{"id":6529,"date":"2022-07-25T08:15:11","date_gmt":"2022-07-25T11:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6529"},"modified":"2022-07-25T08:15:11","modified_gmt":"2022-07-25T11:15:11","slug":"verdade-e-real-em-joao-guimaraes-rosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/verdade-e-real-em-joao-guimaraes-rosa\/","title":{"rendered":"Verdade e real em Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6><strong>Elisangela Miras<br \/>\nPsic\u00f3loga, psicanalista, mestre em comunica\u00e7\u00e3o em semi\u00f3tica PUC-SP.<br \/>\n<\/strong><\/h6>\n<figure id=\"attachment_6552\" aria-describedby=\"caption-attachment-6552\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6552\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/20220725_094418-1-300x210.jpg\" alt=\"Instagram @contemporary_art\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/20220725_094418-1-300x210.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/20220725_094418-1.jpg 541w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6552\" class=\"wp-caption-text\">Instagram @contemporary_art<\/figcaption><\/figure>\n<p>Na novela <em>Em conversa de bois<\/em>, que se encontra em <em>Sagarana<\/em> de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>, o personagem Manuel Timborna afirma que \u00e9 certo e indiscut\u00edvel que os bois conversam entre si e com os homens, e isto, se comprova nos livros das fadas carochas.<\/p>\n<p>Rosa o descreve da seguinte maneira: \u201cManuel Timborna, que, em vez de ca\u00e7ar servi\u00e7o para fazer, vive falando inven\u00e7\u00f5es s\u00f3 l\u00e1 dele mesmo, coisas que as outras pessoas n\u00e3o sabem e nem querem escutar\u201d.<\/p>\n<p>Manuel Timborna traz uma verdade que diz comprovada. A verdade n\u00e3o \u00e9 aquilo que se conta nas novelas quase sempre familiares nas an\u00e1lises? Aquilo que tem um sentido por vezes reatualizado?<\/p>\n<p>Coisas que as pessoas n\u00e3o sabem ou n\u00e3o querem escutar, fez Freud responder de uma outra maneira. Ele escutou as hist\u00e9ricas de seu tempo, chegando a confessar a Fliess que n\u00e3o acreditava mais em sua neur\u00f3tica e com isso formulou a realidade ps\u00edquica ou ficcional, necess\u00e1ria para se defender do real. Lacan no Semin\u00e1rio XXIII<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> diz que em Freud \u00e9 patente a distin\u00e7\u00e3o entre o verdadeiro e o real, o primeiro d\u00e1 prazer e o segundo n\u00e3o, ainda neste Semin\u00e1rio afirma que s\u00f3 \u00e9 verdadeiro o que tem um sentido e o real n\u00e3o tem sentido algum, \u00a0aqui Lacan se refere \u00a0\u00e0s rodinhas de barbantes e suas cores. Para Freud o inconsciente \u00e9 redut\u00edvel a um saber, o que Lacan representou por S1-S2, ou seja, a representa\u00e7\u00e3o do sujeito:<\/p>\n<blockquote><p>A defini\u00e7\u00e3o que dou do significante ao qual confiro o suporte S \u00edndice 1 \u00e9 representar um sujeito como tal, e represent\u00e1-lo verdadeiramente (&#8230;) conforme a realidade.<\/p><\/blockquote>\n<p>O verdadeiro \u00e9 dizer conforme a realidade. A realidade, nesse caso, \u00e9 o que funciona, funciona verdadeiramente . Mas o que funciona verdadeiramente n\u00e3o tem nada a ver com o que designo como real. (Lacan, 2007, pgs127 \u2013 128)<\/p>\n<p>O real do qual se serve Lacan n\u00e3o se trata, portanto, da realidade em Freud. Este real, cuja poesia toca \u00e9 o que Lacan chamou de sua inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A narrativa de Timborna, que estaria mais do lado da realidade verdadeira, passa pela mudan\u00e7a do narrador-poeta que prop\u00f5e contar de outro modo: S\u00f3 se eu tiver licen\u00e7a de recontar diferente , enfeitado e acrescentado ponto e pouco&#8230;<\/p>\n<p>Este ponto de virada, ou ponto de poesia, aparece na pequena novela com homofonias, elipses, onomatopeias e neologismos. Neste aspecto, Milner (2012) retrata o ato de poesia como um ponto de cessa\u00e7\u00e3o da falta ao escrever, onde poesia e verdade se encontram, na medida em que a verdade \u00e9 aquilo com que a l\u00edngua est\u00e1 em falta, mas que exige ser dito do ponto de vista \u00e9tico. Cita Mallarm\u00e9 para quem o verso remunera a falha das l\u00ednguas: \u201cPara outros como Mallarm\u00e9 ou Saussure, o ponto em que a falta cessa \u2013 o um a mais que a preenche \u2013 reside na pr\u00f3pria fonia; trata-se, ent\u00e3o de despoj\u00e1-la do que ela tem de \u00fatil na comunica\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, renunciar ao distintivo: n\u00e3o mais o c\u00famulo da pureza do sentido, mas a faceta multiplicada de homofonia\u201d. <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>O autor acrescenta que o poeta \u00e9 reconhecido justamente por afetar a l\u00edngua, \u00e9 o que faz Rosa, desde a descri\u00e7\u00e3o do boi Buscap\u00e9 cuja barba <em>desdece<\/em>, o quase sol de setembro que \u00e9 <em>despalpebrado<\/em>, da <em>repisonga <\/em>da fala do boi Brilhante enquanto dorme, do carreteiro Jo\u00e3o Bala que vai em seu carro de boi <em>mesmando<\/em>, do boi que se agita no ritmo do <em>costelame, <\/em>que gosta<em> maismente <\/em>de se emparelhar com os churri\u00f5es<em>, <\/em>o boi tamb\u00e9m remoendo e<em> tresmoendo <\/em>o capim<em> comido-de-manh\u00e3.<\/em><\/p>\n<p><em>O nhein&#8230; nhenhein&#8230; renheinhein&#8230; <\/em>da cantiga do carro de bois<em>. <\/em>O<em> chlape chlape <\/em>dos estalidos das alpercatas de couro cru. Quando bufa o boi Canind\u00e9<em> Ong! Moung!<\/em> O <em>Uf! Pfu<\/em> que sopra boi Brilhante. O <em>Muh! Mung!<\/em> que tuge\u00a0 boi Brabagato e <em>o Oon! Oung!<\/em> do bufo do boi Buscap\u00e9.<\/p>\n<p>A inser\u00e7\u00e3o do novo, da poesia, faz revirar a verdade da hist\u00f3ria da carochinha, como a luva em seu avesso, tocando o imposs\u00edvel de dizer.<\/p>\n<p>\u00c9 bastante conhecida a frase de Lacan dita em Televis\u00e3o: \u201cSempre digo a verdade: n\u00e3o toda, porque diz\u00ea-la toda n\u00e3o se consegue. Diz\u00ea-la toda \u00e9 imposs\u00edvel, materialmente: faltam palavras. \u00c9 por esse imposs\u00edvel, inclusive, que a verdade tem a ver com o real\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Timborna quer contar sua verdade, o poeta advertido de que esta n\u00e3o pode ser toda dita, recorre \u00e0s palavras inventadas, \u00e0s figuras de linguagem, ou seja, aos sons e palavras que tocam o real, uma verdade que tem a ver com o real.<\/p>\n<p>Ao falar de Joyce, Lacan diz que quando se escreve pode-se tocar o real, mas n\u00e3o o verdadeiro. Temos mesmo algo da verdade e do real que se imbricam, que n\u00e3o se op\u00f5em. Feitos da mesma mat\u00e9ria entre discurso e aquilo que pode ser inventado. N\u00e3o \u00e9 isto que se busca em um final de an\u00e1lise? Que cada um possa no seu sert\u00e3o fazer uma inven\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>ROSA, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> <strong>LACAN<\/strong>, Jacques. O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0 Milner, Jean-Claude. O amor da l\u00edngua. Campinas, S\u00e3o Paulo: Editora da Unicamp, 2012. P\u00e1g. 40.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, Jacques. Televis\u00e3o. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003. P\u00e1g. 508.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Elisangela Miras Psic\u00f3loga, psicanalista, mestre em comunica\u00e7\u00e3o em semi\u00f3tica PUC-SP. 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