{"id":6071,"date":"2021-10-05T12:11:11","date_gmt":"2021-10-05T15:11:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/?p=6071"},"modified":"2021-10-05T12:11:11","modified_gmt":"2021-10-05T15:11:11","slug":"sintoma-clinica-e-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/sintoma-clinica-e-politica\/","title":{"rendered":"Sintoma, cl\u00ednica e pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<h6>Marcus Andr\u00e9 Vieira (AME membro da EBP\/AMP)<\/h6>\n<figure id=\"attachment_6125\" aria-describedby=\"caption-attachment-6125\" style=\"width: 590px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6125\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/new\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_marcus_andre-1.png\" alt=\"Imagem: Instagram @notre.arte\" width=\"590\" height=\"467\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_marcus_andre-1.png 590w, https:\/\/ebp.org.br\/sp\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/imagem_marcus_andre-1-300x237.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-6125\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Instagram @notre.arte<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><em>United symptons<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os sintomas h\u00e1 muito deixaram de ser um empecilho. Um sintoma pode ser um modo de vida, em prolongamento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 subjetividade. Essa \u00e9, segundo Miller, a chave do\u00a0<em>Um-dividualismo <\/em>contempor\u00e2neo (Miller, 2012).<\/p>\n<p>O pressuposto \u00e9: Voc\u00ea tem direito \u00e0 sua loucura ou a seu v\u00edcio, desde que isso n\u00e3o atrapalhe a ordem p\u00fablica ou te leve \u00e0 morte. Se for preciso, renuncie ao comportamento que \u00e9 sintoma, por exemplo, a restri\u00e7\u00e3o alimentar, no caso da anorexia, mas n\u00e3o \u00e0 identidade que seu modo de gozo lhe deu. Por isso, hoje assiste-se ao aparente paradoxo de alcoolistas que n\u00e3o bebem, ou at\u00e9 mesmo que nunca beberam muito, frequentando os Alc\u00f3olicos An\u00f4nimos por terem detectado o comportamento alcoolista em si mesmo, sem uma hist\u00f3ria de abuso evidente da subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nem \u00e9 preciso ter apenas um sintoma, compondo-se uma lista de sintomas constitui-se igualmente uma identidade. E as identidades definem comunidades. Mulheres que amam demais, compulsivos sexuais, bipolares etc. Vivemos, assim, em uma enorme gal\u00e1xia de comunidades sintom\u00e1ticas. \u00c9 o que J.-A. Miller ironiza ao dizer que os Estados Unidos, nosso paradigma para esse tipo de generaliza\u00e7\u00e3o do sintoma, deveriam ser chamados de <em>United Symptoms of America<\/em> (Miller, 2005, p. 17).<\/p>\n<p>Em outros tempos, quando se supunha haver alguma ordem no mundo, algum sentido natural, por exemplo, o sintoma era desordem, patologia. Hoje, quando a natureza \u00e9 ileg\u00edvel, e a verdade <em>fake<\/em>, o sintoma \u00e9 institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O sintoma pode, por\u00e9m, ser tratado de outro modo. N\u00e3o mais no contexto de uma cl\u00ednica m\u00e9dica, nem mesmo no de uma cl\u00ednica ampliada, cl\u00ednica do sujeito, mas no de uma \u201cPol\u00edtica do sintoma\u201d que \u00e9 ainda assim, cl\u00ednica (cf. Vieira, M. A. 2008).<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a> \u00c9 o que indica Lacan em seus \u00faltimos <em>Semin\u00e1rios<\/em>, ao manter o sintoma como refer\u00eancia principal e n\u00e3o mais o sujeito, ou mesmo seu objeto \u201ca\u201d. De fato, um sintoma n\u00e3o \u00e9 necessariamente relativo a uma estrutura, um discurso mais ou menos est\u00e1vel , como o conceito de sujeito para Lacan, sempre o furo, ou uma hi\u00e2ncia, em um discurso (egoico). Ele n\u00e3o precisa ainda, necessariamente ser tomado apenas como o portador de uma mensagem cifrada do sujeito para o ego, como na premissa freudiana do sintoma como forma\u00e7\u00e3o de compromisso. N\u00e3o sendo abordado, dessa forma, apenas como obst\u00e1culo ou mensagem ele revela outra face, de perturba\u00e7\u00e3o essencial intrat\u00e1vel, que pode estabelecer o horizonte de outro modo de lida com o real.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>O sintoma peneira <\/strong><\/p>\n<p>O essencial \u00e9: que o gozo passe pelo dizer n\u00e3o significa necessariamente que seu sentido seja entendido, decifrado. Como define Lacan em sua \u201cConfer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma\u201d, ele pode ser abordado como um aparato constitu\u00eddo pelo que resta na peneira (\u00e9 a met\u00e1fora que nos prop\u00f5e) do cruzamento entre gozo e significante, ou de uma vida colhida em uma rede de acontecimentos.<\/p>\n<p>O fato de que uma crian\u00e7a diga \u201ctalvez\u201d, \u201cainda, n\u00e3o\u201d, antes mesmo de ser capaz de construir verdadeiramente uma frase, prova que h\u00e1 algo nela, uma peneira que se atravessa, por onde a \u00e1gua da linguagem chega a deixar algo na passagem, alguns detritos com os quais ela vai brincar, com os quais, necessariamente, ela ter\u00e1 que lidar. \u00c9 isso que lhe deixa toda essa atividade n\u00e3o refletida \u2013 restos aos quais, mais tarde, porque ela \u00e9 prematura, se agregar\u00e3o os problemas do que a vai assustar (Lacan, 1975\/1998, p. 11).<\/p>\n<p>O sintoma, para Lacan, passa a se localizar menos como o mal que nos atinge do exterior e mais como a marca da presen\u00e7a do Outro em nossas vidas. Investigada at\u00e9 as ra\u00edzes do ser em algumas an\u00e1lises, evidencia-se como ela nos contitui, mesmo quando se apresenta como inc\u00f4moda ou traum\u00e1tica. Al\u00e9m disso, essa presen\u00e7a n\u00e3o se apresentar\u00e1, em an\u00e1lise, como a marca de uma a\u00e7\u00e3o ou viol\u00eancia do Outro espec\u00edfica, mas se pulverizar\u00e1. Busc\u00e1vamos <em>Uma<\/em> resposta, <em>Uma<\/em> origem, <em>Um<\/em> desejo original e nos deparamos com muitos objetos que constituem um material, prim\u00e1rio certamente, grau zero do ser, mas fragment\u00e1rio, feito de esparsos disparatados e bricolagens prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u00c9 o que prop\u00f5e Jacques-Alain Miller com base no \u00faltimo ensino de Lacan, especialmente em seu <em>Semin\u00e1rio 23: O sinthoma<\/em>. Ele chama essa concep\u00e7\u00e3o de \u201cforaclus\u00e3o generalizada\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>. Na verdade, trata-se de uma teoria do sintoma generalizado. Esse sintoma n\u00e3o \u00e9 mais tomado como um problema. Ele continua assinalando um imposs\u00edvel, o imposs\u00edvel de apagar essa marca do Outro, ou de inventar outra para si, mas n\u00e3o precisa ser tomado como fracasso.<\/p>\n<p><strong>Fazer com<\/strong><\/p>\n<p>Nessa via, nada de elimin\u00e1-lo, mas \u201cidentificar-se com ele\u201d, no sentido de poder ser um pouco, de algum modo, como aquilo ali, mas sobretudo: se virar com ele, \u201cfazer com\u201d (Lacan, 1975-1976\/2007, p. 17).<\/p>\n<p>Um exemplo. Escolhi este, de Fabi\u00e1n Naparstek, porque, como testemunho de passe, resume um longo percurso de an\u00e1lise em poucas linhas e algumas cenas fundamentais.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a> Para nossos prop\u00f3sitos, retenho apenas tr\u00eas (Naparstek, 2005).<\/p>\n<p><em>Seu pai costumava ler o obitu\u00e1rio dos jornais. Ele lhe pergunta um dia por qu\u00ea. \u201cQuero saber quem j\u00e1 n\u00e3o toma Coca-Cola\u201d \u00e9 a resposta. <\/em><\/p>\n<p>Seria um chiste, em vez de morto, impedido de gozar dessa bebida estranha e viciante, meio como a vida. O menino, por\u00e9m, n\u00e3o consegue rir. \u00c9 preciso levar em conta o contexto, ou, pelo menos, o modo como o menino havia lido at\u00e9 ali o ambiente familiar, especialmente o desejo desse pai. O menino vivia na dicotomia de \u201cum mundo dividido entre cruzes e estrelas de David\u201d (<em>ibid.<\/em>, p. 60), entre cat\u00f3licos e judeus. De um lado, os consumistas ianques, de outro os s\u00e9rios e mortificados filhos de Abrah\u00e3o. \u00c9 justamente essa vis\u00e3o cindida que gera problemas e impede o riso.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o chiste? Perdendo a gra\u00e7a por traduzir a piada entendo-o assim: viver \u00e9 beber sofregamente uma coisa sem sentido, como a Coca-Cola. Somos todos consumistas, de um gozo sem sentido e sem valor. O chiste nos deixa na ambiguidade. O pai estava rindo dos ianques mortos, ou rindo por assumir que no final, todos de algum modo s\u00e3o consumistas e os judeus se enganam ao pensar que s\u00e3o os \u00fanicos fora disso? As duas coisas. O menino, por\u00e9m, faz uma escolha baseada na polariza\u00e7\u00e3o em que vivia. Nega as cren\u00e7as judias, figura para ele maior de uma mortifica\u00e7\u00e3o nefasta, e segue na oposi\u00e7\u00e3o dos ideais de seu povo.<\/p>\n<p>Na \u201crealidade dividida entre dois polos\u201d (<em>ibid.<\/em>) em que vivia, s\u00f3 podia escolher entre \u201cuma morte judia ou a vida sem o juda\u00edsmo\u201d (<em>ibid.<\/em>, p. 61). No entanto, se v\u00ea apenas vazio ou gozando de uma vida que n\u00e3o lhe parecia sua. N\u00e3o havia lugar para a satisfa\u00e7\u00e3o subterr\u00e2nea que o chiste permite e que gera o riso.<\/p>\n<p><em>S\u00f3 na segunda an\u00e1lise, ele consegue \u201centender o dito paterno\u201d sobre os obitu\u00e1rios e \u201ccaptar o aspecto de com\u00e9dia que havia tido o drama de sua vida\u201d (ibid.<\/em><em>,<\/em><em> p. 60), pois tanto judeus quanto cat\u00f3licos bebem Coca-Cola.<\/em><\/p>\n<p>D\u00e1 para imaginar que, na dicotomia, os excessos orais tenham sido frequentes j\u00e1 que desarticulados das identifica\u00e7\u00f5es, o que ele chama de uma postura \u201cc\u00ednica\u201d (<em>ibid.<\/em>, p. 61). A an\u00e1lise lhe permitiu essa passagem entre os dois polos. Suponho que ele o tenha conseguido ap\u00f3s muitas idas e vindas pelos caminhos de uma puls\u00e3o que seguia da satisfa\u00e7\u00e3o oral para a do sacrif\u00edcio. O importante \u00e9 que ela s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel quando o pai n\u00e3o \u00e9 mais s\u00edmbolo dos ideais deca\u00eddos de um povo, mas passa a representar um gozo a mais, justamente o do riso, de sua disposi\u00e7\u00e3o para o humor.<\/p>\n<p>Foi preciso n\u00e3o mais crer no pai, ou crer mais ou menos, \u201c<em>escrer<\/em>\u201d no pai (<em>ibid.<\/em>), como escreve Fabi\u00e1n, ou ainda reconhecer em si mesmo esse mesmo tra\u00e7o do humor, sempre constante, e perceber o quanto isso, que at\u00e9 ent\u00e3o pensava como cinismo derrotista, era um tra\u00e7o de estilo. Vejam o que diz a terceira cena:<\/p>\n<p>O pai continuava lendo cotidianamente os avisos f\u00fanebres. O sujeito se aproximava e lhe perguntava \u2013 outra vez \u2013 pelo que estava fazendo. O pai respondia que estava vendo quem eram os que j\u00e1 n\u00e3o tomavam Coca-Cola.<\/p>\n<p><em>Finalmente o sujeito lhe replica que este chiste j\u00e1 lhe era conhecido. Desta vez o pai lhe responde: \u201c\u00e9 verdade, ou mudo de chiste ou mudo de p\u00fablico\u201d <\/em>(Naparstek, 2005, p. 62).<\/p>\n<p>Esse chiste fala de um fracasso. N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel ter a gra\u00e7a da piada e o p\u00fablico. Mas fala mais, aponta para o fato de que n\u00e3o havia, para o pai, escolha, ou, como se diz: \u201cperco o amigo, mas n\u00e3o perco a piada\u201d.<\/p>\n<p>Foi o que o filho percebeu em si mesmo pela an\u00e1lise, podendo, inclusive dar a esse gozo um destino. At\u00e9 ali, seu cinismo era um sintoma (do ponto de vista do ideal), mas era tamb\u00e9m um modo de satisfa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de negativar. Um modo de estar na vida, incur\u00e1vel. Ele p\u00f4de passar, assim, com ajuda dos chistes do pai, \u201cpassar da cren\u00e7a no pai \u00e0 cren\u00e7a no sintoma\u201d (Laurent, 2007. p. 176). Para isso \u00e9 preciso entender o sintoma no sentido de um gozo singular que atravessa o cen\u00e1rio fantasm\u00e1tico dicot\u00f4mico do par sujeito-objeto.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 localizado pelo analisante no pai nessa cena, mas apenas porque j\u00e1 havia se constitu\u00eddo, para ele, filho, em seu estilo e n\u00e3o mais apenas cinismo ou recusa dos ideais familiares. O <em>sinthoma<\/em> \u00e9 incur\u00e1vel, mas n\u00e3o necessariamente intrat\u00e1vel. De certa maneira, ele continuar\u00e1 para sempre perdendo o amigo sem perder a piada porque n\u00e3o pode fazer de outro jeito. Mas, algumas vezes a piada pode ser menos mort\u00edfera. Apenas isso, mas j\u00e1 \u00e9 um enorme ganho.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00edtica?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s, psicanalistas, andamos divididos. H\u00e1 os que sonham com a psican\u00e1lise p\u00f3s-psicanal\u00edtica, por um lado, e aqueles que se oferecem ao mundo como os campe\u00f5es do fracasso, tomando o aforismo lacanino da inexist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual, como o da fatalidade de que sempre estaremos aqu\u00e9m dos nosso ideias, que sempre estaremos na impot\u00eancia e na falta e que, portanto, sempre haver\u00e1 a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Ora, precisamos ir um pouco mais longe do que dizer que somos psicanlistas porque sabemos viver com o fracasso, sob pena de nos pregarmos apenas para convertidos, pois a quest\u00e3o \u00e9 que estamos \u00e0s voltas com um Outro que ignora retumbantemente o fracasso, n\u00e3o porque n\u00e3o quer v\u00ea-lo, ao modo do recalque, mas porque o transforma em sucesso. O fracasso est\u00e1 fora do Outro de nossos dias.<\/p>\n<p>Lacan, em seus \u00faltimos <em>Semin\u00e1rios<\/em> situa o sintoma como algo n\u00e3o negativo, feito de um gozo que n\u00e3o se representa nunca, nem se encaixa nunca, mas que nem por isso \u00e9 menos existente. Como vimos, situa uma teoria do final de an\u00e1lise em que a quest\u00e3o \u00e9 a de como fazer com o fracasso a ponto dele continuar o mesmo, mas perder o sentido. Assim, quando o fracasso passa a servir, estar em prolongamento com o eu e n\u00e3o em oposi\u00e7\u00e3o a ele passa a distanciar-se da ideia de uma falta ou impot\u00eanca continuada. Esse fracassar sempre da mesma maneira, errar sempre mais ou menos do mesmo modo a ponto dele se incorporar ao ser costuma levar o nome de <em>estilo<\/em>. \u00c9 gaguejar na pr\u00f3pria l\u00edngua segundo a express\u00e3o de Deleuze. Fazer uma nova alian\u00e7a com o gozo, nos termos de Miller.<\/p>\n<p>Em nossos dias, talvez a singularidade n\u00e3o seja mais um furo localizado em uma estrutura, talvez tenhamos que usar o termo sujeito em um sentido mais ampliado, como uma opacidade irredut\u00edvel que pode ser buscada em cada modo de gozar pr\u00e9-definido.<\/p>\n<p>Os sintomas da moda s\u00e3o gozos definidos como egos. Nossos sintomas hoje n\u00e3o s\u00e3o ren\u00fancia ao gozo, mas apenas ao vazio de sentido dele. J\u00e1 os sintomas em an\u00e1lise, ou a abordagem dos sintomas a partir da psican\u00e1lise, podem ser a de gozos que se articulam a um espa\u00e7o de abertura na rede de acontecimentos de uma vida. O fora do sentido hoje, <em>nonsense<\/em>, \u00f3rf\u00e3o da estrutura, precisa de uma montagem para agir como ponto de singularidade, como espa\u00e7o de um sentido contingente, ainda por vir, em meio a tantos protocolos de sentidos pr\u00e9vios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, tal como buscamos em uma an\u00e1lise as montagens que p\u00f5em essa vida opaca em movimento, podemos, nos mais variados lugares da cidade apostar nas subvers\u00f5es que essa fra\u00e7\u00e3o singular de gozo pode fazer. Manter o fracasso como estilo permite abrir-se \u00e0 conting\u00eancia. Como ser\u00e3o sempre constru\u00e7\u00f5es, artefatos, e n\u00e3o achados ou elabora\u00e7\u00f5es, geram a responsabilidade de sustentar que, dados os materiais dispon\u00edveis, aquilo foi a maneira poss\u00edvel de viver na abertura do presente. Esse talvez seja um dos modos atuais de fazer valer a exorta\u00e7\u00e3o de Lacan: a de que de nosso lugar de sujeito somos sempre respons\u00e1veis (Lacan, 1966\/1998, p. 869).<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/h6>\n<h6>FREUD, S. (1996). <em>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas completas de Sigmund Freud<\/em>. Rio de Janeiro: Imago. (1916-1917) \u201cO sentido dos sintomas\u201d, v. XVI, p. 265-279.<\/h6>\n<h6>INSEL, T. (2013). Transforming Diagnosis, in <em>Director\u2019s Blog<\/em>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.nimh.nih.gov\/about\/director\/2013\/transforming-diagnosis.shtml\">http:\/\/www.nimh.nih.gov\/about\/director\/2013\/transforming-diagnosis.shtml<\/a>. Acesso em: 10 jan 2014.<\/h6>\n<h6>LACAN, J. (1966\/1998). \u201cA ci\u00eancia e a verdade\u201d, in ___. <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 869-892.<\/h6>\n<h6>___. (1971-1972\/2012) <em>O Semin\u00e1rio, livro 19: \u2026 ou pior. <\/em>Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>___. (1975\/1998). Confer\u00eancia em Genebra sobre o sintoma, in <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 23. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, p. 6-16.<\/h6>\n<h6>___. (1975-1976\/2007) <em>O Semin\u00e1rio, livro 23: o sinthoma. <\/em>Rio de Janeiro, Jorge Zahar.<\/h6>\n<h6>LAURENT, \u00c9. (2007) \u201cA sociedade do sintoma\u201d, in ___. <em>A sociedade do sintoma:<\/em> a psican\u00e1lise, hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 163-177.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. (1985)<\/h6>\n<h6>___. (1996) \u201cCl\u00ednica ir\u00f4nica\u201d, in ___. <em>Matemas I<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 190-200.<\/h6>\n<h6>___. (1997\/2000) \u201cTeoria do parceiro\u201d, in MONTEIRO, E. e RIBEIRO, V. (orgs.). <em>Os circuitos do desejo na vida e na an\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Contra Capa, p. 185-207.<\/h6>\n<h6><em>___. <\/em>(1998) <em>La conversation d\u2019Archachon<\/em>. Paris: Seuil.<\/h6>\n<h6>___. (2005) <em>El outro que no existe y sus comit\u00eas de \u00e9tica<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s.<\/h6>\n<h6>___. (2010) Est-ce passe?, in <em>R\u00e9vue de La Cause Freudienne<\/em>, v. 75. Paris: \u00c9cole de la Cause Freudienne, p. 83-89.<\/h6>\n<h6>___. (2011) Semin\u00e1rio sobre o sentido dos sintomas e os caminhos de forma\u00e7\u00e3o dos sintomas, in <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 60. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, p. 11-37.<\/h6>\n<h6>NAPARSTEK, F. (2005) Do sujeito ocidentado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o pelo sintoma: modula\u00e7\u00f5es sobre a cren\u00e7a, in Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 42. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Eolia, p. 60-63.<\/h6>\n<h6>VIEIRA, M. A. A psican\u00e1lise e a felicidade do sintoma (ou dez raz\u00f5es para uma pol\u00edtica do sintoma), <em>Arteira<\/em>: Revista de Psican\u00e1lise, Santa Catarina, n. 1 p. 39-48, 2008.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Essa \u00e9 uma express\u00e3o destacada por J.-A. Miller e em curso na comunidade da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise \u2013 que re\u00fane v\u00e1rias agremia\u00e7\u00f5es lacanianas pelo mundo, entre elas, a minha, a Escola Brasileira de Psican\u00e1lise.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> Cf. Miller, 1997\/2000.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> N\u00e3o um relato cl\u00ednico, mas um testemunho de passe \u201cO passe \u00e9 o dispositivo inventado por Lacan para permitir que o gr\u00e3o de escrita a que se reduziu a hist\u00f3ria de uma vida em an\u00e1lise possa ser transmitido a outros\u201d (Miller, 2010, p. 86). Assim, aquele que declara ter chegado ao fim de sua an\u00e1lise narra-a a dois colegas, que transmitem seu relato a um pequeno grupo de analistas que j\u00e1 passaram pelo mesmo procedimento. Eles buscam certificar-se de que a l\u00f3gica da conclus\u00e3o depreendida pelo relato p\u00f4de ser apreendida. Nesse caso, aquele que procurou o dispositivo do passe dever\u00e1 prosseguir transmitindo o modo como encontrou um novo destino \u00e0quilo que o levou \u00e0 an\u00e1lise ao coletivo de analistas a que Lacan nomeou <em>Escola<\/em> durante o per\u00edodo de tr\u00eas anos, recebendo a nomea\u00e7\u00e3o de AE, analista da Escola no decorrer deste tempo. Cf. parte do site da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, AMP, que se det\u00e9m sobre o dispositivo do passe: <a href=\"http:\/\/wapol.org\/pt\/las_escuelas\/Template.asp?Archivo=el_pase.html\">http:\/\/wapol.org\/pt\/las_escuelas\/Template.asp?Archivo=el_pase.html<\/a>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcus Andr\u00e9 Vieira (AME membro da EBP\/AMP) United symptons Os sintomas h\u00e1 muito deixaram de ser um empecilho. Um sintoma pode ser um modo de vida, em prolongamento com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 subjetividade. Essa \u00e9, segundo Miller, a chave do\u00a0Um-dividualismo contempor\u00e2neo (Miller, 2012). 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