{"id":6075,"date":"2021-10-05T12:14:40","date_gmt":"2021-10-05T15:14:40","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6075"},"modified":"2021-10-05T12:14:40","modified_gmt":"2021-10-05T15:14:40","slug":"eixo-tematico-5-a-passagem-de-psicanalisante-a-psicanalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/eixo-tematico-5-a-passagem-de-psicanalisante-a-psicanalista\/","title":{"rendered":"Eixo Tem\u00e1tico 5 &#8211; A passagem de psicanalisante a psicanalista"},"content":{"rendered":"<h6>Alessandra S. Pecego (EBP\/AMP)<br \/>\nC\u00e1ssia M. R. Guardado (AME membro da EBP\/AMP)<br \/>\nFernando Prota (EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6129\" aria-describedby=\"caption-attachment-6129\" style=\"width: 475px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6129\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_eixo5-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @notre.arte\" width=\"475\" height=\"590\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_eixo5-1.png 475w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_eixo5-1-242x300.png 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 475px) 100vw, 475px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6129\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @notre.arte<\/figcaption><\/figure>\n<p>O que \u00e9 um psicanalista? Quest\u00e3o a n\u00e3o ser toda respondida, apenas bordeada, e que orienta o debate nesse eixo de trabalho, assim como \u00e9 pedra angular na discuss\u00e3o de como se d\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o na Escola de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>A Escola Francesa de Psican\u00e1lise, em 1964, \u00e9 fundada por Lacan e marca de entrada a quest\u00e3o singular que perpassa um ato: \u201cFundo &#8211;\u00a0t\u00e3o sozinho quanto sempre estive em minha rela\u00e7\u00e3o com a causa anal\u00edtica\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Claramente, temos o cerne do que ir\u00e1 se delinear: que esta Escola se constitui por analisantes, que s\u00f3 podem sustentar uma transmiss\u00e3o via enuncia\u00e7\u00e3o, marcados por um saber n\u00e3o-todo, aqueles que fazem do desejo do analista a sua causa. Aqueles que t\u00eam sua trajet\u00f3ria pautada na sua an\u00e1lise pessoal, no controle dos casos de que se ocupa e avan\u00e7am e fazem avan\u00e7ar o pilar epist\u00eamico.<\/p>\n<p>Eis que Lacan, ap\u00f3s graves impasses e crises, d\u00e1 consequ\u00eancias ao ato de ruptura com as sociedades identificat\u00f3rias\u00a0ap\u00f3s\u00a0sua excomunh\u00e3o da IPA. Rompimento que marca um antes e um depois, da ordem de uma experi\u00eancia, operado por um ato marcado pelas conting\u00eancias, e por n\u00e3o abrir m\u00e3o de sua \u00e9tica. Articula as bases de trabalho da Escola, adota pequenos grupos &#8211; \u201ctr\u00eas pessoas no m\u00e1ximo cinco, sendo quatro a justa medida e um MAIS UM encarregado da sele\u00e7\u00e3o, da discuss\u00e3o e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Temos o \u00f3rg\u00e3o de base da Escola, o cartel, e nele a permuta e o tempo de dura\u00e7\u00e3o\u00a0limitado desse dispositivo. Institui a n\u00e3o hierarquia, institui o controle dos trabalhos submetidos \u00e0 Escola e firma seu programa na experi\u00eancia. Comp\u00f5em-se tr\u00eas se\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas: <em>se\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise pura <\/em>&#8211; doutrina e pr\u00e1xis, lugar da psican\u00e1lise did\u00e1tica; <em>se\u00e7\u00e3o de psican\u00e1lise aplicada <\/em>&#8211; ligada \u00e0 terap\u00eautica e cl\u00ednica e <em>se\u00e7\u00e3o do recenseamento do campo freudiano <\/em>&#8211; ocupa-se de publica\u00e7\u00f5es, \u00e9tica e articula\u00e7\u00f5es com outras \u00e1reas. Aqui j\u00e1 se delineiam as tr\u00eas dimens\u00f5es da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana: epist\u00eamica, cl\u00ednica e pol\u00edtica. Admite inicialmente quem o acompanhou em posi\u00e7\u00e3o decidida, e esses fariam as futuras admiss\u00f5es via enuncia\u00e7\u00e3o e objetivos de trabalho.<\/p>\n<p>Destacamos o subversivo desse ato de funda\u00e7\u00e3o, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para <em>standard<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 um ideal a ser atingido e a originalidade permanente \u00e9 o que garantir\u00e1 o frescor e a pr\u00f3pria renova\u00e7\u00e3o da Escola. \u00c9 nessa justa medida, em que n\u00e3o h\u00e1 didatas, que n\u00e3o se sabe de antem\u00e3o o que \u00e9 um psicanalista.<\/p>\n<p>A Escola funciona, assim, a partir de uma \u201cpsican\u00e1lise analisante\u201d pautada na ordem da enuncia\u00e7\u00e3o. Esta perspectiva da \u201cpsican\u00e1lise analisante\u201d coloca a quest\u00e3o sobre o que poderia ser um analista na escola de Lacan no lugar de um devir, de uma quest\u00e3o a ser respondida sempre a cada vez, e no um a um; um lugar de causa, cuja formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o cessa de se colocar em seu funcionamento e \u00e9 seu motor: o que \u00e9 um psicanalista a-final?<\/p>\n<p>Partamos, ent\u00e3o, da premissa de Lacan: \u201cn\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o do analista, h\u00e1 apenas forma\u00e7\u00f5es do inconsciente\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Isso nos remete \u00e0 ret\u00f3rica do inconsciente \u00e0 qual s\u00f3 em um processo de an\u00e1lise se alcan\u00e7a e se avan\u00e7a. Assim, um psicanalista n\u00e3o poder\u00e1 encontrar uma resposta \u00e0 quest\u00e3o sobre seu lugar na experi\u00eancia se n\u00e3o puder ler e se desembara\u00e7ar daquilo que o \u201cenforma\u201d, para poder dar lugar ao que n\u00e3o tem forma, e assim poder ter qualquer forma, qualquer objeto que se fizer necess\u00e1rio \u00e0 transfer\u00eancia, a cada experi\u00eancia de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Lacan, em 1967, prop\u00f5e o AE (Analista de Escola) como aquele que levou a termo sua an\u00e1lise e como quem demanda ocupar e testemunhar sobre sua experi\u00eancia e seus impasses. \u201cO psicanalista s\u00f3 se autoriza de si mesmo. Esse princ\u00edpio est\u00e1 inscrito nos textos originais da Escola e decide sua posi\u00e7\u00e3o. (\u2026) ir mais al\u00e9m: tornar-se respons\u00e1vel pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da pr\u00f3pria experi\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. E ainda: \u201cDar an\u00e9is aos iniciados n\u00e3o \u00e9 nomear. Donde minha proposi\u00e7\u00e3o de que o analista s\u00f3 se historisteriza por si mesmo &#8211; fato patente -, mesmo quando se faz confirmar por uma hierarquia\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Local de forma\u00e7\u00e3o e de novo la\u00e7o, com a transfer\u00eancia de suposi\u00e7\u00e3o de saber \u00e0 Escola (passe institucional), ap\u00f3s a solid\u00e3o que cada um encontra em sua an\u00e1lise at\u00e9 seu termo (passe cl\u00ednico).<\/p>\n<p>Enla\u00e7amos a solid\u00e3o que se experimenta no passe cl\u00ednico, como o mais radical dessa experi\u00eancia, ao derradeiro ato de fratura na fantasia fundamental, e o fato disso poder e querer ser testemunhado, faz la\u00e7o com a Escola. Ato contundente, quebra derradeira que nos traz em seu cerne que a autoria do ato anal\u00edtico, que verifica essa passagem a analista, \u00e9 do analisante.<\/p>\n<p>Ao longo de uma experi\u00eancia de an\u00e1lise, nas in\u00fameras idas e voltas da travessia da fantasia, nos cortes e nas tor\u00e7\u00f5es desse percurso, opera-se o efeito de desinflar a consist\u00eancia entre o Eu e o Outro, em um movimento de pequenas separa\u00e7\u00f5es e extra\u00e7\u00f5es entre o Sujeito e o objeto. Algo ainda insiste em certa fixidez, a fixidez do objeto, e \u00e9 preciso se autorizar a ir mais al\u00e9m nessa separa\u00e7\u00e3o, orientado pelo desejo do analista que carrega consigo uma conclus\u00e3o. A travessia se d\u00e1 ao longo de toda a an\u00e1lise, operando dos significantes mestres ao furo da linguagem, com os restos dessa opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A fratura radical de separa\u00e7\u00e3o do objeto s\u00f3 pode ser acessada com o furo radical no sentido, onde nada mais h\u00e1 para ser interpretado, onde h\u00e1 uma destitui\u00e7\u00e3o subjetiva radical &#8211; a perda da consist\u00eancia do objeto <em>a<\/em> e sua condi\u00e7\u00e3o de causa de desejo, chega-se, logicamente, a um des-ser. Dessa separa\u00e7\u00e3o, temos um resto inelimin\u00e1vel na passagem de analisante a analista, e esse ato \u00e9 o corol\u00e1rio de n\u00e3o mais se tentar fazer a rela\u00e7\u00e3o sexual existir, n\u00e3o mais tampon\u00e1-la. Consentir com a inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual e com o n\u00e3o-todo, e fazer com os rebotalhos e com a puls\u00e3o, dar\u00e1 acesso a um desejo in\u00e9dito, e se opera a identifica\u00e7\u00e3o ao Sinthoma, como nome do incur\u00e1vel. Sinthoma como um saber fazer com o incur\u00e1vel e com seu gozo. A ess\u00eancia do ato opera uma derradeira fratura, como um corte no campo do Outro, concretizando a passagem de psicanalisante a psicanalista. Sabemos que estamos mais pr\u00f3ximo ao inconsciente quando estamos fora do sentido.<\/p>\n<p>O ato anal\u00edtico pode ser suposto nessa passagem de psicanalisante a psicanalista, por uma verifica\u00e7\u00e3o nessa a\u00e7\u00e3o: \u201co ato (puro e simples) tem lugar por um dizer, e pelo qual modifica o sujeito. Andar s\u00f3 \u00e9 ato desde que se n\u00e3o diga apenas \u201canda-se\u201d ou \u201candemos\u201d, mas fa\u00e7a com que \u201ccheguei\u201d se verifique nele\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Isso nos baliza, isso abre a quest\u00e3o da dimens\u00e3o de aposta em cada an\u00e1lise, a dimens\u00e3o \u00e9tica da dire\u00e7\u00e3o do tratamento, a dimens\u00e3o do passe cl\u00ednico que est\u00e1 colocada em qualquer an\u00e1lise, n\u00e3o como objetivo, mas como posi\u00e7\u00e3o \u00e9tica do analista. Perguntamos, ent\u00e3o, de que \u201ccheguei\u201d se trata, se n\u00e3o h\u00e1 nenhum destino pr\u00e9vio a se chegar? O que marca esse \u201ccheguei\u201d?<\/p>\n<p>Laurent marca a dimens\u00e3o do dizer na experi\u00eancia de an\u00e1lise: \u201cO furo assim escavado nos enunciados do sujeito n\u00e3o \u00e9, entretanto, suficiente: \u00e9 preciso ainda que o sujeito mergulhe no furo aberto no e pelo inconsciente, que Lacan compara com o buraco existente no palco dos teatros. Depois de ter evocado o ato anal\u00edtico, Lacan assinala: \u201cN\u00e3o h\u00e1 passagem ao ato sen\u00e3o como mergulho no buraco do ponto, aquele que sopra sendo, evidentemente, o inconsciente do sujeito\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Portanto, para mergulhar, n\u00e3o mais se tem o tamponamento desse furo e sim sua produ\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 da ordem da incompletude e de um ato que produz o pr\u00f3prio furo. Seria da ordem de identificar-se ao pr\u00f3prio furo? Seria da ordem da identifica\u00e7\u00e3o ao Sinthoma? O pr\u00f3prio Laurent destaca, nesse mesmo texto, que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 \u201cdescompletar o sintoma do Outro\u201d.<\/p>\n<p>Pela l\u00f3gica dessa opera\u00e7\u00e3o, pelo car\u00e1ter de ato, pode-se ter a certeza do \u201ccheguei\u201d.<\/p>\n<p>O Passe cl\u00ednico traz uma certeza, certeza essa antecipada, como no texto: \u201cO tempo l\u00f3gico e a asser\u00e7\u00e3o da certeza antecipada\u201d, de Lacan. Certeza que n\u00e3o \u00e9 da ordem da demonstra\u00e7\u00e3o. Talvez s\u00f3 um testemunho pode dar mostras dela, dessa certeza antecipada, e de como ela permitiu a conclus\u00e3o dessa experi\u00eancia quando o falasser p\u00f4de afirmar \u201ceu sou isso\u201d, relacionado ao seu nome de gozo e ao furo que mergulhou. Uma certeza que decorre de um ato. A partir da\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 mais a interpretar, nenhuma ida e volta a mais, nenhum apelo ao sentido ressoa. A transfer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 mais encarnada no sujeito suposto saber do analista, e sim, podendo ser suposta e enla\u00e7ada \u00e0 Escola e \u00e0 transmiss\u00e3o de uma experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o. O epist\u00eamico se enla\u00e7a ao pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Haveria algum resto com rela\u00e7\u00e3o a Suposi\u00e7\u00e3o de Saber encarnada no analista, ou essa passagem \u00e9 sem resto?<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o dessa experi\u00eancia se d\u00e1 aos peda\u00e7os, pelo vi\u00e9s de uma inven\u00e7\u00e3o singular na experi\u00eancia de linguagem, por se ter tocado este ponto onde se est\u00e1 completamente s\u00f3, onde o falasser pode ter acesso a um desejo in\u00e9dito, a uma satisfa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita e um saber fazer com os restos.<\/p>\n<p>Qual a caracter\u00edstica desse desejo in\u00e9dito que nomeamos como desejo do psicanalista? O que podemos escutar dessa satisfa\u00e7\u00e3o a cada relato de passe? Seria esse um \u00edndice para a nomea\u00e7\u00e3o de um AE?<\/p>\n<p>Satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o f\u00e1lica, marcada pela ordem do des-ser, por certa liberdade antes nunca provada, pelo despertar no corpo operado por um significante novo com efeito de acontecimento de corpo. Podemos bordear isso com a transmiss\u00e3o de um AE, que se renova vez por vez, e no um a um. Esse \u00e9 o ponto vivo que deixa suas resson\u00e2ncias ap\u00f3s um relato de passe.<\/p>\n<p>Recorremos a um relato de passe, o de Silvia Salman (EOL\/AMP &#8211; AE 2009-2012). Silvia foi tomada por um sintoma de anorexia em sua inf\u00e2ncia, mobilizando toda a fam\u00edlia. Sob a incid\u00eancia do objeto olhar paterno, ele libidiniza seu corpo ao lhe tecer um elogio e dizer que era bela, que parecia um \u201cdesenho animado\u201d. Isso fez contraponto a esse gozo mort\u00edfero da anorexia, marca sua exist\u00eancia e toda a sua travessia anal\u00edtica. Silvia nos conta como sempre se esquivou de ser agarrada, como se esquivou de fazer um corpo de mulher &#8211; era um desenho animado. Arranjo ainda pautado no campo do Outro, com brilho f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Reverberava para ela a interpreta\u00e7\u00e3o, em seu percurso mais avan\u00e7ado de an\u00e1lise: \u201cvoc\u00ea ainda n\u00e3o encontrou o significante desanimado\u201d. Transcrevemos o efeito de ato dessa passagem de analisante a analista, onde podemos dizer que o buraco do fosso do teatro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 animado pelas vozes do coro, pelas vozes do Outro:<\/p>\n<blockquote><p>Contudo, na borda da sa\u00edda, na sala de espera, na qual havia passado um longo tempo construindo o que ia dizer ao analista, ali, no instante de concluir, apresentou-se diante de mim a evid\u00eancia da carta roubada: \u2018o significante est\u00e1 desanimado!\u2019.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se tratava de encontrar \u201cum\u201d significante, mas de encontrar-se com a evid\u00eancia de que o significante estava, no fim, desanimado.<\/p>\n<p>O impacto de tal encontro permite alojar ent\u00e3o o significante \u201cEncarnada\u201d no furo que se tra\u00e7ou, uma vez que se esvaziaram e desanimaram todas as identifica\u00e7\u00f5es com os significantes do Outro.<\/p>\n<p>\u00c9 a escritura que surge no lugar do vazio quando a cadeia significante se separou e a repeti\u00e7\u00e3o encontra um limite.<\/p>\n<p>\u201cEncarnada\u201d \u00e9 o avesso do \u201cdesenho animado\u201d. \u00c9 o significante novo que se acrescenta sem fazer parte da s\u00e9rie, ainda que esteja feito do que resta dela. Nele se concentra o corpo vivo e o feminino que se obt\u00e9m ao final da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o significante que \u00e9 \u00edndice de uma satisfa\u00e7\u00e3o correlativa a ter um corpo que se possa agarrar.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 tamb\u00e9m um modo de nomear o desejo do analista disposto a encarnar aquilo que mais convier, a cada vez, em cada caso.<\/p>\n<p>J\u00e1 no dispositivo do Passe, um sonho se produziu depois da \u00faltima entrevista com os passadores:<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 um acidente, tenho que buscar os restos de uma mulher (que \u00e9 uma amiga \u00edntima) e p\u00f4-los em algum lugar. Recolho esses restos. Trata-se de uma figura, uma esp\u00e9cie de escultura.<\/p>\n<p>\u00c9 um sonho sem ang\u00fastia, que mostra um corpo de mulher constru\u00eddo a partir dos peda\u00e7os que a an\u00e1lise permitiu animar e encarnar at\u00e9 o momento, de outra maneira<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p><\/blockquote>\n<p>E para a Escola, qual a fun\u00e7\u00e3o do passe? Perguntamos se todo esse atravessamento e fratura radical ao longo de uma an\u00e1lise ser\u00e3o suficientes para uma nomea\u00e7\u00e3o por parte do cartel do passe. Temos uma importante perspectiva que \u00e9 sustentar a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise via a mais radical singularidade de um caso, na contram\u00e3o do discurso do mestre, e poder verificar como isso interpreta a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o e a Escola, e como se atualiza a transfer\u00eancia de trabalho.<\/p>\n<p>Sustentar a pol\u00edtica do desejo do analista \u00e9 levar \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias a pol\u00edtica da Escola. No dispositivo do passe, no \u00e2mbito da enuncia\u00e7\u00e3o: \u201cTrata-se, sobretudo, de alcan\u00e7ar um dizer de passe indicativo de que o desejo do analista adveio\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Jacques Lacan. (2003[1964]).\u00a0 \u201cAto de funda\u00e7\u00e3o\u201d. In:<em> Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 235.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ibid<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> \u00c9ric Laurent. (2020). \u201cPol\u00edtica do passe e identifica\u00e7\u00e3o dessegregativa\u201d. In: <em>Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n\u00ba 82, p. 47.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> J. Lacan. (2003[1967]). \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In: <em>Op. cit<\/em>., p. 248.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> J. Lacan. (2003[1976]). \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d. In: <em>Op. cit., <\/em>p. 568.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> J. Lacan. (2003[1969]). \u201cO ato anal\u00edtico\u201d. In: <em>Op. cit., <\/em>p. 375.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> E. Laurent. (2012). \u201cO passe e os restos de identifica\u00e7\u00e3o\u201d. In: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online<\/em>, n\u00ba8, p. 5.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Silvia Salman. (2010). \u201c\u00c2nimo de amar\u201d. In: <em>Revista Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n\u00ba 58, p.110-111.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Jacques-Alain Miller. (2018). \u00c9 Passe? \u201cIn: <em>Aposta no Passe<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, p.121.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alessandra S. Pecego (EBP\/AMP) C\u00e1ssia M. R. Guardado (AME membro da EBP\/AMP) Fernando Prota (EBP\/AMP) O que \u00e9 um psicanalista? Quest\u00e3o a n\u00e3o ser toda respondida, apenas bordeada, e que orienta o debate nesse eixo de trabalho, assim como \u00e9 pedra angular na discuss\u00e3o de como se d\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o na Escola de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6075","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-travessias","entry","no-media"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6075\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6075"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}