9 como se ele se perguntasse sobre o porqu\u00ea de tal amor \u00e0 verdade n\u00e3o render os frutos que deveria render. Freud sempre se mostrou ciente das limita\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise e de seu poder terap\u00eautico, assim como sempre se mostrou extremamente preocupado em buscar reformula\u00e7\u00f5es e investiga\u00e7\u00f5es. Neste texto, o peso dado \u00e0 puls\u00e3o de morte presente nos conflitos, faz pensar no que Lacan afirma em seu Semin\u00e1rio 23, <em>O sinthoma. <\/em>Para Lacan, sobre a distin\u00e7\u00e3o entre verdadeiro e real, Freud considera que \u201co verdadeiro d\u00e1 prazer, e \u00e9 isso que o distingue do real. O real n\u00e3o d\u00e1, for\u00e7osamente, prazer\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. Nesta passagem do Semin\u00e1rio 23, continua dizendo (embora afirme distorcer alguma coisa em Freud), que procura ressaltar que o gozo \u00e9 do real e isto comporta o masoquismo, \u201co masoquismo \u00e9 o \u00e1pice do gozo dado pelo real\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Quantas voltas deu a quest\u00e3o da verdade em Lacan?<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica, come\u00e7ou por coloc\u00e1-la como \u201crevela\u00e7\u00e3o\u201d, isto \u00e9, revela\u00e7\u00e3o da verdade, opondo-a \u00e0s resist\u00eancias, ao recalque; \u00e0s invers\u00f5es dial\u00e9ticas fez corresponder um alcance da verdade. Depois considerou que a verdade s\u00f3 pode ser meio dita, que h\u00e1 uma impossibilidade de diz\u00ea-la toda, optou pela variedade da verdade, e pela verdade mentirosa. Mas, poder\u00edamos considerar que ao trilhar este caminho que considera haver um progresso no caminhar das ideias &#8211; \u00e0 maneira hegeliana &#8211; estar\u00edamos alcan\u00e7ando um verdadeiro dito sobre a verdade?\u00a0 Poder\u00edamos desconsiderar, se segu\u00edssemos este argumento sua afirma\u00e7\u00e3o em <em>Formula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica, <\/em>dos <em>Escritos, <\/em>de 1946? Lemos nesta passagem: \u201cEst\u00e1 muito em moda em nossos dias \u201csuperar\u201d os fil\u00f3sofos cl\u00e1ssicos. Eu poderia igualmente ter partido do admir\u00e1vel di\u00e1logo com Parm\u00eanides. Pois nem S\u00f3crates, nem Descartes, nem Marx, nem Freud podem ser \u201csuperados\u201d, na medida em que conduziram suas investiga\u00e7\u00f5es com essa paix\u00e3o de desvelar que tem um objeto: a verdade\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Aqui, a verdade \u00e9 motor e paix\u00e3o.<\/p>\n<p>E, especialmente, a verdade como estrutura de fic\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Quero destacar uma passagem do Semin\u00e1rio 20: <em>Mais, ainda,<\/em> na qual Lacan se refere \u00e0 matem\u00e1tica; minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 examinar e levar \u00e0 discuss\u00e3o de saber em que medida esta refer\u00eancia de Lacan pode ser cotejada \u00e0 verdade entendida como fic\u00e7\u00e3o. Diz Lacan: \u201co real s\u00f3 se poderia inscrever por um impasse da formaliza\u00e7\u00e3o. A\u00ed \u00e9 que eu acreditei poder desenhar seu modelo a partir da formaliza\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica, no que ela \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ada que nos tem sido dado produzir da signific\u00e2ncia. Essa formaliza\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica da signific\u00e2ncia se faz ao contr\u00e1rio do sentido, eu ia quase dizendo a <em>contra-senso<\/em>\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Muito se poderia dizer sobre a fun\u00e7\u00e3o da matem\u00e1tica nas abordagens lacanianas. Por exemplo, poder\u00edamos enveredar pelo caminho de apontar, como faz Jacques-Alain Miller em \u201cLer um sintoma\u201d e dizer que em um determinado momento \u201co sonho de Lacan era colocar a psican\u00e1lise no n\u00edvel das matem\u00e1ticas\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>, examinando que s\u00f3 a\u00ed o real n\u00e3o varia, mas que quando a f\u00edsica a aplica a no\u00e7\u00e3o de real se torna escorregadia fazendo com que o que para um \u00e9 real, para outro n\u00e3o passa de semblante. A matem\u00e1tica \u00e9 pura escrita, que n\u00e3o se refere a nenhuma realidade ou objeto espec\u00edfico; ao trazer os matemas para a psican\u00e1lise, Lacan trouxe para perto dela seu desejo de formaliz\u00e1-la e transmiti-la elucidando, no entanto, que \u00e9 preciso explicar os matemas e adentrando as explica\u00e7\u00f5es, deparamo-nos com as dificuldades da linguagem. O matema ao transmitir integralmente n\u00e3o funciona sem a linguagem, ele, portanto, claudica.<\/p>\n<p>A matem\u00e1tica \u00e9 um exemplo de uma fic\u00e7\u00e3o no sentido de uma \u201cconstru\u00e7\u00e3o l\u00f3gica ou art\u00edstica \u00e0 qual n\u00e3o h\u00e1 correspond\u00eancia na realidade\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>, tendo seus axiomas e seu sistema de dedu\u00e7\u00f5es, o <em>isto n\u00e3o quer dizer nada,<\/em> se faz ao contr\u00e1rio do sentido. Pergunta Lacan: \u201ca formaliza\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica matem\u00e1tica, t\u00e3o bem feita para s\u00f3 se basear na escrita, n\u00e3o poder\u00e1 ela nos servir no processo anal\u00edtico, no que ali se designa isso que invisivelmente ret\u00e9m os corpos?\u2019\u2019<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. Vemos, assim, surgir o <em>corpo<\/em>, o <em>parl\u00eatre<\/em> tomado no dispositivo anal\u00edtico que pode revelar em seu sintoma, em seu sofrimento, a verdade como fic\u00e7\u00e3o. A verdade c\u00f4ngrua, congruente, n\u00e3o aquela do sistema l\u00f3gico aristot\u00e9lico, mas aquela que n\u00e3o pretende ser toda, a do semi-dizer.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica \u00e9 fundamental examinar a fecundidade da verdade mesmo que semi-dita ou entendida como fic\u00e7\u00e3o. \u201cO objetivo, \u00e9 que o gozo se confessa, e justamente, porque ele pode ser inconfess\u00e1vel\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller chama a aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o de haver, poder\u00edamos assim dizer, tr\u00eas tempos em uma an\u00e1lise, aquela que come\u00e7a, aquela que continua e aquela que termina. Afirma: \u201cPassa-se evidentemente pelo momento da decifra\u00e7\u00e3o da verdade do sintoma, mas chega-se aos restos sintom\u00e1ticos e a\u00ed n\u00e3o se diz <em>stop<\/em>. O analista n\u00e3o diz <em>stop<\/em> e o analisante n\u00e3o diz <em>stop<\/em>. A an\u00e1lise, nesse per\u00edodo, \u00e9 feita da confronta\u00e7\u00e3o direta do sujeito com o que Freud chamava de restos sintom\u00e1ticos e aos quais conferimos um estatuto completamente diferente. Sob o nome de restos sintom\u00e1ticos, Freud esbarrou no real do sintoma, no que do sintoma \u00e9 fora de sentido\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> I Atividade Preparat\u00f3ria para as XI Jornadas da EBP-SP, realizada no dia 17\/08\/2022. Interven\u00e7\u00e3o sobre o Vetor: \u201cA verdade como estrutura de fic\u00e7\u00e3o\u201d, escrito por Francisco Durante, que comp\u00f5e o argumento das XI Jornadas da EBP \u2013 SP.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> BROUSSE, M.H. <em>Mulheres e discursos. <\/em>Cole\u00e7\u00e3o Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, V. 15. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2019, p. 47.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Id. p. 47.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 23. O sinthoma.\u00a0 <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007, p. 76.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Id. p. 76.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> LACAN, J. <em>Formula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica. <\/em>In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 194.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 20. Mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982, p. 125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> MILLER. J.A. <em>Ler um sintoma. <\/em>In: Op\u00e7\u00e3o lacaniana, n. 70. S\u00e3o Paulo: Ed. Eolia, p. 16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> LALANDE, A. <em>Vocabulaire tecquinique et critique de la philosophie. <\/em>PUF, 1972, p. 348.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio. Livro 20. Mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982, p.125.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Id. p.124.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> MILLER, J.A. Op. Cit, p. 19.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Maria Cec\u00edlia Galletti Ferretti AME, Membro da EBP e da AMP Freud e Lacan, depararam-se, ambos, com a quest\u00e3o da verdade, quest\u00e3o tratada pela filosofia desde os seus prim\u00f3rdios. 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