{"id":6209,"date":"2021-10-27T17:02:21","date_gmt":"2021-10-27T20:02:21","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6209"},"modified":"2021-10-27T17:02:21","modified_gmt":"2021-10-27T20:02:21","slug":"o-ato-em-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/o-ato-em-freud\/","title":{"rendered":"O Ato em Freud"},"content":{"rendered":"<h6>Entrevista com Luis Francisco Esp\u00edndola Camargo (EBP\/AMP)<br \/>\nPor Mirmila Musse (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6210\" aria-describedby=\"caption-attachment-6210\" style=\"width: 478px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6210\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_003-1.png\" alt=\"\" width=\"478\" height=\"588\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_003-1.png 478w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_003-1-244x300.png 244w\" sizes=\"auto, (max-width: 478px) 100vw, 478px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6210\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @fishide_<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Mirmila Musse:<\/strong> Retiro do Argumento das <strong>X Jornadas da EBP-SP, Psican\u00e1lise em Ato,<\/strong> uma frase para apoiar nossa conversa: \u201ca \u2018falha no saber\u2019 e, mais especificamente, no saber da ci\u00eancia \u00e9 a for\u00e7a motriz que sustenta o \u2018ato\u2019 de cria\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise\u201d. Destaco duas dimens\u00f5es do ato quando tratamos da descoberta do inconsciente: uma cl\u00ednica e uma pol\u00edtica. Da perspectiva cl\u00ednica, sublinho \u201co ato falho\u201d e, no contexto pol\u00edtico, a \u201csubvers\u00e3o da raz\u00e3o\u201d &#8211; termo que tamb\u00e9m pode ser encontrado no Argumento. Nos dois casos, me parece que a consequ\u00eancia do ato de Freud vem como uma resposta para aquilo que o saber da ci\u00eancia n\u00e3o conseguia produzir. Nessa perspectiva proponho duas perguntas:<\/p>\n<p><strong>Dimens\u00e3o Pol\u00edtica do Ato<\/strong>: O ato de funda\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise por Freud coloca em quest\u00e3o um saber da ci\u00eancia daquela \u00e9poca que se deparava com a inefici\u00eancia em explicar a histeria apenas a partir de uma disfun\u00e7\u00e3o org\u00e2nica.\u00a0\u00a0Al\u00e9m disso, e ao mesmo tempo, ele interpreta a civiliza\u00e7\u00e3o e a compreens\u00e3o pol\u00edtica do sofrimento, quando, por exemplo, escreve <em>Al\u00e9m do Princ\u00edpio do Prazer<\/em> a partir da escuta cl\u00ednica dos soldados que retornavam da Primeira Guerra Mundial, ou mesmo da troca de cartas entre ele e Einstein que resultou no texto <em>Por que a guerra?,<\/em> al\u00e9m do texto <em>Mal-Estar na Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, entre outros. Esse ato pol\u00edtico surge de uma \u201cfalha no saber\u201d, o da ci\u00eancia. Voc\u00ea poderia falar um pouco sobre o ato de funda\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise por Freud a partir dessa dimens\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p><strong>Luis Francisco E. Camargo: <\/strong>A proposta de duas leituras sobre o ato anal\u00edtico &#8211; Cl\u00ednica e Pol\u00edtica &#8211; \u00e9 bastante interessante.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, a quest\u00e3o inicial para Freud era cl\u00ednica, precisamente, m\u00e9dica. Ele partiu da descoberta da Escola de Charcot, de que os sintomas hist\u00e9ricos n\u00e3o tinham uma etiologia org\u00e2nica. N\u00e3o \u00e9 Freud quem descobriu isso, mas a Escola de Charcot. Ele que aponta para um \u201ctrauma ps\u00edquico\u201d. O que Freud nomeou, descreveu e explicou foi o fundo patog\u00eanico de base nas forma\u00e7\u00f5es dos sintomas, respons\u00e1vel pela resposta ao trauma, que nomeou de inconsciente, por meio dos seus derivados: sintomas, sonhos, atos ps\u00edquicos inconscientes e chistes. Seria interessante diferenciar o ato falho do ato anal\u00edtico.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o pol\u00edtica do ato de Freud pode, na minha opini\u00e3o, ser abordada pelo descentramento do Eu. Quando se fala de ci\u00eancia, \u00e9 importante lembrar, que se trata da ci\u00eancia moderna, a de Descartes. Freud apresenta uma nova ci\u00eancia &#8211; a psican\u00e1lise &#8211; na qual o seu objeto n\u00e3o segue os princ\u00edpios da ci\u00eancia moderna, da l\u00f3gica Aristot\u00e9lica e do m\u00e9todo cartesiano. Freud sempre tratou a psican\u00e1lise como uma ci\u00eancia. Lacan o interpreta, ao dizer que o cienticismo de Freud \u00e9 um ant\u00eddoto ao obscurantismo de Jung. \u00c9 preciso diferenciar de qual ci\u00eancia se trata, pois hoje h\u00e1 ci\u00eancias e l\u00f3gicas que pretendem se debru\u00e7ar sobre teorias inconsistentes, assim como a psican\u00e1lise, por exemplo, as que trabalham com intelig\u00eancias artificiais.<\/p>\n<p>Sobre a primeira pergunta, n\u00e3o acho que \u00e9 Freud que coloca em xeque o saber da ci\u00eancia m\u00e9dica, mas a histeria. Por outro lado, voc\u00ea tem raz\u00e3o ao afirmar que ao interpretar a histeria, Freud interpreta a civiliza\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma consequ\u00eancia l\u00f3gica. Se o sintoma hist\u00e9rico cont\u00e9m em parte, o sentido, que \u00e9 formado pela inje\u00e7\u00e3o do discurso do Outro, logo h\u00e1 uma dimens\u00e3o da pol\u00edtica no sintoma neur\u00f3tico. Essa dimens\u00e3o pol\u00edtica culminar\u00e1 na formaliza\u00e7\u00e3o do Supereu, a inst\u00e2ncia ps\u00edquica decorrente da introje\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica do Outro no inconsciente. Isso j\u00e1 n\u00e3o aborda a primeira quest\u00e3o sobre o\u00a0ato de funda\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise a partir dessa dimens\u00e3o pol\u00edtica? O que Freud demonstra \u00e9 que a pol\u00edtica do Outro sempre fracassa na tentativa de dominar as puls\u00f5es sexuais. Os efeitos podem ser destrutivos para os indiv\u00edduos e a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mirmila Musse<\/strong>: <strong>Dimens\u00e3o Cl\u00ednica do Ato: <\/strong>Destaco o ato falho como forma\u00e7\u00e3o do inconsciente. O ato de dizer outra coisa que emerge na fala e que transmite algo do desejo. Novamente aqui,\u00a0Freud subverte a \u201cfalha do saber\u201d\u00a0assim como daquela da dimens\u00e3o pol\u00edtica. Mas agora o ato pensado a partir daquilo que rateia do que \u00e9 dito, elevando um n\u00e3o saber, um erro ou um engano, \u00e0 verdade do inconsciente. Voc\u00ea acha poss\u00edvel dizer que, j\u00e1 naquele momento, o ato falho pode ser entendido como aquilo que evidencia que h\u00e1 uma hi\u00e2ncia, um furo no saber?<\/p>\n<p><strong>Luis Francisco E. Camargo: <\/strong>Teria que definir o que \u00e9 essa \u201cfalha do saber da ci\u00eancia\u201d. Eu tenho uma posi\u00e7\u00e3o sobre isso: n\u00e3o existe A Ci\u00eancia, assim como n\u00e3o existe A Mulher. Freud e Lacan, na minha opini\u00e3o, tinham consci\u00eancia disso. Freud n\u00e3o fez da psican\u00e1lise um ramo da psiquiatria e da neurologia, pois sabia que o que ele descobriu foi um objeto heterog\u00eaneo aos objetos da medicina, por isso inventou outra coisa. No seu sonho sobre a Inje\u00e7\u00e3o de Irma, trata-se de suas falhas, enquanto m\u00e9dico e psicanalista. Ele achava que os objetos da psican\u00e1lise eram hom\u00f3logos aos da f\u00edsica e da biologia evolucionista, por isso pensava a psican\u00e1lise como uma Ci\u00eancia Natural, aos moldes do darwinismo. Por outro lado, Lacan tamb\u00e9m pensou que a psican\u00e1lise tinha objetos hom\u00f3logos aos da l\u00f3gica e da topologia. Lacan do mesmo modo n\u00e3o acreditava na A Ci\u00eancia, ele sabia disso, apesar de ter aceitado parcialmente a proposta popperiana de que a psican\u00e1lise seria uma pr\u00e9-ci\u00eancia e ficaria nas conjecturas e n\u00e3o demonstraria as suas refuta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Newton da Costa tem uma posi\u00e7\u00e3o diferente. Ele acha essa proposta de Popper uma bobagem. Nenhum cientista ou nenhuma ci\u00eancia \u00e9 constru\u00edda para ser refutada. N\u00e3o se escreve uma tese para ser refutada. N\u00e3o entendi ainda o porqu\u00ea de Lacan ter consentido com essa cr\u00edtica inconsistente de Popper, que j\u00e1 foi desconstru\u00edda por Gr\u00fcnbaum nos anos 80 e 90. A cr\u00edtica de Popper \u00e0 psican\u00e1lise n\u00e3o se sustenta.<\/p>\n<p>Por isso eu lhe pergunto, de qual modelo de ci\u00eancia se trata quando voc\u00ea fala de \u201cfalha de saber\u201d? Na verdade, todas as ci\u00eancias falham e s\u00e3o incompletas. A psican\u00e1lise inicia no terreno onde a medicina falhou e trabalha com os fracassos e as falhas do sistema de defesa do Ego. O ato anal\u00edtico \u00e9 realizado sobre a falha, as hi\u00e2ncias por onde o inconsciente se manifesta, e por isso se trata na cl\u00ednica de corte e sutura, ou de acordo com a cl\u00ednica borromeana de desamarra\u00e7\u00f5es e amarra\u00e7\u00f5es. O ato a meu ver \u00e9 isso: cortar, desamarrar e esperar como o sujeito vai tentar suturar e amarrar novamente. Isso faz sentido? Ser\u00e1 que \u00e9 por a\u00ed que poderia comentar as quest\u00f5es colocada por voc\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Luis Francisco Esp\u00edndola Camargo (EBP\/AMP) Por Mirmila Musse (EBP\/AMP) Mirmila Musse: Retiro do Argumento das X Jornadas da EBP-SP, Psican\u00e1lise em Ato, uma frase para apoiar nossa conversa: \u201ca \u2018falha no saber\u2019 e, mais especificamente, no saber da ci\u00eancia \u00e9 a for\u00e7a motriz que sustenta o \u2018ato\u2019 de cria\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise\u201d. 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