{"id":6212,"date":"2021-10-27T17:04:37","date_gmt":"2021-10-27T20:04:37","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6212"},"modified":"2021-10-27T17:04:37","modified_gmt":"2021-10-27T20:04:37","slug":"historia-e-a-conexao-do-ato-analitico-com-a-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/historia-e-a-conexao-do-ato-analitico-com-a-civilizacao\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria e a conex\u00e3o do ato anal\u00edtico com a civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Thomas Svolos (NLS\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6213\" aria-describedby=\"caption-attachment-6213\" style=\"width: 516px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6213\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_002-1.png\" alt=\"\" width=\"516\" height=\"428\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_002-1.png 516w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_002-1-300x249.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 516px) 100vw, 516px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6213\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @marisharasikoskinen<\/figcaption><\/figure>\n<p>O eixo de trabalho das X Jornadas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo sobre \u201cO Ato Anal\u00edtico e a Civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, levanta, de imediato, a quest\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre nosso trabalho enquanto analistas e a civiliza\u00e7\u00e3o em que trabalhamos. Lacan recorreu \u00e0 topologia como \u00fanica maneira de abordar a rela\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o com o inconsciente. Ao contr\u00e1rio do modelo de bolsa proposto por Freud<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> com um interior e um exterior, &#8211; um modelo para o ser falante no mundo &#8211; para Lacan, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o especial do sujeito com sua civiliza\u00e7\u00e3o, demonstrada por ele atrav\u00e9s da banda de Moebius e da garrafa de Klein. Essa \u00e9 uma configura\u00e7\u00e3o muito diferente do interior e do exterior, na qual reconhecemos que o que \u00e9 mais \u00edntimo para o ser falante pode ser percebido como sendo do exterior ou vice-versa, esta no\u00e7\u00e3o de <em>extimidade<\/em>, que conecta o ser falante e a civiliza\u00e7\u00e3o sem o limite r\u00edgido de Freud.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos colocar a quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o do ato anal\u00edtico com a civiliza\u00e7\u00e3o por esta via. E, para esse fim, gostaria de propor analisar aspectos ou dimens\u00f5es do ato anal\u00edtico historicamente e examinar sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com a civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a civiliza\u00e7\u00e3o como uma entidade monol\u00edtica e permanente, mas a civiliza\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Assim, podemos come\u00e7ar com o primeiro e fundamental ato anal\u00edtico de interpreta\u00e7\u00e3o freudiano, aquele por meio do qual o analista d\u00e1 um sentido &#8211; extra\u00eddo do inconsciente do analisante na experi\u00eancia anal\u00edtica &#8211; para uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente de um analisante. H\u00e1 pelo menos um eco disso na releitura feita por Lacan logo no in\u00edcio de seu trabalho quando utilizou a lingu\u00edstica. O simb\u00f3lico domina o imagin\u00e1rio, e o pr\u00f3prio simb\u00f3lico \u00e9 governado pelo Nome-do-Pai. Para os fins deste pequeno trabalho, vou caracteriz\u00e1-lo como uma primeira dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico, e afirmar que ele est\u00e1 ligado ao momento da civiliza\u00e7\u00e3o em que o Nome-do-Pai domina.<\/p>\n<p>Podemos caracterizar uma segunda dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico como a maneira atrav\u00e9s da qual ele introduz equ\u00edvocos em todas as suas formas. Essa segunda dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico segue a primeira e se correlaciona, poder\u00edamos dizer, com um momento da civiliza\u00e7\u00e3o em que o Nome-do-Pai \u00e9 plural. O universalismo do primeiro momento foi quebrado e novas estruturas de sentido foram introduzidas. Os fonemas da pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o assumem um valor diferente. Na literatura, este \u00e9 o momento do modernismo.<\/p>\n<p>Uma terceira dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico \u00e9 aquela que designarei de seu car\u00e1ter sem sentido. Este \u00e9 o ato anal\u00edtico sem sentido ou uma interpreta\u00e7\u00e3o, ou ato desconectado do sentido. Esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o do analista que n\u00e3o tem valor simb\u00f3lico ou outro ato do analista que n\u00e3o seja uma interpreta\u00e7\u00e3o verbal como tal. \u00c0s vezes, ouvimos e lemos em testemunhos de passe os efeitos dos atos corporais do analista na experi\u00eancia anal\u00edtica do analisante: talvez um olhar do analista; algum grunhido ou outro ru\u00eddo do analista; ou o analista bate com a m\u00e3o em cima da mesa. Todos estes atos est\u00e3o, afirmo, desligados do simb\u00f3lico, mas t\u00eam sua for\u00e7a ou seu impacto atrav\u00e9s da sua capacidade de capturar o real de uma forma ou de outra. Isso caracteriza mais outro momento hist\u00f3rico na nossa civiliza\u00e7\u00e3o, momento em que, como Jacques-Alain Miller colocou em \u201cUma Fantasia\u201d, o objeto<em> a<\/em> &#8211; esse peda\u00e7o de real &#8211; est\u00e1 no lugar dominante na sociedade. O ato anal\u00edtico j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o relacionada com o sentido, mas algo mais. Podemos recordar aqui todas as conversas sobre a era p\u00f3s-interpretativa ou interpreta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-edipiana. Essa dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico, que captura um pouco do real, entra na psican\u00e1lise neste momento da civiliza\u00e7\u00e3o. Nosso ato, neste momento em que muitos nomes p\u00f3s-modernidade ou hipermodernidade se correlacionam com esta estrutura hist\u00f3rica da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, este \u00e9 o pr\u00f3prio argumento feito por Miller neste artigo de 2004, a saber, se o discurso do analista \u00e9 o avesso do discurso da civiliza\u00e7\u00e3o e, durante muito tempo este foi o discurso do mestre assegurado pelo Nome-do-Pai, hoje em dia, a civiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 estruturada de acordo com o discurso do mestre, mas com o discurso do analista. Miller faz uma observa\u00e7\u00e3o sutil sobre isto, por\u00e9m importante. Ele afirma que no discurso da civiliza\u00e7\u00e3o de hoje, como os elementos podem ser estruturados tal como o discurso do analista, &#8211; com o objeto <em>a<\/em> na posi\u00e7\u00e3o do agente &#8211; os pr\u00f3prios elementos est\u00e3o desconectados. Assim, n\u00e3o \u00e9 um discurso verdadeiro, mas sim um discurso fragmentado, uma esp\u00e9cie de pseudo-discurso. O ato do analista, ao conectar os elementos em um verdadeiro discurso, \u00e9 caracter\u00edstico do que denominarei um quarto aspecto do ato anal\u00edtico, a interpreta\u00e7\u00e3o na sua dimens\u00e3o sinthom\u00e1tica, a forma como uma interpreta\u00e7\u00e3o pode ressoar nos registros do imagin\u00e1rio, do simb\u00f3lico e do real. A partir da minha pr\u00f3pria an\u00e1lise, dei um exemplo disto em um semin\u00e1rio que dei em Miami, publicado no livro <em>The Aims of Analysis: Miami Seminar on the Late Lacan<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>. Uma interpreta\u00e7\u00e3o do meu analista teve m\u00faltiplas reverbera\u00e7\u00f5es no imagin\u00e1rio, no simb\u00f3lico e na dimens\u00e3o real da minha experi\u00eancia vivida, conectando uma imagem do meu corpo, uma esp\u00e9cie de mandato simb\u00f3lico e peda\u00e7os de real que se repetiam na minha mente. Al\u00e9m disso, foi imediatamente ap\u00f3s esta interpreta\u00e7\u00e3o que eu fui capaz de ver, pela primeira vez, que um tipo de v\u00e9u foi levantado (uma outra liga\u00e7\u00e3o com a interpreta\u00e7\u00e3o), o meu objeto <em>a,<\/em> o semblante de ser que eu estimava, que conduzia minha vida e do qual, antes, eu estava completamente cego. Foi o momento mais transformador da minha experi\u00eancia de an\u00e1lise, cujo impacto, afirmo, teve a fun\u00e7\u00e3o de conectar elementos, como um sinthoma, uma dimens\u00e3o do ato anal\u00edtico para a civiliza\u00e7\u00e3o de hoje.<\/p>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o: Paula Christina Verlangieri Caio de Carvalho<\/h6>\n<h6>Revis\u00e3o: Jos\u00e9 Wilson Ramos Braga Jr.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> N. do T: Modelo topol\u00f3gico de bolsa freudiana para a segunda t\u00f3pica.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Tradu\u00e7\u00e3o livre: <em>Os Objetivos da An\u00e1lise: Semin\u00e1rio de Miami sobre o \u00faltimo Lacan<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thomas Svolos (NLS\/AMP) O eixo de trabalho das X Jornadas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise &#8211; Se\u00e7\u00e3o S\u00e3o Paulo sobre \u201cO Ato Anal\u00edtico e a Civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, levanta, de imediato, a quest\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre nosso trabalho enquanto analistas e a civiliza\u00e7\u00e3o em que trabalhamos. 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