{"id":6641,"date":"2022-08-29T07:38:36","date_gmt":"2022-08-29T10:38:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6641"},"modified":"2022-08-29T07:38:36","modified_gmt":"2022-08-29T10:38:36","slug":"giacometti-implosao-do-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/giacometti-implosao-do-olhar\/","title":{"rendered":"GIACOMETTI &#8211; IMPLOS\u00c3O DO OLHAR"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6><strong>Fernando Prota<br \/>\n<\/strong><strong>Membro da EBP e da AMP<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6636\" aria-describedby=\"caption-attachment-6636\" style=\"width: 246px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6636\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_011-1-246x300.jpg\" alt=\"Imagem \u2013 Instagram: @innovategrant\" width=\"246\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_011-1-246x300.jpg 246w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/interdito_003_011-1.jpg 425w\" sizes=\"auto, (max-width: 246px) 100vw, 246px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6636\" class=\"wp-caption-text\">Imagem \u2013 Instagram: @innovategrant<\/figcaption><\/figure>\n<p>O pr\u00f3prio, o particular, da arte moderna do s\u00e9culo XX \u00e9 o profundo questionamento da no\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o. A partir dessa particularidade, interessa ao psicanalista se deixar tocar pela quest\u00e3o: qual \u00e9 o modo singular, a afirma\u00e7\u00e3o criativa com a qual cada artista responde a algo que o ultrapassa ap\u00f3s essa queda da representa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A resposta que encontramos na obra de Alberto Giacometti nos acerta em cheio. Localiza-nos naquele ponto entre o arrebatamento e o estranhamento, levando a sensa\u00e7\u00e3o de presenciar uma obra que toca algo de absolutamente fundamental e totalmente fugidio ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Giacometti promove uma \u201cimplos\u00e3o\u201d da representa\u00e7\u00e3o revelando n\u00e3o uma ess\u00eancia por traz da representa\u00e7\u00e3o, mas uma \u201cexist\u00eancia\u201d, que para ele se situa singularmente no n\u00edvel da percep\u00e7\u00e3o, principalmente do olhar, mais precisamente na incid\u00eancia do imposs\u00edvel no campo do olhar. A\u00ed se situa sua \u201cDas ding\u201d, experimentada como furo incontorn\u00e1vel, atormentador, para o qual \u00e9 imprescind\u00edvel encontrar uma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acossado pela invas\u00e3o \u201cobsessiva\u201d da impossibilidade da representa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o tridimensional euclidiano, enxergando cada vez mais os \u00ednfimos detalhes de qualquer objeto, levando a divisibilidade do espa\u00e7o ao infinito, ele encontra sua sa\u00edda singular: incorporar em sua escultura a pr\u00f3pria dist\u00e2ncia, uma dist\u00e2ncia absoluta<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> (Sartre). De onde se olhe a escultura, mesmo de muito perto, mesmo que se a toque, ela se mant\u00e9m \u00e0 dist\u00e2ncia. Seu engenho \u00e9 a elonga\u00e7\u00e3o das figuras e uma superf\u00edcie tortuosa, com uma \u201cirregularidade\u201d irremediavelmente humana. Dist\u00e2ncia que nos remete a um n\u00e3o-lugar estranho e t\u00e3o familiar. Um furo no simb\u00f3lico que remete ao \u201cn\u00e3o-lugar pr\u00f3prio ao Real que institui a pr\u00f3pria dignidade de uma obra de arte\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Para Giacometti, esta singularidade do olhar, sua indivisibilidade, \u00e9 solid\u00e1ria do fundamento de seu objeto privilegiado: o ser humano. Para ele o ser humano s\u00f3 pode ser tomado como \u201ccorpo vivo\u201d, sendo a \u201c\u00fanica unidade verdadeiramente humana: a unidade do ato\u201d (Sartre). Assim, as esculturas de Giacometti nos apresentam a experi\u00eancia de uma \u201cunidade viva\u201d, \u201cem ato\u201d, com a fugacidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria (sendo o ef\u00eamero gesso seu elemento preferencial). Homens, mulheres, cabe\u00e7as, que s\u00e3o uma verdadeira encarna\u00e7\u00e3o da iman\u00eancia.<\/p>\n<p>Solid\u00e1ria, ainda, \u00e0 apreens\u00e3o Giacomettiana da realidade \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o aguda e cotidiana do \u201ctotalmente desconhecido\u201d. Diante dos modelos que posam para seu olhar, \u201ctodos s\u00e3o \u201ciguais\u201d, porque, simplesmente, entre movimento e estagna\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 diferen\u00e7a, tudo \u00e9 singular, tudo \u00e9 m\u00e1 forma\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. A diferen\u00e7a absoluta como objeto comum ao humano, como comum-unidade. Penso em quanto isso pode nos ensinar numa \u00e9poca tomada pelo empuxo a identidade e a segrega\u00e7\u00e3o. Parafraseando Eric Laurent: permanecer alguns minutos em frente a uma obra de Giacometti pode ser um verdadeiro \u201claborat\u00f3rio de desidentifica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> EUVALDO, C. (org.). Alberto Giacometti, textos de Jean-Paul Sartre, Ed. Martins Fontes, S\u00e3o Paulo, 2012, p.33.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> PROEN\u00c7A, P. Em torno de Alberto Giacometti \u2013 Arte, \u00e9tica e psican\u00e1lise., Ed. Companhia de Freud, Rio de Janeiro, 2010, p.121.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Idem, p. 182.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Fernando Prota Membro da EBP e da AMP O pr\u00f3prio, o particular, da arte moderna do s\u00e9culo XX \u00e9 o profundo questionamento da no\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o. 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