{"id":6200,"date":"2021-10-27T16:53:57","date_gmt":"2021-10-27T19:53:57","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6200"},"modified":"2021-10-27T16:53:57","modified_gmt":"2021-10-27T19:53:57","slug":"zen-koan-e-satori-o-anti-sofisma-de-um-despertar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/zen-koan-e-satori-o-anti-sofisma-de-um-despertar\/","title":{"rendered":"Zen, koan e satori: o anti-sofisma de um despertar"},"content":{"rendered":"<h6>Cleyton Andrade (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6201\" aria-describedby=\"caption-attachment-6201\" style=\"width: 591px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6201\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_006-1.png\" alt=\"\" width=\"591\" height=\"486\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_006-1.png 591w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/travessias_005_006-1-300x247.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 591px) 100vw, 591px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6201\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @ wojtek_foto<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aquilo que Lacan optou por chamar de t\u00e9cnica zen \u2013 apesar de n\u00e3o ser uma t\u00e9cnica \u2013 envolve a rela\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fatores: o ensinamento, a pr\u00e1tica e a ilumina\u00e7\u00e3o. Esses tr\u00eas eixos podem ser traduzidos de maneira econ\u00f4mica, e relativamente imprecisa, como: o <em>koan<\/em>, o <em>zazen<\/em> e o <em>satori<\/em>, respectivamente. Uma aplica\u00e7\u00e3o discreta destes princ\u00edpios numa experi\u00eancia anal\u00edtica (Lacan, 1953) visa um despertar; uma ruptura que possa promover um novo ponto de vista, uma nova significa\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es absolutamente diferentes. O vazio de significa\u00e7\u00f5es, nesse discurso, ou seja, no zen, aponta para uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que surja algo que antes n\u00e3o estava ali. A esse despertar d\u00e1-se o nome de <em>satori.<\/em> Portanto, ele implica um corte para que haja uma nova significa\u00e7\u00e3o como efeito de uma experi\u00eancia subjetiva da liberta\u00e7\u00e3o de um adormecimento. Isso marca uma temporalidade distintiva entre um antes e um depois. Uma no\u00e7\u00e3o de tempo pensada a partir do conceito de ato.<\/p>\n<p>O <em>satori <\/em>\u00e9, ele mesmo, um tempo sem durabilidade, \u00e9 um instante. Salvo diverg\u00eancias entre escolas distintas, onde uma pode pensar num <em>satori<\/em> acumulativo e progressivo, existem outras que o concebem tal como um rel\u00e2mpago. N\u00e3o \u00e0 toa a imagem conferida pela significa\u00e7\u00e3o de ilumina\u00e7\u00e3o, \u00e9 bem-vinda, mesmo que provisoriamente. Esta, em nada se equivale ao fen\u00f4meno que ilumina a sala onde escrevo agora, nem \u00e0 luz que sai da tela de meu computador. Estas luzes que iluminam t\u00eam uma inscri\u00e7\u00e3o muito espec\u00edfica no tempo. Elas duram, at\u00e9 que eu ou algu\u00e9m as apaguem.\u00a0 De modo distinto, o <em>satori<\/em> pode ser entendido como o <em>momento <\/em>exato em que um sujeito se faz efeito l\u00f3gico do tempo. Para Suzuki (1977), ele \u00e9 o instante feito eternidade e o momento que se expande indefinidamente. Frase que parece fazer um apelo a um mero jogo formal da fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da linguagem, no mais antigo estilo do formalismo russo de Roman Jakobson. Entretanto elas deixam o tempo mais vizinho do espa\u00e7o \u2013 momento que expande \u2013 do que da pr\u00f3pria ideia de um tempo que dura. Isso para nem entrar na rela\u00e7\u00e3o entre instante e eternidade para uma filosofia do vazio.<\/p>\n<p>Os budistas se valeram de maneiras de operar com o tempo e com a dor da repeti\u00e7\u00e3o contornando seu curso no instante. Vale dizer que, para compreender isso um pouco mais, seria importante uma conversa sobre as rela\u00e7\u00f5es entre instante e vazio, como apontei, passando pela no\u00e7\u00e3o de insubstancialidade no zen. Na perspectiva dessa doutrina, o instante como tratamento que opera com o tempo, n\u00e3o \u00e9 uma fuga, ou covardia frente ao sofrimento. Vale lembrar que essa doutrina se insere nas tradi\u00e7\u00f5es de uma esp\u00e9cie de soteriologia sem Deus, que nasce na \u00cdndia antes de chegar na China, no Jap\u00e3o e outros pa\u00edses do oriente, agregando em cada passagem, elementos pr\u00f3prios de um tratamento do mal-estar. \u00c9 uma doutrina da liberta\u00e7\u00e3o, para evitar o termo salva\u00e7\u00e3o, t\u00e3o caro \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es judaico-crist\u00e3s.<\/p>\n<p>O <em>koan, <\/em>por sua vez, \u00e9 um modo usado por uma das escolas tradicionais do zen para provocar o <em>satori<\/em>. Esse despertar na experi\u00eancia zen \u00e9 precedido por um impasse, um paradoxo insol\u00favel pela via representacional. O desenrolar do <em>koan <\/em>n\u00e3o \u00e9 um deslizamento de significantes. N\u00e3o \u00e9 a instaura\u00e7\u00e3o de redes de significa\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis. Ao contr\u00e1rio. Ele visa produzir um estado de tens\u00e3o que abra espa\u00e7o para que algo ocorra. O <em>koan<\/em> \u00e9 o uso de palavras ou a\u00e7\u00f5es que encarnam uma aporia, refutando todo saber e toda significa\u00e7\u00e3o habituais.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo direto do koan, atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es, talvez seja o tra\u00e7o mais popularmente conhecido ou folcl\u00f3rico do zen, uma vez que apela ao imagin\u00e1rio do exotismo. Seus recursos podem variar desde a observa\u00e7\u00e3o do canto de um p\u00e1ssaro, um ru\u00eddo de um bambu tocando no outro, at\u00e9 chegar a um tapa ou um pontap\u00e9, como destaca Lacan abertura do Semin\u00e1rio 1. Ele \u00e9 uma resposta em ato que procura desfazer-se de uma significa\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ar o disc\u00edpulo em um trabalho interno de busca de sentido, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em fun\u00e7\u00e3o de uma perda de sentido anteriormente provocada.<\/p>\n<p>Para Lacan, a aplica\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica zen tem um sentido explicitado em dois momentos de seu ensino: 1953 e 1973. Um intervalo temporal de vinte anos. Em 1953, a aplica\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica zen \u00e9 a resposta de Lacan a tr\u00eas quest\u00f5es principais: uma \u00e9 apontar o desvio da teoria e da t\u00e9cnica da IPA \u2013 talvez por isso tenha optado de chamar de \u201ct\u00e9cnica\u201d o ato do mestre zen; a outra faz parte do retorno a Freud, \u00e0 epistemologia cient\u00edfico naturalista freudiana, para extrair o que dela se sustenta para al\u00e9m dos semblantes naturalistas e da gram\u00e1tica da virada do s\u00e9culo, com um retorno em formas n\u00e3o <em>standards<\/em>; e o terceiro ponto se refere \u00e0 especificidade do uso cl\u00ednico do tempo.<\/p>\n<p>Em 1973, por\u00e9m, o zen n\u00e3o responde mais ao debate com os p\u00f3s-freudianos. O problema da fala com o qual Lacan se depara n\u00e3o passa mais por uma distin\u00e7\u00e3o entre fala vazia e fala plena, pois a ideia de uma satisfa\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 fala e, mais ainda, de um gozo da fala, um gozo do \u201cbl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1\u201d, for\u00e7a uma nova perspectiva para pensar a interven\u00e7\u00e3o que cabe a um analista. H\u00e1 um gozo que promove uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de se resolver pela pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o nela implicada. Ent\u00e3o, como o analista deve proceder diante dessa coisa infernal que \u00e9 o gozo? O zen aparece aqui como uma das respostas de Lacan a esse impasse.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um exemplo trivial de como, diante de um sentido \u00fanico dado pelo S1 e pelas pris\u00f5es do gozo, a melhor resposta n\u00e3o passa pelo pensamento, que adormece, e nem mesmo pela \u00eanfase nas significa\u00e7\u00f5es. Lacan encontra no corte entre S1 e S2, e no destaque da falta de sentido do S1, de sua insensatez, uma dire\u00e7\u00e3o. O melhor que h\u00e1 para se fazer a fim de sair dessa armadilha, como o pr\u00f3prio Lacan diz no semin\u00e1rio 20, \u00e9 responder com um <em>koan<\/em>. Com um S1 que \u00e9, ele mesmo n\u00e3o-sentido, ou sem-sentido.<\/p>\n<p>Em 1953, a interrup\u00e7\u00e3o do mestre zen vinha claramente com uma discuss\u00e3o acerca do tempo da sess\u00e3o como um modo de fazer uma pontua\u00e7\u00e3o, uma interpreta\u00e7\u00e3o, resgatando a dimens\u00e3o temporal como um operador l\u00f3gico na cl\u00ednica. O corte do mestre zen com um pontap\u00e9, coloca o ato como ponto a partir do qual deve-se pensar o tempo. J\u00e1 em 1973 n\u00e3o aparece o pontap\u00e9, mas um latido. O ato do mestre zen no semin\u00e1rio 20 \u00e9 um estrondoso <em>n\u00e3o<\/em> \u00e0 pergunta can\u00f4nica do disc\u00edpulo \u2013 se o cachorro teria a natureza b\u00fadica. Vale dizer que Lacan diz que a resposta seria um latido (<em>aboiement<\/em>), n\u00e3o sei se por dar seu toque ao koan, ou se usou alguma vers\u00e3o que desconhe\u00e7o. Mas a resposta de Joshu foi um impactante \u201cn\u00e3o!\u201d. Aparentemente, esse koa n\u00e3o remete \u00e0 temporalidade e nem ao tempo da sess\u00e3o como um manejo cl\u00ednico. Entretanto os c\u00e2nones s\u00e3o claros. Tudo tem a natureza b\u00fadica! A resposta de Joshu soa como um pontap\u00e9 e \u00e9 t\u00e3o inesperada que se tornou um dos <em>koans <\/em>mais conhecidos no zen. Os c\u00e2nones, jogados no lixo aqui, podem exercer uma tend\u00eancia hipn\u00f3tica e consequentemente terem efeitos son\u00edferos, tal como o inconsciente. Podem funcionar como verdadeiros representantes do discurso do Mestre. A sess\u00e3o entre o disc\u00edpulo e o monge \u00e9 interrompida abruptamente com um n\u00e3o. Seja pela via de um S1 isolado sem sentido, de uma jaculat\u00f3ria, ou de um pontap\u00e9, o ato se inscreve a\u00ed como princ\u00edpio que coloca o tempo entre aspas.<\/p>\n<p>Em Freud fica claro como o adormecimento \u00e9 o fundamento do funcionamento do aparelho ps\u00edquico; como a viv\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o e de dor imprimem \u00e0 realidade a tend\u00eancia de se submeter \u00e0s vicissitudes alucinat\u00f3rias do desejo, bem como eliminar a distin\u00e7\u00e3o entre os sistemas \u1d2a e \u03c6 diante da dor.<\/p>\n<p>O que o <em>koan<\/em> tem a nos indicar \u00e9 que diante o sono eterno de uma mente cheia de lembran\u00e7as, o mestre zen toma o imposs\u00edvel como orienta\u00e7\u00e3o ao intervir numa temporalidade cujo fundamento \u00e9 o corte e o instante, n\u00e3o a dura\u00e7\u00e3o. O ato n\u00e3o se insere tanto na composi\u00e7\u00e3o gramatical do tempo dur\u00e1vel. Talvez a\u00ed o tempo seja menos o fundamento do ato, do que o contr\u00e1rio. H\u00e1 uma passagem da gram\u00e1tica para a l\u00f3gica, e essa transposi\u00e7\u00e3o parece exigir a invers\u00e3o nos fundamentos. Ou seja, ato como fundamento do tempo \u00e9 o que permite aproximar o instante, o momento e o corte.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Refer\u00eancias:<\/h6>\n<h6>Lacan, J.. <em>O semin\u00e1rio<\/em><em>, livro 1: os escritos t\u00e9cnicos de Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983.<\/h6>\n<h6>Lacan, J.. <em>O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.<\/h6>\n<h6>Lacan, J.. Fun\u00e7\u00e3o e campo da fala e da linguagem em psican\u00e1lise. In Lacan, J. [Autor], <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.<\/h6>\n<h6>Suzuki. D.T. <em>Viver atrav\u00e9s do Zen<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1977.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleyton Andrade (EBP\/AMP) Aquilo que Lacan optou por chamar de t\u00e9cnica zen \u2013 apesar de n\u00e3o ser uma t\u00e9cnica \u2013 envolve a rela\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fatores: o ensinamento, a pr\u00e1tica e a ilumina\u00e7\u00e3o. Esses tr\u00eas eixos podem ser traduzidos de maneira econ\u00f4mica, e relativamente imprecisa, como: o koan, o zazen e o satori, respectivamente. 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