{"id":6523,"date":"2022-07-25T08:15:11","date_gmt":"2022-07-25T11:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6523"},"modified":"2022-07-25T08:15:11","modified_gmt":"2022-07-25T11:15:11","slug":"o-truque-do-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-truque-do-sonho\/","title":{"rendered":"O truque do sonho"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6>Cynthia Gon\u00e7alves Gindro<br \/>\nAssociada ao CLIN-a<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6524\" aria-describedby=\"caption-attachment-6524\" style=\"width: 248px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6524\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_003-1.jpg\" alt=\"Imagem: Instagram @vikmuniz\" width=\"248\" height=\"216\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6524\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @vikmuniz<\/figcaption><\/figure>\n<p>Como no sonho, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o trata de entender o que se quer dizer, mas sim, de um texto. Como diz Jacques Lacan<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> no Semin\u00e1rio <em>mais, ainda<\/em>: \u201cUm sonho, isso n\u00e3o introduz a nenhuma experi\u00eancia insond\u00e1vel, a nenhuma m\u00edstica, isso se l\u00ea do que dele se diz, e que se poder\u00e1 ir mais longe ao tomar seus equ\u00edvocos no sentido mais anagram\u00e1tico do termo\u201d.<\/p>\n<p>O que do sonho n\u00e3o pode ser todo, e se diz nas entrelinhas, permite, al\u00e9m da dire\u00e7\u00e3o do tratamento anal\u00edtico, uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no que concerne \u00e0 fun\u00e7\u00e3o da palavra e da verdade nos novos tempos, como aquilo que comporta um enigma e n\u00e3o uma verdade absoluta, do truque constru\u00eddo pelo <em>parl\u00eatre<\/em> de verdade mentirosa e sobre seu gozo.<\/p>\n<p>Ao tentar ler esse tema, uma aproxima\u00e7\u00e3o entre a verdade, o gozo e o sonho me pareceu interessante nesse sentido.<\/p>\n<p>Sabemos, desde Freud, que a elabora\u00e7\u00e3o do sonho comporta uma vestimenta com os restos diurnos, e diz mais do que sabemos \u2013 do que queremos dizer com eles, j\u00e1 que inclui um dizer da textura de <em>lal\u00edngua <\/em>ao falhar nessa elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo que se p\u00f5e em jogo no sonho como corpo falante e gozante, ao incorporar algo que n\u00e3o se pode nomear, que n\u00e3o se v\u00ea, \u00e9 indecifr\u00e1vel e inomin\u00e1vel, onde se produz um efeito de afeto \u2013 que muitas vezes desperta, que se localiza no limite do simb\u00f3lico e do imagin\u00e1rio, e \u00e9 onde h\u00e1 um limite chamado umbigo.<\/p>\n<p>J-A. Miller<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> afirma que existem sonhos que podem apresentar o gozo n\u00e3o pela via ficcional que o interdita, mas pela via do gozo como acontecimento de corpo; assim, se faz presente, e ele diz: \u201cisso pode advir no sonho\u201d. H\u00e1 uma l\u00f3gica de interdi\u00e7\u00e3o\/ permiss\u00e3o no sonho como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, mas tamb\u00e9m no que \u00e9 acontecimento de corpo do regime do gozo como tal, que escapa ao sentido e n\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Marga Aur\u00e9<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> esclarece sobre um real traum\u00e1tico que no sonho se esconde na falta de representa\u00e7\u00e3o. O umbigo do sonho \u00e9 onde confluem as associa\u00e7\u00f5es que desembocam no <em>Unerkannt<\/em>, n\u00e3o-reconhecido ou o indiz\u00edvel, como um n\u00f3 do sonho, e Lacan o correlaciona com o <em>Urverdrangung<\/em>, recalque original, que se refere \u00e0 pr\u00f3pria natureza do simb\u00f3lico, que comporta um furo. Sendo assim, o umbigo do sonho furo e n\u00f3, como uma cicatriz que marca a opacidade do inconsciente sobre sexo e morte, marca a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. E \u00e9 justamente com a fun\u00e7\u00e3o de furo que o real se reduz a puls\u00e3o, ao que se liga aos orif\u00edcios corporais.<\/p>\n<p>Para especificar esse ponto, em resposta a Marcel Riter<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, Lacan diferencia o real pulsional e o da repress\u00e3o prim\u00e1ria do inconsciente; um seria a fun\u00e7\u00e3o de furo das zonas er\u00f3genas e o outro como o n\u00e3o reconhecido do inconsciente. Esse \u00faltimo \u00e9 a cicatriz, marca que ficou da fun\u00e7\u00e3o de amarra\u00e7\u00e3o de um furo que fechou. Dessa maneira, Hebe Tizio<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> muito precisamente localiza que o umbigo dos sonhos n\u00e3o \u00e9 o real em si, mas anda sobre ele, j\u00e1 que n\u00e3o se pode ir mais al\u00e9m, e \u00e9 como Freud vai descrever do imposs\u00edvel de ser reconhecido da repress\u00e3o prim\u00e1ria, e Lacan o escreve como o A barrado, da forclus\u00e3o generalizada.<\/p>\n<p>Hebe Tizio<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> continua dizendo que \u00e9 no pesadelo que a experi\u00eancia massiva da ang\u00fastia encarna no medo e afligi o corpo, um sentimento de reduzir o corpo ao gozo. Ela complementa que \u00e9 o umbigo do sonho que efetivamente d\u00e1 o n\u00f3, e no pesadelo isso surge quando o simb\u00f3lico se afrouxa e deixa vivenciar esse gozo do corpo, que vem em cima do sujeito o assolando. Mas o pesadelo leva at\u00e9 certo ponto que n\u00e3o se pode mais ir al\u00e9m, seria como um eco do encontro com um fragmento de real.<\/p>\n<p>Assim como no sonho chega-se a um ponto do indiz\u00edvel, na vida o desejo \u00e9 de continuar dormindo, a vida tamb\u00e9m est\u00e1 distante de um despertar. Lacan<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> diz que um despertar total \u00e9 imposs\u00edvel, e que o mundo n\u00e3o \u00e9 mais que sonho de cada corpo.<\/p>\n<p>Trata-se daquilo que durante uma an\u00e1lise esteve desde o in\u00edcio como dire\u00e7\u00e3o do tratamento, o que se diz nas entrelinhas. Desse truque que cada sujeito encontra com o real, e \u00e9 da ordem de um furo e uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber sobre <em>lal\u00edngua<\/em>. Como um fio que tece as tramas de uma an\u00e1lise e tamb\u00e9m as tramas dos sonhos.<\/p>\n<p>No percurso de uma an\u00e1lise, como Silvia Elena Tendlaz<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> diz, os sonhos revelam cifrados como semblantes e tamb\u00e9m com o furo central do que n\u00e3o \u00e9 dito com o tecido de <em>lal\u00edngua<\/em> que impacta o corpo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um truque que todos inventam para preencher o furo, uma inven\u00e7\u00e3o frente ao trauma desse sem sentido, onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Aproximo esse truque ao que no sonho se inventa nos tecidos e cenas que a presen\u00e7a do real n\u00e3o escapa desse <em>entramado<\/em>, tamb\u00e9m como em um texto as letras fazem as tramas. E aqui onde existe o trabalho do sonho com os restos diurnos no vestir do que quer esconder, naquilo que inclusive n\u00e3o teria representa\u00e7\u00e3o, faltam roupas, faltam objetos, da mesma forma que falta no universal encontrar para a mulher a roupagem de um conceito que n\u00e3o existe, do que fica bem claro no dizer de Lacan: \u201cA mulher n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria esse A barrado justamente o que nos interessa sobre a verdade e o gozo do <em>parl\u00eatre<\/em> em uma an\u00e1lise? E o quanto esse furo que gira os entre-ditos n\u00e3o h\u00e1 algo de feminino que surge no final de uma an\u00e1lise? Como um real do feminino que \u00e9 um real que escapa \u00e0 palavra?<\/p>\n<p>Omaira Meseguer<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a> diz: \u201cOs sonhos nos quais o corpo feminino \u00e9 evocado por meio de uma m\u00e1scara ou escondido sob os m\u00faltiplos v\u00e9us que tricotam os \u201cespelhamentos\u201d (<em>miroite-ments<\/em>), os sonhos tentativas de vestimenta.\u201d.<\/p>\n<p>Tal como na experi\u00eancia anal\u00edtica, a escrita do sonho \u00e9 um artificio, um fazer com o que n\u00e3o se pode dizer, um truque ou um blefe no jogo de <em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. O Semin\u00e1rio, livro 20, <em>mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 2008. p. 102.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> MILLER, J-A. Curso de la Orientaci\u00f3n lacaniana, El ser y el uno, clase 2 de marzo de 2011. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> AUR\u00c9, M. Os furos do sonho. In.: Scilicet: O sonho &#8211; Sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano. S\u00e3o Paulo. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. El ombligo del sue\u00f1o es un agujero. Respuesta a Marcel Ritter. In.: Revista Freudiana, n. 87. Catalunya. 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> TIZIO, H. El sue\u00f1o es una pesadilla moderada. In.: La escritura del sue\u00f1o\/ Rosa Apartin\u2026 [et al.]; compilado por Olga Gonz\u00e1lez de Molina. 1a ed. \u2013 Olivos, Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> TIZIO, H. El sue\u00f1o es una pesadilla moderada. In.: La escritura del sue\u00f1o\/ Rosa Apartin\u2026 [et al.]; compilado por Olga Gonz\u00e1lez de Molina. 1a ed. \u2013 Olivos, Grama Ediciones, 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> LACAN, J. Respuesta de Lacan a una pregunta de Catherine Milot. Improvisaci\u00f3n: deseo de muerte, sue\u00f1o y despertar. In.: Revista Freudiana, n. 88. Catalunya. Enero\/abril de 2020.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> TENDLAZ, S. E. O tema. Scilicet. O sonho. Dispon\u00edvel em: https:\/\/congresoamp2020.com\/pt\/articulos.php?sec=el-tema&amp;sub=scilicet&amp;file=el-tema\/scilicet\/20-07-13_scilicet-el-sueno.html<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MESEGUER, O. O real e o feminino no sonho. In.: Scilicet: O sonho &#8211; Sua interpreta\u00e7\u00e3o e seu uso no tratamento lacaniano. S\u00e3o Paulo. Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, 2020. p. 151.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Cynthia Gon\u00e7alves Gindro Associada ao CLIN-a Como no sonho, a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o trata de entender o que se quer dizer, mas sim, de um texto. Como diz Jacques Lacan[1] no Semin\u00e1rio mais, ainda: \u201cUm sonho, isso n\u00e3o introduz a nenhuma experi\u00eancia insond\u00e1vel, a nenhuma m\u00edstica, isso se l\u00ea do que dele se&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6523","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-inter-dito","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6523"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6523\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6523"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}