{"id":6520,"date":"2022-07-25T08:15:11","date_gmt":"2022-07-25T11:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6520"},"modified":"2022-07-25T08:15:11","modified_gmt":"2022-07-25T11:15:11","slug":"de-uma-mentira-veridica-a-verdade-mentirosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/de-uma-mentira-veridica-a-verdade-mentirosa\/","title":{"rendered":"De uma mentira ver\u00eddica \u00e0 verdade mentirosa"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6>Andressa Cont\u00f3 Luz<br \/>\nAssociada ao CLIN-a<\/h6>\n<blockquote><p><em>\u00a0\u201ca miragem da verdade, da qual s\u00f3 se pode esperar a mentira (\u00e9 a isso que se chama resist\u00eancia, em termos polidos), n\u00e3o tem outro limite sen\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise.\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_6521\" aria-describedby=\"caption-attachment-6521\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6521\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_004-1-300x222.jpg\" alt=\"Imagem: Instagram @pinacotecasp\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_004-1-300x222.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_004-1.jpg 627w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6521\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @pinacotecasp<\/figcaption><\/figure>\n<p>Diante da oportunidade de contribuir para este boletim das XI Jornadas da EBP\/SP \u201c\u023a\u00a0verdade e o gozo que n\u00e3o mente\u201d, determinei a \u201csatisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a> como ponto de partida deste trabalho. \u00c9 o que me faz quest\u00e3o, pois \u00e9 este o ponto do qual se verifica o limite de uma certa ilus\u00e3o da verdade que se fez presente durante todo o percurso da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Para tanto, busquei algumas passagens de Lacan e de Miller, onde pude localizar refer\u00eancias concernentes ao tema da verdade, para contextualizar a minha quest\u00e3o a seguir:<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 11, Lacan indica que o campo da verdade ou da mentira \u201crefere ao campo do Outro (A), uma vez em que \u00e9 neste campo, onde o sujeito se olha e se v\u00ea, em que ele come\u00e7a a constituir uma mentira ver\u00eddica pela qual tem come\u00e7o aquilo que participa do desejo no n\u00edvel do inconsciente\u201d<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Ou seja, \u00e9 com o jogo dos significantes &#8211; do qual o sujeito \u00e9 efeito, que um \u201cefeito de verdade\u201d<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> se produz. Portanto, falar \u00e9 preciso! \u201csem fala, nada de efeito de verdade\u201d<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>, refor\u00e7a Miller.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 16, Lacan retoma a propriedade da verdade: \u201cela fala\u201d<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, diz ele, para precisar que isso n\u00e3o significa, no entanto, que ela diga a verdade: \u201cQuanto ao que ela diz, voc\u00eas \u00e9 que t\u00eam de se haver com isso\u201d<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. No semin\u00e1rio 17, no entanto, Lacan segue trabalhando o tema da evoca\u00e7\u00e3o da verdade para indicar que ela \u201cs\u00f3 \u00e9 acess\u00edvel por um semi-dizer, que ela n\u00e3o pode ser inteiramente dita porque, para al\u00e9m de sua metade, n\u00e3o h\u00e1 nada a dizer.\u201d<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. Eis, a\u00ed, um primeiro limite no campo da enuncia\u00e7\u00e3o. O que resta a dizer, d (\u023a) verdade, ao final de uma an\u00e1lise?<\/p>\n<p>Sabemos, com Lacan, da indica\u00e7\u00e3o que ele nos faz, ao cunhar o termo \u201cverdade mentirosa\u201d como um novo estatuto da verdade no final de uma an\u00e1lise. \u00c9 com o dispositivo do passe, portanto, que temos uma refer\u00eancia \u201cdaqueles que se arriscam a testemunhar da melhor maneira poss\u00edvel sobre a verdade mentirosa\u201d<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>Ainda a respeito da \u201cverdade mentirosa\u201d, recolho de Miller uma precis\u00e3o que ele enuncia como o cerne de sua constitui\u00e7\u00e3o: a alian\u00e7a da verdade com a mentira<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Em seguida \u00e0s refer\u00eancias preliminares que indiquei aqui, proponho as seguintes quest\u00f5es para debatermos at\u00e9 \u00e0s Jornadas:<\/p>\n<p>O que o final de uma an\u00e1lise poderia testemunhar de uma nova rela\u00e7\u00e3o entre gozo, saber e verdade? Estaria a\u00ed, em ess\u00eancia, o saber-fazer com o gozo, pr\u00f3prio ao sinthoma?<\/p>\n<p>O que poder\u00edamos extrair (enquanto um dizer) de uma satisfa\u00e7\u00e3o que marca, ao final de uma an\u00e1lise, uma nova alian\u00e7a com o gozo?<\/p>\n<p>Se o amor ao inconsciente \u00e9 o piv\u00f4 da rela\u00e7\u00e3o anal\u00edtica, Lacan nos adverte que o amor \u00e0 verdade \u201c\u00e9 o amor a essa fragilidade cujo v\u00e9u levantamos, \u00e9 o amor ao que a verdade esconde, e que se chama castra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>. Diante desta perspectiva, se considerarmos o percurso de uma an\u00e1lise rumo ao desvanecimento dos efeitos de verdade que re-velam a castra\u00e7\u00e3o, via discurso, em que medida essa opera\u00e7\u00e3o-redu\u00e7\u00e3o implica o corpo?<\/p>\n<p>Encontrei em Miller, entretanto, uma dire\u00e7\u00e3o: ao retomar o conceito de gozo, ele indica que, se a apari\u00e7\u00e3o do sinthoma se d\u00e1 em algum lugar, \u00e9 justo quando Lacan trope\u00e7a num termo que n\u00e3o funcionar\u00e1 em conformidade com o regime da castra\u00e7\u00e3o. Mais adiante, ele localiza em Lacan um esfor\u00e7o de tentar mostrar por que o gozo \u00e9 necessariamente atingido pela castra\u00e7\u00e3o, dizendo que o gozo, por ser infinito, exige uma \u201cinterdi\u00e7\u00e3o, um s\u00f3-at\u00e9-aqui, um n\u00e3o, um menos\u201d<a href=\"#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>. Miller ainda acrescenta que, se o gozo fosse infinito, ele seria mort\u00edfero, \u201ccaso n\u00e3o encontrasse um menos, o complexo de castra\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>. Sendo assim, deparamo-nos com dois planos que se desdobram naquilo que concerne ao gozo: um onde h\u00e1 o falo, o objeto a, o menos, o \u00c9dipo (negativa\u00e7\u00e3o do gozo); e no outro plano onde h\u00e1 o imposs\u00edvel de ser negativado<a href=\"#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>.\u00a0 Miller esclarece que \u00e9 preciso reconsiderar a rela\u00e7\u00e3o entre a verdade e o gozo sob o \u00e2ngulo do gozo como imposs\u00edvel negativa\u00e7\u00e3o, tratando-se, portanto, de uma travessia da fantasia em dire\u00e7\u00e3o ao imposs\u00edvel de negativar, de modo a fazer \u201cdesvanecer toda uma parte da experi\u00eancia na qual o neur\u00f3tico joga sua partida fantas\u00edstica com um Outro que lhe demandaria sua castra\u00e7\u00e3o para dela gozar\u201d<a href=\"#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>.<\/p>\n<p>Mas, se esse Outro n\u00e3o existe, problematiza Miller, e se esse Outro que n\u00e3o existe \u00e9 o da verdade, o Outro do sentido (cerne da mentira ver\u00eddica), o lugar do Outro deve ser buscado no corpo e n\u00e3o na linguagem<a href=\"#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a>.<\/p>\n<p>O que Miller destaca nas passagens indicadas acima \u00e9 que, a travessia da fantasia, isto \u00e9, a travessia da \u201cmentira ver\u00eddica\u201d com a qual nos deparamos durante todo o percurso de an\u00e1lise, implica em uma mudan\u00e7a no estatuto do Outro. Os efeitos de verdade que se revelam, \u00edndice do que vela a castra\u00e7\u00e3o, caminham em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 negativa\u00e7\u00e3o do gozo. Uma revela\u00e7\u00e3o sobre a fantasia faria dissipar, enquanto efeito, o \u201cparceiro imaginarizado da fantasia\u201d<a href=\"#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a>, este Outro da verdade, revelando sua inconsist\u00eancia e, consequentemente, liberando o acesso ao gozo como imposs\u00edvel de negativar.<\/p>\n<p>\u201cQue o sujeito, com o gozo, possa passar a uma nova alian\u00e7a\u201d<a href=\"#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a>, isso \u00e9 o que prop\u00f5e Miller ao indicar a busca do lugar do Outro no corpo, implicado na produ\u00e7\u00e3o do gozo, e n\u00e3o mais na linguagem. O que dissiparia, neste caso, \u00e9 o apelo ao Outro do sentido, em dire\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o-sentido, pr\u00f3prio do gozo imposs\u00edvel de negativar.<\/p>\n<p>Estaria a\u00ed uma dire\u00e7\u00e3o para o que engendra essa nova alian\u00e7a entre a verdade com a mentira, constitutiva da verdade mentirosa, cujo \u00edndice de \u201climite da miragem da verdade\u201d s\u00f3 se alcan\u00e7a ao final de uma an\u00e1lise?.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Lacan, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p\u00e1g. 568<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Lacan, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 11:os quatro conceitos fundamentais da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p\u00e1g. 143.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Miller, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p\u00e1g. 126<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Lacan, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p\u00e1g. 168.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lacan, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p\u00e1g. 54<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p\u00e1g. 569<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> Miller, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p\u00e1g. 125<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a> Lacan, Jacques. Semin\u00e1rio, livro 17: o avesso da psican\u00e1lise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p\u00e1g. 54<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a> Miller, Jacques-Alain. Perspectivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p\u00e1g. 171-183<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref15\" name=\"_edn15\">[15]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a> Ibidem<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a> Ibidem<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Andressa Cont\u00f3 Luz Associada ao CLIN-a \u00a0\u201ca miragem da verdade, da qual s\u00f3 se pode esperar a mentira (\u00e9 a isso que se chama resist\u00eancia, em termos polidos), n\u00e3o tem outro limite sen\u00e3o a satisfa\u00e7\u00e3o que marca o fim da an\u00e1lise.\u201d[1] Diante da oportunidade de contribuir para este boletim das XI Jornadas&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6520","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-inter-dito","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6520","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6520"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6520\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6520"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6520"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6520"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6520"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}