{"id":6517,"date":"2022-07-25T08:15:11","date_gmt":"2022-07-25T11:15:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6517"},"modified":"2022-07-25T08:15:11","modified_gmt":"2022-07-25T11:15:11","slug":"sensivel-a-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sensivel-a-palavra\/","title":{"rendered":"Sens\u00edvel \u00e0 palavra"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6>\u00c9lida Biasol<br \/>\nPsicanalista, Associada ao CLIN-a<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6518\" aria-describedby=\"caption-attachment-6518\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-6518\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_005-1-300x242.jpg\" alt=\"Imagem: Instagram @arte_magazine\" width=\"300\" height=\"242\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_005-1-300x242.jpg 300w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/interdito_002_002_005-1.jpg 598w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6518\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @arte_magazine<\/figcaption><\/figure>\n<p>Eu ainda era estudante de psicologia. Estava fazendo um est\u00e1gio em que atendia uma crian\u00e7a psic\u00f3tica 3 vezes por semana. Desde l\u00e1, j\u00e1 era muito envolvida pela psican\u00e1lise, mas naquela \u00e9poca, a orienta\u00e7\u00e3o que seguia era da escola inglesa. A diretriz era a de que o analista, munido de uma hist\u00f3ria familiar pr\u00e9via traduzida na linguagem da psican\u00e1lise, lan\u00e7asse suas hip\u00f3teses ao paciente. O que servisse, serviu, o que n\u00e3o servisse, n\u00e3o serviu. Como uma boa estudante, segui a instru\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s alguns atendimentos, fui acometida por uma crise de ang\u00fastia. Pensei: mas como assim? Lan\u00e7ar minhas palavras? At\u00e9 onde? At\u00e9 que se aceite como verdade o que sai da boca do analista? Quer dizer que se fosse outro praticante a atender o mesmo paciente seria tomado um rumo diferente? Conclu\u00ed: mas isso diz de quem fala e n\u00e3o de quem se est\u00e1 escutando.<\/p>\n<p>Foi com Lacan que aprendi que a condi\u00e7\u00e3o fundamental para a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica \u00e9 ler o texto do paciente, ser sens\u00edvel a cada palavra do paciente. Na aula do dia 14 de dezembro de 1976, Lacan diz: <em>\u201cTout ce qui n\u2019est pas fond\u00e9 sur la mati\u00e8re est une escroquerie \u2013 Mat\u00e9riel \u2013 ne \u2013 ment\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. Tudo que n\u00e3o \u00e9 fundado na mat\u00e9ria \u00e9 uma escroqueria \u2013 mat\u00e9ria \u2013 n\u00e3o- mente\/materialmente. Essa formula\u00e7\u00e3o de Lacan vem para fazer um basta ao del\u00edrio que a psican\u00e1lise estava sendo: ele queria \u201cproteger a psican\u00e1lise de sua tend\u00eancia delirante que ele chama de \u201cpreferir o inconsciente acima de tudo\u201d\u201d <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. A tend\u00eancia delirante da psican\u00e1lise decorre da s\u00e9rie de significantes que s\u00e3o a verdade do desejo inconsciente, em que um deslize (<em>b\u00e9vue<\/em>) a mais, um equ\u00edvoco a mais, um sentido a mais \u00e9 sempre poss\u00edvel. Quer dizer, em uma an\u00e1lise, continuar tomando o significante na s\u00e9rie <em>ad libitum<\/em> \u00e9 o del\u00edrio.<\/p>\n<p>Nesse momento do ensino de Lacan, o inconsciente \u00e9 feito de \u201cum-deslize\u201d (<em>une-b\u00e9vue)<\/em> que s\u00e3o significantes-um que sempre geram equ\u00edvoco. Esses significantes-um s\u00e3o marcas de um modo de gozo que permanece sempre o mesmo. Dizendo de outra maneira, aqui o inconsciente n\u00e3o \u00e9 mais estruturado como uma linguagem, aquele constitu\u00eddo pelos efeitos dos significantes, mas o inconsciente como o Um-sozinho que se repete, pura repeti\u00e7\u00e3o do mesmo.<\/p>\n<p>\u201cA no\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria \u00e9 fundamental na medida em que funda o mesmo\u201d <a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Um mesmo que se refere ao fora de sentido, que n\u00e3o tem nenhuma necessidade de sentido, o sentido lhe \u00e9 disjunto. O material se apresenta como <em>corps-sistant<\/em> (corpo resistente\/consistente), sob a subst\u00e2ncia do corpo e isso que \u00e9 consistente \u00e9 o que faz unidade <a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>, \u00e9 o que faz Um. Ent\u00e3o \u00e9 o Um que marcou um corpo. Isso \u00e9 o que \u00e9 radicalmente singular para cada um.<\/p>\n<p>No percurso de uma an\u00e1lise, h\u00e1 o tempo em que o sentido engendrado ao Um domina. \u00c9 o tempo de S1 que se articula com S2 produzindo um saber, um sintoma a ser decifrado. Na neurose, por exemplo, o paciente chega com uma queixa, em geral, o outro que \u00e9 causador de seu mal-estar. A interven\u00e7\u00e3o do analista vem para fazer o analisante adentrar sua cadeia de significantes, passando da queixa para a implica\u00e7\u00e3o nessa hist\u00f3ria que fala. \u00c9 a chamada retifica\u00e7\u00e3o subjetiva. S1 se articula \u00e0 fantasia, ligando assim o gozo do sujeito com o Outro da linguagem. O S1 enla\u00e7ado na fantasia recobre seu car\u00e1ter assem\u00e2ntico, despistando o fora de sentido de S1. S\u00f3 ao ultrapassar o gozo do sentido que se alcan\u00e7a o significante-um assem\u00e2ntico e ent\u00e3o a um Outro gozo.<\/p>\n<p>O deslocamento que se opera \u00e9 do inconsciente estruturado como uma linguagem para a dimens\u00e3o real, ou seja, daquilo que escapa a linguagem, ao sistema da linguagem, para aquilo que aponta ao significante-um que n\u00e3o \u00e9 dial\u00e9tico, que n\u00e3o \u00e9 sem\u00e2ntico. Sintoma aqui \u00e9 um acontecimento de corpo, n\u00e3o mais decifra\u00e7\u00e3o do inconsciente. H\u00e1 uma redu\u00e7\u00e3o do sintoma que vai do estatuto simb\u00f3lico \u00e0 dimens\u00e3o real. O efeito da queda de sentido abre caminho para o inconsciente real, \u201cinconsciente que se l\u00ea, por\u00e9m n\u00e3o se interpreta mais\u201d <a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Clotilde Leguil <a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>, ao falar de sua an\u00e1lise, ilustra bem essa reten\u00e7\u00e3o de sentido. Ela conta que para chegar nesse ponto foi preciso passar pela verdade, por isso que engendra o sentido e que durou mais de 16 anos. Com a morte de sua m\u00e3e, seu drama era viver um luto pela perda de seu \u00a0\u00a0lugar de falta que ocupava para ela, bem como o confronto que lhe restava desse amor: uma indivis\u00e3o com seus irm\u00e3os que desembocava numa intensa disc\u00f3rdia familiar com eles. Seu desejo estava asfixiado nesse \u201damor-paix\u00e3o\u201d que n\u00e3o encontrava ponto de basta. Como filha mais velha, acreditava ter que salvar tudo o que tinha sido perdido nessa fam\u00edlia. \u00c0 medida que sua an\u00e1lise avan\u00e7ava, ela consentia em perder esse gozo, o que, consequentemente, liberou libido para ser posta a servi\u00e7o do desejo. Ent\u00e3o vem a \u201cang\u00fastia diante da voz autorit\u00e1ria da Outra mulher, sentimento de ser filha perdida\u201d. Foi atrav\u00e9s de um sonho que reencontrara um enunciado com o qual nunca havia se preocupado: seu pai perdera a irm\u00e3 mais velha, por causa de uma hist\u00f3ria obscura de \u00e1gua contaminada (<em>l\u2019eau<\/em>) e toda vez que ele contava seus irm\u00e3os, ele contava tamb\u00e9m a primeira morta. \u00c9 a irrita\u00e7\u00e3o da m\u00e3e ao contar a primeira que lhe faz enigma: \u201c\u00c9 preciso contar a primeira?\u201d. Isso faz eco em seu corpo. Uma irrup\u00e7\u00e3o de gozo que se articula a esse significante \u201ca primeira\u201d. O final dessa an\u00e1lise se deu com a articula\u00e7\u00e3o da letra (letra que para ela adveio em torno do equ\u00edvoco <em>l\u2019eau<\/em>\/O) ao significante \u201ca primeira\u201d, desarticulado do significado, articulado com o efeito de gozo. Como se pode observar, o significante-mestre \u201ca primeira\u201d estava desde o primeiro tempo de sua an\u00e1lise, mas era tomado na sua fantasia, na trama de sentido. A separa\u00e7\u00e3o S1-S2 revela ent\u00e3o o eco no corpo que a marca: \u201c\u00e9 preciso contar a primeira?\u201d. Inconsciente que se l\u00ea, inconsciente real.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> LACAN, Jacques. Le s\u00e9minaire 1976-77&#8230;, aula do dia 14 de dezembro de 1976, <em>Ornicar?, <\/em>n 13, p. 10<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>LAURENT, Eric. <em>Falar com seu sintoma, falar com o corpo<\/em>, Argumento VI ENAPOL. Acess\u00edvel por: http:\/\/enapol.com\/vi\/pt\/portfolio-itens\/falar -com-seu-sintoma-falar-com-seu-corpo\/?portfolioCats=15<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> LACAN, 1976, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> LACAN, 1976, p. 10.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> LEGUIL, Clotilde. O novo amor, um amor que faz ponto de basta. <em>Correio, Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise<\/em>, n 87, 2022, p. 115<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> LEGUIL, 2022, p. 115-125.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;6423&#8243; img_size=&#8221;full&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] \u00c9lida Biasol Psicanalista, Associada ao CLIN-a Eu ainda era estudante de psicologia. Estava fazendo um est\u00e1gio em que atendia uma crian\u00e7a psic\u00f3tica 3 vezes por semana. Desde l\u00e1, j\u00e1 era muito envolvida pela psican\u00e1lise, mas naquela \u00e9poca, a orienta\u00e7\u00e3o que seguia era da escola inglesa. 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